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Capítulo 10 de 52

Primeira Parte — parte 6 de 12

No Invisível · Léon Denis

Certas pessoas consideram, mas sem razão, a mediunidade um fenômeno peculiar aos nossos tempos. A mediunidade, realmente, é de todos os séculos e de todos os países. Desde as idades mais remotas existiram relações entre a Humanidade terrestre e o mundo dos Espíritos. Se interrogarmos os Vedas da índia, os templos do Egito, os mistérios da Grécia, os recintos de pedra da Gália, os livros sagrados de todos os povos, por toda parte, nos documentos escritos, nos monumentos e tradições, encontraremos a afirmação de um fato que tem permanecido através das vicissitudes dos tempos; e esse fato é a crença universal nas manifestações das almas libertas de seus corpos terrestres. Veremos essas manifestações associadas de um modo íntimo e constante à evolução das raças humanas, a tal ponto que são inseparáveis da história da Humanidade. É ao começo o culto dos antepassados, a homenagem prestada aos manes dos heróis e aos lares gênios tutelares da família. Erigem' lhes altares; dirigem'lhes invocações; depois o culto se estende a todas as almas amadas; ao esposo, ao filho, ao amigo falecido.

Segundo Lucano, as sombras dos mortos se misturam com os vivos; deslizam pelas ruas e se introduzem nas habitações; aparecem, falam, na vigília como no sonho, e revelam o futuro. A telepatia, a premonição, a psicografia, as materializações de fantasmas são abundantes por toda à parte e sempre. Em Delfos, em Elêusis, o Espírito inspira a pítia convulsa e lhe dita seus oráculos. Nas praias da Jônia, sob a brancura dos mármores, ao murmúrio das vagas azuis, Pitágoras ensina aos iniciados os divinos mistérios e, pelos lábios de Teocléia adormecida, conversa com os gênios invisíveis. Em Êndor, a sombra de Samuel responde às invocações de Saul. Um gênio previne a César, na véspera de sua morte, que não vá ao Senado, e mais tarde, quando Domiciano cai sob o ferro dos conjurados, da extremidade da Europa, Apolônio de Tiana assiste, em visão, a esse drama sangrento.

Nos círculos de pedra da Gália, sob a fronde sombria dos carvalhos ou nas linhas sagradas em torno das quais ruge espumante o oceano, e até nos templos da América Central, a comunhão das almas se efetua. Por toda à parte a vida interroga a morte, e esta responde. Sem dúvida os abusos, as superstições pueris, os sacrifícios supérfluos se misturam com o culto dos invisíveis; mas nesse íntimo comércio haurem os homens novas forças. Sabem que podem contar com a presença e o amparo dos que amavam, e esta certeza os torna mais firmes em suas provações. Aprendem a não mais temer a morte. Os laços de família se fortalecem com isso intimamente. Na China, como na índia, como no território céltico, havia reuniões em dia fixo, na "câmara dos antepassados". São numerosos então os médiuns; ardente é sua fé, poderosas e variadas são as suas faculdades e os fenômenos obtidos ultrapassam em intensidade tudo o que observamos em nossos dias. Em Roma eram instituídas cerimônias públicas em honra dos mortos.

A multidão se aglomerava à entrada das criptas. As sibilas praticavam as encantações, e dos lugares obscuros, dizem os escritores da época (36), tal como atualmente dos gabinetes de materialização, via'se emergirem sombras e se apresentarem em plena luz. Às vezes mesmo os camaradas, os amigos de outrora retomavam por momentos seu lugar à mesa e no lar comuns. Nos mistérios órficos, dizem Porfiro e Próluz (37), as almas dos defuntos apareciam sob a forma humana, e conversavam com os assistentes. Ensinavam'lhes a sucessão das existências e a ascensão final do Espírito à luz divina, mediante vidas puras e laboriosas. Essas práticas comunicavam aos iniciados uma fé profunda no futuro, incutiam'lhes uma força moral, uma serenidade incomparáveis; transportavam seus pensamentos às regiões sublimes em que tanto se comprouve o gênio grego. Eis que chega, porém, a época de decadência, e aí temos a depressão dos estudos, as intrigas sacerdotais, as rivalidades dos potentados e, finalmente, as grandes invasões, a ruína e a morte dos deuses. Um vento de barbaria sopra sobre os mistérios sagrados. Os Espíritos, os gênios tutelares desertaram.

A divina Psique, banida dos altares, remontou às celestes regiões. Uma a uma, se vão extinguindo as luzes do templo. A grande noite, uma noite de dez séculos, se estende sobre o pensamento humano. Surge, entretanto, o Cristianismo. Também ele se baseia nas manifestações de além'túmulo. O Cristo atravessa a existência, rodeado de uma multidão invisível, cuja presença se revela em todos os seus atos. Ele mesmo aparecerá, depois da morte, aos discípulos consternados, e sua presença lhes fortalecerá o ânimo. Durante dois séculos, comunicaram abertamente os primeiros cristãos com os Espíritos, deles recebendo instruções (38). Cedo, porém, a Igreja, inquieta com as ingerências ocultas, muitas vezes em oposição com seus intuitos, procurará impedi'las. Interditará aos fiéis todas as relações com os Espíritos, reservando'se direito exclusivo de provocar e interpretar os fenômenos. A religião do Cristo é, todavia, portadora de uma noção inteiramente nova: a utilidade da dor, benéfica e purificadora divindade, cuja ação não foi pelo mundo pagão compreendida em toda a sua amplitude.

Graças a essa noção, a alma lutará mais vantajosamente contra a matéria e suplantará a sensualidade. É de toda a vida essa luta, cujo objetivo é o triunfo alcançado pelo espírito sobre o corpo e a posse da virtude. Alguns clérigos ou leigos chegarão a adquirir o poder da fé que domina os sentidos e transporta a alma para além das regiões terrestres, às esferas em que se dilata e exalta o pensamento. É esse ainda um meio de penetração no invisível. A alma, desprendida das coisas humanas, na contemplação e no êxtase, comunica com as potências superiores e lhes atribui as formas angélicas ou divinas, familiares à sua própria crença. Nesses fenômenos ' simples lei da Natureza ' verá milagres a Igreja e deles se apropriará. As outras manifestações dos mortos serão consideradas diabólicas e conduzirão os videntes ao suplício. Sob a cinza das fogueiras se há de procurar extinguir a idéia renascente. Mas "o espírito sopra onde quer". Fora da Igreja, entre os heréticos, prosseguem as manifestações. Com Joana d'Arc vêm revestir um caráter de grandeza tal que, diante delas, a crítica mais virulenta hesita, depõe as armas e emudece.

Mudaram'se os tempos. No passado, a comunhão das almas foi sobretudo o privilégio dos santuários, a preocupação de alguns limitados grupos de iniciados. Fora desses esclarecidos círculos ' asilos da sabedoria antiga ' as manifestações de além'túmulo eram muitas vezes consideradas sobrenaturais. e associadas a práticas supersticiosas que lhes deturpavam o sentido. O homem, ignorante das leis da Natureza e da vida, não podia apreender o ensino que sob os fenômenos se ocultava. Para preparar o atual movimento das idéias e a compreensão desses fatos, foram necessários o imenso trabalho dos séculos e as descobertas da Ciência. Esta realizou a sua tarefa. Posto que bem incompleta, ainda, pelo menos explorou o domínio material, desde as camadas profundas do solo aos abismos do espaço. Descreveu a história da Terra, sua gênese e evolução; enumerou os mundos que gravitavam no céu e lhes calculou o peso, as dimensões, a órbita.

Ficou o homem conhecendo o mesquinho lugar que ocupa no Universo: se aprendeu a conhecer a grandeza de sua inteligência, pôde em contraposição medir a debilidade de seus sentidos. A vida se patenteou por toda à parte, no domínio dos seres microscópicos como na superfície dos globos que rolam na imensidade. O estudo do mundo invisível vem completar essa ascensão da Ciência; rasga ao pensamento novos horizontes, perspectivas infinitas. De ora em diante o conhecimento da alma e de seus destinos não será mais o privilégio dos iniciados e dos doutos. A Humanidade toda é chamada a participar dos benefícios espirituais que constituem seu patrimônio. Assim como o Sol se levanta visível para todos, a luz do Além deve irradiar sobre todas as inteligências, reanimando todos os corações.

VII ' O Espiritismo e a mulher

Encontram'se, em ambos os sexos, excelentes médiuns; é à mulher, entretanto, que parecem outorgadas as mais belas faculdades psíquicas. Daí o eminente papel que lhe está reservado na difusão do novo Espiritualismo. Mau grado às imperfeições inerentes a toda criatura humana, não pode a mulher, para quem a estuda imparcialmente, deixar de ser objeto de surpresa e algumas vezes de admiração. Não é unicamente em seus traços pessoais que se realizam, em a Natureza e na Arte, os tipos da beleza, da piedade e caridade; no que se refere aos poderes íntimos, à intuição e adivinhação, sempre foi ela superior ao homem. Entre as filhas de Eva é que obteve a antiguidade as suas célebres videntes e sibilas. Esses maravilhosos poderes, esses dons do Alto, a Igreja entendeu, na Idade Média, aviltar e suprimir, mediante os processos instaurados por feitiçaria (39). Hoje encontram eles sua aplicação, porque é sobretudo por intermédio da mulher que se afirma a comunhão com a vida invisível. Mais uma vez se revela à mulher em sua sublime função de mediadora, que o é em toda a Natureza.

Dela provém à vida; é ela a própria fonte desta, a regeneradora da raça humana, que não subsiste e se renova senão por seu amor e seus ternos cuidados. E essa função preponderante que desempenha no domínio da vida, ainda a vem preencher no domínio da morte. Mas nós sabemos que a morte e a vida são uma, ou antes, são as duas formas alternadas, os dois aspectos contínuos da existência. Mediadora também é a mulher no domínio das crenças. Sempre serviu de intermediária entre a nova fé que surge e a fé antiga que definha e vai desaparecendo. Foi o seu papel no passado, nos primeiros tempos do Cristianismo, e ainda o é na época presente. O Catolicismo não compreendeu a mulher, a quem tanto devia. Seus monges e padres, vivendo no celibato, longe da família, não poderiam apreciar o poder e o encanto desse delicado ser, em quem enxergavam antes um perigo. A antiguidade pagã teve sobre nós a superioridade de conhecer e cultivar a alma feminina. Suas faculdades se expandiam livremente nos mistérios.

Sacerdotisa nos tempos védicos, ao altar doméstico, intimamente associada, no Egito, na Grécia, na Gália, às cerimônias do culto, por toda a parte era a mulher objeto de uma iniciação, de um ensino especial, que dela faziam um ser quase divino, a fada protetora, o gênio do lar, a custódia das fontes da vida. A essa compreensão do papel que a mulher desempenha, nela personificando a Natureza, com suas profundas intuições, suas percepções sutis, suas adivinhações misteriosas, é que foi devida a beleza, a força, a grandeza épica das raças grega e céltica. Porque, tal seja a mulher, tal é o filho, tal será o homem. É a mulher que, desde o berço, modela a alma das gerações. É ela que faz os heróis, os poetas, os artistas, cujos feitos e obras fulguram através dos séculos. Até aos sete anos o filho permanecia no gineceu sob a direção materna. E sabe'se o que foram as mães gregas, romanas e gaulesas.

Para desempenhar, porém, tão sagrada missão educativa, era necessária a iniciação no grande mistério da vida e do destino, o conhecimento da lei das preexistências e das reencarnações; porque só essa lei dá à vida do ser, que vai desabrochar sob a égide materna, sua significação tão bela e tão comovedora. Essa benéfica influência da mulher iniciada, que irradiava sobre o mundo antigo como uma doce claridade, foi destruída pela lenda bíblica da queda original. Segundo as Escrituras, a mulher é responsável pela proscrição do homem; ela perde Adão e, com ele, toda a Humanidade; atraiçoa Sansão. Uma passagem do Eclesiastes a declara "uma coisa mais amarga que a morte". O casamento mesmo parece um mal: "Que os que têm esposas sejam como se não as tivessem"; exclama Paulo. Nesse ponto, como em tantos outros, a tradição e o espírito judaico prevaleceram, na Igreja, sobre o modo de entender do Cristo, que foi sempre benévolo, compassivo, afetuoso para com a mulher.

Em todas as circunstâncias a escuda ele com sua proteção; dirige'lhe suas mais tocantes parábolas. Estende'lhe sempre a mão, mesmo quando decaída. Por isso as mulheres reconhecidas lhe formam uma espécie de cortejo; muitas o acompanharão até à morte.

Durante longos séculos a mulher foi relegada para segundo plano, menosprezada, excluída do sacerdócio. Por uma educação acanhada, pueril, supersticiosa, a maniataram; suas mais belas aptidões foram comprimidas, conculcado e obscurecido o seu caráter. (40) A situação da mulher, na civilização contemporânea, é difícil, não raro dolorosa. Nem sempre a mulher tem por si os usos e as leis; mil perigos a cercam, se ela fraqueja, se sucumbe, raramente se lhe estende mão amiga. A corrupção dos costumes fez da mulher a vítima do século. A miséria, as lágrimas, a prostituição, o suicídio ' tal é a sorte de grande número de pobres criaturas em nossas sociedades opulentas. Uma reação, porém, já se vai operando. Sob a denominação de feminismo, um certo movimento se acentua legítimo em seu princípio, exagerado, entretanto, em seus intuitos; porque, ao lado de justas reivindicações, enuncia propósitos que fariam da mulher, não mais mulher, mas cópia, paródia do homem.

O movimento feminista desconhece o verdadeiro papel da mulher e tende a transviá'la do destino que lhe está natural e normalmente traçado. O homem e a mulher nasceram para funções diferentes, mas complementares. No ponto de vista da ação social, são equivalentes e inseparáveis. O moderno Espiritualismo, graças às suas práticas e doutrinas, todas de ideal, de amor, de eqüidade, encara a questão de modo diverso e resolve'a sem esforço e sem estardalhaço. Restitui à mulher seu verdadeiro lugar na família e na obra social, indicando' lhe a sublime função que lhe cabe desempenhar na educação e no adiantamento da Humanidade. Faz mais: reintegra'a em sua missão de mediadora predestinada, verdadeiro traço de união que liga as sociedades da Terra às do Espaço. A grande sensibilidade da mulher a constitui o médium por excelência, capaz de exprimir, de traduzir os pensamentos, as emoções, os sofrimentos das almas, os altos ensinos dos Espíritos celestes. Na aplicação de suas faculdades encontra ela profundas alegrias e uma fonte viva de consolações.

A feição religiosa do Espiritismo a atrai e lhe satisfaz as aspirações do coração, as necessidades de ternura, que se estendem, para além do túmulo, aos entes desaparecidos. O perigo para ela, como para o homem, está no orgulho dos poderes adquiridos, na suscetibilidade exagerada. O ciúme, suscitando rivalidades entre médiuns, torna'se muitas vezes motivo de desagregação para os grupos. Dai a necessidade de desenvolver na mulher, ao mesmo tempo em que os poderes intuitivos, suas admiráveis qualidades morais, o esquecimento de si mesma, o júbilo do sacrifício, numa palavra, o sentimento dos deveres e das responsabilidades inerentes à sua missão mediatriz.

O Materialismo, não ponderando senão o nosso organismo físico, faz da mulher um ser inferior por sua fraqueza e a impele à sensualidade. Ao seu contacto, essa flor de poesia verga ao peso das influências degradantes, se deprime e envilece. Privada de sua função mediadora, de sua imaculada auréola, tornada escrava dos sentidos, não é mais que um ser instintivo, impulsivo, exposto às sugestões dos apetites mórbidos. O respeito mútuo, as sólidas virtudes domésticas desaparecem; a discórdia e o adultério se introduzem no lar; a família se dissolve, a felicidade se aniquila. Uma nova geração, desiludida e céptica, surge do seio de uma sociedade em decadência. Com o Espiritualismo, porém, ergue de novo a mulher a inspirada fronte; vem associar'se intimamente à obra de harmonia social, ao movimento geral das idéias. O corpo não é mais que uma forma tomada por empréstimo; a essência da vida é o espírito, e nesse ponto de vista o homem e a mulher são favorecidos por igual.

Assim, o moderno Espiritualismo restabelece o mesmo critério dos celtas, nossos pais; firma a igualdade dos sexos sobre a identidade da natureza psíquica e o caráter imperecível do ser humano, e a ambos assegura posição idêntica nas agremiações de estudo. Pelo Espiritismo se subtrai a mulher ao vértice dos sentidos e ascende à vida superior. Sua alma se ilumina de clarão mais puro; seu coração se torna o foco irradiador de ternos sentimentos e nobilíssimas paixões. Ela reassume no lar a encantadora missão que lhe pertence, feita de dedicação e piedade, seu importante e divino papel de mãe, de irmã e educadora, sua nobre e doce função persuasiva. Cessa, desde então, a luta entre os dois sexos. As duas metades da Humanidade se aliam e equilibram no amor, para cooperarem juntas no plano providencial, nas obras da Divina Inteligência.

VIII ' As leis da comunicação espírita

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.