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Capítulo 19 de 52

Segunda Parte — parte 3 de 9

No Invisível · Léon Denis

Esses casos são múltiplos e jamais se poderia explicá'los pela teoria da alucinação. Neles há relação de causa e efeito. A morte coincide com as aparições, e estas são demasiado numerosas para que se possam considerar as coincidências como produto do acaso. As vozes que se ouvem são de pessoas que se acham longe; as visões representam figuras conhecidas; as roupas, verifica'se que são tais quais as que as pessoas vestiam na ocasião. Particularidade digna de nota: cães e cavalos se mostram assustados e inquietos à aproximação dos fenômenos, dos quais parece terem a visão ou o pressentimento, muito tempo antes que sejam perceptíveis ao homem. Os fenômenos devidos à exteriorização ou ação extracorpórea da alma humana foram estudados com atenção e classificados por Aksakof sob a denominação geral de animismo. Esse erudito observador quis estabelecer uma distinção formal entre esses fatos e as manifestações dos denominados mortos. Tal distinção, realmente, não existe; esses fatos, como veremos adiante, são sempre idênticos quer antes, quer depois da morte.

A alma do homem pode, exatamente como a alma desencarnada, atuar sobre médiuns, ditar comunicações, avisos, tanto por escrito como por meio de mesinhas, provocar deslocações de objetos materiais, aparecer a grande distância de seu próprio corpo, e impressionar chapas fotográficas. Allan Kardec consagrou um capítulo inteiro de "O Livro dos Médiuns" (82) aos estudos das aparições de vivos. Esses fenômenos, pois, não eram ignorados pelos espíritas, como se tem pretendido, e Aksakof, em "Animismo e Espiritismo", apenas confirmou o que muito antes dele já havia sido reconhecido. Experiências mais recentes têm demonstrado a possibilidade, para certos indivíduos, de se desdobrarem parcialmente, de materializarem determinadas partes de sua forma fluídica e produzirem vários fenômenos.

Médiuns, como Eusápia Paladino e Eglinton, têm provocado, a muitos metros de distância e sem contacto físico, a deslocação de corpos inertes em plena luz e deixado impressões de seus membros fluídicos em substâncias moles: argila, parafina ou papel enegrecido ao fumo. (83) Não nos seria lícito deixar de mencionar ainda os casos de incorporação de vivos no organismo de médiuns adormecidos. Esse gênero de manifestações introduz quase sempre um elemento de confusão e erro nos fenômenos de "transe", e é preciso uma experiência consumada para os não confundir com as manifestações dos desencarnados. ' Com efeito, os vivos incorporados em um organismo estranho nem sempre têm a noção perfeita de sua verdadeira situação. Aqui está um exemplo que demonstra quanto é necessário, no curso de tais experiências, ter sempre a máxima atenção: Durante três anos consecutivos, pôde o Espírito de um vivo manifestar'se, por via de incorporação, no grupo que dirigíamos em Tours, sem que o pudessem distinguir dos Espíritos desencarnados que intervinham habitualmente em nossas sessões.

Os pormenores mais positivos nos eram, entretanto, por ele fornecidos acerca de sua identidade. Dizia chamar'se B., e havia sido sacristão da vila de D., na Sarthe. A voz arrastada, o gesto lento e fatigado, a atitude curvada contrastavam com as atitudes e gestos próprios do médium e dos outros Espíritos familiares. Nós o reconhecíamos logo às primeiras palavras proferidas. Punha'se ele então a narrar por miúdo os menores incidentes de sua vida, as admoestações do cura, por motivo de sua preguiça e das bebedeiras que tomava, o mau estado da igreja e dos paramentos confiados aos seus cuidados, e até suas infrutíferas pesquisas no Espaço, a fim de encontrar a confirmação do que lhe havia sido ensinado! ' Tudo nele ' propósitos, recordações, pesares ' nos dava a firme convicção de estarmos tratando com um desencarnado. Não pequena foi por isso a surpresa que experimentamos, quando um membro do nosso grupo, tendo ido à indicada região e sido encarregado de proceder a uma pesquisa, nos informou que B. ainda pertencia a este mundo.

Tudo o que nos havia ele dito, era, ao demais, exato. Nosso secretário o pôde ver e conversar com ele. Achando'se velho e cada vez mais dado à preguiça e à embriaguez, tivera que abandonar suas funções. Todas as noites, às primeiras horas, se deitava e adormecia profundamente. Podia assim exteriorizar'se, transportar'se até junto de nós e incorporar'se em um dos nossos médiuns, a quem o prendiam laços de afinidade cuja causa se nos conservou sempre ignorada. Pergunta'se como pode a alma dos vivos chegar a produzir, durante o sono, fenômenos tão surpreendentes quão complexos. Em certos casos as aparições, as materializações, exigem uma força considerável, um profundo conhecimento do que chamaremos a química espiritual; e fica'se maravilhado de que, apenas afastada de seu envoltório carnal, possa a alma apreender as suas leis. Parece que a energia necessária para produzir esses fenômenos é haurida no corpo físico, a que se acha ligada a forma fantástica por uma espécie de cordão fluídico, seja qual for a distância a que se encontre.

A existência desse laço é atestada pelos videntes e confirmada pelos Espíritos. Tão sutil é ele que, a cada sensação um pouco viva que afete o corpo material, a alma, bruscamente atraída, retoma posse deste imediatamente. Esse ato constitui o despertar. Convém não esquecer que o espírito dirige a matéria. A alma dispõe a seu talante dos elementos imponderáveis da Natureza, com os quais constrói, a princípio, o corpo fluídico, modelo estrutural do corpo físico, e depois forma este com o auxílio dos elementos terrestres, que reúne e assimila. Durante o sono normal, como no sono magnético, o laço que une os dois corpos se afrouxa, sem se quebrar. Os dois invólucros ficam separados. Se, ao afastar'se, o corpo fluídico absorve a necessária energia, pode condensar'se, solidificar'se, atuar sobre a matéria, produzir sons, ruídos, tornar'se até visível. O grande motor em tudo isso é a vontade. Essa faculdade é criadora; e o demonstram os fenômenos de sugestão, mediante os quais a vontade interveniente pode ocasionar profundas modificações no corpo humano.

Assim, o Espírito pela ação mental pode imprimir à matéria sutil as formas, os atributos, as aparências de trajos, de roupas que permitirão reconhecê'lo. Além disso, na maioria dos casos, o manifestante é assistido por amigos invisíveis, como evidentemente o prova a intervenção do Espírito John King nas sessões de Eusápia, e Abdullah nas de Eglinton, etc. Os habitantes do Espaço em geral possuem experiência e conhecimento mais extenso das coisas desse meio. Grande é a sua força de vontade, e eles podem auxiliar eficazmente a produção de certos fatos telepáticos, que o manifestante não seria capaz de realizar sem o concurso deles.

Todos os fenômenos que acabamos de descrever pertencem ao domínio das observações. Podem'lhes ser, entretanto, acrescentados fatos de experiência, provocados voluntariamente, e que permitem verificar simultaneamente a presença do corpo material e a do duplo fluídico da alma em dois lugares diferentes. Aí j á não há que recorrer ao acaso nem a coincidências fortuitas. O resultado a obter, previamente indicado pelo experimentador, é alcançado mediante processos e em condições que desafiam toda crítica. São numerosos esses fatos, dentre os quais indicaremos os seguintes: O Sr. Desmond'Fitz'Gérald, engenheiro, tomou parte em uma experiência decisiva. O Espírito de uma jovem, exteriorizado durante o sono, foi enviado a sua casa e aí se materializou. Sua presença foi reconhecida por diversas pessoas, uma das quais se sentiu tocar pelo fantasma, o que lhe produziu um grande terror (84). É uma experiência de desdobramento com resultado positivo. A Sra. De Morgan, esposa do professor a quem se deve a obra intitulada "From matter to Spirit", hipnotiza uma senhorita e ordena ao seu duplo exteriorizado que vá bater à porta da rua.

As pancadas foram ouvidas por várias pessoas, que abriram imediatamente aquela porta e verificaram que a rua se achava deserta. (85) Podem'se encontrar em certas obras e revistas numerosos casos em que pessoas vivas, evocadas durante o sono, vêm dar, utilizando' se de médiuns, comunicações que encerram provas de identidade. (86) A esses fatos acrescentaremos os de reproduções fotográficas de duplos ou fantasmas de vivos exteriorizados. O testemunho é em tal caso irrecusável, e nenhuma ilusão é possível. Não se poderia suspeitar a chapa sensível de estar sujeita a alucinações. O professor Istrati, membro do Conselho de Ministros da România, concentrando a própria vontade antes de adormecer, pôde exteriorizar'se, aparecer ao Doutor Hasden, senador romeno, a mais de 50 quilômetros de distância, e por ele se fazer fotografar em espírito.

Na chapa distingue'se a imagem fluídica do professor, encarando o obturador do aparelho. (87) Uma certeza resulta deste conjunto de fatos; é que a alma humana, ao contrário do que pretendem os materialistas, não é uma resultante do organismo, transitória como ele, uma função do cérebro, que se aniquile por ocasião da morte, mas um ser em si mesmo real, independente dos órgãos. Sua ação se pode exercer fora dos limites do corpo; a alma pode transmitir a outros seres seus pensamentos, suas sensações, e mesmo desdobrar'se e aparecer em sua forma fluídica. Sobranceira às leis do tempo e do espaço, ela vê, a distância, e se transporta ao longe; lê no passado e pode penetrar o futuro. A existência da alma se revela, conseguintemente, por fatos. O corpo não é uma condição indispensável de sua existência, e se a ele se acha ligada durante a passagem terrestre, esse laço é apenas temporário.

Depois de sua separação do organismo físico ela continua a manifestar'se por fenômenos de ordem espírita, cujo estudo fará o objeto dos capítulos que se vão seguir. O estudo da alma exteriorizada durante a vida nos conduz assim ao estudo de suas manifestações depois da morte. As leis que regem esses fenômenos são idênticas. A exteriorização não é mais que uma preparação do Espírito para o estado de liberdade, para essa outra forma de existência em que ele se encontra desembaraçado dos liames da matéria. Não será dos menores títulos de glória desse Espiritismo, tanto tempo repudiado, o haver ensinado a alma humana a estudar'se em suas profundezas, a entreabrir o espesso véu que ocultava o segredo de sua natureza e de sua grandeza insuspeita.

XIII ' Sonhos premonitórios. Clarividência. Pressentimentos

Nas páginas que precedem tocamos apenas ligeiramente na questão dos sonhos. Este assunto reclama outra explicação. Os sonhos, em suas variadas formas, têm uma causa única: a emancipação da alma. Esta se desprende do corpo carnal durante o sono e se transporta a um plano mais ou menos elevado do Universo, onde percebe, com o auxílio de seus sentidos próprios, os seres e as coisas desse plano. Podem dividir'se os sonhos em três categorias principais Primeiramente, o sonho ordinário, puramente cerebral, simples repercussão de nossas disposições físicas ou de nossas preocupações morais. É também o reflexo das impressões e imagens arquivadas no cérebro durante a vigília; na ausência de qualquer direção consciente, de toda intervenção da vontade, elas se desenvolvem automaticamente ou se traduzem em cenas indecisas, destituídas de coordenação e de sentido, mas que permanecem gravadas na memória. O sofrimento em geral e, particularmente, certas enfermidades, facilitando o desprendimento do Espírito, aumentam ainda mais a incoerência e intensidade dos sonhos.

O Espírito, obstado em seu surto, empuxado a cada instante para o corpo, não se pode elevar. Daí ' o conflito entre a matéria e o princípio espiritual, que reciprocamente se influenciam. As impressões e imagens se chocam e confundem. No primeiro grau de desprendimento, o Espírito flutua na atmosfera, sem se afastar muito do corpo; mergulha, por assim dizer, no oceano de pensamentos e imagens, que de todos os lados rolam pelo espaço, deles se impregna, e ai colhe impressões confusas, tem estranhas visões e inexplicáveis sonhos; a isso se mesclam às vezes reminiscências de vidas anteriores, tanto mais vivazes quanto mais completo é o desprendimento, que assim permite entrarem em vibração as camadas profundas da memória. Esses sonhos, de infinita diversidade, conforme o grau de emancipação da alma, afetam sobretudo o cérebro material, e é por isso que deles conservamos a lembrança, ao despertar. Por último vêm os sonhos profundos, ou sonhos etéreos.

O Espírito se subtrai à vida física, desprende'se da matéria, percorre a superfície da Terra e a imensidade, onde procura os seres amados, seus parentes, seus amigos, seus guias espirituais. Vai, não raro, ao encontro das almas humanas, como ele desprendidas da carne durante o sono, com as quais se estabelece uma permuta de pensamentos e desígnios. Dessas práticas conserva o Espírito impressões que raramente afetam o cérebro físico, em virtude de sua impotência vibratória. Essas impressões se gravam, todavia, na consciência, que lhes guarda os vestígios, sob a forma de intuições, de pressentimentos, e influem, mais do que se poderia supor, na direção da nossa vida, inspirando os nossos atos e resoluções. Dai o provérbio: "A noite é boa conselheira." Na "Revue Spirite" de 1866, pág. 172, Allan Kardec fala do desprendimento do Espírito de uma jovem de Lião, durante o sono, e de sua vinda a Paris, em meio de uma reunião espírita em que se achava sua mãe:

"O médium, em estado de transe, vai a Lião, a pedido de uma senhora presente, ao aposento de sua filha, que descreve fielmente. A moça está adormecida; seu Espírito, conduzido por um guia espiritual, se aproxima de sua mãe, a quem vê e ouve. para ela um sonho, diz o guia do médium, de que, ao despertar, não guardará lembrança clara; conservará apenas o pressentimento do bem que se pode auferir de uma crença firme e pura. Ela faz sentir a sua mãe que, se pudesse recordar'se tão bem de suas precedentes encarnações, no estado normal, como se lembra agora, não permaneceria muito tempo na situação estacionária em que se encontra. Porque vê claramente e sente'se capaz de progredir sem hesitação; ao passo que no estado de vigília nós temos uma venda sobre os olhos. "Obrigada ' diz ela aos assistentes ' por vos terdes ocupado comigo."

Em seguida, abraça sua mãe. 0 médium acrescenta, ao terminar: "Ela sente'se feliz com esse sonho, de que se não há de lembrar, mas que nem por isso lhe deixará de produzir salutar impressão." Algumas vezes, quando suficientemente purificada, a alma, conduzida por Espíritos angélicos, chega em seus transportes a alcançar as esferas divinas, o mundo em que se geram as causas. Aí paira, sobranceira ao tempo, e vê desdobrarem'se o passado e o futuro. Se acaso comunica ao invólucro humano um reflexo das sensações colhidas, poderão estas constituir o que se denomina sonho profético.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.