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Capítulo 7 de 52

Primeira Parte — parte 3 de 12

No Invisível · Léon Denis

É, pois, um modo errôneo de entender, fértil em desagradáveis conseqüências, considerar o Espiritismo um domínio em que os fatos se apresentem sempre idênticos, em que possam os elementos de experimentação ser dispostos à vontade. Fica'se, desse modo, exposto ao inconveniente de malogradas pesquisas, ou a colher incoerentes resultados. Aplaudindo sinceramente o móvel que impele os homens instruídos a estudar os fenômenos psíquicos, não podemos contudo subtrair'nos a um certo receio: ' o de ver tornarem'se estéreis os seus esforços, se eles se não decidem a renunciar às suas preocupações habituais. Aqui está um exemplo. O Sr. Charles Richet, que é um espírito resoluto e sagaz; depois de ter observado repetidas vezes os fatos produzidos com Eusápia Paladino e assinado as resenhas que autenticavam a sua realidade, não acaba por confessar que sua convicção, ao começo profunda, se enfraquece e torna'se vacilante algum tempo depois, sob o império dos hábitos de espírito contraídos no meio que lhe é familiar? O público muito espera do novel instituto e dos sábios que o compõem.

Trata'se não já de Psicologia elementar, mas da mais alta questão que jamais terá preocupado o pensamento humano: o problema do destino. A Humanidade, cansada do dogmatismo religioso, atormentada pela necessidade de saber, volve suas vistas para a Ciência; aguarda o seu veredicto definitivo, que lhe permitirá orientar seus atos, fixar suas opiniões e crenças. Graves são as responsabilidades dos sábios. Os homens que ocupam as cátedras do ensino superior sentem bem todo o seu peso e medem acaso toda a sua extensão? Saberão eles fazer o sacrifício do seu mesquinho amor'próprio e recuar das afirmações prematuramente formuladas? Ou se reservarão, no declínio de sua carreira, o pesar de reconhecer que erraram o alvo, desdenharam as coisas mais essencialmente dignas de se conhecer e ensinar? O movimento psíquico vem principalmente do exterior como indicávamos há pouco; dia a dia se acentua. Se a ciência francesa se esquivasse a nele tomar parte, seria sobrepujada, suplantada, e o seu belo renome no mundo ficaria deprimido.

Saiba ela, renunciando aos seus preconceitos e conservando os seus cautelosos métodos, elevar' se com os sábios estrangeiros, a regiões mais vastas e sutis, fecundas em descobertas, e que está no seu próprio interesse explorar, antes que negar. Faça ela do Espiritismo uma ciência nova que complete as outras ciências, constituindo'lhes o pináculo. Aplicam'se estas a domínios particulares da Natureza; conduzem por vezes a sistemas falsos, e quem neles se enclausura perde de vista os grandes horizontes, as verdades de ordem geral. A ciência psíquica deve ser a ciência suprema que nos ensinará a conhecer'nos, a ponderar, a aumentar as potências da alma, a exercitá'las, a elevar'nos, pelos meios que nos oferece, até à Alma divina e eterna!

III ' O Espírito e a sua forma

Em todo homem vive um espírito. Por espírito deve'se entender a alma revestida de seu envoltório fluídico, que tem a forma do corpo físico e participa da imortalidade da alma, de que é inseparável. Da essência da alma apenas sabemos uma coisa: que, sendo indivisível, é imperecível. A alma se revela por seus pensamentos, e talhem por seus atos; para que se possa, porém, agir e nos impressionar os sentidos físicos, precisos lhe é um intermediário semimaterial, sem o qual nos pareceria incompreensível a sua ação. Ao perispirito, nome dado ao invólucro fluídico, imponderável, invisível. Em sua intervenção é que se pode encontrar a chave explicativa dos fenômenos espíritas. O corpo fluídico, que possui o homem, é o transmissor de nossas impressões, sensações e lembranças. Anterior à vida atual, inacessível à destruição pela morte, é o admirável instrumento que para si mesma a alma constrói e que aperfeiçoa através dos tempos; é o resultado de seu longo passado.

Nele se conservam os instintos, se acumulam às forças, se fixam às aquisições de nossas múltiplas existências, os frutos de nossa lenta e penosa evolução. A substância do perispirito é extremamente sutil, é a matéria em seu estado mais quintessenciado, é mais rarefeita que o éter; suas vibrações, seus movimentos, ultrapassam em rapidez e penetração os das mais ativas substâncias. Daí a facilidade de os Espíritos atravessarem os corpos opacos, os obstáculos materiais e transporem consideráveis distâncias com a rapidez do pensamento. (27) Insensível às causas de desagregação e destruição que Metam o corpo físico, o perispirito assegura a estabilidade da vida em meio da contínua renovação das células. Ê o modelo invisível através do qual passam e se sucedem às partículas orgânicas, obedecendo a linhas de força, cuja reunião constitui esse desenho, esse plano imutável, reconhecido por Claude Bernard como necessário para manter a forma humana em meio das constantes modificações e da renovação dos átomos. A alma se desliga do envoltório carnal durante o sono, como depois da morte.

A forma fluídica pode então ser percebida pelos videntes, nos casos de aparição de pessoas falecidas ou de exteriorização de vivos. Durante a vida normal, essa forma se revela, por suas Irradiações, nos fenômenos em que a sensibilidade e a motricidade se exercem a distância. No estado de desprendimento durante o sono, o Espírito atua às vezes sobre a matéria e produz ruídos, deslocações de objetos. Manifesta'se finalmente, depois da morte, em graus diversos de condensação, nas materializações parciais ou totais, nas fotografias e nos moldes, até a ponto de reproduzir certas deformidades. (28) O perispirito ' todos esses fatos o demonstram ' é o organismo fluídico completo; é ele que, durante a vida terrestre, pelo grupamento das células, ou no espaço, com o auxílio da força psíquica que absorve nos médiuns, constitui, sobre um plano determinado, as formas, duradouras ou efêmeras, da vida.

É ele, e não o corpo material, que representa o tipo primordial e persistente da forma humana. (29) O Sr. H. Durville, secretário'geral do Instituto Magnético, fez experiências muito demonstrativas em tal sentido, as quais evidenciam que os fenômenos de exteriorização é o duplo que, desprendido do corpo material pela ação magnética, percebe todas as impressões, as transforma em sensações e as transmite ao corpo físico mediante o cordão fluídico por que se acham ligados, até à morte, esses dois corpos. (30) Com um sensitivo adormecido, cujo duplo exteriorizado fora separado do corpo material e transportado para um outro aposento, foram feitas as seguintes experiências relativamente à vista, ouvido, olfato, paladar e tato: É lido pelo duplo um artigo de jornal e repetido pelo sensitivo adormecido na sala contígua. Do mesmo modo, objetos e pessoas são percebidos pelo duplo à distância, e descritos pelo sensitivo.

O duplo ouve o tique'taque de um relógio, bem como palavras ao pé dele proferidas em voz baixa; sente o cheiro de amônia contida num vidro, como sente outros odores ou perfumes: aloés, açúcar, sulfato de quinina, laranja, etc., e transmite ao corpo essas diferentes sensações gustativas. A propósito do tato, finalmente, assim se exprime o Sr. Durville:

"É sabido que quase todos os sensitivos magneticamente adormecidos são insensíveis, mas ninguém sabe onde se refugia a sensibilidade. Quando o sensitivo está exteriorizado, a sensibilidade irradia sempre em torno dele. Uma queimadura produzida, ou um beliscão, uma punção, aplicados nas zonas sensíveis, despertam uma dor intensa no sensitivo, que, entretanto, nada absolutamente percebe quando se lhe fricciona o corpo. O mesmo sucede no desdobramento. O sensitivo não percebe as punções nem as beliscaduras aplicadas no corpo físico, mas experimenta uma sensação desagradável e mesmo dolorosa quando é atingido o duplo ou o cordão que o liga àquele. Esse fenômeno se verifica em todas as sessões e com todos os sensitivos, sem exceção alguma."

A forma humana, dizem os invisíveis, é a de todos os Espíritos encarnados ou desencarnados que vivem no Universo. Essa forma, porém, rígida, compacta no corpo físico, é flexível, compressível à vontade, no perispirito. Presta'se, dentro de certos limites, às exigências do Espírito e lhe permite no Espaço, conforme a extensão do seu poder, tomar as aparências, reproduzir os hábitos que lhe foram pessoais no passado, com os atributos próprios que o fazem reconhecer. Observa'se isso muitas vezes nos casos de aparições. A vontade é criadora; sua ação sobre os fluidos é considerável. O Espírito adiantado pode submeter à matéria sutil a inúmeras metamorfoses.

O perispirito é um foco de energias. A força magnética, por certos homens projetada em abundância, e que pode, de perto ou de longe, fazer sentir sua influência, aliviar, curar, é uma de suas propriedades. Nele tem sua sede a força psíquica indispensável à produção dos fenômenos espíritas. O corpo fluídico não é somente um receptáculo de forças; é também o registro vivo em que se imprimem as imagens e lembranças: sensações, impressões e fatos, tudo aí se grava e fixa. Quando são muito fracas as condições de intensidade e duração, as impressões quase não atingem a nossa consciência; nem por isso deixam de ser registradas no perispirito, em que permanecem latentes. O mesmo se dá com os fatos relativos às nossas anteriores existências. Ao ser psíquico, imerso no estado de sonambulismo, desprendido parcialmente do corpo, é possível apreender'lhes o encadeamento. Assim se explica o fenômeno da memória.

As vibrações do perispirito se reduzem sob a pressão da carne; readquirem sua amplitude logo que o Espírito se desprende da matéria e reassume a liberdade. Sob a intensidade dessas vibrações, as impressões acumuladas no perispirito ressurgem. Quanto mais completo é o desprendimento, mais se dilata o campo da memória; as mais remotas lembranças reaparecem. O indivíduo pode reviver suas passadas vidas; assim temos verificado muitas vezes em nossas experiências. Pessoas imersas, por uma influência oculta, no estado sonambúlico, reproduziam os sentimentos, as idéias, os atos deslembrados de sua existência atual, de sua primeira juventude; reviviam mesmo cenas de suas anteriores existências, com a linguagem, as atitudes, as opiniões da época e do meio. Parece, em casos tais, que se apresenta uma personalidade diferente, que uma outra individualidade se revela. Esses fenômenos, mal observados por certos experimentadores, deram origem à teoria das personalidades múltiplas coexistentes em um mesmo invólucro, tendo cada uma delas seu caráter e recordações próprias. Nessa teoria se vem enxertar a da consciência subliminal ou do inconsciente superior.

A verdade é que é sempre a mesma individualidade que intervém sob os diferentes aspectos por ela revestidos através dos séculos, e agora reconstituídos com tanto maior intensidade quanto mais energia é a influência magnética e mais enfraquecidos se acham os laços corporais. Certas experiências o demonstram: as do professor Flournoy, por exemplo, com a médium Helena Smith, que se transporta, no estado de transe, a uma de suas existências, no século XII verificada na índia (31), e as de Esteva Marata e outros experimentadores espanhóis com médiuns sonambulizados (32), às quais convêm acrescentar os estudos mais recentes e extensos do Coronel A. De Rochas. (33)

O grau de pureza de sua forma fluídica atesta a riqueza ou a indigência da alma. Etérea, radiosa, pode elevar'se até às esferas divinas, penetrar'se das mais sublimes harmonias; opaca, tenebrosa, precipita'se nas regiões inferiores e nos arrasta aos mundos de luta e sofrimento. Por seu espírito, imerge o homem no que de mais baixo possui a Natureza e insere suas raízes na animalidade; por ele também gravita para os mundos luminosos em que vivem as almas angélicas, os Espíritos puros. O nosso estado psíquico é obra nossa. O grau de percepção, de compreensão, que possuímos, é o fruto de nossos esforços prolongados. Fomos nós que o fizemos ao percorrer o ciclo imenso. de sucessivas existências. O nosso invólucro fluídico, sutil ou grosseiro, radiante ou obscuro, representa o nosso valor exato e a soma de nossas aquisições.

Os nossos atos e pensamentos pertinazes, a tensão de nossa vontade em determinado sentido, todas as volições do nosso ser mental, repercutem no perispirito e, conforme a sua natureza, inferior ou elevada, generosa ou vil, assim dilatam, purificam ou tornam grosseira a sua substância. Daí resulta que, pela constante orientação de nossas idéias e aspirações, de nossos apetites e procedimentos em um sentido ou noutro, pouco a pouco fabricai'nos um envoltório sutil, recamado de belas e nobres imagens, acessível às mais delicadas sensações, ou um sombrio domicílio, uma lôbrega prisão, em que, depois da morte, a alma restringida em suas percepções, se encontra sepultada como num túmulo. Assim cria o homem para si mesmo o bem ou o mal, a alegria ou o sofrimento. Dia a dia, lentamente, edifica ele seu destino.

Em si mesmo está gravada sua obra, visível para todos no Além. por esse admirável mecanismo das coisas, simples e grandioso ao mesmo tempo, que se executa, nos seres e no mundo, a lei de causalidade ou de conseqüência dos atos, que outra não é senão o cumprimento da justiça. E, por um efeito das mesmas causas, já desde esta vida o homem atrai as influências do Espaço, as irradiações etéreas ou os grosseiros eflúvios dos Espíritos de violência ou de desordem. Aí está a regra das manifestações espíritas; não é outra senão a própria lei das atrações e afinidades. Conforme o grau de sutileza de nosso invólucro e a intensidade de suas irradiações, podemos, nos momentos de êxtase e desprendimento ' o que para alguns é mesmo possível no recolhimento e na meditação ', entrar em relação com o mundo invisível, perceber os ecos, receber as inspirações, entrever os esplendores das esferas celestes, ou doutro modo experimentar a influência dos Espíritos de trevas.

IV ' A mediunidade

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.