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Capítulo 47 de 52

Terceira Parte — parte 4 de 9

No Invisível · Léon Denis

A teoria do demônio, em resumo, nem é positiva nem cientifica. E um argumento cômodo, que se presta às explorações, permite rejeitar todas as provas, todos os casos de identidade e fazer tábua rasa dos mais autorizados testemunhos; pouco concludente, porém, e absolutamente em contradição com a natureza dos fatos. A crença no demônio e no inferno tem sido combatida com argumentos de tal modo peremptórios que causa admiração ver inteligências esclarecidas ainda hoje a adotarem. Como se não compreende que opondo incessantemente Satanás a Deus, atribuindo'se'lhe sobre o mundo e sobre as almas um poder que, dia a dia, aumenta, diminui'se paralelamente o império de Deus, amesquinha'se o seu poder, aniquila'se a sua autoridade, põe'se em dúvida a sabedoria, a bondade, a previdência do Criador? Deus, sendo justo e bom, como o declara o ensino católico, não pode ter criado um ser dotado de toda a ciência do mal, de toda sorte de sedução, e lhe haver concedido poder absoluto sobre o homem inerme e fraco.

Ou Satanás é eterno, ou não o é. Se o é, Deus não é único; há dois deuses ' o do bem e o do mal. Ou então Satanás é uma criatura de Deus, e logo a Deus cabe a responsabilidade de todo o mal por ele praticado; porque, ao criá'lo, conheceu, viu todas as conseqüências de sua obra. E o inferno povoado da imensa maioria das almas, votadas por sua fraqueza original ao pecado e à condenação, é a obra de Deus, produto de sua vontade e por ele prevista! Tais são as conseqüências da teoria de Satanás e do inferno. É de admirar que tenha produzido tantos materialistas e ateus? E é em nome do Cristo, de seus ensinos de amor, de caridade e de perdão que se preconizam tais doutrinas! Mais conforme ao verdadeiro espírito das Escrituras não será essa revelação espírita, que nos apresenta, após o resgate e a reparação de suas culpas, em existências de provações, as almas a prosseguirem sua ascensão às regiões da luz?

Assim o disse o apóstolo: "Deus não quer que homem algum pereça, mas que todos se convertam à penitência." (262) O que se chama demônios, como vimos, são simplesmente Espíritos inferiores, ainda propensos ao mal, submetidos, porém, como todas as almas à lei do progresso. Não há diversas categorias de almas, destinadas umas à felicidade e outras à desgraça eterna. Todas se elevam pelo trabalho, pelo estudo e pelo sofrimento. A unidade perfeita e a harmonia reinam no Universo. Cessemos, pois, de profanar a idéia de Deus com essas concepções indignas da grandeza e da bondade infinitas; saibamos despojá'la das desgraçadas paixões humanas que se lhe atribuem. Com isso a Religião ganhará prestígio. Pondo'a em harmonia com os progressos do espírito humano, dar'se'lhe'á maior vitalidade. Acenar com o espectro de Satanás e toda a fantasmagoria, do inferno, numa época em que a Humanidade já não crê nos mitos com que a embalaram na infância, é perpetrar um anacronismo, é expor'se a provocar o riso. Satanás não assusta mais ninguém.

E os que mais dele faziam, são talvez os que nele menos crêem (263). Pode'se explorar o esvaecimento de uma quimera reneisa, de que por muito tempo se abusou, e soltar aos quatro ventos os ecos de sua queixa. Diante, porém, de tais recriminações, próprias de uma outra idade, o pensador desinteressado sorri e passa adiante. Já não acreditamos num Deus colérico e vingativo, mas em um Deus de justiça e de infinita misericórdia. o Jeová sanguinário e terrível fez sua época. O inferno implacável fechou'se para sempre. Do Céu à Terra desce agora, com a nova revelação, o lenitivo para todas as dores, o perdão para todas as fraquezas, o resgate para todos os crimes, mediante o arrependimento e a expiação.

XXIV ' Abusos da mediunidade

Na primeira ordem dos abusos que devemos assinalar, cumpre colocar as fraudes, as simulações. As fraudes ou são conscientes e volitivas, ou inconscientes. Neste último caso são provocadas quer pela ação de Espíritos malfazejos, quer por sugestões sobre os médiuns exercidas pelos experimentadores e assistentes. As fraudes conscientes provêm ora de falsos médiuns, ora de médiuns verdadeiros, mas pérfidos, que têm feito sua faculdade uma fonte de proventos materiais. Desconhecendo a nobreza e a importância de sua missão, por natureza preciosa, eles a transformam num meio de exploração e não trepidam, quando falha o fenômeno, em o simular com artifícios. Os falsos médiuns se encontram um pouco por toda parte. Uns não passam de péssimos farsistas que se divertem à custa do vulgacho e a si mesmos se traem cedo ou tarde. Outros há, industriosos, hábeis, para os quais o Espiritismo é apenas uma mercancia; esforçam'se por imitar as manifestações, tendo em mira o lucro a auferir. Muitos têm sido desmascarados em plena sessão; alguns já foram colhidos nas malhas de ruidosos processos.

Nessa ordem de fatos, têm sido presenciadas as mais audaciosas falcatruas (264). Certos indivíduos, abusando da boa'fé dos que os consultam, não têm hesitado em profanar os mais sagrados sentimentos e tornar suspeitas uma ciência e doutrinas que podem ser um meio de regeneração. Na maioria das vezes, são destituídos do sentimento de sua responsabilidade;' mas na vida de além'túmulo bem desagradáveis surpresas lhes estão reservadas. É incalculável o prejuízo por esses espertalhões causado à verdade. Com seus artifícios têm afastado muitos pensadores do estudo sério do Espiritismo. Por isso é dever de todo homem de bem desmascará'los, expô'los à merecida execração. O desprezo neste mundo, o remorso e a vergonha no outro ' eis o que os espera. Porque, nós o sabemos, tudo se paga: o mal recai sempre sobre aquele que o pratica. Não há coisa mais vil, mais desprezível, que bater moeda sobre as dores alheias, simular, a troco de dinheiro, os amigos, os entes caros que choramos, fazer da própria morte uma especulação desbriada, um objeto de falsificação.

O Espiritismo não pode ser responsabilizado por tais manejos. O abuso ou imitação de uma coisa nada pode fazer prejulgar contra a própria coisa. Não vemos freqüentemente imitados os fenômenos de Física pelos prestidigitadores? E que prova isso contra a verdadeira Ciência? Nada. O investigador inteligente deve estar precavido e fazer constante uso de sua razão. Se há alguns laboratórios em que, a pretexto de manifestações, se pratica um odioso tráfico, numerosos círculos existem, compostos de pessoas cujo caráter, posição e honorabilidade constituem outras tantas garantias de sinceridade, inacessíveis em tais condições a qualquer suspeita de charlatanismo.

Tem'se dado o fato ' observemos ' de certos médiuns, dotados de notáveis faculdades não terem vacilado em misturar, nas sessões que realizam, as simulações com os fatos reais, visando aumentar os proventos ou a fama que desfrutam. Perguntarão talvez por que anuem os desencarnados a prestar o seu concurso a indivíduos de tal sorte indignos. A resposta é fácil. Esses Espíritos, em seu vivo desejo de se manifestarem aos que na Terra amaram, encontrando em tais médiuns os elementos necessários para se materializarem, tornando'se visíveis, e, assim, demonstrarem a própria sobrevivência, não hesitam em utilizar os meios que se lhes oferecem, não obstante a indignidade dos intermediários. Foi o que sucedeu, em 1906, 1907 e 1908, no curso de sessões efetuadas em Paris por um médium estrangeiro, de que já falei no prefácio desta obra. No dia 18 de junho de 1908, em casa do Sr. Davíd, no Boulevard des Batignolles, estando sentado o médium fora do gabinete de materializações, à meia'luz, no círculo dos assistentes, foi visto formar'se um braço, que parecia surgir de um ângulo da sala.

Descreveu um movimento circular e nos veio tocar a cabeça, a mim e ao reverendo Benezech, pastor protestante, sentado ao pé de mim. Do soalho saiu um fantasma vaporoso, que se ergueu à vista de todos, e uma voz se fez ouvir, proferindo um nome bem conhecido. Em seguida se foi abaixando e dissipou'se gradualmente no soalho. O médium, bem desperto, assinalava esses fenômenos, ao mesmo tempo em que se produziam em lugares da sala, que não teria podido alcançar. Na sessão de 12 de julho, em casa da Sra. Cornély, estava eu colocado à entrada do gabinete, em frente à abertura das cortinas. Um Espírito, com estatura de criança, desprezando essa abertura, atravessou o pano, à minha esquerda, junto ao Sr. Debrus, sentado atrás de mim, e pronunciou estas palavras: "Maria, Rosa", e em seguida: "papá, mamã!" Tocou o Sr. Debrus, e o seu lindo braço roliço foi visto alongar'se por cima da sua e da minha cabeça.

O Sr. e a Sra. Debrus ficaram convencidos de ter visto a aparição de sua própria filha, falecida em Valence, a 4 de novembro de 1902, a quem me referi em "O Problema do Ser, do Destino, e da Dor". Em semelhante caso, nos pareceu impossível a simulação, pois que o médium jamais tinha visto a menina. A autenticidade desses fenômenos é incontestável, por terem sido produzidos em excelentes condições de verificação. O mesmo já se não deu posteriormente. Logo que o médium se ocultava atrás das cortinas e fazia'se a obscuridade, ouviam'se ruídos significativos. No curso de 11 sessões a que assisti, pude adquirir a certeza de que o médium se despia, tirava os sapatos e pintava o rosto, para simular as aparições. Numa das sessões, efetuada em casa da Sra. Nceggerath, à rua Milton, duas senhoras favoravelmente colocadas para bem observar, estando eu sentado mais distante, viram distintamente o médium despido, agachado e, depois, estendido no soalho, a erguer'se pouco a pouco para levantar a gaze flutuante que lhe servia para Imitar os fantasmas.

As aludidas senhoras, uma das quais era a Sra. Nceggerath, me comunicaram separadamente suas impressões, que concordavam, antes de conversarem acerca do fato observado. No dia 9 de setembro, o Sr. Drubay, espírita íntegro e convicto, ao desmanchar o gabinete de materializações, no dia seguinte ao de uma sessão efetuada em sua casa, encontrou um retalho de filó de seda, muitíssimo fino, que parecia despregado ou arrancado de um pedaço maior. Dias depois, na sede da Sociedade de Estudos Psíquicos, no arrabalde de Saint'Martin, apanhou nas mesmas condições um trapo negro, muito comprido, fortemente impregnado de um cheiro de rosa e sândalo combinados, que se fazia sentir em certos momentos nas sessões e que o médium pretendia ser proveniente dos Espíritos. Mais de vinte testemunhas, em resumo, verificaram as fraudes, em sessões ulteriores (265). O compromisso formal que haviam tomado de observar o regulamento, foi o que unicamente as impediu de desmascarar o culpado.

Tendo os "Annales des Sciences Psychiques" denunciado tais artifícios, julguei dever a meu turno intervir, para salvar as nossas responsabilidades e a de uma causa comprometida por essas divulgações (266), com o que pôde ficar o público inteirado de que os espíritas não se deixam ludibriar e sabem discernir a verdade da impostura. Denunciar, com efeito, as fraudes onde quer que se produzam, é o meio mais seguro de fazer desacoroçoar os seus autores. Procedendo como o fiz, desempenhei uma tarefa ingrata, mas necessária, que me valeu a aprovação das pessoas honestas. Se, de um lado, fui alvo de críticas malévolas, do outro recebi elevados e calorosos aplausos. Um eminente psiquista que ocupa saliente posição na magistratura, escreve'me a tal respeito:

"Paris, 8 de abril de 1910.

Admirei vossa coragem no incidente M., porque adivinho quanto deveis ter sofrido, sendo obrigado a protestar. Fizestes bem e vos revelastes mais uma vez o homem sincero e honrado que de fato sois. Sei que certos grupos ficaram um tanto descontentes convosco, mas cumpristes um dever, expelindo "os mercadores do templo". O que lança o desprestígio no movimento de que sois um dos mais respeitáveis chefes, é justamente a cegueira de certos grupos que, com a sua indiferença pela sinceridade dos fenômenos, favorecem os médiuns fraudulentos, e os que se rejubilam com tais fraudes. No que me diz pessoalmente respeito, estou convosco. Desde as primeiras sessões me foi patente a fraude de M., e compreendi facilmente os seus processos, que são grosseiros. Nada articulei publicamente, em atenção às pessoas que me acolhiam em sua casa, tendo'me, ao demais, M. prometido sessões sérias. Mas não cumpriu a promessa."

Como epílogo desses fatos, os espíritas reunidos, no Congresso Internacional de Bruxelas, em maio de 1910, aprovaram a seguinte moção:

"O Congresso Espírita de Bruxelas, impressionado com as fraudes numerosas e repetidas que se têm produzido. nas sessões efetuadas, na obscuridade, por médiuns profissionais; impressionado com o prejuízo moral que assim causam à Doutrina: Convida os grupos de estudos e os experimentadores que procuram os fatos de ordem física, os transportes e os fenômenos de materialização, a só admitirem sessões obscuras ou à meia'luz em condições de rigorosa verificação; Recomenda especialmente, que sejam as mãos e os pés dos médiuns seguros por dois assistentes experimentados, enquanto durar a sessão, ou que seja isolado o médium por meio de um fio tenso e sem solução de continuidade; ou ainda, que seja ele metido numa jaula cuidadosamente fechada e cuja chave fique em poder de uma pessoa de confiança; As sessões à meia'luz são muitíssimo preferíveis, por serem os fenômenos verificados por todos os assistentes.

Com isso deve contentar'se um médium bem dotado, ao passo que se torna suspeito quando exige a obscuridade, embora esta aumente a força física, porque pode fazer recear que dela se aproveite para fraudar, o que tem ocorrido em certos casos. Cumpre satisfazer'se com resultados menores, porém mais seguros; O Congresso dirige, além disso, uma, instante exortação sos médiuns honestos e desinteressados. Pede'lhes que com o zelo por bem servir uma verdade sagrada, verdade comprometida por desbriados simuladores, e lhes recorda que, se a fraude acarreta uma justa e severa reprovação, a dedicação e a sinceridade, ao contrário, lhes granjeiam a estima e o reconhecimento de todos, bem como a assistência das elevadas Inteligências invisíveis, que velam pelo progresso de nossas crenças neste mundo."

Há ' dissemos ' fraudes inconscientes, que se explicam pela sugestão. Os médiuns são extremamente sensíveis à ação sugestiva, tanto dos vivos como dos desencarnados (267). O estado de espírito das pessoas que tomam parte nas experiências reage sobre eles e exerce uma Influência que os médiuns não distinguem, mas que é às vezes considerável. Médiuns perfeitamente honestos e desinteressados confessam que são impelidos à fraude, em certos meios, por uma força oculta. Na maior parte, resistem a tais sugestões, prefeririam renunciar ao exercício de suas faculdades a se deixarem arrastar por esse resvaladouro. Alguns cedem a essas influências; e um momento de fraqueza bastará para levantar dúvidas sobre todas as experiências em que houverem figurado. Certas fraudes, verificadas com diversos médiuns, podem ser atribuídas a sugestões exteriores, quer humanas, quer espíritas. As vezes coincidem e se combinam as duas influências. Os cépticos mal'intencionados são secundados por auxiliares do Além.

E então o poder sugestivo será tanto mais irresistível quanto mais Impressionável for o médium e estiver mais profundamente imerso no transe e insuficientemente protegido. Vê'se a que perigos está este exposto; em certas sessões, mal constituídas, mal dirigidas, pode tornar'se vítima das forças exteriores combinadas. Não era esse o caso do médium M., de que acabamos de falar e que consigo trazia o filó e os outros objetos necessários às simulações. A premeditação era nele evidente; os artifícios eram calculados, previamente preparados. Acontece que o médium, principalmente o médium escrevente, se sugestiona a si mesmo e, num impulso automático, escreve comunicações que abusivamente atribui a Espíritos desencarnados. Essa auto'sugestão é uma espécie de indução do "ego" normal ao "ego" subconsciente, que não é um ser distinto, como vimos precedentemente, mas uma modalidade mais extensa da personalidade. Nesse caso, com a mais perfeita boa'fé, o médium responde a suas próprias perguntas; exterioriza seus pensamentos ocultos, seus próprios raciocínios, os produtos de uma vida psíquica mais intensa e profunda. Allan Kardec, Davis, Hudson Tuttle, Aksakof, etc., ocuparam'se em suas obras dessa categoria de médiuns, que o Sr. Delanne denomina "automatistas".

"O automatismo da escrita ' diz ele (268) ' o esquecimento imediato das idéias enunciadas, que incute no escrevente a ilusão de estar sob a influência de uma vontade estranha, a personificação das idéias, as noções que jazem na memória latente, as impressões sensoriais inconscientes, todos esses fatos se compreendem e têm sua explicação em causas reconhecidas no estudo mais completo da inteligência humana, e de maio algum supõem a necessidade de intervenção dos Espíritos."

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.