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Capítulo 6 de 74
A Missão De Rama
Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)
Quatro ou cinco mil anos antes de nossa era, espessas florestas recobriam ainda a antiga Cítia, que se estendia do oceano Atlântico aos mares polares. Os negros tinham chamado esse continente, o qual viram nascer ilha por ilha, de “a terra emergida das ondas”. Como contrastava com seu solo branco, abrasado pelo sol, esta Europa de costas verdes, de baías úmidas e profundas, com seus rios melancólicos, seus lagos sombrios e brumas eternamente suspensas nos flancos das montanhas! Em suas planícies cobertas de relvas rústicas, imensas como os pampas, ouvia-se apenas o grito dos animais, o mugido dos búfalos e o galope indomado das grandes manadas de cavalos selvagens, de crina se agitando ao vento! O homem branco que habitava essas florestas não era mais o homem das cavernas. Podia já dizer-se senhor de sua terra. Havia inventado as facas e os machados de sílex, o arco e a flecha, a funda e o laço. Havia também encontrado dois companheiros de luta, dois amigos excelentes, incomparáveis e devotados até à morte: cão e o cavalo. O cão doméstico, transformado em guarda fiel de sua habitação de madeira, lhe proporcionava a segurança do lar. E domando o cavalo ele havia conquistado a terra, submetido os outros animais, tornando-se o rei do espaço. Montados em cavalos fulvos, aqueles homens ruivos rodopiavam como relâmpagos. Abatiam o urso, o lobo, o auroque, amedrontavam a pantera e o leão, que então habitavam as florestas. A civilização tinha-se iniciado: a família rudimentar, o clã, a coletividade já existiam. Por toda parte, os citas, filhos dos hiperbóreos, erguiam menires monstruosos em honra de seus avós. Quando um chefe morria, enterravam com ele suas armas e seu cavalo, a fim de que, diziam, o guerreiro pudesse cavalgar as nuvens e caçar o dragão de fogo no outro mundo. Provém daí o costume do sacrifício do cavalo, o qual desempenha tão grande papel nos Vedas e
entre os escandinavos. A religião começava, assim, pelo culto dos antepassados. Os semitas encontraram o Deus único, o Espírito universal no deserto, no cume das montanhas, na imensidão dos espaços estelares. Os citas e os celtas encontraram os Deuses, os espíritos múltiplos, no fundo de seus bosques. Lá eles ouviram vozes, lá tiveram os primeiros arrepios do Invisível, as visões do Além. Eis porque a floresta encantadora ou terrível sempre foi amada pela raça branca. Atraída pela música das folhas e pela magia lunar, ela para aí se volta constantemente, no decorrer das eras, como à sua fonte de Juventude, ao templo da grande mãe Herta. Lá dormem seus deuses, seus amores, seus mistérios perdidos. Desde os tempos mais longínquos, mulheres visionárias profetizavam sob as árvores. Cada povoação possuía sua grande profetisa, como a Voluspa dos escandinavos, com seu colégio de druidisas. Entretanto, estas mulheres, inicialmente nobremente inspiradas, tomaram-se ambiciosas e cruéis. De boas profetisas transformaram-se em malvadas feiticeiras. Elas instituíram os sacrifícios humanos e o sangue dos heróis corria continuamente sobre os dolmens, sob os cantos sinistros dos sacerdotes e aclamações dos citas ferozes. Entre os sacerdotes, encontrava-se um jovem na flor da idade chamado Ram, também destinado ao sacerdócio; mas, sua alma meditativa e o profundo espírito se revoltavam contra aquele culto sangüinário. O jovem druida era doce e grave. Muito cedo demonstrara uma singular aptidão para o conhecimento das plantas - das maravilhosas virtudes de seus sucos destilados e preparados -, tanto quanto no estudo dos astros e de suas influências. Ele parecia adivinhar e ver as coisas longínquas. Daí advém sua autoridade precoce sobre os druidas mais velhos. Emanava-lhe das palavras e de todo o ser uma grandeza afável. Sua sabedoria contrastava com a loucura das druidisas que clamavam maldições e proferiam oráculos nefastos nas convulsões do delírio. Os druidas denominavam-no “aquele que sabe”, e o povo o chamava de “o inspirado da paz”.
Entretanto, Ram, que aspirava à ciência divina, viajara por toda a Cítia e pelos países do Sul. Seduzidos por seu saber e sua modéstia, os sacerdotes dos negros transmitiram-lhe parte de seus conhecimentos secretos. Voltando à região do Norte, Ram se horrorizou ao ver a intensificação dos sacrifícios humanos entre os seus. Viu nisso a perdição de sua raça. Todavia, como combater um costume propagado pelo orgulho das druidisas, pela ambição dos druidas e pela superstição do povo? Então, outro flagelo se abateu sobre os brancos, no qual Ram acreditou ver um castigo celeste pelo culto sacrílego. De suas incursões no país do Sul e de seu contato com os negros, os brancos contraíram uma horrível doença, uma espécie de peste, que corrompia o homem pelo sangue, pelas fontes da vida. O corpo inteiro se cobria de manchas negras, o hálito tornava-se infecto, os membros inchados e corroídos de úlceras se deformavam e o doente expirava com dores atrozes. O hálito dos vivos e o odor dos mortos espalhavam o flagelo. Assim os brancos, pasmados, tombavam e estertoravam aos milhares pelas florestas, abandonadas até mesmo pelas aves de rapina. Ram, atormentado, procurava inutilmente um meio de salvação. Tinha ele o hábito de meditar sob um carvalho, em uma clareira. Urna tarde, adormeceu ao pé da árvore, após haver refletido longamente sobre os males de sua raça. Durante o sono pareceu-lhe ouvir uma voz forte que o chamava pelo nome e ele acreditou ter despertado. Viu então, diante de si, um homem de talhe majestoso, vestido, como ele próprio, com a roupa branca dos druidas. O homem carregava uma vareta, à qual se entrelaçava uma serpente. Ram, admirado, ia perguntar ao desconhecido o significado daquilo. Mas o desconhecido, tomando-o pela mão, fê-lo levantar-se e mostrou-lhe, na própria árvore sob a qual ele estava deitado, um belíssimo ramo de visgo. “Oh! Ram! disse-lhe, eis o remédio que procuras'' Depois, tirou do seio uma pequena foice de ouro, cortou um pedaço do ramo e lhe deu. Murmurou ainda algumas palavras sobre a maneira de preparar o visgo e desapareceu. Então, Ram despertou completamente e se sentiu bastante reconfortado. Uma voz interior lhe dizia que havia encontrado a salvação. Ele não deixou de preparar o visgo segundo os conselhos do
amigo divino da foicezinha de ouro. Deu a poção num licor fermentado a um doente, e este se curou. As curas maravilhosas que assim operou tornaram-no célebre em toda a Cítia. Em toda parte era chamado para curar. Consultado pelos druidas de sua aldeia ele lhes participou sua descoberta, acrescentando que ela deveria permanecer como segredo da casta sacerdotal, a fim de assegurar sua autoridade. Os discípulos de Ram, viajando por toda a Cítia com os ramos de visgo, foram considerados mensageiros divinos, e seu mestre, um semideus. Esse acontecimento foi a origem de um novo culto. Desde então, o visgo tornou-se uma planta sagrada. Ram consagrou sua memória instituindo a festa de Natal, ou da nova salvação, que ele colocou no começo do ano e chamou de a Noite-Mãe (do novo sol) ou a grande renovação. Quanto ao ser misterioso que Ram vira em sonho e que lhe mostrara o visgo, foi denominado, na tradição esotérica dos brancos da Europa, Aesc-heyl-hopa, que significa: “a esperança de salvação está na floresta”. Os gregos fizeram dele Esculápio, o gênio da medicina que sustenta a vareta mágica sob a forma de bastão. Entretanto, Ram, “o inspirado da paz”, tinha objetivos mais amplos. Ele queria curar seu povo de uma chaga moral mais nefasta do que a peste. Eleito chefe dos sacerdotes de sua coletividade, ordenou a todos os colégios de druidas e druidisas que cessassem com os sacrifícios humanos. A novidade correu até as margens do oceano, saudada com efusões de alegria por uns, e como sacrilégio atentatório por outros. As druidisas, ameaçadas em seu poder, puseram-se a amaldiçoar aquele audacioso, a fulminá-lo com sentenças de morte. Ao lado delas se colocaram muitos dos druidas que viam nos sacrifícios humanos a única maneira de reinar. Ram, exaltado por um grande partido, foi, no entanto, abominado por outro. Mas, longe de recuar diante da luta, intensificou-a, arvorando um novo símbolo. Cada tribo branca possuía, então, um signo próprio de sua união, sob a forma do animal que simbolizava suas qualidades preferidas. Entre os chefes havia o costume de fixar, na fachada de seus palácios de madeira, figuras de grous, águias, abutres ou cabeças de javalis e de búfalos, origem primeira do brasão. O estandarte preferido dos Citas era
o Touro, denominado Thor, o signo da força bruta e da violência. Ao Touro, Ram opôs o Carneiro, o chefe corajoso e pacífico do rebanho, e dele fez o símbolo que distinguiria todos os seus partidários. Erguido no centro da Cítia, esse estandarte tomou-se o sinal de um tumulto geral e de uma verdadeira revolução nos espíritos. Os povos brancos se dividiram em dois campos. A própria alma da raça se separava em duas para se resgatar da animalidade rugidora e iniciar a marcha para o santuário invisível que conduz à humanidade divina. “Morte ao Carneiro!” gritavam os partidários de Thor. “Guerra ao Touro!” gritavam os amigos de Ram. Uma tremenda guerra era iminente. Diante dessa eventualidade, Ram hesitou. Desencadear semelhante guerra não seria agravar o mal e forçar sua raça a se autodestruir? E teve, então, outro sonho. O céu tempestuoso estava carregado de nuvens sombrias que cavalgavam as montanhas e arrasavam com seu vôo os cumes agitados das florestas. De pé sobre um rochedo, uma mulher desgrenhada estava prestes a abater um soberbo guerreiro, amarrado a seus pés. “Em nome dos antepassados, pára!” gritou Ram, lançando-se sobre ela. A druidisa, ameaçando o adversário, dardejou-lhe um olhar agudo como um golpe de cutelo. Mas um trovão rufou nas nuvens e, em meio a um clarão, apareceu uma deslumbrante figura. A floresta empalideceu, a druidisa caiu como que fulminada, os grilhões do cativo se romperam e este olhou para o gigante luminoso com um gesto de desafio. Ram não se perturbou, pois, nos traços dessa aparição, reconheceu o ser divino que uma vez já lhe havia falado sob o carvalho. Desta vez, porém, pareceulhe mais belo, porque todo seu corpo resplandecia de luz. E Ram percebeu que se encontrava em um templo aberto, de largas colunas. No lugar da pedra do sacrifício, erguia-se um altar. Junto, permanecia, ainda o guerreiro, cujo olhar desafiava sempre a morte. A mulher, deitada sobre a laje, parecia morta. O Gênio celeste carregava na mão direita uma tocha, na mão esquerda uma taça. Sorriu com benevolência e disse: - “Ram, estou contente contigo. Vês este facho? É o fogo sagrado do Espírito divino. Vês esta taça? É a taça da Vida e do Amor.
Dá a tocha ao homem e a taça à mulher”. Ram fez o que lhe foi ordenado pelo Gênio. Assim que a tocha foi colocada nas mãos do homem e a taça nas mãos da mulher, o fogo se acendeu por si mesmo no altar, e todos os dois resplandeceram transfigurados ao clarão, como o Esposo e a Esposa divina. Ao mesmo tempo, o templo se alargou; suas colunas subiram até o céu; sua abóbada transformou-se no firmamento. Então, Ram, levado por seu sonho, se viu transportado para o cume de uma montanha, sob o céu estrelado. De pé, diante dele, o Gênio explicava-lhe o sentido das constelações e o fazia ler, nos sinais chamejantes do zodíaco, os destinos da humanidade. - “Espírito maravilhoso, quem és tu?” perguntou Ram ao Gênio. E este respondeu: - “Chamam-me Deva Nahusha, a Inteligência divina. Tu espalharás minha luz sobre a terra, e sempre virei a teu apelo. Agora, segue teu caminho. Vai!” E, erguendo a mão, o Gênio indicou-lhe o Oriente.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.