[user_registration_my_account]
Capítulo 15 de 52
Primeira Parte — parte 11 de 12
No Invisível · Léon Denis
Nunca seria demasiado insistirmos sobre os perigos que resultam da intrusão dos maus Espíritos nas sessões de um grupo em formação ou nos ensaios de um médium insulado. Muitas vezes são os nossos pensamentos que os atraem. Abstende'vos, pois, em vossas reuniões ' diremos aos investigadores sinceros ' de toda preocupação de negócios ou prazeres. Não deixeis flutuar o pensamento em torno de vários assuntos, mas fixai'o num elevado objetivo; ponde'vos em harmonia de vistas e de sentimentos com as almas superiores. Conservando' vos nesse estado de espírito, sentireis pouco a pouco baixarem sobre vós correntes de energia, das quais ficareis impregnados, e que aumentarão a sensibilidade de vosso organismo fluídico. Efêmera e intermitente ao começo, essa sensibilidade se acentuará e tornará permanente. Vosso perispirito, dilatando'se, purificando'se, ganhará mais afinidade com os Espírito'guia, e faculdades ignoradas se vos revelarão: mediunidade vidente, falante, auditiva, curadora, etc. Mediante o aperfeiçoamento e a elevação moral, é que adquirireis essa profunda sensibilidade, essa sensitividade psíquica que permite obter as mais altas manifestações, as provas mais convincentes, de mais positiva identidade.
Orai ao começo e ao fim de cada sessão; ao começo, para elevardes vossas almas e atrairdes os Espíritos esclarecidos e benevolentes; ao terminar, para agradecer os benefícios e ensinos que houverdes recebido. Seja a vossa prece curta e fervorosa, e muito menos uma fórmula que um transporte do coração. A prece desprende a alma humana da matéria, que a escraviza, e a aproxima do Divino Foco. Estabelece uma sorte de telegrafia espiritual, por cujo intermédio o pensamento do Alto, respondendo à solicitação de baixo, desce às nossas obscuras regiões. As nossas explorações nos abismos do invisível seriam inçadas de perigos, se não tivéssemos acima de nós seres mais poderosos e perfeitos para nos dirigir e esclarecer'nos o caminho. Não é indispensável fazer evocações determinadas. Em nosso grupo raramente as praticávamos. Preferíamos dirigir um apelo aos nossos guias e protetores habituais, deixando a qualquer Espírito a liberdade de se manifestar, sob sua vigilância. O mesmo acontece em muitos grupos de nosso conhecimento.
Assim cai, de si mesmo, por terra o grande argumento de certos adversários do Espiritismo, no sentido de ser reprovável entregar'se a evocações e constranger os Espíritos a voltarem à Terra. O Espírito, como o homem, é livre e não responde, senão quando lhe apraz, aos chamados que lhe são dirigidos. Toda injunção é vã; toda encantação, supérflua. São processos arranjados para iludir as gentes simples. É excelente começar as sessões por uma leitura séria e atraente, feita de uma das obras ou revistas espíritas escolhidas (53). Essa leitura deve ser objeto de comentários e permuta de apreciações entre os assistentes, sob a direção do presidi acontece com freqüência que as comunicações, dadas pelos Espíritos, em seguida a tais leituras, se referem aos assuntos discutidos e os desenvolvem, completando'os. É esse um modo de ensino mútuo, que nunca seria demais recomendar.
Podem'se também formular perguntas aos Espíritos sobre todos os inúmeros problemas pertencentes ao domínio da Filosofia e da vida social, sobre as condições de existência no mundo espiritual, as impressões depois da morte, a evolução da alma, etc. Todas essas perguntas devem ser apresentadas pelo presidente, simples e claras, sempre de ordem moral e desinteressadas. Interrogando os invisíveis sobre interesses pessoais, tesouros ocultos, etc., pedindo'lhes a revelação dos sucessos futuros, formando pactos cabalísticos, fazendo uso de emblemas, talismãs, fórmulas extravagantes, não somente se oferecerá margem à critica e à zombaria, mas serão atraídos os Espíritos trocistas e ficar'se'á exposto às ciladas em que são vezeiros. Cogitando, ao contrário, dos assuntos elevados do Espiritismo, nos asseguramos a colaboração de Espíritos sé. rios, que consideram um dever de sua parte cooperar em nosso adiantamento e educação. Empreendendo essa ordem de estudos, não tardaremos a reconhecer a rica extensão e variedade dos ensinos espíritas e quão fácil se torna resolver, com o seu auxílio, mil problemas até hoje inextricáveis e obscuros.
Se o concurso dos Espíritos superiores é desejável e deve ser procurado com empenho, o dos Espíritos vulgares e atrasados tem algumas vezes sua utilidade. Convém reservar'lhes um lugar nos trabalhos dos grupos solidamente constituídos e que contam com suficiente proteção. Em virtude de sua própria inferioridade, eles proporcionam um motivo de estudo bem característico; sua identidade se patenteia às vezes com indícios pessoais que impõem a convicção. A situação que ocupam no Espaço e as conseqüências que resultam de seu passado são elementos preciosos para o conhecimento das leis universais. Certos grupos adotam como tarefa especial evocar os Espíritos inferiores e, mediante conselhos e exortações, instruí'los, moralizá' los, ajudá'los a desembaraçar'se dos laços que ainda os prendem à matéria. É das mais meritórias essa missão: exige a perfeita união das vontades, uma profunda experiência das coisas do invisível, que só se encontra nos meios de longa data dedicados ao Espiritismo. Nos casos em que faltem os médiuns, ou sejam improdutivos, não deve ficar por isso o grupo reduzido à inação.
A exemplo das sociedades ou agremiações científicas, deve ele procurar um alimento em todas as questões relacionadas com o objeto de suas predileções, as quais serão postas na ordem do dia e, do mesmo modo que as leituras de que falávamos acima, comentadas e discutidas, com grande aproveitamento para os ouvintes. De tempos a tempos podem algumas sessões ser consagradas a conferências ou palestras, terminadas as quais cada um apresentará seus argumentos e objeções. Por essa forma os trabalhos de um grupo se tornarão não só um excelente meio de instrução, mas também um exercício oratório que virá preparar os seus membros para a propaganda pública. Aparelhando'se para as discussões e as justas da palavra, poderão estes tornar'se úteis defensores e propagandistas da idéia espírita. É sempre em debates dessa natureza que se formam os oradores; por esse meio é que eles adquirem a eloqüência, esse dom de emocionar as almas, empolgá'las para um elevado objetivo. Os adeptos do Espiritualismo não devem desprezar nenhum meio de se preparar para as vindouras lutas, de se apropriar desse duplo poder da palavra e da sabedoria; que permite a uma doutrina afirmar'se vitoriosamente em nosso mundo.
XI ' Aplicação moral e frutos do Espiritismo
Não será inútil, ao terminarmos a primeira parte desta obra, inquirir quais têm sido as conseqüências do fenômeno espírita sobre o estado de espírito da nossa época. A primeira vista, não parecerão consideráveis os resultados. Não é preciso a ação do tempo, a lenta incubação dos séculos, para que uma idéia produza todos os seus frutos? E, entretanto, apreciando as coisas de perto, não se tardará em reconhecer que o Espiritismo tem já exercido enorme influência sobre o estado de espírito de nossos contemporâneos. Não somente descerrou à Ciência completo e ignorado domínio, e a obrigou a reconhecer a realidade de fatos ' sugestão, exteriorização, telepatia ' que ela por tanto tempo havia negado ou repelido, mas ainda fez que os pensamentos se voltassem para o Além; despertou nas consciências adormecidas e enevoadas de nossa época o sentimento da imortalidade; tornou mais viva, mais real e tangível a crença na sobrevivência dos desaparecidos. Onde não havia mais que esperança e crenças, ele implantou certezas.
Sob a exterioridade do fenômeno completa revelação se ocultava. Da comunhão das almas nasceu uma doutrina. E por ela o problema do Destino, tormento perpétuo da Humanidade, revestiu novo aspecto, recebendo, com os elementos de definitiva solução, os meios de análise e de verificação que lhe haviam completamente faltado até agora. As revelações de além'túmulo são concordes em um ponto capital: depois da morte, como no vasto encadeamento de nossas existências, tudo é regulado por uma lei suprema. O destino, feliz ou desgraçado, é a conseqüência de nossos atos. A alma edifica por si mesma o seu futuro. Por seus próprios esforços se emancipa das materialidades subalternas, progride e se eleva para a luz divina, sempre mais intimamente se identificando com as sociedades radiosas do Espaço, e tomando parte, por uma colaboração constantemente mais extensa, na obra universal. O Espiritismo oferece esta inapreciável vantagem de, ao mesmo tempo, satisfazer à razão e ao sentimento. Até agora essas duas faculdades da alma se têm conservado em luta aberta, num perpétuo conflito.
Daí uma causa profunda de sofrimento e de desordem para as sociedades humanas. A Religião, apelando para o sentimento e excluindo a razão, caía muitas vezes no fanatismo e no erro. A Ciência, procedendo em sentido contrário, permanecia inerte e seca, impotente para regular a conduta moral. Qual não será a superioridade de uma doutrina que vem restabelecer o equilíbrio e a harmonia entre essas duas forças, uni' Ias e imprimir'lhes um impulso uniforme para o bem?! Há nesse fato, como se deve compreender, o principio de uma revolução imensa. Por essa conciliação do sentimento e da razão o Espiritismo se torna a religião científica do futuro. O homem, desembaraçado dos dogmas que constrangem e das Infalibilidades que oprimem, readquire sua independência e o uso de suas faculdades. Examina, aprecia livremente e só aceita o que lhe parece bom. O Espiritismo amplia a noção de fraternidade.
Demonstra por meio de fatos que ela não é unicamente um mero conceito, mas uma lei fundamental da Natureza, lei cuja ação se exerce em todos os planos da evolução humana, assim no ponto de vista físico como no espiritual, no visível como no invisível. Por sua origem, pelos destinos que lhes são traçados, todas as almas são irmãs. Assim, essa fraternidade, que os messias proclamaram em todas as grandes épocas da História, encontra no ensino dos Espíritos uma base nova e uma sanção. Não é mais, a inerte e banal afirmação inscrita na fachada de nossos monumentos, é a fraternidade palpitante das almas que emergem, conjuntas, das obscuridades do abismo, e palmilham o calvário das existências dolorosas; é a iniciação comum no sofrimento; é a reunião final na plena luz. Com o Espiritismo, coração e razão, tudo tem sua parte. O círculo dos afetos se dilata. Sentimo'nos mais bem amparados na prova, porque aqueles que em vida nos amavam, nos amam ainda além do túmulo e nos ajudam a carregar o fardo das misérias terrestres.
Não estamos deles separados senão em aparência. Na realidade, os humanos e os invisíveis caminham muitas vezes lado a lado, através das alegrias e das lágrimas, dos êxitos e reveses. 0 amor das almas que nos são diletas nos envolvem, nos consola e reanima. Cessaram de nos acabrunhar os terrores da morte.
O Espiritismo, criteriosamente praticado, não é só uma fonte de ensinamentos, é também um meio de preparação moral. As exortações, os conselhos dos Espíritos, suas descrições da vida de além'túmulo vêm a influir em nossos pensamentos e atos e operam lenta modificação em nosso caráter e em nosso modo de viver. Nada é mais impressionante que ouvir, no curso das sessões de evocação, a narrativa, a confissão das angústias suportadas pelo Espírito que empregou mal sua vida terrestre: ' do egoísta, que só encontra em torno de si a indiferença e o vácuo, do invejoso, que se vê imerso em uma sorte de noite profunda, pela acumulação de seus maus pensamentos, de seus malévolos propósitos. Entre inúmeros fatos, citaremos o que se deu em nosso grupo de estudos: o Espírito de uma antiga vendedora de legumes de Amiens gostava de nos recordar sua perturbação e ansiedade quando, após o falecimento, se achou em meio de espessas trevas, efeito das rixas e maledicência a que freqüentemente se entregava. Longa e penosa foi sua expectativa.
Afinal, depois de anos de incerteza, de sombrio insulamento, escutou vozes: "Ora, Sofia; ora, e arrepende'te", lhe diziam. Sofia orou; e sua prece fervorosa foi iluminando, como um pálido clarão, a noite fluídica que a envolvia. Segundo suas próprias expressões, "a escuridão se tornava cinzenta", de um cinzento que se ia cada vez mais atenuando, até que ela readquiriu a relativa liberdade dos Espíritos pouco adiantados. Não há nisso um exemplo a ponderar? Reparemos sobretudo em que o deslize do Espírito, no mal, implica fatalmente na diminuição proporcional de liberdade. Os pensamentos e os atos criam em torno da alma culpada uma sombria atmosfera fluídica, que se condensa, pouco a pouco se vai contraindo e a encerra como numa prisão. Vemos na Terra uma aplicação dessa lei de equilíbrio moral e de justiça nas enfermidades cruéis, na privação dos órgãos dos sentidos, nas paralisias prolongadas, que são muitas vezes as conseqüências do passado, a longínqua repercussão das faltas cometidas. Voltemos ao caso da Sofia.
Durante cinco anos esse Espírito tomou parte em nossos trabalhos, e, ainda que pouco adiantado, suas comunicações e as opiniões que externava não eram destituídas de interesse. Com muita antecedência nos anunciou ela sua reencarnação, na cidade que já havia habitado. Reveste atualmente um novo corpo terrestre, como a primeira filha de pobres operários, a primogênita de um rancho de pequeninos seres, cuja vinda ela predisse, preparando'se assim uma existência laboriosa e obscura, que facilitará o seu adiantamento e cujas vicissitudes serão compensadas pela posse de uma bela faculdade mediúnica. Freqüentes vezes, no curso de nossas sessões, orgulhosos nos vinham exprimir seu despeito e humilhação, ao terem'se encontrado, no Espaço, abaixo daqueles que haviam desprezado; avarentos se lastimavam da dissipação de seus bens; sensuais deploravam amargamente verem'se privados de tudo o que fazia a sua satisfação exclusiva neste mundo. Suicidas nos descreviam suas angústias. Experimentavam, desde longo tempo, a sensação do gênero de morte que haviam escolhido. Um deles ouvia a detonação contínua de um tiro de pistola. Outro sentia os horrores da asfixia.
Todos se achavam acabrunhados por um profundo abatimento. Tarde compreendiam que a prova, que tinham julgado evitar, era a reparação devida, o resgate do passado, e que seria preciso afrontá'la novamente, em condições mais duras, pela reencarnação em outro corpo. Mais desoladora é ainda a condição dos que maculam a existência com a perpetração de assassínios e espoliações, que da vida, honra e bens e dignidade dos outros fizeram degraus de sua fortuna e de sua glória efêmera. Eles se acham incessantemente em face desse quadro acusatório com a perspectiva da repercussão dos atos sobre as vindouras existências e das inúmeras encarnações de purificação e dor que serão necessárias para os reparar. Por sobre tais lamentos e perturbadoras confissões se elevava, porém, ao fim de cada sessão, a voz de Jerônimo, nosso guia, que tirava as conseqüências dessas revelações, punha em relevo as grandes leis do destino e mostrava os caminhos do arrependimento e da reparação franqueados a todos.
Todos, depois das culpas e das quedas, tornarão a adquirir, mediante as provas e o trabalho, a paz de consciência e a reabilitação. Esses ensinos, essas descrições das recompensas ou dos sofrimentos vêm a exercer, com o tempo, sensível influência no estado de espírito dos experimentadores, induzindo'os a considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente seus atos à regra austera do dever. Muitas vezes são nossos parentes ' pai, mãe, um irmão mais velho ' que do Além nos vêm guiar e consolar, chamar'nos a atenção para as imperfeições de nossa natureza, fazer'nos sentir a necessidade de nos reformarmos. Ao lado das tocantes exortações dos que nos foram caros, como parecem descoloridos os ensinos do saber humano! O nosso grupo achava'se sob a proteção de dois Espíritos elevados, um dos quais Jerônimo, de que falei acima; o outro, um Espírito feminino, cuja personalidade se ocultava sob vago pseudônimo, o "Espírito Azul" (53'A), era dotado de maravilhosa penetração.
Lia no recesso dos corações, escrutava'lhes os mais secretos refolhos e, com admirável tato, numa voz doce e penetrante, pelo médium sonambulizada, nos ensinava a melhor nos conhecermos e nos indicava os meios de nos aperfeiçoarmos. Cada membro do grupo, no curso das sessões, era a seu turno objeto de sua atenção e solicitude, e recebia seus conselhos maternais. Quando o "Espírito Azul" se incorporava, nós o reconhecíamos às primeiras frases proferidas, pelas suaves inflexões da voz; aguardávamos suas palavras e apreciações com verdadeira avidez. Ao retirar'se, deixava'nos sob uma impressão profunda, como se uma alma angélica tivesse pairado sobre nós e nos houvesse penetrado de seus eflúvios. Essa ação moralizadora e educativa durou anos, e foram sensíveis os seus resultados. É preciso notar que, em sua maioria, os homens são inconscientes de seus defeitos. Ignoram'se a si mesmos e acumulam faltas sobre faltas, sem disso advertir'se. Nesse ponto de vista, as indicações de nossos guias espirituais são preciosas.
As do "Espírito Azul" produziram em muitos dentre nós sérias modificações, e, quanto a mim, posso dizer que com elas muito aproveitei. Como tantos outros de meus semelhantes, certos aspectos defeituosos de meu caráter me haviam escapado. As vezes a força do pensamento me brotava em jatos bruscos, em impulsos rápidos, em expressões exageradas, que me causavam muitos dissabores. Meus guias me atraíam sobre esse ponto a atenção e, com seus conselhos, me ensinaram a dominar'me, a impor silêncio aos impetuosos surtos da minha natureza. E assim que, pela prática do Espiritismo e com as instruções dos Espíritos elevados, pode o homem adquirir essa preciosa ciência da vida: a disciplina das emoções e das sensações, o domínio de si mesmo, essa arte profunda de se observar e, depois, de se assenhorear dos secretos impulsos de seu próprio ser.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.