Voltar ao livro Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

Capítulo 63 de 74

A Situação Do Mundo Na Época Do — parte 1 de 2

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

NASCIMENTO DE JESUS

A hora do mundo fazia-se solene. O céu do planeta estava sombrio e cheio de presságios sinistros. Apesar do esforço dos iniciados, o politeísmo culminara com a derrocada da civilização na Ásia, na África e na Europa. Isto não atinge a sublime cosmogonia de Orfeu, tão esplendidamente cantada, mas já diminuída por Homero. Disso só se pode acusar a dificuldade, para a natureza humana, de conservar uma certa elevação intelectual. Para os grandes espíritos da antigüidade, os deuses jamais passaram de uma expressão poética das forças hierárquicas da natureza, uma imagem que falava de seu organismo interno, e é também como símbolos das forças cósmicas e anímicas que esses deuses vivem indestrutíveis na consciência da humanidade. No pensamento dos iniciados, essa diversidade de deuses ou de forças era dominada e penetrada pelo Deus supremo ou Espírito puro. O fim principal dos santuários de Mênfis, Delfos e Elêusis havia sido precisamente ensinar essa unidade de Deus, com as idéias teosóficas e a disciplina moral que a ela se prendem. Mas os discípulos de Orfeu, de Pitágoras e de Platão fracassaram diante do egoísmo dos políticos, diante da mesquinhez dos sofistas e das paixões da multidão. A decomposição social e política da Grécia foi a conseqüência de sua decomposição religiosa, moral e intelectual. Apolo, o verbo solar, a manifestação do Deus supremo e do mundo supraterrestre pela beleza, a justiça e a adivinhação, cala-se. Não há mais oráculos, não há mais inspirados, não há mais verdadeiros poetas: Minerva (Sabedoria e Providência) vela-se diante de seu povo transformado em sátiro, que profana os Mistérios, que insulta os sábios

e os deuses no teatro de Baco, nas farças aristofanescas. Os próprios Mistérios corrompem-se, pois admitem-se as sicofantas e as cortesãs nas festas de Elêusis. Quando a alma se embrutece, a religião torna-se idólatra; quando o pensamento se torna rude, a filosofia cai no ceticismo. Assim vemos Luciano, micróbio nascente sobre o cadáver do paganismo, zombar dos mitos, depois que Carnéades menosprezou-lhes a origem científica. Supersticiosa em religião, agnóstica em filosofia, egoísta e dissolvente em política, ébria de anarquia e fatalmente votada à tirania: eis o que se tornara aquela Grécia divina, que nos transmitiu a ciência egípcia e os mistérios da Ásia sob as formas imortais da Beleza... Se alguém compreendeu o que faltava ao mundo antigo, se alguém tentou reerguê-lo por um esforço de heroísmo e de gênio, esse alguém foi Alexandre, o Grande. Este legendário conquistador, iniciado, como seu pai Felipe, nos Mistérios de Samotrácia, mostrou-se ainda mais filho intelectual de Orfeu do que discípulo de Aristóteles. Sem dúvida o Aquiles da Macedônia, que se lançou com um punhado de gregos através da Ásia até a Índia, sonhou com o império universal; mas não à maneira dos césares, pela opressão dos povos, pelo esmagamento da religião e da ciência livre. Sua grande idéia foi a reconciliação entre a Ásia e Europa, por uma síntese das religiões apoiada na autoridade científica. Movido por esse pensamento, ele reverenciou a ciência de Aristóteles como a Minerva de Atenas, o Jeová de Jerusalém, como o Osíris egípcio e o Brama hindu, reconhecendo, como verdadeiro iniciado, a mesma divindade e a mesma sabedoria sob todos esses símbolos. Que larga visão, que soberba adivinhação a desse novo Dionísio! A espada de Alexandre foi o último clarão da Grécia de Orfeu: iluminou o Oriente e o Ocidente O filho de Felipe morreu na embriaguez de sua vitória e de seu sonho, deixando os farrapos de seu império aos generais rapaces. Mas seu pensamento não morreu com ele. Fundara Alexandria, onde a filosofia oriental, o judaísmo e o helenismo deviam fundir-se no cadinho do esoterismo egípcio, esperando a palavra de ressurreição do Cristo.

À medida que os astros gêmeos da Grécia, Apolo e Minerva, desciam empalidecendo no horizonte, os povos viram subir em seu céu tempestuoso um signo ameaçador: a loba romana. Qual é a origem de Roma? A conjuração de uma oligarquia ávida, em nome da força bruta; a opressão do intelecto humano, da religião, da ciência e da arte pelo poder político deificado. Em outros termos, o contrário da verdade, segundo o qual um governo só usufrui do direito emanado dos princípios supremos da Ciência, da Justiça e da Economia (2). Toda a história romana é simplesmente a conseqüência desse pacto de iniqüidade, pelo qual os Pais Conscritos declararam guerra à Itália primeiro, e em seguida a ao gênero humano. Eles escolheram muito bem seu símbolo! A loba de bronze, que eriça seu pêlo fulvo e avança a cabeça de hiena sobre o Capitólio, é a imagem desse governo, o demônio que possuirá até o fim a alma romana. Na Grécia, pelo menos, respeitaram-se sempre os santuários de Delfos e de Elêusis. Em Roma, desde a origem, a Ciência e a Arte foram renegadas. A tentativa do sábio Numa, o iniciado etrusco, falhou diante da ambição desconfiada dos Pais-Conscritos. Ele trouxe consigo os livros sibilinos, que continham uma parte da ciência de Hermes. Criou os juizes, árbitros eleitos pelo povo; distribuiu-lhe terras; ergueu um templo à Boa-Fé e a Jano, hierograma que significa a universidade da Lei; submeteu o direito de guerra aos fécios. O rei Numa, que se perpetuou na memória do povo como inspirado por um gênio divino, parece, portanto, uma intervenção histórica da ciência sagrada no governo. Ele não representa o gênio romano, mas o gênio da iniciação etrusca, que seguia os mesmos princípios da escola de Mênfis e de Delfos. Depois de Numa, o Senado queimou os livros sibilinos, anulou a autoridade dos flamínios, extinguiu as instituições arbitrais e voltou ao sistema em que a religião não passava de um instrumento de domínio político. Roma tornou-se a hidra que devora os povos e seus Deuses. As nações da terra foram, pouco a pouco, sendo subjugadas e espoliadas. A prisão mamertina encheu-se de reis do Norte e do Sul. Roma, não desejando outros sacerdotes que não fossem escravos e charlatães,

assassina na Gália, no Egito, na Judéia e na Pérsia, os últimos detentores da tradição esotérica. Finge adorar os Deuses, mas adora somente sua Loba. Então, numa aurora sangrenta, surge diante dos povos o último filho daquela loba, o qual sintetiza o gênio de Roma: César! Roma absorvera todos os povos. César, sua encarnação, devora todos os poderes. César não aspira somente a ser imperador das nações. Sobrepondo, em sua cabeça, a tiara ao diadema, ele se faz nomear grãopontífice. Após a batalha de Tapsus, votam-lhe a apoteose heróica; após a de Munda, a apoteose divina; depois sua estátua é erguida no templo de Quirino, com um colégio de vigários que traziam seu nome: os sacerdotes-Julianos. Por uma suprema ironia e uma suprema lógica das coisas, este mesmo César, que se faz Deus, nega a imortalidade da alma em pleno Senado. Haverá melhor forma de dizer que não há outro Deus além de César? Com os césares, Roma, herdeira da Babilônia, estende seus tentáculos sobre o mundo inteiro. Ora, o que se tornou o Estado romano? O Estado romano destruiu externamente toda a vida coletiva. Ditadura militar na Itália; exações dos governadores e dos publicanos da província. Roma conquistadora deita-se como um vampiro sobre o cadáver das sociedades antigas. E então a orgia romana pode expor-se às claras, com sua bacanal de vícios e seu desfile de crimes. Começa pelo voluptuoso encontro de Marco Antônio e Cleópatra; terminará com os deboches de Messalina e os furores de Nero. Estréia com a paródia lasciva e pública dos mistérios; acabará no circo romano, onde as feras lançam-se sobre as virgens nuas, mártires de sua fé, diante dos aplausos de vinte mil espectadores. No entanto, entre os povos conquistados por Roma, havia um que se denominava o povo de Deus, e cujo gênio era o oposto do gênio romano. Como explicar que Israel, gasta por suas lutas intestinas, esmagada por trezentos anos de servidão, tenha conservado sua fé indomável? Por que este povo vencido erguia-se em face da decadência grega e da orgia romana, como um profeta, com a cabeça coberta de

cinzas e os olhos chamejantes de cólera terrível? Por que ousava ele predizer a queda dos senhores que calcavam os pés sobre sua garganta e falar de certo triunfo final, enquanto parecia aproximar-se de sua ruína irremediável? É que uma grande idéia vivia nela, inculcada por Moisés. Sob o domínio de Josué, as doze tribos tinham erguido um monumento com esta inscrição: “Nós damos testemunho de que Iavé é o único Deus”. Como e por que o legislador de Israel havia feito do monoteísmo a pedra angular de sua ciência, de sua lei social e de uma idéia religiosa universal, nós o vimos no livro de Moisés. Ele tivera o gênio de compreender que do triunfo daquela idéia dependia o futuro da humanidade. Para conservá-la, escrevera um livro hieroglífico, construiu uma Arca de ouro, arregimentou um Povo da poeira nômade do deserto. Sobre estes testemunhos da idéia espiritualista, Moisés fez pairar o fogo do céu e trovejar o raio. Contra eles conjuraram-se não somente os moabitas, os filisteus, os amalecitas, todas as populações da Palestina, mas ainda as paixões e as fraquezas do próprio povo judeu. O livro deixou de ser compreendido pelo sacerdócio; a Arca foi tomada pelos inimigos e cem vezes o povo quase esqueceu sua missão. Por que então a ela permaneceu fiel, apesar de tudo? Por que a idéia de Moisés ficou gravada na fronte e no coração de Israel com letras de fogo? A quem se deve essa perseverança exclusiva, essa fidelidade grandiosa através das vicissitudes de uma história agitada, cheia de catástrofes, fidelidade essa que confere a Israel sua fisionomia única entre as nações? Pode-se responder temerariamente: aos profetas e à instituição do profetismo. Rigorosamente e pela tradição oral, ela remonta a Moisés. O povo hebreu teve os seus em todas as épocas Nabi de sua história, até a dispersão. Mas a instituição do profetismo nos aparece pela primeira vez sob uma forma orgânica na época de Samuel. Foi Samuel quem fundou as confrarias de aquelas escolas Nebiim, de profetas para enfrentar a realeza nascente e um sacerdócio já degenerado. Ele fez delas as guardiãs austeras da tradição esotérica e do pensamento religioso universal de Moisés, contra os reis, em quem devia predominar a idéia política e o objetivo nacional. Nessas

confrarias conservaram-se, com efeito, os restos da ciência de Moisés, a música sagrada com todas as suas modalidades e seus poderes, a terapêutica oculta, enfim, a arte da adivinhação que os grandes profetas desdobraram com uma eficácia, uma elevação e uma abnegação magistrais. A adivinhação existiu sob as formas e pelos meios mais diversos em todos os povos do antigo ciclo. Mas o profetismo em Israel tem uma envergadura, uma elevação, uma autoridade com que o monoteísmo sustenta a alma humana. O profetismo, apresentado pelos teólogos como a comunicação direta de um Deus pessoal, negado pela filosofia naturalista como simples superstição, é na realidade apenas a manifestação superior das leis universais do Espírito. Diz Ewald, em seu belo livro sobre os profetas: “As verdades gerais que governam o mundo, em outros termos, os pensamentos de Deus, são imutáveis e inatacáveis, inteiramente independentes das flutuações das coisas, da vontade e da ação dos homens. O homem é originariamente chamado para delas participar, para compreendê-las e traduzi-las livremente em atos. É por aí que ele atinge seu próprio, seu verdadeiro destino. Mas, para que o Verbo do Espírito penetre no homem de carne, é preciso que o homem seja profundamente sacudido pelas grandes comoções da história. Então a verdade explode como um jato de luz. Por isso está dito, tantas vezes, no Antigo Testamento, que Quando o homem escuta o apelo divino, constrói- Iavé é um Deus vivo. se nele uma nova vida, na qual ele não se sente mais só, mas em comunhão com Deus e com todas as verdades, e está pronto para marchar de uma verdade a outra, até o infinito. Nessa vida nova, seu pensamento identifica-se com a vontade universal. Ele tem a visão clara do tempo presente e a fé total no sucesso final da idéia divina. O homem que experimenta isso é profeta, ou seja, sente-se irresistivelmente impelido a manifestar-se aos outros como representante de Deus. e esta força Seu pensamento torna-se visão superior que faz brotar a verdade de sua alma, algumas vezes despedaçando-a, constitui o elemento profético. As manifestações

proféticas têm sido, na história, os raios e os relâmpagos da verdade” (3). Eis aqui a fonte de onde os gigantes chamados Elias, Isaías, Ezequiel, Jeremias, hauriram sua força. No fundo de suas cavernas ou no palácio dos reis, eles foram verdadeiramente as sentinelas do Eterno e, como disse Eliseu a seu mestre Elias, “as carruagens e os cavaleiros de Israel”. Freqüentemente predizem com perfeita clarividência a morte dos reis, a queda dos reinos, os castigos de Israel. Às vezes também enganam-se. Embora iluminada pelo sol da verdade divina, a chama profética vacila e se obscurece algumas vezes em suas mãos, ao sopro das paixões nacionais. Mas jamais tropeçam sobre as verdades morais, sobre a verdadeira missão de Israel, sobre o triunfo final da justiça na humanidade. Como verdadeiros iniciados eles pregam o desprezo ao culto exterior, a abolição aos sacrifícios sangrentos, a purificação da alma e a caridade. Sua visão é admirável no que concerne à vitória final do monoteísmo, seu papel libertador e pacificador para todos os povos. As mais terríveis desgraças que possam abater-se sobre uma nação, a invasão estrangeira, a deportação em massa para Babilônia, não podem abalar esta fé. Escutai Isaías durante a invasão de Senaqueribe: “Eu, que faço parir os outros, não farei Sião parir? disse o Eterno. Eu, que faço nascer, impedi-lo-ei de gerar? disse teu Deus. Rejubilai-vos com Jerusalém e permanecei na alegria por causa dela, vós todos que a amais; vós todos que chorais sobre ela, rejubilai-vos com ela numa grande alegria. Porque assim disse o Eterno: Eu vou fazer correr sobre ela a paz como um rio e a glória das nações como uma torrente transbordante; e vós sereis aleitados, e sereis carregados ao colo, e vos embalarão nos joelhos. Eu vos consolarei como uma mãe consola seu filho, e sereis consolados em Jerusalém. – Vendo suas obras e seus pensamentos, venho para reunir todas as nações e todas as línguas. Elas virão e verão minha glória” (4). Não é senão hoje, e diante do túmulo de Cristo, que esta visão começa a realizar-se. Mas quem poderia negar sua verdade profética, pensando no papel de Israel na história da humanidade?

Não menos inquebrantável do que esta fé na glória futura de Jerusalém, em sua grandeza moral, em sua universalidade religiosa, é a fé dos profetas em um Salvador ou Messias. Todos falam dele. O incomparável Isaías é quem o vê mais nitidamente, quem o retrata com a máxima força de sua ousada linguagem: “Sairá um rebento do tronco de Jessé, um renovo crescerá de suas raízes e o Espírito do Eterno repousará sobre ele, o Espírito da Sabedoria e do Entendimento, o Espírito do Conselho e da Fortaleza, o Espírito do Conhecimento e do Temor ao Eterno. Ele julgará com justiça os pequenos e condenará com eqüidade para proteger os mansos da Terra. Ele tocará a terra com a verga e com sua boca fará morrer o mau pelo espírito de seus lábios” (5). Diante dessa visão, a alma sombria do profeta acalma-se e tornase clara como um céu tempestuoso quando, ao fremir de uma harpa celeste, todas as tempestades afastam-se; porque agora é verdadeiramente a imagem do galileu que se desenha na sua visão interior: “Ele saiu como uma flor da terra seca, cresceu sem brilho. Ele foi desprezado e o último dos homens, um homem de dores. Ele carregou nossas dores e nós pensamos que tivesse sido ferido por Deus. Mas ele foi trespassado por nossos crimes e ferido por nossas iniqüidades. O castigo que nos traz a paz caiu sobre ele e nós tivemos a salvação por intermédio de seu martírio... Esmagam-no, abatem-no ... Foi levado ao matadouro como um cordeiro e não abriu a boca (6). Durante oito séculos, acima das dissensões e dos infortúnios nacionais, o verbo trovejante dos profetas fez planar a idéia e a imagem do Messias, ora como um vingador terrível, ora como um anjo de misericórdia. Alimentada sob a tirania assíria no exílio da Babilônia, despontando sob o domínio persa, a idéia messiânica não fez senão crescer sob o reino dos selêucidas e dos macabeus. Quando veio o domínio romano e o reinado de Herodes, o Messias vivia em todas as consciências. Se os grandes profetas tinham-no visto sob os traços de um justo, de um mártir, de um verdadeiro filho de Deus, o povo, fiel à idéia judaica, imaginava-o como um Davi, como um Salornão ou como um novo Macabeu. Mas, quem quer que fosse esse restaurador da glória

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.