Voltar ao livro Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

Capítulo 38 de 74

Evocação

Os Grandes Iniciados – Volume Único (nao contém Zoroastro e Buda)

A festa findara como um sonho: anoitecera. As danças, os cantos e as preces tinham desaparecido numa bruma rósea. Orfeu e seu discípulo desceram por uma galeria subterrânea para a cripta sagrada, que se prolongava no coração da montanha e à qual somente o hierofante tinha acesso. Lá o inspirado dos Deuses se entregava a suas meditações solitárias ou prosseguia, com seus adeptos, as elevadas obras da magia e da teurgia. Ao seu redor, estendia-se um espaço imenso e cavernoso. Dois archotes fixados no chão vagamente iluminavam as muralhas fendidas e as profundezas tenebrosas. A alguns passos, uma fenda negra se escancarava no solo; um vapor quente saía dali, e este abismo parecia descer às entranhas da terra. Um pequeno altar onde queimava um fogo de loureiro seco e uma esfinge de pórfíro vigiavam suas bordas. Mais distante, a uma altura incomensurável, a caverna recebia a claridade do céu estrelado por uma fenda oblíqua. Esse pálido raio de luz azulada parecia o olho do firmamento mergulhando naquele abismo. Então, Orfeu disse ao discípulo: – “Tu bebeste nas fontes da luz santa. Entraste como o coração puro no seio dos mistérios. Chegou a hora solene de fazer-te penetrar nas fontes da vida e da luz. Aqueles que não ergueram o véu espesso que encobre aos olhos dos homens as maravilhas invisíveis, não se tornam filhos dos Deuses. “Escuta, pois, as verdades que é preciso calar à multidão e que fazem a força dos santuários: “Deus é uno e sempre semelhante a Ele mesmo. Ele reina em toda a parte. Mas os Deuses são inúmeros e diversos, porque a divindade é eterna e infinita. Os maiores são as almas dos astros. Sóis, Estrelas, Terras e Luas, cada astro tem o seu, e todos são resultantes do fogo celeste de Zeus e da luz primitiva. Semiconscientes, inacessíveis, imutáveis, eles regem o grande conjunto de seus movimentos regulares.

Ora, cada astro que gira arrasta, em sua esfera etérea, falanges de semideuses ou almas resplandecentes, que outrora foram homens, e que, após terem descido a escala dos reinos, gloriosamente tornaram a subir os ciclos, para saírem, finalmente, do círculo das gerações. É por meio desses divinos espíritos que Deus respira, age, aparece. Que digo eu? Eles são o sopro de sua alma viva, os raios de sua consciência eterna. Comandam os exércitos dos espíritos inferiores que atuam nos elementos. Dirigem os mundos. De longe, de perto, eles nos cercam e, embora de essência imortal, revestem-se de formas sempre variáveis, conforme os povos, os tempos e as regiões. O ímpio que os nega, temeos. O homem piedoso adora-os sem conhecê-los. O iniciado os conhece, atrai e vê. Se lutei para encontrá-los, se desafiei a morte, se, como se diz, desci aos infernos, foi para dominar os demônios do abismo, para chamar os Deuses do alto sobre a minha Grécia amada, para que o Céu profundo se case com a Terra e que a Terra encantada escute as vozes divinas. A beleza celeste se encarnará no corpo das mulheres, o fogo de Zeus circulará no sangue dos heróis. E muito antes de subirem aos astros, os filhos dos Deuses resplandecerão como os Imortais. “Sabes o que é a Lira de Orfeu? O som dos templos inspirados. Tem os Deuses como cordas. À sua música, a Grécia se afinará como uma lira e o próprio mármore cantará em cadências brilhantes, em celestes harmonias. “Agora evocarei meus Deuses, para que eles te apareçam vivos e te mostrem, numa visão profética, o místico himeneu que preparo para o mundo e que os iniciados verão. “Deita-te ao abrigo desta rocha. Nada temas. Um sono mágico fechará tuas pálpebras. Tremerás no início e verás coisas terríveis. Mas, em seguida, uma luz deliciosa, uma felicidade desconhecida inundará teus sentidos e todo o teu ser”. O discípulo já se encolhera no nicho cavado em forma de leito na rocha. Orfeu pôs algumas gotas de perfume no fogo do altar. Depois, tomou seu cetro de ébano, cuja cabeça era de cristal flamejante, colocou-se junto da esfinge e, clamando com uma voz profunda, começou a invocação:

“Cibele! Cibele! Grande mãe, ouve-me! Luz original, chama ágil, etérea e sempre saltitante através dos espaços, que encerras os ecos e as imagens de todas as coisas! Invoco os teus corcéis fulgurantes de luz. Oh! alma universal, criadora dos abismos, semeadora de sóis, que arrastas pelo Éter teu manto estrelado! Luz sutil, oculta, invisível aos olhos da carne! Grande mãe dos Mundos e dos Deuses, tu, que encerras os tipos eternos! Antiga Cibele, a mim! a mim! Por meu cetro mágico, por meu pacto com as Potências, pela alma de Eurídice!. . . Eu te evoco, Esposa multiforme, dócil e vibrante sob o fogo do Macho eterno. Do mais alto dos espaços, do mais profundo dos abismos, de todas as partes vem, aflui, enche esta caverna com teus eflúvios. Cerca o filho dos Mistérios com uma muralha de diamante e faz que ele veja em teu seio profundo os Espíritos do Abismo, da Terra e dos Céus." A estas palavras, um trovão subterrâneo abalou as profundezas do abismo e toda a montanha tremeu. Um suor frio gelou o corpo do discípulo. Ele via Orfeu através de uma fumaça que aumentava. Por um instante tentou lutar contra a força terrível que o abatia. Mas seu cérebro ficou submerso, sua vontade anulada. Sentiu as angústias de um afogado que tem os pulmões entupidos de água e cuja horrível convulsão termina nas trevas da inconsciência. Quando recuperou a consciência, a noite reinava ao seu redor; uma noite atravessada por uma semiclaridade rasteira, amarelada, lodosa. Olhou por muito tempo sem nada ver. De quando em quando, sentia sua pele roçada como que por morcegos invisíveis. Afinal, vagamente, pareceu-lhe ver mexerem-se nas trevas formas monstruosas de centauros, hidras e górgonas. Mas a primeira coisa que percebeu, distintamente, foi uma grande figura de mulher, sentada num trono. Ela estava envolta num longo véu de pregas fúnebres, semeado de estrelas pálidas, e trazia uma coroa de papoulas. Seus grandes olhos, abertos, velavam imóveis. Massas de sombras humanas moviam-se à sua volta, como pássaros cansados, e segredavam à meia-voz: – “Rainha dos mortos, alma da terra. Perséfone! Nós somos filhas do céu. Por que estamos exiladas no sombrio reino? Oh! ceifeira do céu,

por que colheste nossas almas, que outrora voavam felizes na luz, entre suas irmãs, nos campos do Éter?” Perséfone respondeu: – “Eu colhi o narciso, entrei no leito nupcial. Bebi a morte com a vida. Como vós, eu também gemi nas trevas”. Gemendo, perguntaram as almas: - “Quando seremos libertadas?” - “Quando vier o meu esposo celeste, o divino libertador!” Então apareceram mulheres terríveis. Seus olhos estavam injetados de sangue e suas cabeças coroadas de plantas venenosas. Em torno dos braços, dos flancos seminus torciam-se serpentes que elas manejavam como chicotes: “Almas, espectros, larvas! – diziam elas com sua voz sibilante – não acrediteis na insensata rainha dos mortos. Nós somos as sacerdotisas da vida tenebrosa, servas dos elementos e dos monstros cá de baixo, bacantes da terra, Fúrias no Tártaro. Nós somos vossas rainhas eternas, oh! almas infortunadas. Não saireis do círculo maldito das gerações, pois a ele vos faremos voltar com nossos chicotes. Torcei-vos para sempre entre os anéis sibilantes de nossas serpentes, nos laços do desejo, do ódio e do remorso” E, desgrenhadas, elas se precipitaram sobre o rebanho das almas desvairadas, que se puseram a rodopiar nos ares como um turbilhão de folhas secas, sob os golpes do chicote, soltando altos gemidos. Diante desta visão, Perséfone empalideceu. Não parecia mais do que um fantasma lunar. Ela murmurou: “Oh, céu... A luz... os Deuses... Um sonho!. . Sono, sono eterno!” Sua coroa de papoulas murchou; seus olhos se fecharam de angústia. A rainha dos mortos caiu em letargia no trono... e depois tudo desapareceu nas trevas. A visão mudou. O discípulo de Delfos se viu num vale esplêndido e verdejante com o monte Olimpo ao fundo. Diante de um antro negro, adormecia sobre um leito de flores a bela Perséfone. Uma coroa de narcisos substituía, em seus cabelos, a coroa de papoulas fúnebres e a aurora de uma vida que renascia derramava em suas faces um colorido ambrosiano. Suas tranças escuras caíam sobre as espáduas de magnífica

brancura, e as rosas de seu seio, docemente agitado, pareciam chamar os beijos dos ventos. Ninfas dançavam numa campina. Pequenas nuvens brancas viajavam no firmamento. Uma lira ressoava num templo... Em sua voz de ouro, em seus ritmos sagrados, o discípulo ouviu a música íntima das coisas. Pois das folhas, das ondas, das cavernas saía uma melodia incorpórea e terna. E as vozes longínquas das mulheres iniciadas, que guiavam seus coros nas montanhas, chegavam a seus ouvidos em cadências partidas. Umas, desvairadas, apelavam para Deus; outras acreditavam percebê-lo, caindo na borda das florestas meio mortas de fadiga. Finalmente, o firmamento se abriu no zênite, para gerar de seu seio uma nuvem brilhante. Como um pássaro que paira um instante e depois se precipita sobre a terra, o Deus que sustenta o tirso desceu e veio pousar diante de Perséfone. Ele era radioso, com os cabelos desfeitos. E em seus olhos rolava o delírio sagrado dos mundos por nascer. Por muito tempo ele a cobriu com o olhar, depois estendeu seu tirso sobre ela. O tirso roçou-lhe o seio, e ela se pôs a sorrir. Ele tocoulhe a fronte, ela abriu os olhos, ergueu-se lentamente e contemplou seu esposo. Aqueles olhos, ainda cheios do sono do Erebo, começaram brilhar como duas estrelas. E o Deus perguntou: – Reconheces-me? Exclamou Perséfone: – Oh! Dionísio, Espírito divino, Verbo de Júpiter, Luz celeste que resplandece sob a forma de homem! Cada vez que tu me despertas, acredito viver pela primeira vez; os mundos renascem em minha lembrança; o passado, o futuro tornam-se o imortal presente; e eu sinto em meu coração irradiar o Universo! Ao mesmo tempo, acima das montanhas, numa orla de nuvens prateadas, apareceram os Deuses curiosos, inclinados na direção da terra. Embaixo, grupos de homens, de mulheres e de crianças, que saíram dos pequenos vales e das cavernas contemplavam os Imortais num arrebatamento celeste. Hinos ardentes subiam dos templos com as ondas de incenso. Entre a Terra e o Céu, preparava-se um daqueles

matrimônios que fazem as mães conceberem heróis e Deuses. Já um colorido rosa tinha-se derramado sobre toda a paisagem. Já a rainha dos mortos, voltando a ser a divina ceifadora, subia rumo aos céus, transportada pelos braços do esposo. Uma nuvem púrpura os envolveu e os lábios de Dionísio pousaram na boca de Perséfone. . . Então, um imenso grito de amor partiu do Céu e da Terra, como se o arrepio sagrado dos Deuses, passando sobre a grande lira, quisesse dilacerar todas as cordas e debulhar os sons a todos os ventos. Ao mesmo tempo, emanou do par divino uma fulguração, um furacão de luz estonteante... E tudo desapareceu. Por um momento, o discípulo de Orfeu sentiu-se como que tragado pela fonte de todas as vidas, submerso no sol do Ser. E, mergulhando em seu braseiro incandescente, dele irrompeu com suas asas celestes. Como um relâmpago, atravessou os mundos, para atingir em seus limites o sono estático do Infinito. Quando recobrou seus sentidos corporais, estava mergulhado na noite escura. Somente uma lira luminosa brilhava nas trevas profundas. Ela fugia, fugia e se transformou numa estrela. Só então o discípulo percebeu que estava na cripta das evocações e que aquele ponto luminoso era a fenda distante da caverna aberta para o firmamento. Uma grande sombra se mantinha de pé junto dele. Reconheceu Orfeu, por seus longos cachos e pelo cristal flamejante de seu cetro. Perguntou-lhe o hierofante: - Filho de Delfos, de onde vens? - Mestre dos iniciados, celeste encantador, maravilhoso Orfeu, tive um sonho divino. Seria isto um encanto da magia, um dom dos Deuses? O que aconteceu? Transformou-se o mundo? Onde estou agora? - Conquistaste a coroa da iniciação e viveste o meu sonho: a Grécia imortal! Mas devemos sair daqui. Para que tudo se cumpra, é preciso que eu morra e que tu vivas.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.