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Capítulo 4 de 52
Introdução — parte 2 de 2
No Invisível · Léon Denis
“Não devemos do mesmo modo esquecer esse pequeno grupo de investigadores que, antes do nosso tempo e ao fim de pacientes e demoradas pesquisas, tiveram a coragem de proclamar sua crença em tais fenômenos, que denominaram espiríticos... Não foram sem dúvida os seus métodos de investigação totalmente isentos de crítica, o que, todavia, os não impediu de ser pesquisadores da verdade, tão honestos e dedicados como pretendem ser; e tanto mais dignos são eles da nossa estima quanto sofreram os maiores sarcasmos e oposição. Os espíritos fortes sorriam então, como agora, dos que mais bem informados que eles se mostravam. Suponho que todos somos inclinados a considerar o nosso próprio discernimento superior ao do nosso próximo. Não são, porém, afinal o bom'senso, as precauções, a paciência, o estudo contínuo dos fenômenos psíquicos que maior valor conferem d opinião que viemos por fim a adotar e não a argúcia ou o cepticismo do observador?”.
“Devemos ter sempre em consideração que o que é afirmado, mesmo pelo mais obscuro dos homens, em resultado de sua experiência pessoal, é sempre digno de nos prender a atenção; e o que é negado, mesmo pelos mais reputados indivíduos, desde que ignoram a coisa, jamais no'la deve merecer”. "Aquele perspicaz e valoroso espírito que era o professor De Morgan, o grande denunciador do charlatanismo científico, teve a coragem de publicar, há muito, que por mais que se tente ridicularizar os espíritas, nada deixam por isso eles de estar no caminho que conduz ao adiantamento dos conhecimentos humanos, seguindo embora o espírito e o método primitivos, quando era preciso rasgar nas florestas virgens a estrada por onde podemos agora avançar com a maior facilidade."
Rendendo homenagem aos espíritas, o professor Barrett reconhecia, como juiz imparcial, que não era isento de critica o seu zela Hoje, como então, essa opinião é inteiramente justificada A exaltação de uns tantos adeptos, o seu entusiasmo em proclamar fatos duvidosos ou imaginários, a insuficiência de verificação nas experiências têm prejudicado muitas vezes a causa que acreditavam servir. E isso talvez o que, até certo ponto, justifica a atitude retraída, por vezes hostil, de alguns sábios a respeito do Espiritismo. O professor Ch. Richet escrevia nos Annales des Sciences Psychiques, de janeiro de 1905, pág. 211: "Se os espíritas foram muito arrojados, usaram, entretanto, de bem pouco vigor, e é uma deplorável história a de suas aberrações. Basta por agora ficar estabelecido que eles tinham o direito de ser muito arrojados e que não lhes podemos, em nome da nossa ciência falível, incompleta, ainda embrionária, censurar esse arrojo. Dever'se'lhes'ia, ao contrário, agradecer o terem sido tão audaciosos." As restrições do Sr. Richet não são menos fundadas que os seus elogios.
Muitos experimentadores não conduzem os seus estudos com a ponderação, a prudência necessárias. Empenham'se de preferência em obter as manifestações tumultuárias, as materializações numerosas e repetidas, os fenômenos de grande notoriedade, sem considerar que a mediunidade só excepcionalmente e de longe em longe pode servir à produção de fatos desse gênero. Quando têm à mão um médium profissional dessa categoria, o atormentam e esgotam. Levam'no fatalmente a resvalar para a simulação. Daí as fraudes, as mistificações, assinaladas por tantas folhas públicas. Muitíssimo preferíveis são, a meu ver, os fatos mediúnicos de índole mais intimam e modesta, as sessões em que predominam a ordem, a harmonia, a comunhão dos pensamentos, por cujo veículo fluem as coisas celestes, como orvalho, sobre a alma sequiosa e a esclarecem, confortam e melhoram. As sessões de efeitos físicos, mesmo quando sinceras, sempre me deixaram uma impressão de vácuo, de desgosto e mal'estar, em razão das influências que nelas intervêm.
A médiuns profissionais deveram sem dúvida sábios como Crookes, Hyslop, Lombroso, etc., os excelentes resultados que obtinham; em suas experiências, porém, adotavam precauções de que não costumam os espíritas munir'se. Em sessões de materialização realizadas em Paris por um médium americano, em 1908 e 1907, e que alcançaram desagradável notoriedade, haviam os espíritas estabelecido um regulamento que os assistentes se comprometiam a observar e de cujas estipulações resultava a inesperada conseqüência de isentar o médium de toda eficaz verificação. A obscuridade era quase completa no momento das aparições. Os assistentes tinham que conversar em voz alta, cantar, conservar as mãos presas formando a cadeia magnética e, além de tudo, abster'se de tocar nas formas materializadas. Desse modo, a vista, o ouvido, o tato ficavam pouco menos que aniquilados. Tais condições, é certo, se inspiravam numa louvável intenção, porque, em tese geral, como teremos ocasião de ver no curso desta obra, favorecem a produção dos fatos; mas no caso em questão contribuíam também para mascarar as fraudes.
As faculdades do médium, entretanto, eram reais, e nas primeiras sessões se produziram autênticos fenômenos, que adiante relatamos. Houve em seguida uma mistura de fatos reais e simulados, e o embuste veio por fim a tornar'se constante e evidente. Depois de haver, numa revista espírita, assinalado os fenômenos que apresentavam garantias de sinceridade, mais tarde me senti realmente obrigado a denunciar fraudes averiguadas e comprometedoras. Ao fim de longa pesquisa e de acuradas reflexões, nada tenho que retirar de minhas apreciações anteriores. Fiz justiça a esse médium, indicando o que havia de real em suas sessões, mas não hesitei em lhe denunciar as simulações no dia em que numerosos e autorizados testemunhos às evidenciaram, entre os quais se encontra o de um juiz da Corte de Apelação, que é ao mesmo tempo eminente psiquista Guardar silêncio acerca dessas fraudes, encobri'Ias com uma espécie de tácita aprovação, seria abrirmos a parta a um cortejo de abusos que, em certos meios, têm desacreditado o Espiritismo e estorvado o seu desenvolvimento Atrás do hábil simulador, logo entre nós surgiram umas intrusões condenadas pelos tribunais de vizinhos países.
Mais recentemente, o médium Abendt foi, em idênticas circunstâncias, desmascarado em Berlim, como em seguida o foram Carrancini em Londres e Bailey em Grenoble. Sem o brado de alarme que soltamos, correríamos o risco de resvalar por um fatal declive e cair num precipício. Os espíritas são homens de convicção e fé. Mas, se a fé esclarecida nos atrai, nos planos espirituais e materiais, nobres e elevadas almas, a credulidade, no plano terrestre, atrai os charlatães, os exploradores de toda espécie, a chusma dos cavalheiros de indústria que só nos procuram ludibriar. Aí está o perigo para o Espiritismo. Cumpre'nos, a todos os que em nosso coração zelamos a verdade e nobreza dessa coisa, conjurá'lo. De sobra se tem repetido: o Espiritismo ou será científico, ou não subsistirá. Ao que acrescentaremos: o Espiritismo deve, antes de tudo, ser honesto!
Mais algumas palavras cabem aqui sobre a doutrina do Espiritismo, síntese das revelações mediúnicas, entre si concordantes, obtidas em todo o mundo, sob a inspiração dos grandes Espíritos que a ditaram. Cada vez mais se afirma e se vulgariza essa doutrina. Até mesmo entre os nossos contraditores não há quem se não sinta na obrigação moral de lhe fazer justiça, reconhecendo todos os benefícios e inefáveis consolações que tem prodigalizado às almas sofredoras. O professor Th. Flournoy, da Universidade de Genebra, assim se exprime a seu respeito no livro Espíritos e Médiuns: "Isenta de todas as complicações e sutilezas da teoria do conhecimento e dos problemas de alta Metafísica, essa filosofia simplista se adapta por isso mesmo admiravelmente às necessidades do povo." A seu turno, J. Maxwell, advogado geral perante a Corte de Apelação de Paris, se pronunciava do seguinte modo em sua obra Os Fenômenos Psíquicos: "A extensão que a doutrina espírita adquire é um dos mais curiosos fenômenos da época atual. Tenho a impressão de estar assistindo ao nascimento de um movimento religioso a que estão reservados consideráveis destinos." Além disso, Th. Flournoy, em seguida a uma investigação, cujos resultados menciona em sua obra pré'citada, expende os seguintes comentários (6):
“Há um coro geral de elogios acerca da beleza e excelência. da filosofia espirita, um testemunho quase unânime prestado d salutar influência que exerce na vida intelectual, moral e religiosa de seus adeptos. Mesmo as pessoas que têm chegado a desconfiar completamente dos fenômenos e, por assim dizer, os detestam, pelas dúvidas e decepções a que do lugar, reconhecera os benefícios que devem às doutrinas."
E mais adiante:
"Encontram'se espíritas que nunca assistiram a uma experiência e nem sequer o desejam, mas afirmam ter sido empolgado pela simplicidade, beleza e evidência moral. e religiosa dos ensinos espíritas (existências sucessivas, progresso indefinido da alma, etc.). Não se deve, pois, obscurecer o valor dessas crenças, valor incontestável, pois que inúmeras almas declaram nelas ter encontrado um elemento de vida e uma solução à alternativa entre a ortodoxia, de um lado, alguns de cujos dogmas repulsivos (como o das penas eternas), já não podiam admitir, e do outro lado às desoladoras negações do materialismo ateu." (7)
E, todavia, em que pese às observações do Senhor Flournoy, mesmo no campo espírita não têm escasseado as objeções. Entre os que são atraídos pelo aspecto científico do Espiritismo, alguns há que menosprezam a filosofia. E que, para apreciar toda a grandeza da doutrina dos Espíritos, é preciso ter sofrido. As pessoas felizes sempre são mais ou menos egoístas e não podem compreender que fonte de consolação contém essa doutrina. Podem interessar'lhes os fenômenos, mas, para lhes atear a chama interior, são necessários os frios sopros da adversidade. Só aos espíritos amadurecidos pela dor e a provação as verdades profundas se patenteiam em toda plenitude. Em assuntos dessa ordem tudo depende das anteriores predisposições. Uns, seduzidos pelos fatos, se inclinam de preferência à experimentação. Outros, esclarecidos pela experiência dos séculos transcorridos ou pelas lições da atual existência, colocam o ensino acima de tudo. A sapiência consiste em reunir as duas modalidades do Espiritismo num conjunto harmônico. A experimentação, como o veremos no curso desta obra, exige qualidades não vulgares.
Muitos, baldos de perseverança, depois de algumas tentativas infrutíferas, se afastam é regressam à indiferença, por não terem obtido com a desejada presteza às provas que buscavam. Os que sabem perseverar, cedo ou tarde, encontram os sólidos e demonstrativos elementos em que se firmará uma convicção inabalável. Foi o meu caso. Desde logo me seduziu a doutrina dos Espíritos; as provas experimentais, porém,foram morosas. Só ao fim de dez ou quinze anos de pesquisa foi que se apresentaram irrecusáveis, abundantes. Agora encontro explicação para essa longa expectativa, para essas numerosas experiências coroadas de resultados incoerentes e, muitas vezes, contraditórios. Eu não estava ainda amadurecido para completa divulgação das verdades transcendentes. A medida, porém, que me adiantava na rota delineada, a comunhão com os meus invisíveis protetores se tornava mais intima e profunda. Sentia'me guiado através dos embaraços e dificuldades da tarefa que me havia imposto. Nos momentos de provação, doces consolações baixavam sobre mim.
Atualmente chego a sentir a freqüente presença dos Espíritos, a distinguir, por um sentido intimo e seguríssimo, a natureza e a personalidade dos que me assistem e inspiram. Não posso, evidentemente, facultar a outrem as sensações intensas que percebo e que explicam a minha certeza do Além, a absoluta convicção que tenho da existência do mundo invisível. Por isso é que todas as tentativas por me desviar da minha senda têm sido e serão sempre inúteis. A minha confiança, a minha fé, é alimentada por manifestações cotidianas; a vida se me desdobrou numa existência dupla, dividida entre os homens e os Espíritos. Considero por isso um dever sagrado esforçar'me por difundir e tornar acessível a todos os conhecimentos das leis que vinculam a Humanidade da Terra à do Espaço e traçam a todas as almas o caminho da evolução indefinida.
Setembro de 1911.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.