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Capítulo 25 de 52

Segunda Parte — parte 9 de 9

No Invisível · Léon Denis

,,1.a Sessão ' Em plena luz, a mesa de pinho tosco, de quatro pés, com um metro de comprimento, levanta'se, afasta'se do solo um grande número de vezes e fica suspensa a 10 centímetros do ladrilho, sem que mão humana a tocasse. Durante esse tempo as mãos de Eusápia se conservaram seguras por seus vizinhos, que lhe examinavam igualmente os pés e as pernas, de modo que nenhuma parte de seu corpo pudesse exercer o mínimo esforço." "2.a Sessão ' Pancadas violentas, de quebrar a mesa, ressoam. Aparecem mãos, cujo contacto e cujas carícias se sentem ' mãos largas e vigorosas de homens, mãos menores de mulher, mãozinhas minúsculas de crianças. Lábios invisíveis colam'se à fronte dos assistentes, e ouvem'se beijos.

Impressões de mãos invisíveis são obtidas em plastilina." "5.a Sessão ' O médium, cujas mãos estão sempre seguras, é levantado, com a cadeira, por uma ação oculta, sem choques, sem abalos, num movimento lento, e é conservado suspenso no ar, ficando com os dois pés e os pés anteriores da cadeira em cima da mesa, já estragada pelos trambolhões. O peso erguido é de 70 quilogramas e exige uma força considerável. Coisa mais extraordinária: da superfície da mesa, Eusápia, com a cadeira, é ainda levitada de tal sorte que o professor Porro, astrônomo, e uma outra pessoa chegam a passar as mãos sobre os seus pés e os da cadeira, sem acordo prévio e com perfeita concordância de impressões.

O fato de destacar'se da mesa a cadeira, denota, mais ainda que o de se afastar do solo, a intervenção de uma força extrínseca ao médium, inteligente, calculadora, que soube proporcionar os atos aos resultados e evitar um acidente sempre possível, dado o peso de Eusápia, o apoio precário de uma mesa meio quebrada e o fato de que dois pés da cadeira se achavam suspensos no vácuo." "6.a Sessão ' Transporte de objetos, sem contacto: flores, anéis, instrumentos de música, ardósias, bússola e, sobretudo, um desses dinamômetros que servem para medir a força com que se pode apertar uma mola; quatro ou cinco vezes, como por brincadeira, esse dinamômetro é arrebatado ao seu proprietário, que o havia reposto na marcação de zero, depois restituído, de cada vez, com indicações variantes, desde um "maximum" correspondente a uma força hercúlea até um "minimum" igual à força de uma criancinha.

Como atribuir ' diz o professor Porro ' a uma emanação de Eusápia um processo tão complicado de atos volitivos e conscientes, acompanhados de tão acertada graduação de efeitos dinâmicos? Poderia ela alternativamente simular diversas entidades e desenvolver em cada caso uma força apropriada?" No correr das sessões subseqüentes produziram'se materializações, de que nos ocuparemos no capítulo especialmente consagrado a esse gênero de manifestações. O Dr. Ochorowicz, de Varsóvia, obteve, em pleno dia, e muitas vezes à vontade, com o concurso da médium Srta. Stanislas Tomszick, deslocamentos, sem contacto, de objetos materiais: lápis, agulhas, tubos de experiências, etc., e os conseguiu fotografar suspensos no vácuo. (131) É um erro considerar'se, como se tem feito, o fenômeno da levitação uma violação das leis da gravidade. Ele demonstra simplesmente a ação de uma força e de uma inteligência invisíveis. O médium não poderia encontrar em si mesmo o poder de se elevar sem ponto de apoio e permanecer suspenso.

E preciso admitir necessariamente a intervenção de uma vontade estranha, que acumula a força fluídica em quantidade suficiente para contrabalançar o peso do médium ou dos objetos levitados, e os afastar do solo. Os fluidos são fornecidos em parte pelo próprio médium que, em tal caso, desempenha a função de pilha, bem como pelas outras pessoas presentes e, ainda, se são insuficientes, por outras entidades invisíveis, que prestam seu concurso ao operador. O mesmo se dá com os "raps" ou pancadas. Esses ruídos são. produzidos pela condensação e projeção de aglomerações fluídicas sobre corpos resistentes. Essas aglomerações são às vezes luminosas. Lê'se nas notas do Sr. Livermore (132) Todos esses fenômenos ' é evidente ' são conformes às leis físicas conhecidas. Basta apenas tornar extensiva a aplicação dessas leis ao mundo invisível como ao visível, e tudo imediatamente se explica e esclarece. Nada há nisso de sobrenatural.

O Espiritismo é a ciência que nos ensina a conhecer a natureza e a ação das forças ocultas, como a Mecânica nos faz conhecer as leis do movimento e a óptica as da luz. Seus fenômenos vêm reunir'se aos fenômenos conhecidos, sem alterar nem destruir a ordem imponente que os rege. Dilata'lhes simplesmente a órbita de ação, ao mesmo tempo que nos faz penetrar nas remotas profundezas da Vida e da Natureza.

As mesas não representam unicamente um papel importante nas manifestações físicas espontâneas: figuram também nos fenômenos de ordem intelectual. As mesas giratórias e falantes suscitaram muitas criticas e zombarias; mas, como o disse Victor Hugo: "essa zombaria é estulta." Se, pondo de parte o motejo, ocioso e estéril, consideramos o fato em si mesmo, que reconheceremos nas manifestações da mesa? Quase sempre o modo de ação de um ser inteligente e consciente. A mesa é um dos móveis mais fáceis de manejar. Encontra'se por toda parte, em todos os aposentos. E por isso que de preferência é ela utilizada. O que é preciso ver antes de tudo nesses fatos são os resultados obtidos, e não o objeto que serviu para os produzir. Quando lemos uma bela página ou contemplamos um quadro, cuidamos acaso da pena que a escreveu ou do pincel que o executou? A mesa não tem maior importância; não passa do instrumento vulgar que transmite o pensamento dos Espíritos. Conforme os manifestantes, esse pensamento será alternativamente banal, grosseiro, espirituoso, poético, malicioso ou sublime.

Os investigadores que por esse meio recebem testemunhos de afeto dos seres que lhes foram caros esquecem facilmente a insignificância do processo utilizado. Certos movimentos da mesa podem, sem dúvida, ser atribuídos à ação de forças exteriorizadas pelos assistentes e transmitidas por suas própria: mãos ao móvel. Nessas experiências é preciso considerar sempre os movimentos involuntários dos operadores, quando se trata de fenômenos físicos, e a sugestão, quando se trata do fato intelectual. Na maioria dos casos, entretanto, são insuficientes essas duas causas para explicar os fenômenos. Em primeiro lugar, o contacto das mãos nem sempre é necessário para provocar os movimentos. Faraday, Babinet, Chevreul e outros sábios haviam adotado, para resolver o problema, a teoria dos movimentos musculares Inconscientes. Eis que, porém, as mesas se moveram livres de todo contacto humano. Foi o que ficou demonstrado nas experiências de Robert Hare e W. Crookes, que fiscalizaram os movimentos da mesa por meio de registros de precisão empregados nos laboratórios de Física.

Um relatório da Comissão designada pela Sociedade Dialética de Londres em 1869 (133) veio confirmar suas deduções. E concluía assim (134) : "1.0 ' Uma força emanante dos operadores pode agir sem contacto ou possibilidade de contacto sobre objetos materiais; 2.o ' E freqüentemente dirigida com inteligência." As experiências, continuadas durante muitos anos em Paris, à rua de Beaune n .O 2, por Eugênio Nus, o argustíssimo escritor, e a quem vieram reunir'se o pintor Ch. Brunier, o compositor Allyre Bureau, o engenheiro Franchot, etc., são das mais célebres. Recordemo'las sucintamente. (135) Utilizam'se, ao começo, de uma mesa de jantar, pesada e maciça, que se ergue sobre dois pés e permanece imóvel em equilíbrio. Uma enérgica pressão sobre ela consegue, com dificuldade, restituí'Ia à posição normal. Experimentam, em seguida, com uma mesinha que, mais leve, saltita, erguendo'se sob as mãos nela apoiadas, imita o movimento oscilatório do berço e o arfar da vaga. "Já não é um objeto: é um ser. Não necessita, para compreender, nem de palavras, nem de gestos, nem de sinais.

Basta querer'se, e, rápida como o pensamento, vai, volta, detém'se, ergue' se nos dois pés e obedece." Fala... mediante a percussão de golpes, dita sentenças, ensinos, frases delicadas ou profundas. Por exemplo: "A experimentação solitária é fonte de erros, de alucinações, de loucura. Para fazer experiências proveitosas, é preciso ter o pensamento voltado para Deus. Elevai vossas almas a Deus, a fim de serdes fortalecidos contra os descoroçoamentos da dúvida." Pedem'lhe que se exprima em inglês. Ela o faz de modo extremamente poético. Muitas expressões desconhecidas dos assistentes não conseguem ser traduzidas senão a poder de dicionário. Vêm depois as definições em doze palavras. "Desafio ' diz Eugênio Nus ' todas as academias reunidas a formular bruscamente, instantaneamente, sem preparo prévio, sem reflexão, definições circunscritas em doze palavras, tão claras, tão completas e, muitas vezes, tão elegantes como as improvisadas pela nossa mesa." Eis aqui algumas delas:

"Harmonia é o equilíbrio perfeito do todo com as partes entre si." "Amor: pólo das paixões mortais; força atrativa dos sentidos; elementos da continuação." "Religião futura: ideal progressivo por dogma, artes por culto, Natureza por templo." "As vezes ' acrescenta o escritor ' para maior prova da espontaneidade do fenômeno, nos recusávamos a aceitar uma definição. A mesa recomeçava imediatamente e nos ditava uma frase de doze palavras, inteiramente nova." "Outras vezes, interrompíamos o fenômeno para procurar por nós mesmos o fim da frase, e nunca o encontrávamos." "Um exemplo: a mesa nos dava a definição da Fé: "A Fé diviniza o que o sentimento nos revela e..." "E... quê? disse eu de repente, detendo a mesinha para impedir determinar o ditado: nada mais que três palavras. Procuremos! Olhamos uns para os outros, refletimos e ficamos boquiabertos.

Afinal, restituímos à mesa a liberdade de movimentos, e ela conclui tranqüilamente a frase: "...a razão explica." (136) "Por mais vontade que tivéssemos de nos limitar ao papel de experimentadores, não nos era possível permanecer indiferentes às afirmações desse interlocutor misterioso que exibia e impunha sua estranha personalidade com tanto vigor e independência, superior a todos nós, pelo menos na expressão e na concentração das idéias, não raro nos descerrando perspectivas de que cada um confessava de boa'fé não ter tido jamais a intuição. "A mesma mesa compôs melodias. Ouviu'lhe Felicien David a execução e ficou encantado. Entre outras havia: O canto da Terra no Espaço; o canto do mar; a melodia do vento; o carito do satélite lunar; o canto de Saturno, de Júpiter, de Vesta; a Adoração, etc." (136'A) Foram também ditadas comunicações mediante pancadas vibradas, não já sobre o soalho, mas na própria mesa. Depois, foi o lápis de Ch. Brunier, tornado médium escrevente, que interpretou o pensamento do invisível visitante.

A uma pergunta formulada por Eugênio Nus: Que é o dever? respondia ele: "O dever é o cumprimento, por livre volição, do destino do ser inteligente. O dever é proporcional ao grau do indivíduo, na grande hierarquia divina necessária. Digo necessária, porque sempre a necessidade implica Deus." Uma comparação, para definir a prece: "Suponhamos um ser representado por um círculo. Esse ser tem uma vida interna e uma vida externa. Sua vida externa ou irradiante, ou expansão divina, parte do ponto que está no centro e ultrapassa o círculo que corresponde ao finito para dirigir'se ao infinito. Aí está, portanto, a elevação na vida. Como religião atual, chama'se isso, no ponto de vista da prece, simples ascensão para Deus. Sondai essas três palavras, e podereis concluir com a Ciência." O misterioso interlocutor de Eugênio Nus não se deu a conhecer (137). Noutros casos, porém, manifestaram'se, por intermédio da mesa, personalidades invisíveis absolutamente desconhecidas dos experimentadores, e sua identidade pôde ser positivamente verificada.

Foi, entre outros, o caso de Anastácia Perelyguine, falecida no hospital de Tambov (Rússia), em novembro de 1887, e que se manifestou espontaneamente pela mesa, no dia seguinte ao de sua morte, em casa do Sr. Nartzeff, a um grupo de pessoas, as quais lhe desconheciam a existência. (138) Depois foi Abraão Florentino, soldado da milícia americana, morto a 5 de agosto de 1874 em Brooklin (Estados Unidos), que se comunicou em Shanklyn, ilha de Wight (Inglaterra), no mesmo mês, indicando de modo claríssimo sua idade, seu endereço, com abundantes particularidades acerca de sua vida passada. De minuciosa pesquisa resultou constatar'se que todas essas particularidades eram exatas. (139) As provas de identidade obtidas por intermédio da mesa são numerosas; muitas, porém, se têm perdido para a publicidade e para a Ciência, em virtude do caráter de intimidade associado a essas manifestações. Muitas almas sensíveis receiam expor à curiosidade pública o segredo de suas afeições e de seus padecimentos. O Dr. Chazarain transmitiu duas comunicações dessa ordem ao Congresso de Paris, de 1900, nos termos seguintes (140):

"Durante dez anos, em um grupo familiar a que eu presidia, e cujo médium (minha filha Joana) não tinha mais de treze anos quando começaram as sessões, comunicamos de modo mais satisfatório com os nossos amigos do Além, pois que nos deram, sobre a vida do Espaço, instruções valiosas, como raramente se obtém. A primeira comunicação, de 16 de maio de 1888, vinha ao encontro da grande dor que me causara a perda de meus dois melhores amigos, falecidos dois meses antes, com alguns dias de intervalo um do outro. E a seguinte: "Desejaríeis ouvir os festivos cânticos entoados lá em cima, quando uma alma querida e esperada faz seu reingresso no mundo dos Espíritos? Desejaríeis contemplar o espetáculo da felicidade desse novo encontro? Oh! Nós que experimentamos essas alegrias, quereríamos vo'las fazer partilhar. Mas ai! por que é forçoso que seja muitas vezes a nossa felicidade perturbada por vossas tristezas? Quando um de vós se acha voltado para o país das almas, é necessário que se eleve acima dos sofrimentos terrestres e despedace todos os laços que o prendam à Terra.

Nada seria capaz de o reter ou encadear por mais tempo; semelhante ao prisioneiro, a quem foi restituída a liberdade, ala'se aos novos horizontes que se lhe descerram. Oh! Não choreis pelos vossos caros libertados, porque, depois de haverdes conhecido as amarguras da separação, conhecereis também as doçuras de os tornar a ver."

As mesas foram consultadas por altas Inteligências. Graças a elas, a Sra. E. de Girardin conversava com Espíritos de escol. Augusto Vacquerie, nas "Mjettes de 1'Histoire", refere que em Jersey iniciou ela nessas práticas toda a família, de Victor Hugo. Dentre outras, reproduziremos esta comovedora narrativa:

"Uma noite, a mesa soletrou o nome de uma morta., sempre, entretanto, viva na lembrança de todos os que ali se achavam... Era inadmissível a desconfiança: ninguém teria tido a coragem ou a ousadia de em nossa presença tripudiar sobre esse túmulo. Uma mistificação era já bem difícil dá admitir, quanto mais uma infâmia! A suspeita seria de si mesma desprezível! O irmão interrogou a irmã, que surgia da morte para consolar o exilado; a mãe chorava; uma emoção inexprimível oprimia todos os corações; eu sentia distintamente a presença daquela que o vendaval arrebatara. Onde estava? Amava'nos sempre? Era feliz? ' Ela satisfazia a todas as perguntas, ou respondia que lhe era defeso responder. A noite escoava, e nós permanecíamos ali, com a alma presa à invisível aparição. Afinal, nos disse ela: "Adeus!" e a mesa ficou imóvel."

Após. a partida da Sra. De Girardin, o grande exilado continuou esses misteriosos exercícios e os consignou em muitos cadernos, que o Sr. Camilo Flammarion pôde compulsar, e dos quais publicou alguns fragmentos em

"Annales Politiques et Littéraires", de 7 de maio de 1899. Aí se encontra o seguinte: "A Sra. Victor Hugo (141) e seu filho François reuniam'se quase sempre em torno da mesa. Vacquerie e alguns outros não se aproximavam senão alternativamente; Hugo jamais. Ele desempenhava o papel de secretário, escrevendo, à parte, em folhas de papel os ditados da mesa. Esta, consultada, anunciava, geralmente, a presença de poetas, autores dramáticos e outras personagens célebres, como Molière, Shakespeare, Galileu, etc. Na maioria das vezes, porém, quando interrogados, em lugar do nome que se esperava, a mesa soletrava o de um ser imaginário, como este por exemplo, que reaparecia com freqüência: a Sombra do Sepulcro. Um dia, os Espíritos pediram que os interrogassem em verso. Victor Hugo declarou que. não sabia improvisar como repentista, e pediu que fosse adiada a sessão. No dia seguinte, tendo Molière ditado seu nome, o autor de La Légende des Siècles recitou os seguintes versos:

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.