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Capítulo 29 de 52

A Sombra do Sepulcro a Victor Hugo — parte 1 de 15

No Invisível · Léon Denis

Espírito que a treva devassar pretendes, E que, o facho terrestre empunhando, aqui vens, Furtivo, a tatear, nestas funéreas sombras, Forçar do túmulo os umbrais! Recolhe'te ao silêncio e apaga essa candeia! Volve à noite, da qual só a espaços emerges. Não pode o humano olhar ler as eternas coisas Dos mortos na espádua inclinado.

As comunicações ditadas pela mesa, em Jersey ' conclui o Sr. Flammarion ' apresentam uma grande elevação de pensamento e esplêndida linguagem. 0 autor das Contemplações acreditou sempre que nelas havia uma entidade exterior, independente dele, às vezes mesmo hostil, que com ele discutia e o chamava à ordem. E entretanto, examinando'se esses três cadernos, força é reconhecer que ali está Victor Hugo, algumas vezes mesmo o Victor Hugo sublime. Longe de mim a idéia de acusar sequer de leve nem Victor Hugo, nem Vacquerie, nem alguns dos assistentes, de haver trapaceado, de ter conscientemente engendrado frases para as reproduzir pelo movimento da mesa. Isso está fora de questão. Restam, pois, duas hipóteses: ou uma ação inconsciente do Espírito Victor Hugo, de um ou de alguns dos assistentes ' ou a presença de um Espírito independente." Não nos seria possível partilhar da hesitação do Sr. Flammarion em face desse problema. Os versos da "Sombra do Sepulcro" não são o produto de Victor Hugo, pois que ele antecipadamente declara "não saber improvisar", e zanga'se com a resposta altaneira e espontânea do Espírito.

Se não é admissível que se tivesse ele querido a si mesmo infligir uma lição, o respeito que lhe votavam ainda menos permite atribuir essa intenção às pessoas que o cercavam. Ao demais ' assegura'se ' ele jamais estava ao pé da mesa. Quanto à linguagem, não esqueçamos que os Espíritos não a empregam entre si, mas se comunicam simplesmente pelo pensamento. Eles não se utilizam a linguagem articulada senão em relação conosco e sempre na forma que nos é habitual. Que admira que um Espírito de grande elevação, como parece o interlocutor de Victor Hugo, tenha querido falar ao poeta em sua própria linguagem? Qualquer outro estilo teria ficado abaixo das circunstâncias e do meio.

Os fenômenos da mesa têm trazido numerosas adesões ao Espiritismo. A mesa que se ergue e se move, com ou sem contacto, e dita frases imprevistas, impressiona os cépticos, abala a incredulidade. Mas as convicções não se firmam e consolidam senão quando o fenômeno reveste um caráter inteligente e fornece provas de identidade. Sem isso, a primeira impressão não tarda a dissipar'se, e chega' se a explicar o fato por qualquer outra coisa que não a intervenção dos Espíritos. Os fatos puramente físicos são impotentes para produzir convicções duradouras. O próprio professor Charles Richet o reconhece. Ele presenciou em Milão, em Roma e Paris manifestações muito significativas; subscreveu relatórios concludentes; mas, a breve trecho, pela força do hábito, reincide em suas hesitações de antanho.

"Nossa convicção ' diz ele em seu discurso proferido em 1899 na Sociedade Inglesa de Investigações Psíquicas (143) ' isto é, a dos homens que observaram, deveria servir para convencer os outros; ao contrário, porém, é a convicção negativa dos que nada viram, e nada deveriam dizer, que enfraquece e chega a destruir a nossa." Acabamos de ver, nos casos mencionados, que a mesa pode tornar'se o instrumento de Espíritos eminentes. Esses casos são bem raros. Na maioria das vezes são almas de fraca inteligência que se manifestam por esse processo. Suas comunicações são geralmente banais ou mesmo grosseiras e sem valor. Quanto mais inferior é o Espírito, mais fácil lhe é agir sobre os objetos materiais. Os Espíritos adiantados só excepcionalmente se servem da mesa, em falta de outro meio. O contacto e a manipulação dos fluidos necessários às manifestações desse gênero impõem um certo constrangimento aos Espíritos de natureza etérea e delicada; não raro, contudo, o afeto e solicitude que nos votam lhes fazem superar muitas dificuldades.

As manifestações da mesa são apenas o vestíbulo do Espiritismo, uma preparação para fenômenos mais nobres e instrutivos. Não vos detenhais nas experiências físicas; logo que delas houverdes colhido o que vos podem fornecer como certeza, procurai modos de comunicação mais perfeitos, suscetíveis de vos conduzirem ao verdadeiro conhecimento do ser e de seus destinos.

XVIII ' Escrita direta ou psicografia Escrita mediúnica

A escrita é também um dos meios por que os seres que amamos neste mundo podem comunicar'se conosco e transmitir'nos seus pensamentos. Duas são as formas que reveste: escrita direta, ou psicografia, escrita mediúnica. Desses dois modos de manifestação, a psicografia é certamente o mais seguro, o mais fácil de fiscalizar'se. Pode produzir'se em plena luz. O médium permanece em estado normal, estranho a suas peculiaridades, ao ponto de parecer que não tem a mínima intervenção no fenômeno. Colocadas algumas folhas de papel numa caixa ou numa gaveta fechadas à chave, ou ainda entre ardósias duplas, amarradas e lacradas, ao serem retiradas algum tempo depois, são encontradas escritas, assinadas com os nomes de pessoas falecidas. Nos tempos modernos, o Barão de Guldenstubbé foi o primeiro que chamou a atenção pública para essa ordem de fatos, com o seu livro "La réalité des Esprits et le phénomène de leur écriture directe". (144) Sem o concurso de pessoa alguma, sendo ele próprio indubitavelmente médium, obteve, em variadíssimas condições, numerosas mensagens escritas.

Suas mais notáveis experiências foram efetuadas no Louvre, no Museu de Versalhes, na basílica de Saint'Denis, na abadia de Westminster, no British Museum e em diversas igrejas ou monumentos, em ruínas, da França, da Alemanha e da Inglaterra. Entre as testemunhas desses fatos cita ele o Sr. Delamare, redator'chefe de "La Patrie"; Croisselat, redator do "Universo"; R. Dale Owen, Lacordaire, irmão do grande orador, o historiador De Bonnechose, o Príncipe Leopoldo Galitzin, o Reverendo W. Mountfort, cujo depoimento a esse respeito foi publicado pelo "The Spíritualist", de 21 de dezembro de 1877. O barão colocava algumas folhas de seu próprio canhenho em lugares ocultos, sem lápis nem coisa alguma que servisse para escrever. Afastava'se alguns passos, sem perder de vista um só instante o objeto da experimentação, e depois retirava o papel, em que se achavam escritas mensagens inteligíveis. O volume é acompanhado de trinta fac'símiles de psicografias assim obtidas e escolhidas entre mais de duzentos espécimes em vinte línguas diferentes.

Em certos casos, disposto sobre mesas, ou no chão, folhas de papel e lápis, sob as vistas dos experimentadores erguia'se o lápis, como empunhado por mão invisível, e traçava caracteres. Algumas vezes, via'se essa mão guiar e dirigir os movimentos do lápis; noutras, parece a escrita ser o resultado de uma ação química. Em seu livro "Investigações sobre os fenômenos do Espiritualismo", pág. 158, W. Crookes cita vários exemplos de psicografia:

"Havia'me sentado perto da médium, a Srta. Fox, e as outras únicas pessoas presentes eram minha mulher e uma de suas parentas. Eu mantinha as duas mãos da médium numa das minhas, enquanto os seus pés descansavam sobre os meus. Uma folha de papel havia sido colocada sobre a mesa, diante de nós, e com a mão que eu conservava livre segurava um lápis. Uma mão luminosa desceu do teto do salão e, depois de ter flutuado alguns segundos perto de mim, tomou'me o lápis da mão, escreveu rapidamente na folha de papel, atirou o lápis, depois elevou'se acima de nossas cabeças, perdendo'se pouco a pouco na obscuridade."

Aksakof, em "Animismo e Espiritismo" (cap. I, B), cita diversos casos em que mãos de Espíritos materializados escrevem sob as vistas dos assistentes. Aqui estão fatos mais recentes, obtidos na aldeia de Douchy (Norte) e apresentados ao Congresso Espírita de Paris, de 1900, pelo Dr. Dusart (145)

"No dia 4 de março de 1898, a médium Maria D., rodeada de cinco pessoas, indica uma cadeira vazia, na qual diz ver o Espírito Agnes, sua prima, falecida há muitos anos, entretido a escrever em pedaços de papel recortados em forma de coração. Um momento depois, todos os assistentes vêem uma mão depor sobre a mesa um pacotinho contendo cinco corações de papel, num dos quais estava escrita uma pequena prece. O Sr. e a Sra. N., pais de Agnes, reconhecem a escrita de sua filha e desfazem'se em lágrimas. Numa outra sessão viu'se, duas vezes seguidas, uma pena colocada sobre a mesa erguer'se, escrever por si mesma duas linhas e voltar à primitiva posição."

Noutros casos, é sobre a ardósia que são traçadas as comunicações diretas. Uma observação aqui se impõe. É sabido que certas radiações exercem ação dissolvente sobre os fluidos. Uma luz demasiado viva, a fixação dos olhares no ponto em que se produzem as experiências podem paralisar a força psíquica e constituir obstáculos às manifestações, ao passo que a obscuridade as favorece. Esta, porém, torna mais difícil a verificação e diminui o valor dos resultados obtidos. É preciso, portanto, a ela recorrer o menos possível, salvo no que se refere aos fenômenos luminosos, que sem a obscuridade não poderiam ocorrer. As experiências de escrita em ardósia oferecem a preciosa vantagem de se poderem realizar em plena luz e ser submetidas a uma severa fiscalização, ao mesmo tempo que reúnem as condições mais favoráveis à preparação dos fenômenos. As ardósias, com efeito, aplicadas uma contra a outra, constituem, com suas faces interiores, uma câmara completamente obscura, semelhante à câmara escura dos fotógrafos e, por isso mesmo, muitíssimo própria à ação fluídica.

Em todas as experiências que vamos mencionar, as ardósias eram novas, limpas de quaisquer caracteres, compradas e trazidas pelos experimentadores; muitas vezes, a fim de evitar alguma substituição fraudulenta, se lhes punha uma marca secreta. Eram, ou fortemente amarradas, ou lacradas e carimbadas, ou até, como no caso da Sra. L. Andrews e W. Petty, solidamente atarraxadas uma à outra. Nessas condições, aparecem mensagens escritas no interior de tais ardósias, que se não perderam de vista um só instante. As vezes, mesmo as mãos dos experimentadores não as abandonam. Casos há também em que nem o médium, nem qualquer dos assistentes toca sequer nas ardósias. Colocando um pedaço de lápis no intervalo vazio, ouve'se, todo tempo que dura o fenômeno, o ranger desse lápis sobre a lousa e o ruído característico que se produz quando se põe a pontuação ou quando se cortam os tt.

Sob o titulo "Psychography", Stainton Moses (Oxon) escreveu, acerca dos fenômenos da escrita em ardósia, uma obra multo documentada, em que refere numerosos casos por ele mesmo observados num período de dez anos; a esses fatos se vêm acrescentar outros da mesma natureza, presenciados e atestados por investigadores não menos sérios. Aí se encontram testemunhos coletivos provenientes de notáveis personalidades ou de observadores cépticos em cujo número o autor cita muitas vezes os nomes de O'Sullivan, ministro dos Estados Unidos na Corte de Portugal, o Conselheiro Thiersch, o professor de Direito Criminal Wach; os professores Zoellner, Fechner, Weber e Scheibner, da Universidade de Leipzig; Harrison, redator'chefe do "The Spiritualjst", de Londres; Robert Dale Owen, ministro dos Estados Unidos em Nápoles, etc. Tendo sido em sua maioria reproduzidos esses fatos em diversos jornais e revistas (146), deles não citaremos mais que um limitado número. Sergeant Cox, presidente da Sociedade Psicológica da Grã' Bretanha, declara ter obtido diversas mensagens em ardósia com o concurso do médium Slade. Eis aqui um extrato do seu testemunho:

"Slade apoiava as mãos na mesa, e todo o seu corpo estava sob minhas vistas, da cabeça. aos pés. Tomou a ardósia, que eu havia cuidadosamente inspecionado, para assegurar'me de que nela nenhum traço de escrita existia, e, colocando'lhe um fragmento de lápis, aplicou'a contra a face inferior da tábua da mesa. No mesmo instante ouvi um ruído como se estivessem a escrever na, ardósia. Tendo algumas pancadas rápidas indicado que estava terminada a escrita, foi retirada a ardósia, e, então, pudemos ler a comunicação seguinte, escrita em caracteres nítidos e corretamente dispostos "Caro Sergeant, estudais um assunto que merece toda a vossa atenção. O homem que chega a acreditar nesta verdade torna'se melhor, na maioria dos casos. Tal é nosso objetivo, quando volvemos à Terra, impelidos pelo desejo de tornar os homens mais conscientes e mais puros."

O reverendo J. Savage, pregador de nomeada, cita o testemunho de um seu amigo, rabino judeu, céptico acerca da possibilidade de comunicar com um outro mundo.

"Tinha ele ido ver um médium de Chicago, munido de um bilhete que dirigira a seu pai, falecido alguns anos antes na Alemanha, e que redigira em alemão, em caracteres hebraicos, a fim de impedir que o médium, por um meio qualquer, descobrisse do que porventura se tratava. Colocou o bilhete entre duas ardósias, que amarrou solidamente, e prendeu'as a uma lâmpada suspensa que havia acima da mesa em que estavam sentados. Foi nestas condições que, ao abrir as ardósias ao fim de um instante, encontrou uma resposta ao seu bilhete, assinada por seu pai, e também escrita em alemão com caracteres hebraicos." Algumas vezes, os caracteres traçados na ardósia são tão pequenos que só podem ser lidos com o auxílio de uma lente de fortíssimo grau. Os caracteres diferem, conforme as entidades que se comunicam, e o tipo de cada escrita se conserva uniforme durante todo o curso das experiências, por longo que seja.

Não somente o caráter da escrita se mantém constante, mas as mensagens revelam a presença de uma individualidade consciente, que declara ter vivido na Terra, na condição humana. Elas têm sua originalidade, na forma e no fundo; as Inteligências se distinguem claramente umas das outras por suas comunicações, como se distinguem do médium. Certas mensagens, obtidas em presença de Slade, de Monck ou Watkins, foram escritas em grego antigo e moderno, em espanhol, português, russo, sueco, holandês,alemão, árabe e chinês. Ora, todas as testemunhas atestam que nem um nem outro desses médiuns conheciam tais línguas. Por isso mesmo havia impossibilidade de suspeitar de sua parte a mínima fraude. Robert Dale Owen, experimentando com Slade, tinha colocado sobre seus próprios joelhos, em plena luz, uma ardósia coberta com uma folha de papel. Uma mão fluídica, semelhante à de que fala William Crookes, e vinda de sob a mesa, apareceu e traçou uma comunicação nessa folha de papel:

"A mão se assemelhava em tudo à de uma mulher, em mármore, e tinha dedos delicados. Destacava'se visivelmente e terminava em vapor ao nível do punho. Começou a escrever e continuou, à minha. vista, durante dois ou três minutos. Em seguida resvalou docemente sob a mesa. Cinco minutos depois, uma segunda mão, menor que a primeira, veio, a seu turno, escrever, e desapareceu como a precedente. A primeira mensagem, em inglês, estava assinada com o nome da falecida mulher do Dr. Slade; a última estava escrita em grego." (147)

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.