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Capítulo 45 de 52

Terceira Parte — parte 2 de 9

No Invisível · Léon Denis

Uma eficaz proteção oculta, vínhamos dizendo, é a condição essencial de bom êxito no domínio da experimentação. Nenhum grupo a poderia dispensar. Os fatos mostram, e todos os médiuns que têm publicado suas impressões e memórias o atestam. A Sra. d'Espérance dedica seu livro, "No País das Sombras", a seu guia espiritual, Hummur Stafford, "cuja mão diretora, posto que invisível, e cujos sábios conselhos foram seu amparo e conforto na travessia da vida". A Sra. Piper, enfraquecida e adoentada pelo contacto de Espíritos inferiores, deveu seu restabelecimento e a boa direção de seus trabalhos à enérgica e vigorosa intervenção dos Espíritos Imperator, Doctor e Rector. Graças a eles, de confusas que eram, as experiências dentro em pouco se tornaram claras, convincentes. (255) Poder'se'iam multiplicar esses exemplos. Allan Kardec constituiu a doutrina espírita com o auxílio de revelações emanadas de Espíritos superiores. Em nosso próprio grupo, graças à influência de Espíritos elevados, foi que obtivemos os magníficos fenômenos relatados páginas atrás.

E verdade que só ao cabo de longo período de expectação e de perseverantes ensaios é que nos foi prestado esse concurso. Nessa ordem de fatos obtém'se o que se soube merecer por uma paciência posta por muito tempo à prova e por um desinteresse absoluto. Na experimentação achamo'nos em presença de Inteligências estranhas, de Vontades que muitas vezes sobrepujam a nossa e pouco se inquietam com as nossas exigências e caprichos. Elas perscrutam o nosso foro íntimo, e é preciso saber captar'lhes a confiança e o amparo, mediante Intenções puras e generosos propósitos. Essa proteção que pairava sobre o nosso grupo e persistiu por todo o tempo em que nos conservamos unidos de coração e em pensamento, eu a tinha encontrado sempre em meu tirocínio de conferencista, e sinto'me feliz em o poder testemunhar aqui, agradecendo'a, de ânimo sincero e comovido, a esses nobres amigos do Espaço, cuja assistência me tem sido tão preciosa nos momentos arriscados.

Mais de uma vez, na ocasião de comparecer perante um público descrente, quase hostil, e de ter que explanar, diante de salas repletas, assuntos assaz controvertidos, encontrei'me nas mais desfavoráveis condições físicas. E de cada vez também, há meu instante apelo, vinham os meus guias invisíveis restituir'me as forças indispensáveis ao desempenho de minha tarefa. Vê'se quão necessária é nas sessões a proteção de um guia sério, valoroso, esclarecido. Quando o guia é inapto, as dificuldades se multiplicam e são numerosas as mistificações. Os Espíritos levianos se imiscuem com os Espíritos de nossa família, cujas manifestações perturbam. Intrusos, de uma imprudência revoltante, se insinuam às vezes nas reuniões. O professor Falcomer, em sua "Phénoménographie" (256), refere um caso em que "a manifestações piedosas sucedeu uma linguagem ímpia ditada por pancadas da mesa, e dirigida a três senhoras e uma mocinha. Era a linguagem de um ser impudente e abjeto, e é impossível transcrevê'la". A mãe do professor e os outros assistentes ficaram seriamente aborrecidos.

A ação de Espíritos malignos e de baixa classe não lança unicamente o ridículo e o descrédito sobre a nossa causa, dela afastando as pessoas escrupulosas e bem educadas; impele ainda os médiuns à fraude e, com o tempo, vem a corromper'lhes o senso e a dignidade. Começam os assistentes rindo e divertindo'se com as respostas cínicas ou extravagantes desses Espíritos; mas, por isso mesmo, os atraem; e esses incômodos visitantes, a quem assim abre a porta, voltam, agarram'se aos que lhes dão acesso e tornam'se não raro temíveis obsessores.

O Espiritismo, por uns considerado perigoso, por outros vulgar e pueril, quase só é conhecido pelo povo sob seus aspectos inferiores. São os fenômenos mais materiais que atraem de preferência a atenção e provocam apreciações desfavoráveis. Esse estado de coisas é devido aos teoristas e vulgarizadores que, vendo no Espiritismo uma ciência puramente experimental, descuram ou repelem por sistema, algumas vezes com desdém, os meios de cultivo e elevação mental indispensáveis para se produzirem manifestações verdadeiramente imponentes entre o estado físico vibratório dos experimentadores e o dos Espíritos suscetíveis de produzir fenômenos de grande alcance, e nada se faz no sentido de atenuar essas diferenças. Daí a penúria de altas manifestações comparadas à abundância dos fenômenos vulgares. O resultado é que inúmeros críticos, só conhecendo da questão a sua face terra'a'terra, constantemente nos acusam de edificar sobre fatos mesquinhos uma doutrina demasiado ampla. Mais familiarizados com o aspecto transcendental do Espiritismo, reconheceriam que nada exageramos; ao contrário, nos temos conservado abaixo da verdade.

Quaisquer que sejam as relutâncias dos teóricos positivistas e "antimisticos", forçoso será ter em conta as indicações dos homens competentes, sem o que viria a fazer'se do Espiritismo mísera ciência, cheia de obscuridades e perigosa para os investigadores. O amor da ciência não basta, disse o professor Falcomer; é indispensável a ciência do amor. Nos fenômenos não temos que nos haver unicamente com elementos físicos, mas com agentes espirituais, com entidades morais, que, como nós, pensam, amam, sofrem. Nas profundezas invisíveis, a imensa hierarquia das almas se desdobra, das mais obscuras às mais radiosas. De nós depende atrair umas e afastar as outras. O único meio consiste em criarmos em nós, por nossos pensamentos e atos, um foco irradiador de luz e de pureza. Toda comunhão é obra do pensamento. O pensamento é a própria essência da vida espiritual. É força que vibra com intensidade crescente, à medida que a alma se eleva, do ser inferior ao Espírito puro e do Espírito puro até Deus.

As vibrações do pensamento se propagam através do espaço e sobre nós atraem pensamentos e vibrações similares. Se compreendêssemos a natureza e a extensão dessa força, não alimentaríamos senão altos e nobres pensamentos. Mas o homem se ignora ainda, como ignora as imensas capacidades desse pensamento criador e fecundo que nele dormita e com o qual poderia renovar o mundo. Em nossa fraqueza e inconsciência, atraímos na maior parte das vezes Espíritos maus, cujas sugestões nos perturbam. E assim que a comunicação espiritual, em conseqüência de nossa inferioridade, se obscurece e desvirtua; fluidos corrompidos se espalham pela Terra, e a luta entre o bem e o mal se empenha no mundo oculto como no mundo material. Na atração dos pensamentos e das almas consiste integralmente a lei das manifestações psíquicas. Tudo é afinidade e analogia no Invisível. Investigadores que sondais o segredo das trevas, elevai bem alto, pois, os pensamentos, a fim de atrairdes os gênios inspiradores, as forças do bem e do belo.

Elevai'os, não somente nas horas de estudo e experiências, mas freqüentemente, a todas as horas do dia, como um exercício regenerador e salutar. Não esqueçais que são esses pensamentos que vão lentamente eternizando e purificando o nosso ser, engrandecendo as nossas faculdades e tornando'nos aptos a experimentar as mais delicadas sensações, fonte de nossas felicidades futuras.

O problema da mediunidade tem permanecido obscuro e incompreendido para a maioria dos psicologistas e teólogos de nossa época. O passado possuía a esse respeito lúcidas noções, e mesmo na Idade Média alguns homens, herdeiros da sabedoria antiga, apreciaram com justeza essa questão. No século XII, Maimônides, o douto rabino judeu de Córdova, discípulo de Averrhoes, inspirando' se nas doutrinas da Cabala, resumia nestes termos a lei da mediunidade:

"O Espírito paira sobre a Humanidade, até encontrar o lugar de sua morada. Nem toda natureza lhe é propicia; sua luz só pousa e permanece no homem prudente, são e esclarecido. Quem quer que aspire às honras do sublime comércio deve consagrar'se a aperfeiçoar sua natureza, por dentro como por fora. Amigo da solidão, leva consigo os livros sagrados, ali prolonga suas vigílias e meditações, sacia sua alma de ciência e de virtude. Suas refeições são reguladas; sua comida e bebida; escolhidas, a fim de que em seu corpo sadio e em sua carne convenientemente renovada haja um sangue generoso. Então está tudo pronto: o forte, o precavido, o sábio será profeta ou vidente, desde que o Espírito o encontre em seu caminho." (257)

Tem, pois, o homem que se submeter a uma complexa preparação e observar uma regra de conduta, para em si desenvolver o precioso dom da mediunidade. É necessária para isso a cultura simultânea da inteligência, a meditação, o recolhimento, o desprendimento das humanas coisas. O Espírito inspirador detesta o ruído: "Deus não habita o tumulto", diz a Escritura. Um provérbio árabe o repete: "O ruído é dos homens; o silêncio é de Deus." E aperfeiçoar'se por dentro e por fora", afirma o sábio judeu. As companhias vulgares são, com efeito, nocivas à mediunidade, em razão dos fluidos impuros que se desprendem das pessoas viciosas e se adaptam aos nossos, para os neutralizar. É preciso também velar pelo corpo: "Mens sana in corpore sano." As paixões carnais atraem os Espíritos de lascívia; o médium, que a elas se abandona, avilta o seu precioso dom e termina perdendo'o. Nada enfraquece tanto as altas faculdades de entregar'se ao amor sensual, que enerva o corpo e perturba as límpidas fontes de inspiração.

Do mesmo modo que o lago mais puro e mais profundo, quando o agita a tempestade, que lhe revolve o lodo e o faz subir à superfície, cessa de refletir o azul do céu e o esplendor das estrelas, assim também a alma do médium, turbada por impuros movimentos, se torna inapta para reproduzir as visões do Além. Há nas íntimas profundezas, nos recessos ignorados de toda consciência, um ponto misterioso por onde cada um de nós se íntegra no invisível, no divino. Esse ponto que cumpre descobrir, ampliar, engrandecer; é essa infraconsciência que desperta no transe, como um mundo adormecido, e patenteia o segredo das vidas anteriores da alma. É a grande lei da psicologia espírita, unindo e conciliando, no fenômeno mediúnico, a ação do Espírito e a liberdade do homem; é o ósculo misterioso resultante da fusão de dois mundos nesse frágil e efêmero ser que somos nós; é um dos mais nobres privilégios, uma das grandezas mais reais da nossa natureza. Sublimes deveres e extensas responsabilidades acarreta a alta mediunidade. "Muito se pedirá a quem muito recebeu."

Os médiuns são desse número. Seu quinhão de certeza é maior que o dos outros homens, pois que vivem por antecipação no domínio do invisível, ao qual os prende um laço cada vez mais apertado. Um prudente exercício de suas faculdades os elevará às esferas luminosas do Além, e aí lhes prepara sua futura situação. No ponto de vista físico não é menos salutar esse exercício. O médium se banha, se retempera num oceano de eflúvios magnéticos que lhe dão poder e força. Em compensação, tem que cumprir imperiosos deveres e não deve esquecer que suas faculdades lhe não são outorgadas para si próprio, mas para o bem de seus semelhantes e para o serviço da verdade. É uma das mais nobres tarefas que possam caber a uma alma neste mundo. Para a desempenhar, deve o médium aceitar todas as provas, saber perdoar todas as ofensas, esquecer todas as injúrias. Seu destino será, talvez, torturado, mas é o mais belo porque conduz às culminâncias da espiritualidade. No percurso extensíssimo da História, a vida dos maiores médiuns e profetas lhe oferece o exemplo do sacrifício e da abnegação.

XXIII ' Hipótese é Objeções

Em matéria de Espiritismo, são numerosas as objeções e teorias adversas. Temo'las, em sua maior parte, examinado no curso deste século. Vimos, por exemplo, que a teoria das alucinações é insustentável depois da obtenção de fotografias das aparições, dos moldes em parafina, dos fenômenos de escrita e assinatura, reconhecidamente autênticas, de sobrevivos. A teoria da subconsciência, também denominada inconsciente ou consciência subliminal, foi refutada nos capítulos XVIII e XIX, a propósito da grafia mediúnica e das incorporações. Certo é que também a aplicam aos fenômenos produzidos com a mesa, nomeadamente quanto aos fatos de tiptologia obtidos por Victor Hugo em sua própria casa e que referimos no capítulo XVIII. Não poucos são os críticos refratários a admitir nos versos ditados pela mesa outra coisa mais que inconscientes produções do grande vate. Aqueles versos, dizem, são de fatura idêntica à dele; anima'os a mesma vigorosa inspiração. A insuficiência, porém, de semelhante explicação fica demonstrada pela análise dos fatos. Victor Hugo jamais se sentava à mesa.

Confessava não poder improvisar, em verso, ao passo que os Espíritos pediam que os interrogassem desse modo e desse modo respondiam imediatamente, sem hesitação nem pausa de memória. Quando um dia, anuindo aos seus desejos, prepara de antemão uma pergunta endereçada ao Espírito Molière, este emudece; a "Sombra do Sepulcro" é que responde em termos acres, constituindo acerba lição para o poeta, que se retira da sala indignado com o desembaraço dos Espíritos. Podia Victor Hugo ser ao mesmo tempo consciente e inconsciente e agir extrapessoalmente sem o querer? O Inconsciente, que a si mesmo se ignora, não pode ser um determinativo de ação. Ora, todos os fenômenos espíritas representam formas de atividade, reguladas pela consciência, em que não se podem associar dois princípios opostos, a ação e a inação. Pretendê'lo, não seria menos que resvalar no absurdo! O mesmo acontecia aos assistentes. Nenhum deles cogitava de provocar o sono e, por conseguinte, o desdobramento. Ninguém previa as respostas da mesa. Todos aguardavam ansiosos as frases que iria ditar.

O esperado era, Molière, que Victor Hugo acabava de interrogar. Se o inconsciente do poeta, estimulado por essa expectativa, tivesse que intervir, a resposta do grande satírico é que teria vindo. Ora, foi, como o dissemos, a "Sombra do Sepulcro", numa linguagem áspera e solene, que se manifestou em termos deprimentes que Victor Hugo, em seu orgulho, jamais se lembraria certamente de a si mesmo dirigir em presença de testemunhas. Nem somente em verso o misterioso Espírito se exprime. Sua prosa é também magnífica e austera, como se pode ajuizar por este fragmento, ditado pela mesa numa outra sessão (258)

"Dizes tu, imprudente: a sombra do sepulcro emprega a linguagem humana; serve'se de palavras, metáforas, figures e mentiras, para dizer a verdade; a sombra do sepulcro não é um simulacro, tens razão; eu sou uma realidade. Se desço a falar vossa algaravia, é porque sois limitados. A palavra é o grilhão do Espírito; a imagem é a golilha do pensamento; vossa linguagem é um ruído enfeixado num dicionário; minha língua própria é a imensidade, é o oceano, é o tufão; minha biblioteca contém milhões de estrelas, milhões de planetas e de constelações. O infinito é o livro supremo e Deus é o leitor eterno. Agora, se queres que te fale a minha linguagem, sobe ao Sinai e me ouvirás nos relâmpagos; sobe ao Calvário e me verás em resplendores; desce ao túmulo e hás de sentir'me na clemência." Eis um fato, ao demais, que demonstra quão Impotente é a teoria da subconsciência para explicar os fenômenos obtidos em casa de Victor Hugo. O "Gaulois", de 10 de janeiro de 1906, publicou, sob a epígrafe "O canhenho de um materialista", um trecho das memórias do Sr. E. Blum, de que destacamos a seguinte anedota:

"Victor Hugo confessava acreditar firmemente no Espiritismo e conservou essa crença até à morte. Seus dois filhos, bem como seus grandes amigos Augusto Vacquerie e Paulo Maurice nele também criam. Vacquerie me referiu uma coisa extraordinária: Certa noite de Inverno, em Guernesey, faziam'se as experiências de mesa giratória. Estavam presentes, o grande poeta, seus dois filhos e Vacquerie. Carlos Hugo é que servia de médium; interrogava a mesa e comunicava as respostas obtidas. De repente, deu um grito de dolorosa surpresa. ' "Oh! ' exclamou ' Os Espíritos me dão uma horrível noticia: a Sra. De Girardin acaba de falecer neste momento." Consultaram o relógio: eram 10 horas. A Sra. De Girardin, justamente nessa manhã, escrevera comunicando que pretendia passar alguns dias em Guernesey com o seu grande amigo Hugo, e era, portanto, esperada a sua visita. No dia seguinte chegou uma carta anunciando o falecimento da Sra. De Girardin. Ninguém o poderia saber em Guernesey, onde o telégrafo a esse tempo não funcionava Carlos Hugo o ignorava, como todos, e ' coisa curiosa ' a Sra. De Girardin falecera com efeito na véspera, às 10 horas. Essa história sempre me impressionou singularmente, porque era difícil pôr'lhe em dúvida a veracidade, com testemunhas semelhantes."

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.