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Capítulo 34 de 52

A Sombra do Sepulcro a Victor Hugo — parte 6 de 15

No Invisível · Léon Denis

"Em que subconsciente teria podido a Sra. Piper achar essas personagens ' Imperador, Reator, G. Pelham, etc. ' com seus modos de intervenção tão justos e apropriados a cada incidente, sem que jamais seus caracteres se confundam? A todo instante, Imperador revela seu caráter cheio de dignidade e suas tendências imperiosas, que tão bem justificam o seu pseudônimo, enquanto Reator encaminha as conversações e Pelham resolve as dúvidas e retifica os erros quanto aos fatos e, sobretudo, às pessoas e às relações entre elas e os consultantes." (176) A telepatia, acrescenta o professor, não pode melhormente explicar essas revelações. Os próprios erros, em sua opinião, contribuem para excluir a possibilidade dessa hipótese, porque diversas vezes os Espíritos se enganaram em pontos que ele, Hyslop, conhecia perfeitamente, e sobre os quais a médium tinha toda a facilidade de informar'se. E conclui nestes termos:

"Considerando o problema com imparcialidade, outra explicação não há senão a intervenção dos mortos."

A história do novo Espiritualismo nos fornece numerosos exemplos de médiuns que possuem, no estado de transe, faculdades extraordinárias e se exprimem com arrebatadora eloqüência. Cora Tappan percorreu os Estados Unidos e a Inglaterra, fazendo ouvir em cada cidade maravilhosos discursos, em verso e em prosa. Respondia, além disso, a perguntas de todos os gêneros, dando prova de surpreendente erudição. Afirmava que suas respostas não provinham dela mesma, e disso não tirava motivo de vaidade. Suas prédicas ' dizia ' emanavam de um grupo de Guias, sempre prontos a falar por sua boca, toda vez que seus serviços eram reclamados. (177) T. G. Forster não causava menos Impressão. Eis o que dele dizia um literato de Luisiana que, depois de haver perdido três filhos e a esposa idolatrada, à força de desespero chegara a trazer consigo "o vidro fatal que deveria pôr termo às suas misérias e adormecer suas dores para sempre" (178)

"Fui ouvir T. G. Forster; entrei disposto a rir e divertir'me; fiquei para escutar e maravilhar'me; saí comovido e abalado, e lá voltei ainda. Esse homem falava de tudo com uma eloqüência de que nunca até então pudera ter idéia. Tenho ouvido oradores célebres: li Cícero, Chatham, Pitt e outros; jamais vi coisa que se aproximasse da eloqüência irrefutável desse homem adormecido. Os oradores de cátedra e de tribuna são obrigados a preencher com palavras o intervalo entre duas idéias; com ele não se dá isso: as idéias, os fatos, as datas se sucediam sem interrupção nem esforço e sem a menor hesitação. A história de todos os povos lhe era conhecida; todas as ciências lhe eram familiares, como se lhe houvesse consagrado todo o prazo de uma vida humana ao estudo de cada uma delas, e sua linguagem, ao mesmo tempo simples e elevada, sempre se conservava à altura de sua ciência. Procurei ser'lhe apresentado, quando voltou a seu estado normal, e nele encontrei um homem eminente, mas não ' e bem longe disso ' o homem universal de seus discursos.

Ele concedeu'me uma sessão de transe, e por seu intermédio conversei com o professor Drayton, seu Espírito'guia. Fiquei convencido. Sou agora outro homem; sou feliz, oh! bem feliz!" O seguinte caso ocorreu na França e a pessoa do manifestante se revelou de modo irrefragável. Citamos textualmente o relatório, cujo original se acha em nosso poder:

"A 13 de janeiro de 1899, doze pessoas se haviam reunido em casa do Sr. David, à praça Corps'Saints n ' 9, em Avignon, para a sessão hebdomadária de Espiritismo. Após um instante de recolhimento, vimos a médium, a Sra. Gallas, em estado de transe, voltar'se para o lado do Sr. Abade Grimaud e lhe falar na linguagem dos sinais empregados por certos surdos'mudos. Sua volubilidade mímica era tal que foi preciso pedir ao Espírito que se comunicasse mais devagar, o que imediatamente fez. Por precaução, cuja importância vai ser apreciada, o Sr. Abade Grimaud limitava'se a enunciar as letras, à medida que eram transmitidas pela médium. Como cada letra insulada nada significa, era impossível, mesmo que o tivéssemos querido, interpretar o pensamento do Espírito; e só no fim da comunicação foi que ficamos conhecendo o seu conteúdo, após a leitura dela por um dos membros do grupo encarregado de registrar os caracteres.

Ao demais, a médium empregou um duplo método: o que consiste em enunciar todas as letras de uma só palavra, para indicar' lhes a ortografia, única forma perceptível à vista, e o que enuncia a articulação sem se preocupar com a forma gráfica, método inventado pelo Sr. Fourcade, e que só é usado no Instituto dos Surdos'mudos de Avignon. Estes pormenores são fornecidos pelo Abade Grimaud, diretor e fundador do estabelecimento. A comunicação, relativa ã obra de excelsa filantropia a que se dedicou o Sr. Abade Grimaud, estava assinada: "Irmão Fourcade, falecido em Caen." Nenhum dos assistentes, com exceção do venerável sacerdote, conheceu nem podia conhecer, quer o autor dessa comunicação, posto que ele tivesse passado, há trinta anos, algum tempo em Avignon, quer o seu método."

Subscreveram o relatório os membros do grupo que assistiram à sessão: Toursier, diretor aposentado do Banco de França; Roussel, mestre de música do 58.0; Domenach, tenente do 58.0; David, negociante; Bremond, Canuel, Sras. Toursier, Roussel, David, Bremond. Junto ao relatório vinha o seguinte atestado:

"Eu, abaixo assinado, Grimaud, padre, diretor'fundador do Instituto dos enfermos dos órgãos vocais, surdos'mudos, gagos e crianças anormais em Avignon, certifico a absoluta exatidão de tudo o que acima é referido. Devo dizer, em testemunho da verdade, que estava longe de esperar semelhante manifestação, da qual compreendo toda a importância, no ponto de vista da realidade do Espiritismo, de que sou fervoroso adepto. Não tenho a menor dúvida em o declarar publicamente. Avignon, 17 de abril de 1899. (assinado) Grimaud, padre."

De 1893 a 1901 tínhamos, no Grupo de Estudos Psíquicos de Tours, três senhoras, médiuns de transe, todas pertencentes à burguesia, e cujo concurso era absolutamente desinteressado. Relatórios estenográficos, que formam diversos volumes, permitem comparar os discursos pronunciados, as comunicações obtidas com o auxilio de suas faculdades, e comprovar, a muitos anos de distância, uma perfeita Identidade de caráter e de opiniões em relação a cada um dos Espíritos que se comunicavam. Logo que se produz a obscuridade, os médiuns sentem a influência magnética dos invisíveis. No primeiro grau do transe, estando ainda acordados, eles vêem um grupo completo de Espíritos formar'se atrás dos experimentadores, e descrevem as aparições; ouvem e transmitem as indicações, os pedidos desses Espíritos, e por sua linguagem, por certas particularidades da fisionomia ou da atitude, os assistentes facilmente reconhecem parentes, amigos falecidos. Dentro em pouco se acentua o transe, o médium adormece, a incorporação se verifica. Em nosso grupo o poder fluidico dos Espíritos'guias era suficiente para anular por completo a personalidade do sensitivo e evitar qualquer intervenção da subconsciência.

Quando muito, pôde observar'se algumas vezes num dos sensitivos, a Sra. D., uma interferência de personalidades, quando o transe não era profundo. Quase sempre as incorporações se sucedem. Desde que a possessão é completa, faz'se a luz, e depois, quando o Espírito se retira, se torna a diminuí'Ia para facilitar a ação fluídica dos invisíveis e o ingresso de um novo manifestante. Cada médium serve habitualmente de órgão a três Espíritos diferentes, numa mesma sessão. Enquanto a incorporação se produz num dos médiuns, os outros descansam; algumas vezes, as incorporações são simultâneas. Diálogos, discussões se travam então entre diversos Espíritos e o presidente do grupo. Essas conversações entre quatro pessoas, três das quais pertencem ao mundo dos Espíritos, são das que mais vivamente impressionam. Em geral, são os Espíritos'guias que primeiro se manifestam, dando conselhos, instruções, repassadas de lógica e de grandeza, sobre os problemas da vida e do destino.

Sucedem'se depois conversas com Espíritos menos elevados, alguns dos quais viveram entre nós e participaram dos nossos trabalhos. Cenas patéticas se produzem. 1; um pai, uma mãe, que vêm exortar seus filhos, presentes à reunião. São amigos de além'túmulo, que nos despertam recordações de infância, relembram serviços prestados, faltas cometidas. Descrevem suas condições de vida no Espaço, falam das alegrias e dos sofrimentos morais, experimentados depois da morte, conseqüências inevitáveis de sua conduta na Terra. Como lições vivas de coisas, palpitantes de colorido e movimento, essas expansões, essas confissões nos deixavam profundamente comovidos. Muitas vezes se travaram discussões um tanto veementes entre Espíritos. Dois políticos célebres, adversários declarados na Terra, continuavam a hostilizar'se pela boca dos nossos médiuns, com arroubos oratórios, uma dialética cerrada, argumentos de tribuna e de pretório, um conjunto de ditos característicos e acerados que constituíam outras tantas provas de identidade. Um duelo de vontade, entre um de nossos Guias e um Espírito obsessor, ambos incorporados, atingia culminâncias verdadeiramente épicas.

Essas cenas, de uma intensidade de vida e de expressão como se não pode ver em teatro algum, deixaram em nossa memória indeléveis recordações. Dois Espíritos assumem mais particularmente a direção do grupo e se manifestam em todas as sessões: o Espírito Azul (179) e Jerônimo. O Espírito Azul é uma entidade feminina de ordem assaz elevada. Quando anima o organismo da médium, pessoa tímida e de modesta instrução, as linhas do semblante adquirem uma expressão seráfica, a voz se torna extremamente doce e melodiosa, a linguagem reveste forma poética e irrepreensível. A cada um dos assistentes, por sua vez, dirige ela advertências, conselhos, relativos à sua conduta privada, os quais atestam, mesmo ao primeiro encontro, perfeito conhecimento do caráter e da vida íntima daqueles a quem são dirigidos. Acontece freqüentemente que pessoas vindas pela primeira vez às nossas reuniões, e desconhecidas da médium, recebiam conselhos, palavras de animação ou de censura, apropriadas a seu estado moral e a seus mais secretos pensamentos.

Essas advertências, obscuras para os outros ouvintes, eram sempre claras e positivas para os interessados. E não era um dos menores atrativos de tais manifestações essa arte que empregava o Espírito Azul em falar, diante de todos, as coisas íntimas e ocultas, de modo a evitar qualquer indiscrição, tornando'se perfeitamente claro para a pessoa alvejada. A solicitude e a proteção do Espírito Azul se estendiam a todos os membros do grupo e se patentearam muitas vezes no domínio dos fatos. Vários dentre nós, premidos por sérias dificuldades, conseguimos vencê'las, graças à ação providencial desse Espírito, que, nos casos mais melindrosos e no momento oportuno, sabia fazer surgir um socorro, provocar uma intervenção inesperada. Suas instruções se referem geralmente à família e à educação das crianças. "La Tribune Psychique", de março de 1900, reproduziu uma dessas comunicações, que resume em termos elevados o método do nosso guia. O Espírito Azul vê, numa profunda reforma da educação da infância e da mocidade, o verdadeiro remédio aos males do presente e aos perigos que ameaçam a sociedade moderna.

Jerônimo se comunica pela mesma médium; mas o contraste entre os dois Espíritos é flagrante. Jerônimo, que foi um apóstolo e um mártir, conservou'se orador e combatente; sua palavra é vibrante, seu gesto amplo e dominador. Exprime'se por períodos incisivos, em termos escolhidos. Sua energia é tal que esgota rapidamente o sensitivo, de sorte que nem sempre pode terminar os seus discursos, por falta de força fluídica. Ele dirige mais especialmente os estudos filosóficos do grupo. Numerosas existências, passadas no silêncio dos claustros e entre a poeira das bibliotecas, lhe permitiram acumular tesouros de conhecimentos e imprimiram'lhe maior vigor ao pensamento. Os séculos o viram imerso na investigação, no estudo, na meditação. As percepções mais nítidas e as impressões da vida do Espaço vieram completar sua ciência, já de si tão extensa. Por isso, que amplitude em suas apreciações, que habilidade em dissipar as contradições e resumir em linhas sóbrias e claras as mais transcendentes leis da vida e do Universo! E tudo isso pela boca de uma pobre senhora, de gestos tímidos e instrução elementar!

Deveremos examinar, a propósito desses fenômenos, a objeção habitual que lhes é feita, isto é, de serem produtos da subconsciência do médium, das personalidades secundárias criadas por uma divisão temporária da consciência normal, como o pretendem os Srs. Pierre Janet e Flournoy? Essa teoria não poderia resistir a um exame atento dos fatos. E precisamente nos fenômenos de incorporação que mais positiva se revela a identidade dos Espíritos, quando o transe é profundo e completa a posse daqueles sobre o sensitivo. Por suas atitudes, seus gestos, suas alocuções, o Espírito se mostra tal qual era aqui na Terra. Os que o conheceram durante sua existência humana o reconhecem em locuções familiares, em mil detalhes psicológicos que escapam à análise. O mesmo acontece com as individualidades que viveram em épocas remotas. Em nosso grupo, os Espíritos'guias se comunicavam pelo órgão do médium mais modesto. Uma outra senhora, de maneiras elegantes, era preferida, para a incorporação, por Espíritos de ordem inferior.

Ouvia'se uma vendedora de legumes falar, por sua boca, o calão de um país em que essa senhora jamais estivera. Uma velhota leviana discorria numa verbiagem ociosa, ou punha'se a contar'nos anedotas engraçadas. Depois disso, era um sacristão de voz arrastada que se apresentava ou ainda um antigo procurador que, pelo órgão da própria médium, dizia ao marido dela, em tom veemente, duras verdades. O caráter de cada um desses Espíritos e de outros muitos (180) se manteve e afirmou em sua originalidade, sem a mínima alteração, através de um período de sete anos. Disso dão testemunho as nossas atas. Ao mesmo tempo nos foi dado acompanhar os progressos graduais de um deles, Sofia, a vendedora de legumes, que graças à sua boa'vontade e à proteção de nossos Guias conseguiu emendar'se e instruir'se, até que para ela soou a hora da reencarnação. Sua volta à vida terrestre foi antecipadamente anunciada, e nós pudemos observar'lhe as fases dolorosas. Consumado esse ato, Sofia nunca mais reapareceu em nossas sessões.

Se aí estão personalidades secundárias do médium, como explicar que sejam em tão grande número e revistam aspectos e nomes tão diferentes? Em nosso grupo contavam'se por dezenas os Espíritos que se comunicavam. Em cada sessão, tínhamos de seis a oito, dos quais dois ou três para cada médium. A medida que cada um deles se apresentava, mudava a fisionomia do sensitivo, a expressão das feições se modificava. Pela inflexão da voz, pela linguagem e atitude, a personalidade invisível se revelava, antes de ter dado o nome. Esses Espíritos não se manifestavam todos seguidamente. Alguns só reapareciam depois de longas ausências, mas sempre com a mesma originalidade de caráter, com a mesma intensa realidade de vida e de ação.

Como explicar pela subconsciência, ou dupla personalidade, essa variedade de personagens que, do sacristão ao Espírito Azul, representam todos os tipos da gradação hierárquica do mundo invisível, desde o bruto até o anjo, todas as formas do aviltamento, da mediocridade ou da elevação; de um lado, poder, bondade, saber, penetração das coisas; de outro, fraqueza, ignorância, grosseria, miséria moral? Esses Espíritos observam, uns para com os outros, a atitude que convém à sua posição. Todos, por exemplo, mostram pronunciada deferência aos Espíritos'guias. Deles não falam senão com respeito; e é sempre num tom comovido e suplicante que Sofia se recomenda à proteção da "dama azul". Não se trata de personagens ilusórias, de vagos fantasmas subconscientes. Esses Espíritos vivem e agem como homens. Suas opiniões, suas percepções são diferentes. As divergências são às vezes categóricas; discussões veementes e apaixonadas se travam entre eles; surgem incidentes dramáticos, e a isso se vêm intercalar mil provas de identidade que dissipam as dúvidas mais tenazes e obrigam à convicção.

Se a personalidade secundária pode engendrar semelhantes contrastes, animar tão variadas criações, força é reconhecer que ela ultrapassa em talento, em gênio, as mais prodigiosas concepções do pensamento normal. Produz obras' primas à vontade e sem esforço; é a mais portentosa das explicações que se possa dar do fenômeno; orça pelo sobrenatural. E é preciso que os nossos contraditores se sintam verdadeiramente em extremos apuros, para lançar mão de teoria tão contrária às exigências de uma critica sensata e de uma rigorosa ciência, e recorrer a uma hipótese tão fantástica quão inverossímil, ao passo que a teoria espírita explica os fatos mediante leis naturais, simples e claras.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.