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Capítulo 31 de 52
A Sombra do Sepulcro a Victor Hugo — parte 3 de 15
No Invisível · Léon Denis
Na França encontramos os mesmos fatos. Um certo número de obras foram escritas ou ditadas pelos Espíritos. Pode citar'se: "La Clef de Ia Vie", dois grossos volumes escritos em 1856 por Michel de Figanières, jovem camponês do Var, de 22 anos de idade e que foram assinaladas no "Le Siècle", num excelente artigo de Louis Jourdan; "Les vies mysterieuses et successives de 1'être humain et de 1'être terre" (159) ; depois "Les origines et les fins" (160), obra importante obtida pela ação mediúnica de diversas senhoras lionesas, sobrepondo as mãos umas às outras. Devemos, além disso, assinalar "Le Survie, écho de i'au'de'là", coleção de notáveis comunicações ditadas por Espíritos e publicadas pela Sra. Nceggerath, em 1897 (161), com prefácio do Sr. Camilo Flammarion. O "Bulletin de Ia Société d'Études Psychiques de Nancy", 1901 (162), publicou uma comunicação transmitida em sessão dessa sociedade, a 29 de março, pelo Sr. Fouquet, redator'chefe da "Ltoile de IMst", sobre fenômenos de escrita mediúnica, obtidos em sua presença pelo Sr. P., seu colaborador, materialista convencido. Dela destacaremos as seguintes passagens:
"A escrita variava ao infinito, conforme o Espírito que ditava. Reconhecia'se facilmente cada uma delas, e logo às primeiras palavras já sabíamos com quem nos havermos. Nesses ditados tão dessemelhantes, jamais reconheci o estilo do Sr. P., e ter'lhe'ia sido preciso notável talento de falsário para revestir tão múltiplas formas. P. ignorava absolutamente o que escrevia. Enquanto sua mão traçava os caracteres, o olhar se lhe tornava ligeiramente fixo e nunca se voltava na direção do papel. Entretanto, ele não dormia. Um dia, manifestou'se nova personalidade, sob o nome de Alfantis, dizendo ter vivido no século VII, na Armênia, onde era pontífice. Desconfiamos de uma mistificação e lhe dissemos: Dai' nos vosso nome em caracteres armênios. Imediatamente a letra do médium mudou, e vimos aparecer uma espécie de assinatura em caracteres desconhecidos, depois uma frase completa, em caracteres análogos e, em seguida, a tradução. Nenhum de nós sabia o armênio, e não fazer a verifica podíamos, assim, verificação.
Tive a idéia de pedir ao Espírito o alfabeto armênio, a fim de ter um meio de tirar a prova. Veio o alfabeto, com as letras correspondentes. Comparando'as com as frases escritas antes e o próprio nome de Alfantis, reconhecemos que havia concordância. Alfantis nos deu, sobre a história e a geografia da antiga Armênia, informações que em parte pudemos verificar. O médium não conhecia essas particularidades. Os experimentadores não conseguiram obter fragmento algum de escrita armênia do século VII, mas unicamente uma frase em armênio moderno. Posto que muito diferente uma da outra ', como seria o francês moderno comparado com o do século VII ' o Espírito pôde traduzi'Ia e um estudante búlgaro, que conhecia um pouco o armênio, confirmou a tradução." Extrairemos da memória apresentada pelo Dr. Dusart ao Congresso Espírita de Paris, em 1900 (163), os parágrafos seguintes, relativos aos médiuns escreventes que ele utiliza em suas experiências:
"Maria D. escreve automaticamente. O caráter da escrita e a ortografia variam conforme os manifestantes. O autor é reconhecido antes que tenha assinado o nome. Em muitos casos, o confronto entre a escrita do desencarnado e a de que ele usava quando na Terra, acusa admirável semelhança. Quatro criancinhas, de 9 a 23 meses e de 3 a 4 anos, escreveram sós, ou reunidas a uma mesma mesa. As comunicações obtidas, quando eram simultâneas, representavam o mesmo pensamento sob três formas diferentes. Essas crianças agitavam os braços e as mãos, como para escapar a uma constrição. A Sra. B., lavradora, completamente iletrada, a tal ponto que mais de um mês de lições e de esforços não conseguiram habituá'la a firmar sua assinatura, num ato perante o tabelião, obteve, sob a influência de um Espírito, meia página de uma escrita, informe, contendo vários conselhos." Citaremos ainda, reproduzindo'o da revista "Luce e Ombra", de Milão (julho de 1905), este fato:
"Modesto porteiro da repartição dos Correios, chamado Peziárdi, mal conhecia um pouco do italiano e, não obstante, escrevia poesias em línguas que ignorava. Certa noite, encheu uma folha de papel almaço com uma série de sinais que ninguém conseguia interpretar. Foi apresentado esse estranho escrito ao professor Gorrésio, célebre paleógrafo, há esse tempo diretor da Biblioteca da Universidade. Profundamente admirado, perguntou ele quem havia escrito semelhante página, e foi'lhe narrada toda a ocorrência. Impossível seria de descrever'se o assombro do sábio e mais ainda o do visitante, ao saber que aquele escrito era a reprodução integral de uma inscrição rúnica, havia muitos anos, conservada intraduzível no Museu de Arqueologia, e que diversas vezes o professor Gorrésio tentara interpretar, mas inutilmente, porque o tempo havia apagado muitos sinais; além disso, estando quebrada a pedra, fora impossível adivinhar o resto. De. posse agora do texto completo, lia ele que um certo chefe bárbaro implorava a proteção da divindade para sua tribo, etc. Desde esse dia, converteu' se Gorrésio ao Espiritismo.
Numa sessão subseqüente, manifestou' se o chefe bárbaro, declarando exata a tradução do paleógrafo e acrescentando que a sua inscrição fora despedaçada por um raio." Sob o nome de "cross'correspondenee", os experimentadores ingleses imaginaram, mediante a escrita mediúnica, um novo processo de comunicação, que seria de natureza a estabelecer, do modo mais positivo, a identidade dos manifestantes. São estes os termos em que o Sr. Oliver Lodge, reitor da Universidade de Birmingham, relata essas experiências em seu discurso, de 30 de janeiro de 1908, na "Society for Psychical Researchs":
"Compreenderam tão bem como nós os ostensivos comunicantes a necessidade das provas de identidade e empregaram todos os esforços para satisfazer essa exigência racional. Alguns dentre nós entendem que o conseguiram; outros duvidam ainda. Pertenço ao número dos que, desejando obter novas provas, mais eficientes e contínuas, pensam, entretanto, que já foi dado um grande passo e que é legítimo admitir esses lúcidos momentos de correspondência com as pessoas falecidas, que, nos melhores casos, nos vêm trazer nova soma de argumentos, como a fazer dessa hipótese a melhor hipótese de trabalho. (164) Achamos, com efeito, que amigos cuja perda lamentamos, como Ed. Gurney, Rich, Hodgson, F. Myers e outros menos conhecidos, parece entrarem conosco em comunicação constante, com a idéia bem determinada e expressa de pacientemente nos demonstrar sua identidade e nos permitir a verificação recíproca de médiuns estranhos entre si. Achamos, igualmente, que suas respostas a perguntas especiais são dadas por forma que caracteriza sua bem conhecida personalidade e revela conhecimentos que eram de sua competência.
A cross'correspondence ' acrescenta Sir Lodge ' isto é, parte de uma comunicação recebida por um médium e outra parte por outro médium, não podendo cada uma dessas partes ser compreendida sem o complemento da outra, constitui excelente prova de que uma mesma inteligência opera nos dois automatistas. Se, além disso, a mensagem traz os característicos de uma pessoa falecida e a esse titulo é recebida por pessoas que não a conheciam intimamente, pode ver'se nesse fato a prova da persistência da atividade intelectual dessa pessoa. Se dela, finalmente, recebemos um trecho de crítica literária que está eminentemente em seu feitio e não poderia provir de indivíduos ordinários, então eu declaro que tal prova é de todo ponto concludente, com tendência a adquirir o caráter de crucial. Tais são as espécies de provas que a sociedade pode comunicar sobre esse ponto. As fronteiras entre os dois estados, o presente e o futuro, são ainda apreciáveis, mas tendem a esbater'se gradualmente.
Tal como, em meio do estrépito das águas e dos vários ruídos, durante a perfuração de um túnel, percebemos de quando em quando o rumor dos escavadores que do outro lado se encaminham para nós, assim ouvimos, a intervalos, a percussão de nossos camaradas que passaram para o Além."
A isso não se limitaram os ingleses, dado o espírito de iniciativa que lhes é próprio. Fundaram um escritório de comunicações regulares com o outro mundo, e foi o intrépido escritor W. Stead quem o instalou em Londres, a instâncias de uma amiga desencarnada, Srta. Júlia Ames. Daí a sua denominação: Escritório Júlia. Propõe'se esse Espírito vir em auxílio assim de todos os desencarnados desejosos de entrar em relação com os vivos que aqui deixaram, como dos encarnados aflitos pela perda de um ente caro. Para ser admitido a solicitar comunicação, Júlia, que dirige pessoalmente as sessões, só exige duas coisas: afeição lícita e sincera entre o vivo e o morto, e estudo prévio do problema espírita. Nenhuma retribuição é por ela admitida. O postulante, uma vez tomado em consideração seu pedido, é levado à presença de três médiuns diferentes, e todos os resultados são registrados. Esse escritório já conseguiu, desde a sua fundação, estabelecer numerosas relações com o invisível.
"Lançou uma ponte de uma a outra margem do túmulo", disse com alguma razão W. Stead. A clientela do Escritório Júlia é, sobretudo, composta de pessoas ilustres e instruídas: doutores, advogados, professores, etc. Um repórter do "Daily News" escreve que acompanhou, certo dia, um bem conhecido autor, cujo nome causaria admiração saber'se ligado a esse negócio. Desejava obter ele a manifestação de um amigo falecido. Concedida por Júlia a autorização, foi ele, conforme a praxe, posto em contacto sucessivo com três médiuns, assistidos por um estenógrafo, sendo lavrada minuciosa ata de cada sessão. Numa das sessões, foi a casa de sua residência exatamente descrita, com as respectivas adjacências; numa outra, recebeu ele uma mensagem, que reconheceu provir com certeza de seu falecido amigo. Em resenha publicada no "Light", de Londres, assim se exprime o Sr. W. Stead:
"No espaço de dois anos, 500 pedidos nos vieram de toda parte. Sobre esse total, nunca viemos a saber o resultado de 126 por comunicação dos interessados; destes, 171 nos escreveram afirmando a convicção de terem sido postos em comunicação com os parentes falecidos; 80 responderam que o resultado era talvez satisfatório, mas não o podiam assegurar; 53, finalmente, declararam não ter recebido comunicações autênticas. Os êxitos foram mais numerosos do que seria licito esperar e de molde a excluir a hipótese de poder ser invocada a telepatia para explicar as mensagens obtidas. Os postulantes declararam que, quando fixavam a atenção num assunto, nunca era esse o explanado, e as provas obtidas não eram as que as perguntas reclamavam. A telepatia, portanto, não pode explicar tais fatos." O estudo desses fenômenos demonstra que os médiuns escreventes devem ser classificados em três categorias, segundo a natureza de suas faculdades. São eles:
1.0 ' puramente autômatos. Não têm consciência do que escrevem; só o braço lhes é influenciado; seus movimentos são bruscos e sacudidos, e eles têm às vezes certa dificuldade em ler o que obtiveram. Essa faculdade é a que maior garantia oferece, não sendo o médium mais que um instrumento, ou, antes, um agente passivo, cujo pensamento e vontade se conservam independentes dos movimentos da mão. 2.0 ' Escreventes semimecãnicos, nos quais o cérebro e a mão são igualmente impressionados. Têm consciência do que escrevem, e as palavras lhes acodem à mente no próprio momento em que são lançadas no papel. 3.0 ' Escreventes intuitivos ou inspirados, nos quais só o cérebro é influenciado. Essa faculdade é incerta, às vezes ilusória, porque os pensamentos do indivíduo se misturam freqüentemente com os do inspirador oculto, e é difícil distingui'los uns dos outros. Dai a hesitação de certos médiuns dessa natureza. Não devem eles, todavia, desprezar esse modo de trabalho, que se aperfeiçoa com o exercício e pode tornar'se com o tempo precioso método de comunicação.
Temos muitas vezes notado este fato na mediunidade intuitiva. A parte de intervenção intelectual do médium, considerável ao começo nas comunicações, a tal ponto que se chega a duvidar do próprio caráter dessa faculdade, diminui pouco a pouco, e a parte de intervenção do Espírito aumenta gradualmente, até tornar'se preponderante. Sempre se encontrarão, nas comunicações obtidas, termos, expressões, construções de frases familiares ao médium, dos quais faz ele habitual emprego, mas a originalidade, a divergência das idéias e opiniões expressas se afirmarão cada vez mais, assim como sua superioridade sobre as do sensitivo. Aos médiuns que a si mesmos quisessem porventura atribuir o mérito das comunicações obtidas, apontaremos o seguinte fato, referido pelo Capitão Bloume, em sua carta ao Sr. L. Gordy, publicada por "Le Messager", de Liège, de 15 de abril de 1900:
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.