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Capítulo 38 de 52

A Sombra do Sepulcro a Victor Hugo — parte 10 de 15

No Invisível · Léon Denis

As materializações de membros fluídicos podem algumas vezes explicar'se por um desdobramento parcial do organismo do médium. Aksakof obteve um molde do pé da forma desdobrada de Eglinton (212). Foi igualmente comprovado que as mãos exteriorizadas de Eusápia Paladino deixavam impressões, a distância, em substâncias plásticas. Desses fatos acreditaram certas pessoas poder deduzir que as aparições de fantasmas não passam de desdobramentos do médium. Essa explicação é inadmissível, pois que, como vimos, em presença de um único médium puderam contar'se até cinco ou seis Espíritos materializados, de sexo diferente, alguns dos quais falavam línguas estranhas, desconhecidas do sensitivo. Mesmo nos casos de aparições insuladas, as formas materializadas diferem totalmente do médium, física e intelectualmente, como o demonstram os fatos citados. Aksakof é induzido a crer que essas formas não são reproduções das que revestiam os Espíritos em sua existência terrestre; são antes formas de fantasia, criadas pelos agentes invisíveis, não encerrados nessas formas, senão animando'as exteriormente.

Essa explicação, ao que ele diz, ter'lhe'ia sido ministrada pelos Espíritos. (213) Essa teoria, se é aplicável aos fenômenos de Gotenburgo, não parece poder tornar'se extensiva a todos os casos de materialização, como, por exemplo, aos fatos observados por Crookes, Wallace, Gibier, etc. Se, com efeito, pode o Espírito criar formas materiais que são simples imagens, pode também condensar seu próprio invólucro, ao ponto de o tornar visível. O fenômeno das materializações se explica de modo racional e satisfatório pelo funcionamento do perispírito. Esse envoltório fluídico da alma é como um desenho, um esboço, em que a matéria se incorpora, se condensa, por sucessivas acumulações das moléculas, até chegar a reconstituir um organismo humano. Assim, com Katie King o Espírito materializado é uma mulher terrestre; respira, seu coração palpita; possui todos os caracteres fisiológicos de uma pessoa viva. (214) Nos moldes em parafina obtidos por Zoellner, Dentou, etc., moldes ou impressões de mãos, pés e rostos, as menores particularidades da pele, dos ossos, dos tendões, são reproduzidos com rigorosa exatidão.

Os Drs. Nichols e Friese obtiveram, na presença de doze testemunhas, o molde de mão de criança, com um sinal particular, uma ligeira deformidade, que permitiu a uma senhora presente reconhecer a mão de sua filha, morta aos cinco anos de idade. (215) Não se deve concluir daí que o Espírito conserve, no Espaço, as imperfeições físicas ou as mutilações de seu corpo terrestre. Seria um erro crasso, pois que o testemunho unânime dos desencarnados nos indica exatamente o contrário. No Além, jamais o perispírito é mutilado ou enfermo:

"Quando o Espírito se quer materializar ' diz G. Delanne (216) ' é obrigado a pôr novamente em ação o mecanismo perispiritual, e este reconstitui o corpo com as modificações que sofrera durante a permanência do Espírito na Terra."

A seguinte narrativa, transmitida ao jornal "Facts" pelo Sr. James N. Sherman, de Rumfort (Rhode Island), e reproduzida em "Light" de 1885, pág. 235, é um novo exemplo da lei de conservação das formas evolvidas pelo ser durante a sua passagem aqui na Terra:

"Estive na minha mocidade, entre os anos de 1835 e 1839, nas ilhas do Pacifico, e havia indígenas a bordo do nosso navio, com os quais consegui aprender perfeitamente a língua que falavam. Mais tarde, a 23 de fevereiro de 1883, assisti a uma sessão em casa dos Srs. Allens, em Providência (Rhode Island), durante a qual se materializou um indígena das ilhas do Pacífico: reconheci'o pela descrição que fez da queda que havia dado da pavesada e da qual resultara contundir'se no joelho, que ficou inchado. Na aludida sessão, o colocou a mão no joelho, que apresentava, materializado, a mesma tumefação e rijeza verificadas por ocasião do acidente e que não mais cessaram. A bordo lhe chamávamos Billie Marryat."

Os elementos das materializações ' nos dissemos ' são temporariamente hauridos nos médiuns e nas outras pessoas presentes. Suas radiações, seus eflúvios são condensados pela vontade dos Espíritos, ao começo em cúmulos luminosos; depois, à medida que aumenta a condensação, a forma se desenha, torna'se cada vez mais visível. Esse fenômeno é sempre, nas sessões, acompanhado de sensação de frio, indício de dispêndio de força e de calor ' calor e luz não sendo, como se sabe, senão modos vibratórios, mais ou menos intensos, da mesma substância dinâmica, num período uniforme de tempo. Nos médiuns, esse dispêndio é considerável e se traduz por diferenças de peso muito sensíveis. W. Crookes o verificou durante as materializações de Katie King, por meio de balanças munidas de aparelhos registradores. A esse respeito, diz a Sra. Fl. Marryat:

"Vi Florence Cook numa balança especialmente fabricada pelo Sr. Crookes; ela estava atrás da cortina, enquanto o fiel permanecia à vista. Nessas condições, a médium, que pesava 80 libras no estado normal, acusava apenas 40, desde que a forma de Katie estivesse completamente materializada."

Nas experiências dos Srs. Armstrong e Reimers, feitas em Liverpool com o concurso dos médiuns Miss Wood e Fairlamb, procedeu'se à pesagem dos médiuns e das formas aparecidas, e pôde verificar'se que o peso perdido pelas sensitivas se encontrava nas aparições materializadas. (217) Todo tempo que duram esses fenômenos os médiuns estão mergulhados em transe profundo, semelhante à morte. Seus corpos minguam, os vestidos flutuam em torno deles; a pele pende flácida e vazia e forma verdadeiros sacos. (218) Os outros assistentes sofrem também diminuição de força e de vida. O Sr. Larsen o assinala, após a aparição de sua mulher '(219)

"Eu devo ter contribuído para sua materialização, porque no dia seguinte estava bastante fatigado; tinha os olhos amortecidos; os cabelos e a barba estavam um pouco embranquecidos, evidente que muita força física me havia sido subtraída. Em poucos dias readquiriu meu corpo o vigor normal; mas isso indica que as pessoas dotadas de poderes mediúnicos devem tomar suas precauções." A Sra. Florence Marryat descreve uma sessão que se efetuou, no dia 5 de setembro de 1884, em presença dos Coronéis Stewart e Lean, do Sr. e da Sra. Russell'Davies, do Sr. Morgan e dela própria, na qual os Espíritos mostraram aos experimentadores de que modo procediam a fim de organizar para si mesmos um corpo a expensas do médium (220)

"Eglinton se apresentou primeiramente entre nós, em transe completo. Entrou de costas, com os olhos fechados, a respiração ofegante, parecendo debater'se contra a forçaque o impeliu para o nosso lado. Uma vez aí, apoiou'se a uma cadeira, e vimos sair'lhe da ilharga esquerda uma espécie de vapor, massa nevoenta como fumo. Suas pernas estavam iluminadas por clarões que as percorriam em todos os sentidos. Um véu branco se lhe estendia pela cabeça e pelas ombros. A massa vaporosa ia aumentando sempre e a opressão do médium tornava'se mais intensa, enquanto mãos invisíveis, retirando'lhe da ilharga flocos de uma espécie de gaze muito leve, os acumulavam no solo, em camadas superpostas. Acompanhávamos com alvoroçada atenção os progressos desse trabalho. De repente se evaporou a massa e num abrir e fechar de olhos um Espírito perfeitamente formado apareceu ao lado de Eglinton. Ninguém poderia dizer donde nem como se achava ele entre nós; mas aí estava. Eglinton deixou'se cair no soalho."

Não somente são feitas consideráveis absorções do corpo do médium, mas em certos casos é este submetido à desagregação total. Nas experiências dirigidas por Aksakof, em casa da Sra. dMspérance, em Gotenburgo, foi observada uma coisa surpreendente. O corpo do médium, isolado no gabinete escuro, havia parcialmente desaparecido. Inteiramente desagregada e tornada invisível por um poder misterioso, a parte inferior do corpo tinha servido às materializações dos Espíritos Ana, Iolanda e Leila. Seus elementos haviam sido transfundidos temporariamente nas formas espectrais, para em seguida voltarem a seu primitivo estado, tendo conservado todas as suas propriedades e sem que disso o médium tivesse tido consciência. (221) Fato semelhante foi registrado pelo Coronel Olcott, em condições de fiscalização que tomavam impossível toda fraude. (222) A médium, Sra. Compton, a quem haviam tirado os brincos das orelhas, foi amarrada a uma cadeira com linha muito forte, enfiada nos orifícios dos lobos das orelhas e lacrada no espaldar da cadeira, sendo impresso no lacre o sinete pessoal do coronel. Além disso, a cadeira foi fixada ao soalho por meio de um barbante e cera. O Espírito de uma menina, Katie Brink, apareceu vestido de branco, circulou pela sala e tocou diversas pessoas. Convidado a deixar'se pesar, prestou'se de bom grado, e o peso verificado foi de 77 libras inglesas:

"Penetrei no gabinete ' diz o coronel ' enquanto a menina estava na sala; não encontrei a médium; a cadeira estava vazia; nela não havia nenhuma espécie de corpo. Convidei então a menina a tornar' se mais leve, se fosse possível, e subir de povo ao prato da balança. Seu peso havia baixado a 59 libras. Ela reapareceu ainda, dirigiu'se de um a outro espectador, sentou'se nos joelhos da Sra. Hardy, e finalmente prestou'se a uma derradeira pesagem, que não acusou mais de 52 libras, posto que, do começo ao fim dessas operações, nenhuma mudança se houvesse operado na aparência de sua forma corporal. Efetuada essa última pesagem, o Espírito não tornou a aparecer. Penetrei com a lâmpada no gabinete, e encontrei a médium tal como a havia deixado no começo da sessão, amarrada com as linhas, e os sinetes de lacre intactos. Continuava sentada, com a cabeça encostada a uma das paredes; sua carne, pálida, tinha a frialdade do mármore; com as pupilas reviradas sob as pálpebras, a fronte coberta de suor frio, estava sem pulso e quase sem respiração. Permaneceu vinte minutos em catalepsia; depois a vida lhe foi pouco a pouco regressando ao corpo, e ela voltou ao seu estado normal; colocada no prato da balança, pesou 121 libras."

O venerável Arcediago Colley, reitor de Stockton, efetuou, em 6 de outubro de 1905, uma conferência relativa ao Espiritismo, durante a semana do Congresso da Igreja Anglicana. Essa conferência fez grande rumor na Grã'Bretanha; foi em seguida publicada em brochura e acreditamos interessante reproduzir'lhe as seguintes passagens:

"Aqui está ' diz o autor ' um extrato do meu diário, em 28 de dezembro de 1877 (223). 1gramos cinco reunidos essa noite, com o nosso eminente médium (224), em meu aposento, 22, Bernard Street, Russel Square, em Londres. A primeira forma humana anormal que nessa ocasião se apresentou foi a de um menino, igual à de qualquer menino inglês de seis ou sete anos. Essa pequena personalidade, à vista de todos (três bicos de gás estavam bem acesos), se reconstituiu diante de nós. Para não repetir tantas vezes, sem necessidade, como se produzem essas maravilhas, direi uma vez por todas que a aparição dos nossos amigos psíquicos se opera do seguinte modo: eu me conservava habitualmente ao lado do médium em transe, amparando'o com o braço esquerdo, de modo a assegurar'me as melhores condições possíveis para observar o que se passava.

Quando estávamos à espera de uma materialização (e, às vezes, de repente, sem nenhuma expectativa do grande parto psíquico), víamos elevar'se, como do tubo de uma caldeira, através da roupa preta do médium e um pouco abaixo do seu peito esquerdo, um filamento vaporoso, que permanecia apenas visível, estando a uma ou duas polegadas do corpo do nosso amigo. Então esse filamento constituía pouco a pouco uma espécie de névoa, donde saiam os nossos visitantes psíquicos, utilizando'se aparentemente desse vapor fluídico para formar as amplas roupagens brancas em que se envolviam... Ora, a forma infantil que, de modo anormal, se achava em nossa presença, vestida de branco e com lindos cabelos de ouro, tinha todas as atitudes próprias de uma criança humana; batia com as mãozinhas, aproximava a boca para que cada um de nós a beijasse, falava de modo infantil, com um leve receio. O médium, como um irmão mais velho, dava'lhe instruções e o mandava aqui, ali, levar tal e tal coisa de um lado a outro do aposento ' o que o menino fazia com perfeita naturalidade.

Aproximando'se, finalmente, com singeleza e confiança, do autor de sua existência momentânea, a graciosa criatura foi por ele reabsorvida e desapareceu, fundindo'se novamente no corpo do nosso amigo. Tocou depois a vez ao egípcio, nosso amigo "o Mahedi". A cor da pele bronzeada que apresentava o nosso visitante anormal, que eu conseguia examinar de perto com uma lente, através da qual lhe observava minuciosamente a carne, as unhas, as mãos pequenas, os pés, os tornozelos, os braços e as pernas trigueiras e cabeludas, a mobilidade das feições, em que, de quando em quando, brilhava uma expressão de esfinge; o nariz pronunciado, o contorno geral do semblante, o perfil regular, os olhos negros, o olhar penetrante, não, contudo, sem benevolência, os cabelos pretos, lisos e compridos, com o bigode e a barba longos e caídos, os membros nervudos e musculosos; a grande estatura, de mais de dois metros, tudo isso me confirmava nas primeiras impressões de que "o Mahedi" era um oriental, mas não da Índia nem do Extremo Oriente.

Meu exame, feito cora todo o vagar nessa ocasião, foi muitas vezes repetido e eu tinha consciência da graça que o nosso amigo misterioso achava na minha importuna e minuciosa inspeção de sua robusta pessoa físico'psíquica. Eu não retiraria, para ser arcebispo de Cantuária, uma única palavra do que escrevi acerca de coisas vistas e anotadas, pela primeira vez, há longos anos e sobre as quais meditei em silêncio durante vinte e oito anos. Afirmo a veracidade dessas coisas, empenhando a minha palavra de clergyman, e por ela pus em risco a minha posição eclesiástica e o meu futuro profissional."

As materializações de Espíritos se vêm algumas vezes acrescentar criações espontâneas de plantas, transportes de flores e frutos. No dia 28 de junho de 1890, sob as vistas de Aksakof e do professor Boutlerov, em casa da Sra. d`Espérance, em Gotenburgo, um lírio dourado, de seis pés de altura, foi produzido pelo Espírito Iolanda. Auxiliado pelos assistentes, esse Espírito depositou areia, terra e água num vaso, que em seguida cobriu com o véu. Este se elevou lentamente, impelido de modo contínuo por um objeto invisível; e quando Iolanda retirou o véu viu'se aparecer uma linda planta coberta de flores, que exalavam penetrante aroma. Esse lírio dourado se conservou durante uma semana inteira, depois do que desapareceu misteriosamente como tinha vindo. (225)

Acabamos de ver os Espíritos em ação, criando objetos e flores. Do mesmo modo operam eles na formação das vestes, costumes e adornos que aparecem. Esse fato, de se mostrarem vestidos os Espíritos, tem provocado numerosas objeções, a que cumpre responder. Recordemos antes de tudo, como princípio, que a vontade e o pensamento são. criadores. Nas aparições, já vimos como a matéria sutil obedece aos seus menores influxos. Um Espírito pode agir sobre os fluidos e emprestar'lhes formas e propriedades adequadas ao fim que tenha em vista. No domínio terrestre, essa ação já se revela nas práticas do Magnetismo. O homem, dotado do poder de curar, transmite, pela vontade, aos eflúvios que dele emanam e, por extensão, à água e a certos objetos materiais, como panos, metais, etc., propriedades curativas. Os fenômenos do Hipnotismo e da sugestão nos mostram, sob outras formas, a aplicação dessa mesma lei. Mediante a sugestão provocam'se, no organismo de sensitivos adormecidos, profundas modificações' pode'se fazer aparecerem ou cicatrizarem chagas, estigmas, queimaduras, regular certas funções como a circulação, as secreções, etc., que no estado normal escapam à ação da vontade.

Casos há em que um experimentador, sugerindo a sensitivos que um selo postal, uma obreira, são transmite pelo pensamento a esses inofensivos objetos uma força que faz empolar a pele e produzir serosidades. Outros têm provocado, por simples ordem, hemorragias cutâneas. (226) Pela sugestão, que é principalmente um ato da vontade, tem'se conseguido não somente impressionar sensitivos, mas também lhes causar verdadeiras perturbações, pela ingestão de líquidos anódinos a que se emprestam propriedades nocivas. É assim que se provoca a embriagueis com água pura. Coisa mais grave: fizeram absorver a um sensitivo um veneno imaginário, e esse veneno, apesar de uma sugestão contrária quase imediata, produziu desordens fisiológicas que por muito tempo lhe arruinaram a saúde. O memorial dessa experiência existe no Salpetrière. (227) A esses exemplos cumpre acrescentar as impressões experimentadas por senhoras grávidas e que se traduzem, no corpo do filho em gestação, por taras, manchas, deformações. A influência dessas emoções às vezes é vivíssima. O Doutor Goudard, numa comunicação à Sociedade de Estudos Psíquicos de Marselha (228), refere os seguintes fatos:

"Um homem culto, saldo de uma de nossas grandes faculdades, foi operado em sua infância de um duplo polegar de cada lado, que simulava uma pata de crustáceo, e era atribuído ao fato de ter sido sua mãe, durante a gravidez, trincada fortemente na mão por uma lagosta. Uma outra mãe, vivamente impressionada à vista de uma carranca de fonte, deu à luz um feto cuja cabeça tinha uma estranha semelhança de feições com essa carranca."

Caso notável é o seguinte, publicado pelo "Matin", de 1.o de junho de 1906:

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.