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Capítulo 44 de 52
Terceira Parte — parte 1 de 9
No Invisível · Léon Denis
Grandezas e misérias da mediunidade
XXII ' Prática e perigos da mediunidade XXIII ' Hipóteses e objeções. XXIV ' Abusos da mediunidade XXV ' O martirológio dos médiuns XXVI ' A mediunidade gloriosa
XXII ' Prática e perigos da mediunidade
Depois de haverem longo tempo negado a realidade dos fenômenos espíritas, numerosos contraditores, subjugados pela evidência, mudou agora de tática e afirmam: Sim, o Espiritismo é verdadeiro, mas a sua prática é inçada de perigos. Não se pode contestar que o Espiritismo ofereça perigos aos imprudentes que, sem estudos prévios, sem preparo, sem método nem proteção eficaz, se entregam às investigações ocultas. Fazendo da experimentação um passatempo, uma frívola diversão, atrai os elementos inferiores do mundo invisível, de cujas influências fatalmente padecem. Esses perigos, entretanto, têm sido muito exagerados. Em todas as coisas há precauções a adotar. A Física, a Química e a Medicina exigem também prolongados estudos, e o ignorante que pretendesse manipular substancia químicas, explosivos ou tóxicos, poria em risco a saúde e a própria vida. Não há uma só coisa, conforme o uso que dela fizermos, que não seja boa ou má. É sempre injusto salientar o lado mau das práticas espíritas, sem assinalar os benefícios que delas resultam e que sobrepujam consideravelmente os abusos e as decepções.
Nenhum progresso, nenhuma descoberta se efetua sem perigos. Se ninguém tivesse, desde a origem dos tempos, ousado aventurar'se no Oceano, porque a navegação é arriscada, que teria daí resultado? A Humanidade, fragmentada em diversas famílias, permaneceria insulada nos continentes e teria perdido todo o proveito que aufere das viagens e permutas. O mundo invisível é também um vasto e profundo oceano semeado de escolhos, mas repleto de vida e de riqueza. Por trás da cortina do além'túmulo se agitam multidões inúmeras que temos interesse em conhecer, porque são depositárias do segredo de nosso próprio futuro. Daí a necessidade de estudar, de explorar esse mundo invisível e ponderar'lhe as forças, os inexauríveis recursos que contém, recursos ao pé dos quais os da Terra parecerão um dia bem restritos. Quando mesmo, ao demais, nos desinteressemos do mundo invisível, nem por isso ele se desinteressaria de nós. Sua ação sobre a Humanidade é constante. Estamos submetidos às suas influências e sugestões.
Querer ignorá'lo é conservar'se inerme diante desse mundo, ao passo que, por um estudo metódico, aprendemos a atrair as forças benfazejas, os socorros, as boas influências que ele encerra; aprendamos a repelir as más influências, a reagir contra elas pela vontade e pela prece. Tudo depende do modo de emprego e da direção dada às nossas forças mentais. E quantos males há, cuja origem nos escapa, porque queremos ignorar essas coisas, males que poderiam ser evitados por um estudo aprofundado e consciencioso do mundo invisível! Em sua maior parte, os neuróticos e os alucinados, tratados sem êxito pela medicina oficial, não são mais que obsessos, passíveis de ser curados pelas práticas espíritas e magnéticas. (251) Deus colocou o homem no centro de um oceano de vida, de um reservatório inesgotável de forças e potência. E deu'lhe a inteligência, a razão, a consciência, para aprender a conhecer essas forças, a assenhorear'se delas e as utilizar.
Por esse exercício constante é que a nós mesmos nos desenvolveremos e chegaremos a afirmar o nosso império sobre a Natureza, o domínio do pensamento sobre a matéria, o reino dó Espírito sobre o mundo. É esse o mais elevado objetivo a que possamos consagrar a nossa vida. Em vez de afastar dele o homem, ensinemos'lhe a caminhar ao seu encontro, sem hesitação. Estudemos, escrutemos o Universo em todos os seus aspectos, sob todas as suas formas. Saber é o supremo bem, e todos os males provêm da ignorância.
As dificuldades da experimentação provêm de não possuírem os nossos contemporâneos, em geral, a mínima noção das leis psíquicas e serem, além disso, inaptos para as estudar com proveito, em virtude das disposições de espírito resultantes de péssima educação. Por sua presunção e preconceitos, como por seu escarninho cepticismo, afastam de si as influências favoráveis. Em tais condições, pode acontecer que a experimentação espírita reserve numerosas ciladas, muito mais, entretanto, aos médiuns que aos observadores. O médium é uns seres nervosos, sensíveis, impressionáveis; tem necessidade de sentir'se envolto numa atmosfera de calma, de paz e benevolência, que só a presença dos Espíritos adiantados pode criar. A prolongada ação fluídica dos Espíritos inferiores lhe pode ser funesta, arruinar'lhe a saúde, provocando os fenômenos de obsessão e possessão de que falamos. São numerosos esses casos. Allan Kardec os estudou e assinalou (252). Vários outros (253), depois dele, foram relatados por Eugênio Nus. Citaremos casos mais recentes. Alguns chegam até à loucura. Disso forjaram um argumento contra o Espiritismo.
Tais desastres, contudo, resultam simplesmente da leviandade e falta de precaução dos experimentadores, e nada provam contra o principio. Por toda a parte, no Espiritismo, ao lado do mal se encontra o remédio. E necessário ' dizíamos ' adotar precauções na prática da mediunidade. As vias de comunicação que o Espiritismo facilita entre o nosso e o mundo oculta podem servir de veículos de invasão às almas perversas que flutuam em nossa atmosfera, se lhes não soubermos opor a resistência vigilante e firme. Muitas almas sensíveis e delicadas, encarnadas na Terra, têm sofrido em conseqüência de seu comércio com esses Espíritos maléficos, cujos desejos, apetites e remorsos os atraem constantemente para perto de nós. As almas elevadas sabem, mediante seus conselhos, preservar' nos dos abusos, dos perigos, e nos guiar pelo caminho da sabedoria; mas sua proteção será ineficaz, e por nossa parte não fizermos esforços para nos melhorarmos. E destino do homem desenvolver suas forças, edificar ele próprias sua inteligência e sua consciência.
E preciso que saibamos atingir um estado moral que nos ponha ao abrigo de toda agressão das individualidades inferiores. Sem isso, a presença de nossos Guias será impotente para nos salvaguardar. Ao contrário, a luz que em torno de nós projetam atrairá os Espíritos do abismo, como a lâmpada acesa na amplidão da noite atrai as falenas, os pássaros noturnos, todos os alados habitantes da treva. Falamos das obsessões; eis aqui alguns exemplos: O médium Filipe Randone, diz "La Mediunità", de Roma (254), tem sido alvo das turbulências de um Espírito designado pelo nome de "uomo fui", que se tem esforçado várias vezes para esmagá'lo, durante a noite, sob uma pilha de móveis, que se diverte em transportar'lhe para o leito. Em plena sessão, ele se apodera violentamente de Randone e o atira ao chão, com risco de o matar. Até agora não foi possível desembaraçar o médium desse perigoso visitante.
Em compensação, a revista "Luz y Unión", de Barcelona (dezembro de 1902), refere que uma infortunada mãe de família impelida ao crime contra seu marido por uma influência oculta, acometida de acesso de furor, para cuja debelação eram de todo impotentes os recursos ordinários, foi curada em dois meses, graças à evocação e conversão do Espírito obsessor, mediante a persuasão e a prece. É evidente que análogos resultados seriam obtidos, em muitos casos, com o emprego dos mesmos processos. Em sua maioria, os Espíritos que intervêm nos fenômenos de casas mal'assombradas podem ser classificados entre os obsessões. O espectro de Valence'en'Brie (1896), que derribava os móveis na casa do Sr. Lebègeu, e cuja voz se fazia ouvir desde a adega até o sótão, injuriando os moradores, expandindo'se em palavras grosseiras e expressões indecorosas, é o tipo desses manifestantes de baixa categoria. O "Psychische Studien", de agosto de 1891, registra um caso análogo.
Uma pobre mulher de Goepingen, de 50 anos de idade, era perseguida pelo Espírito de seu marido que, depois de a haver abandonado, ausentando'se para a América e levando consigo uma outra mulher, assassinara sua amante e suicidara'se em seguida. Produziam variados e contínuos ruídos em seu quarto e impedia de dormirem os locatários vizinhos. Ela o reconhecia pela voz; e teve que. mudar várias vezes de domicílio, mas inutilmente. O Espírito a toda parte a acompanhava. Metia'se'lhe na cama durante a noite, empurrava'a com violência e puxava'lhe o cabelo. Uma ocasião queimou'a tão vivamente que durante 15 dias ela conservou o sinal da queimadura. Esses maus Espíritos são em geral apenas ignorantes, e pode'se conduzi'los ao caminho do bem pela doçura, paciência e persuasão. Também os há perversos, endurecidos e mesmo perigosos, que se não conseguiria impunemente afrontar, sem se estar munido de vontade, de fé e de moralidade. Convém repeti'lo: a lei de analogia regula todas as coisas no domínio do invisível.
Nossos contactos com o mundo ultraterrestre variam ao infinito, conforme a natureza de nossos pensamentos e de nossos fluidos, que constituem poderosos ímãs para o bem como para o mal. Mediante ele podemos associar'nos ao que há de melhor ou de pior no Além e provocar em torno de nós as manifestações mais sublimes ou os mais repulsivos fenômenos. Citemos ainda estes dois interessantes casos de obsessão, que foi possível fazer cessar mediante processos diferentes, vindo o primeiro publicado em "Annales des Sciences Psychiques", de janeiro de 1911, e atestado pelo Sr. E. Magnin, professor da Escola de Magnetismo:
"Uma senhora, ainda bem moça, que padecia dores de cabeça de origem neurastênica, ao fim de alguns anos agravadas com uma obsessão de suicídio, me veio consultar. O minucioso exame que lhe fiz revelou um organismo isento de qualquer tara física. O lado psíquico, ao contrário, deixava muito a desejar: emotivo, extravagante, facilmente sugestionável. A enferma acusava com insistência uma opressão "enlouquecedora", dizia ela, sobre a nuca, acompanhada de uma sensação de peso, às vezes intolerável, sobre os ombros; nessas ocasiões sentia'se assaltada de um desejo quase irresistível de matar'se. No curso de longa conversa me revelou ela que, antes de seu casamento, havia sido requestada por um oficial, a quem amava, mas com quem fora, por motivos de família, impedida de casar'se. Falecera este algum tempo depois, e a breve trecho começara ela a sentir essa obsessão de acabar com a vida' Aí estava indubitavelmente a origem da idéia obsidente, e um tratamento psicoterápico se impunha.
Várias sessões, em estado de vigília, foram efetuadas sem êxito; fiz em seguida experiências de reeducação na hipnose "magnética", e não obtive melhora alguma; sugestões imperativas no sono "hipnótico" também não produziram resultado apreciável. Decidi então, com anuência do marido, mas sem que o soubesse a enferma, operar com o concurso de uma médium eu vinha estudando há algum tempo e que muitas vezes me surpreendera pela nitidez das percepções visuais que o seu dom de "vidente" lhe permitia descrever'me. Não revelei à médium uma única palavra da situação e só depois de haver adormecido a enferma é que a coloquei em sua presença. Preveni'a de que lhe não faria pergunta alguma e que, por sua parte, se limitasse a descrever o mais simplesmente possível o que seu dom de vista psíquica, lhe deixasse ver. Tão depressa foi trazida ao pé da enferma, adormecida numa poltrona, descreveu um ser que parecia "agarrado" às costas da paciente.
Sem deixar perceber minha surpresa, em o interesse que despertava essa observação, pedi à vidente que indicasse a posição exata do ser invisível para mim. "Com a mão direita ' disse ' ele aperta a nuca da enferma e com a esquerda oculta a própria fronte." Depois, ofegante de comoção, exclamou: "E um suicida e quer que ela se lhe vá reunir." A meu pedido, lhe descreveu a fisionomia, a expressão: "um olhar singularmente estranho." Pudemos em seguida, eu e a médium, conversar com essa personalidade. Longa e extenuante foi a minha conversação, até que vim a experimentar um alivio e uma verdadeira satisfação, ao saber pela médium que os meus argumentos haviam convencido o "espectro" e que, tocado de compaixão, ele prometia deixar sua vitima em paz. Só duas horas depois de ter a médium retirado, foi que despertei a paciente. Não lhe revelei uma única palavra da experiência, que ela devia sempre ignorar. Ao despedir'se, me disse ela: "Sinto'me hoje muito aliviada." Dois dias depois voltou a visitar'me: a transformação era visível.
Sua atitude, expressão fisionômica, maneira de vestir'se, tudo denotava completa mudança em seus pensamentos; suas naturais disposições, sua jovialidade e gosto pelas artes lhe tinham voltado de um dia para o outro. Seu marido já não a reconhecia, tão brusca fora a transição. Depois da aludida experiência, a jovem senhora não mais tornou a sentir a opressão na nuca, nem a sensação física de peso nos ombros, nem a obsessão psíquica de suicídio; sua saúde, em todos os sentidos, se tornou até hoje perfeita. Uma discreta pesquisa me permitiu saber que o oficial em questão não morrera de febre infecciosa, como o acreditavam as pessoas de suas relações, mas que ele se tinha realmente suicidado com um tiro na cabeça. Também o seu caráter ficou averiguado ser exatamente o que descrevera a médium, bem como o olhar "estranho", explicado por um ligeiro estrabismo."
O segundo caso vem relatado na "Luce e Ombra", de janeiro de 1905. Enrico Carreras descreveu os conflitos de influência que se produziam, nas sessões realizadas com o médium Politi, entre o Espírito protetor Ramuzzi e o obsessor Spavento:
"Recordo'me de que uma noite, na obscuridade, achando'me sozinho diante dele, porque os meus companheiros de estudo tinham fugido apavorados, tive que me empenhar com médium, de quem Spavento se havia apoderado, numa tremenda luta, em que me foi preciso recorrer a toda a força de que sou dotado. Julguei conveniente expor tudo isso, a fim de mostrar aos neófitos que o Espiritismo não é coisa que se deve tomar como brincadeira, pois que pode acarretar conseqüências, e para mostrar aos professores da escola materialista quão longe estão das inofensivas personalidades secundárias de Binet e P. Jane essas personalidades mediúnicas ou, por melhor dizer, espíritas, capazes de produzir os supracitados fenômenos, sem contar vários outros, como os repetidos urros de animais que até na rua se ouviam, os assobios agudos, as violentas explosões que se produziam numa casa desabitada, vizinha da nossa, etc. O sistema que havíamos adotado e a assídua colaboração de Ramuzzi, que se esforçava de um lado por acalmar Spavento e, do outro, por sustentar o médium, materializando'se à noite em seu quarto e dirigindo'lhe palavras de conforto, ao mesmo tempo em que lhe transfundia bons fluidos, essa tática ' dizemos ' não tardou a fazer sentir seus benéficos efeitos.
Pouco a pouco, Spavento se modificou, assim no moral como em suas manifestações físicas. Abandonou o primeiro nome para adotar o de César e veio a tornar'se, com grande satisfação para nós, um dos nossos mais caros amigo invisível. Talvez em breve tenha ocasião de expor aos meus assíduos leitores como se efetuou essa gradual transformação, que nos custou grande trabalho, mas de que fomos sobejamente recompensados."
Por que meios se pode preservar os médiuns dos perigos da obsessão? Rodeando'os de uma atmosfera de paz, de recolhimento, de sossego moral, formando, pela unas vontades o anteparo de forças magnéticas. O médium deve sentir'se amparado, protegido. E preciso também não descurar da prece. Os pensamentos são forças, tanto mais poderosas quanto mais puros e elevados sejam eles. A prece, auxiliada pela união das vontades, opõe uma barreira fluídica inacessível às entidades inferiores. Deve, por seu lado, o médium resistir pela vontade e pelo pensamento a toda tentativa de obsessão e libertar'se das dominações suspeitas. É mais fácil prevenir que remediar. Os casos de incorporação, principalmente, oferecem perigos. Por isso, não deve o médium abandonar seu organismo a outras entidades senão debaixo da vigilância e fiscalização de um Guia esclarecido. É um erro e um abuso acreditar que o médium deve ser sempre passivo e, sem reserva, submisso às influências ambientes.
O médium não é um paciente servil como os sensitivos enfermos que servem às experiências de certos especialistas; é um missionário, cuja consciência e vontade jamais se devem aniquilar, mas exercer' se judiciosamente, e só curvar'se, convictamente e após exame, à direção oculta que lhe é impressa. Quando as influências que sente lhe parecem más e degenerem em obsessão, não o deve hesitar em mudar de meio, ou pelo menos afastar de si as pessoas que se lhe afigure favorecerem ou atraírem essas influências. Afastando'se as causas de obsessão, evitam'se ao mesmo tempo as causas de enfermidade. São os fluidos impuros que alteram a saúde dos médiuns e lhes perturbam e deprimem as mais belas faculdades. Nos fenômenos de incorporação muitas vezes se abusa do magnetismo humano. Só a ação de um homem de bem, de hábitos puros e elevados pensamentos, pode ser admitida. O médium, em todas as circunstâncias, deve colocar'se sob a proteção de seu guia espiritual, que, se for elevado e enérgico, lhe saberá desviar todos os elementos de perturbação, todos os motivos de sofrimento. Em suma, os maus Espíritos só exercem em nós a influência que lhes quisermos permitir. Quando há retidão da moral, pureza de coração, vontade firme, são infrutíferos seus esforços.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.