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Capítulo 39 de 87
Na Europa
Tempo e Espaço da Entrega da Verdade
OS CELTAS:
De modo geral, o termo celta aplica-se aos povos que viveram na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental entre 2000 a.C. e 400 d.C.. Eram civilizações da Idade do Ferro, habitantes, sobretudo de pequenas aldeias lideradas por chefes guerreiros. Os celtas da Europa continental não deixaram registro escrito, mas conhecemos seus deuses através dos conquistadores romanos, que estabeleceram elos entre muitas dessas divindades e seus próprios deuses. Nenhuma menção aos cultos celtas pode deixar de descrever os druidas. Esses sacerdotes representam simplesmente a classe mais ou menos hereditária de xamãs, característica de todas as sociedades indo-européias antigas. Em outras palavras, eles são o equivalente à casta brâmane indiana ou aos magi persas e, como estes, um especialista nas práticas de magia, sacrifício e augúrio. A visão tradicional mostra os druidas como sacerdotes, mas isso na verdade não é comprovado pelos textos clássicos, que os apresentam na qualidade de filósofos (embora presidissem cerimônias religiosas, o que pode soar conflitante). Se levarmos em conta que o druidismo era uma religião natural, da terra baseada no animismo, e não uma religião revelada (como o Islamismo ou o Cristianismo), os druidas assumem então o papel de diretores espirituais do ritual, conduzindo a realização dos ritos, e não de mediadores entre os deuses e o homem. (Osvaldo Polidoro teve uma vida de sacerdote druida, com o nome de Alan Kardec, nome esse que voltou a usar no séc XIX), O estudo conjunto da arte e da literatura - que, por sua vez, contribuiu para o conhecimento de suas concepções sociais e religiosas - levou à conclusão de que realmente existiu um substrato espiritual comum aos diversos povos célticos, caracterizado por um sentimento mágico da natureza e pela rejeição do realismo, que divergia radicalmente do racionalismo mediterrâneo. Fator importante nessa unidade cultural (e não política) das tribos celtas foi sem dúvida seu sistema de crenças religiosas, transmitidas por uma casta sacerdotal, os druidas, cujos ensinamentos seriam legados aos bardos e vates da Grã-Bretanha. Sacerdotes, poetas e sábios, os druidas formavam a classe intelectual dirigente. Conservavam de memória todo o saber literário, histórico e jurídico. Ingressavam em suas escolas já na infância e não tinham de prestar serviços na milícia, nem de pagar impostos, e ficavam alheios aos cargos públicos. Em virtude de seu ofício, arbitravam os litígios, ensinavam, praticavam a adivinhação e a magia e ofereciam sacrifícios, os quais, sabe-se hoje, raramente eram humanos, apesar do testemunho de escritores latinos como Júlio César. A religião apresentava claro matiz animista. Os celtas não consideravam a natureza algo inerte, mas sim dotado de espírito próprio. Veneravam animais como o javali, o touro, o urso, o cavalo, o porco e a serpente. O culto, inicialmente celebrado nos bosques, observava um calendário ligado à agricultura. Os celtas possuíam também um complexo panteão, cujas figuras os romanos tentaram assimilar a seus próprios deuses. Os deuses não eram antropomórficos nem se atinham a funções determinadas, mas antes a esferas nem sempre precisas. Assim, é provável que as três divindades supremas constituíssem manifestações diferentes de um só deus. A essência da concepção céltica do mundo resultava de uma consciência da contínua inter-relação entre o mundo físico e o espiritual, e daí a concepção de uma realidade fluida e cambiante, que marcou todas as
suas expressões artísticas. Nesse sentido, sua crença na transmigração das almas não se radicava tanto na ideia de uma sucessão temporal como, principalmente, na da possibilidade de assumir ao mesmo tempo diversas aparências: "Sou o vento no mar, sou um salmão na água cristalina, sou um lago na planície, sou a lança vitoriosa que combate, sou um homem que prepara fogo para uma cabeça.”. Outros autores clássicos, como Plínio e Cícero, também se referem ao interesse dos druidas pelo estudo sério dos astros e pela prática da adivinhação. Tácito e Suetônio confirmam o interesse, mas nos apresentam os druidas como bárbaros cruéis e supersticiosos. Até a época do início do Império Romano, os druidas gozavam de ótima reputação, mas a partir da formação da Igreja Católica, começaram a ser atacados e desprestigiados. Certo mesmo é que a influência dos druidas deve ter sido considerável, pois três imperadores romanos (Augusto, Tibério e Cláudio) tentaram extingui-los por decreto como classe sacerdotal num prazo de 50 anos - sem sucesso. A falta de um governo central entre as tribos celtas, fez da grande expansão o motivo de sua decadência. Foram o primeiro povo a se submeter ao Império Romano, no final do século II a.C., a Gália Cisalpina e a Celtibéria já eram territórios conquistados. Em tese, era o fim da cultura e a arte celta, assim como concebida, acabou confinada na Ilha da Irlanda, para florescer novamente no início da Idade Média em um ambiente já cristão católico. Afora a região irlandesa, a tradição e as línguas de herança céltica ainda sobreviveram nas demais regiões habitadas pelos celtas nos últimos anos que antecederam a dominação, como na Cornualha, Ilha Manx e as Highlands escocesas (Reino Unido), na Bretanha (França), na Galícia (Espanha) e na Galácia (Turquia).
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.