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Capítulo 31 de 74

A Visão Do Sinai

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

Uma sombria massa de granito, tão nua, tão abrupta sob o esplendor do Sol, que se diria sulcada por relâmpagos e esculpida pelo raio. Assim é o cume do Sinai, o trono de Eloim, dizem os filhos do deserto. Em frente, uma montanha mais baixa, os rochedos do Serbal, também abruptos e selvagens. Em seus flancos, minas de cobre, cavernas. E entre as duas montanhas, um vale negro, um caos de pedras, que os árabes chamam de Horeb, o Erebo da lenda semítica. É lúgubre a desolação desse vale, quando a noite aí cai com a sombra do Sinai, mais lúgubre ainda quando a montanha se cobre de um capacete de nuvens, de onde escapam clarões sinistros. Então, um vento terrível sopra no estreito corredor. Dizem que nesse lugar Eloim derruba aqueles que procuram lutar com ele e os lança nos abismos, de onde desmoronam trombas de chuva. Ali também, dizem os medianitas, vagam as sombras malfeitoras dos gigantes, dos Refaim, que fazem despencar os rochedos sobre os que tentam escalar o lugar santo. A tradição popular diz ainda que o Deus do Sinai aparece algumas vezes no fogo fulgurante, como uma cabeça de Medusa com penas de águia. Infeliz daquele que vê sua face. Vê-la é morrer. Eis o que contavam os nômades, à noite, em suas narrativas sob a tenda, enquanto dormiam os camelos e as mulheres. A verdade é que só os mais audaciosos entre os iniciados de Jetro subiam à caverna do Serbal e ali passavam, às vezes, vários dias em jejum e oração. Sábios da Iduméia ali haviam encontrado sua inspiração. Era um lugar consagrado, desde tempos imemoriais, às visões sobrenaturais, a Eloim ou aos espíritos luminosos. Nenhum pastor, nenhum caçador jamais ousara conduzir algum peregrino até lá. Moisés subira sem medo as ravinas de Horeb. Tinha atravessado com o coração intrépido o vale da morte e seu caos de rochedos. Como todo o esforço humano, a iniciação tem também suas fases de

humildade e de orgulho. Escalando as diversas etapas da montanha santa, Moisés tinha alcançado o cume com orgulho, pois atingia o pináculo do poder humano. Acreditava já sentir-se um com o Ser supremo. O sol, de uma púrpura ardente, inclinava-se sobre o maciço vulcânico do Sinai as e sombras violetas se punham nos vales, quando Moisés chegou à entrada de uma caverna, protegida por uma vegetação negra de terebintos. Ele se apressava a nela penetrar, mas foi ofuscado por uma luz súbita que o envolveu. Pareceu-lhe que o solo queimava a seus pés e que as montanhas de granito tinham-se transformado em um mar de chamas. À entrada da gruta, uma aparição ofuscante de luz olhava-o e com o gládio barrava-lhe o caminho. Moisés caiu fulminado, a face contra o chão. Todo o seu orgulho tinha-se esvaído. Olhar luminoso do Anjo o transpassara. E depois, com esse sentido profundo das coisas que desperta o estado visionário, ele compreendera que aquele ser ia impor-lhe coisas terríveis. Ele quis escapar à sua missão e penetrar na terra como um réptil miserável. Uma voz, porém, disse: – Moisés! Moisés! E ele respondeu: – Eis-me aqui! – Não te aproximes daqui. Descalça teus sapatos, pois o lugar onde estás é uma terra santa. Moisés cobriu os olhos com as mãos. Tinha medo de rever o Anjo e reencontrar-lhe o olhar. E o Anjo lhe disse: – Tu, que procuras Eloim, por que tremes diante de mim? – Quem és tu? – Um raio de Eloim, um anjo solar, um mensageiro d'Aquele que é e que será. – O que me ordenas? – Dirás aos filhos de Israel: o Eterno, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isac, o Deus de Jacó enviou-me até vós para arrancar-vos do país da servidão. Ao que Moisés replicou:

– Quem sou eu para retirar do Egito os filhos de Israel? O Anjo falou: – Vai, pois estarei contigo. Colocarei o fogo de Eloim em teu coração e seu verbo em teus lábios. Há quarenta anos que tu o evocas. Tua voz repercutiu até ele. Eis aqui, tomo-te em seu nome. Filho de Eloim, tu me pertences para sempre. E Moisés, afoito, exclamou: – Mostra-me Eloim! Que eu veja seu fogo vivo! E levantou a cabeça. Dissipara-se, porém, o mar de chamas e o Anjo desaparecera como um relâmpago. O sol descera sobre os vulcões extintos do Sinai; um silêncio de morte pairava no vale de Horeb; e uma voz, que parecia rolar no firmamento e perder-se no infinito, dizia: “Eu sou Aquele que sou”. Moisés saiu dessa visão como que aniquilado. Pareceu-lhe, por um instante, que seu corpo havia sido consumido pelo fogo do Éter. Seu espírito, todavia, estava mais forte. Quando desceu para o templo de Jetro, estava preparado para sua obra. Sua idéia viva marchava em frente, como o Anjo armado do gládio de fogo.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.