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Capítulo 51 de 52
Terceira Parte — parte 8 de 9
No Invisível · Léon Denis
"Escrevi William Radcliff em Berlim, sob tílias, nos derradeiros dias de 1821, enquanto o Sol com seus enlanguescidos raios iluminava os tetos cobertos de neve e as árvores despojadas de suas folhas. Escrevia sem interrupção e sem fazer emendas. E ao passo que escrevia, parecia'me ouvir por cima da cabeça um como que ruflar de asas. Quando referi esse fato aos meus amigos, jovens poetas berlinenses, eles se entreolharam de um modo singular e me declararam unanimemente que, escrevendo, nada de semelhante a isso haviam jamais observado."
O que há de mais notável é que essa tragédia é inteiramente espírita; o desenvolvimento da. ação e seu desenlace patenteiam a recíproca influência do mundo terrestre e do mundo dos Espíritos. Muitos autores célebres foram médiuns sem o saber. Outros tiveram disso consciência. Paul Adam, um dos mais fecundos escritores contemporâneos, francamente o confessou (307) :
"Fui um poderoso médium escrevente. A Força que me inspirava tinha tal intensidade física, que obrigava o lápis a subir sozinho pelo declive do papel, que eu inclinava com a mão contrariamente às leis do peso. Essa Força não somente via no passado, que eu ignorava, como possuía a presciência do futuro. Suas predições eram de surpreendente realização, visto como, nada, absolutamente nada, me podia fazer prevê'Ias."
Nem todos têm essa franqueza, e preferem deixar crer em seus méritos pessoais, mas em geral os grandes gênios reconhecem de bom grado que são dirigidos por inteligências superiores. Encontra'se em grande número de escritores contemporâneos essa espécie de obsessão do invisível. Hoffmann, Bullwer'Lytton, Barbey d'Aurevilly, Guy de Maupassant, etc., a conheceram e exprimiram em algumas de suas obras. Participaram, em graus diversos, dessa comunhão das almas, de que surge desvendado o imenso mistério da vida e do espaço.
Como se vê, em todos os domínios da arte e do pensamento, os Céus vivificam a Terra. Os grandes músicos, os príncipes da harmonia, parece terem estado mais diretamente ainda sob a influência da mediunidade. Não somente a precocidade de alguns, como, por exemplo, de Mozart, atesta, o princípio das reencarnações, mas também há, na vida dos compositores célebres, fenômenos absolutamente mediúnicos, que seria demasiado longo referir aqui. Sua história é de todos conhecida. Vimos atrás (cap. XIV) que Mozart e Beethoven deram testemunho das influências ultraterrenas que lhes inspiravam o gênio. Outro tanto se poderia dizer de Haydn, Haendel, Gluck, etc. Chopin tinha visões que, às vezes, o aterravam. Suas mais belas composições ' sua "Marcha Fúnebre", seus "Noturnos" ' foram escritos em completa obscuridade. Toda a obra de Wagner repousa sobre um fundo de espiritualidade. E isso tanto é expresso nas palavras de "Lohengrin", do "Tannhauser" e de "Parsifal", como em toda a própria música. Os homens ilustres têm sido, em sua maior parte, médiuns auditivos. Foi ao despertar que, na maioria das vezes, compuseram suas obras.
Dante denominava a manhã "a hora divina", por ser aquela em que se exprimem as inspirações da noite. Belíssimas coisas haveria que dizer acerca das revelações noturnas feitas ao gênio. Os antigos conheciam o mistério dessa iniciação. Diziam eles: "O dia é dos homens; a noite pertence aos deuses." Durante o sono, as almas superiores remontam às esferas sublimes; mergulham nas irradiações do pensamento divino, em um oceano de sonoridade, de harmoniosas vibrações; aí descobrem os princípios e as causas da sinfonia eterna. Francisco de Assis e Nicolau de Tolentino sentiram' se imersos no êxtase, por terem escutado um eco longínquo, algumas notas esparsas dos concertos celestes, isto é, da orquestra infinita das esferas. O "Requiem" de Mozart não tem outra origem. Algumas horas apenas antes de seu desprendimento corporal, o mestre, com a mão já invadida pelo gelo da morte, traçou esse hino fúnebre, que foi a derradeira manifestação do seu gênio.
Convinha que o ilustre médium, que toda a vida percebera as vozes melodiosas do Espaço, expirasse numa última harmonia, e que sua alma se exalasse num lamento sobre'humano, de inefáveis inflexões, de que só são capazes os grandes inspirados, ao assomarem o limiar dos mundos gloriosos. Rafael Sanzio dizia que suas mais belas obras lhe haviam sido inspiradas e apresentadas numa espécie de visão. Dannecker, escultor alemão, afirmava que a idéia do seu Cristo, uma obra'prima, lhe tinha sido comunicada por inspiração, num sonho, depois de a ter inutilmente procurado em suas horas de estudo. Alberto Dürer velava, uma noite, e meditava. Queria pintar os quatro evangelistas e, tendo retocado esboços, que não exprimiam a seu gosto o ideal que imaginava, atirou os pincéis, abriu a janela e pôs'se a contemplar as estrelas. A inspiração lhe veio nesse momento de tristeza; invocou os seus modelos espirituais. A Lua projetava sua claridade nos monumentos e nas agulhas das catedrais de Nuremberg. E disse ele: "Permitistes a homens transformar aí lascas de pedra em construções harmônicas, de majestosas linhas.
Consenti'me transportar para a tela esses santos enviados que trago na alma." Viu então a igreja de São Sebald avermelhar'se em fogo, e nuvens azuis formarem um fundo em que se desenhavam as imponentes figuras dos quatro evangelistas, e exclamou: "Eis aí os rostos que tenho inutilmente procurado fixar!" Não é esse um, caso de mediunidade, e não vemos atualmente o mesmo fato reproduzir' se com Helena Smith, a médium de Genebra? (308) Muito havia que escrever sobre a intervenção das inspirações superiores no domínio da arte. Não haveria também a influência do Alto nesse poder da oratória que subleva e arrebata as multidões, como o vento subleva as ondas do oceano? Ela parece manifestar'se principalmente nos oradores de arrojados surtos que, em certos momentos, são como que suspensos da Terra e transportados em possantes asas, ou ainda nesses improvisadores, de frases sugestivas e sonora linguagem, cuja palavra flui em acelerados jorros, e que Cícero denominava "a torrente do discurso".
O poder de curar pelo olhar, pelo tato, pela Imposição das mãos, é também uma das formas por que a ação espiritual se faz sentir no mundo. Deus, fonte de vida, é o princípio da saúde física, do mesmo modo o é da perfeição moral e da suprema beleza. Certos homens, por meio da prece e do esforço magnético, atraem esse influxo, essa irradiação da força divina que expele os fluidos impuros, causa de tantos sofrimentos. O espírito de caridade, e dedicação levada até ao sacrifício, o esquecimento de si mesmo, são as condições necessárias para adquirir e conservar esse poder, um dos mais admiráveis que Deus concede ao homem. Esse domínio, essa superioridade do espírito sobre a matéria se afirma em todos os tempos. Vespasiano cura pela imposição das mãos um cego e um estropiado (309). Não menos célebres são as curas de Apolônio de Tiana. Todas são ultrapassadas pelas do Cristo e seus apóstolos, operadas em virtude das mesmas leis.
Nos tempos modernos, pelo ano de 1830, um santo padre bávaro, o Príncipe de Hohenlohe, possuiu essa admirável faculdade. Ele procedia sempre mediante a prece e a invocação, e a fama de suas curas repercutiu em toda a Europa. Curava os cegos, surdos, mudos; uma multidão de doentes e achacados, incessantemente renovado, assediava'lhe a casa. Mais recentemente, outros taumaturgos atraíram a multidão dos sofredores e desenganados. Cahagnet, Puységur, Du Potet, Deleuze e seus discípulos fizeram prodígios. Ainda hoje, inúmeros curadores, mais ou menos felizes, tratam com assistência dos Espíritos. Esses simples, esses crentes são enigmas torturantes para a ciência médica oficial, tão impotente em face da dor, apesar de suas orgulhosas pretensões. Charcot, esse observador genial, no fim da vida reconheceu'lhes o poder. Numa revista inglesa publicou ele um estudo que se tornou famoso: "The faith healing" ' a fé que cura. Com efeito, a fé, que é de si mesma uma fonte de vida, pode bastar para restituir a saúde. Os fatos o demonstraram com eloqüência irrefragável.
Nos mais diversos meios, homem de bem ' o cura d'Ars, o Sr. Vigne, um protestante das Cevennas, o padre João, de Cronstadt, outros ainda, tanto nos santuários católicos como nos do Islam ou da índia ' obtiveram pela prece inumeráveis curas. Demonstra isso que, acima de todas as igrejas humanas, fora de todos os ritos, de todas as fórmulas e seitas, há um foco supremo que a alma pode atingir pelos impulsos da fé, e no qual vai ela haurir forças, auxílios, luzes, que se não podem apreciar nem compreender, desconhecendo Deus e não querendo orar. A cura magnética não exige, na realidade, nem passes, nem fórmulas especiais, mas unicamente o desejo ardente de aliviar a outrem, a invocação profunda e sincera da alma a Deus, fonte e princípio de todas as forças. Dessas considerações se depreende um fato: é que perpetuamente, em todas as épocas, tem o mundo invisível colaborado com o mundo dos mortais, nele transfundindo suas aspirações e socorros.
Os milagres do passado são os fenômenos do presente; só os nomes mudam; os fatos espíritas são eternos. Assim, tudo se explica, se esclarece e se compreende. Ante o imenso panorama do passado se inclina o pensador, empunhando o facho do novo Espiritualismo; e essa luz, na vastidão dos séculos, a poeira dos destroços, que a História registrou, brilha a seus olhos como auríferas centelhas. O gênio ' dissemos ' é uma mediunidade; os homens de gênio são médiuns em graus diversos e de várias ordens. Há nessa faculdade, além de grande variedade de formas, graduação e hierarquia, como em todos os domínios da Natureza e da vida. Os homens de gênio, voluntária ou involuntariamente, conscientemente ou não, se acham em relação com o Além; dele recebem os poderosos eflúvios; inspiradores invisíveis os assistem e colaboram em suas obras. Acrescentarei que o gênio é uma mediunidade dolorosa. Os grandes médiuns, como vimos, têm sido os maiores mártires.
A morte de Sócrates, o suplício de Jesus e a fogueira de Joana d'Arc são alguns desses calvários redentores que dominam a História. Todos os grandes homens sofreram; foram, segundo uma palavra célebre: "ilustres perseguidos". Todo homem que se eleva, isola'se: e o homem isolado sofre; é incompreendido. Um excelente livro a escrever seria o dos infortúnios do gênio; nele ver'se'ia quão doloroso foi o destino de todos os Cristos deste mundo: Orfeu, dilacerado pelas bacantes; Moisés, enterrado provavelmente vivo no Nebo; Isaías, serrado pelo meio do corpo; Sócrates, envenenado com cicuta; Colombo, acorrentado como malfeitor; Tasso, enclausurado entre loucos; Dante, errando através dos exílios; Milton, pobre como Job e cego como Homero; Camões, agonizando numa enxerga de hospital; os grandes inventores: Galileu, encarcerado pela Inquisição; Salomão de Caus, Bernardo Palissy, Jenner, Papin, Fulton e tantos outros, reputados insensatos! Insensatez sublime, como a de Jesus, que Herodes fez coroar de espinhos e revestir com um manto de púrpura, em sinal de humanidade.
Há nesse fato leis misteriosas, conhecidas outrora pelos sábios, atualmente postergadas, mas que a ciência espiritualista contemporânea deve reconstituir com paciente labor entre numerosas contradições; porque a punição dos povos consiste em readquirir ao preço de seu suor, de seu sangue e suas lágrimas, as verdades perdidas e as revelações menosprezadas. Voltemos, porém, ao estudo psíquico do gênio. O gênio é uma mediunidade, da qual possui antes de tudo o caráter essencial, que é a intermitência. Um homem superior não o é jamais no estado habitual; o sublime a jato continuo faria rebentar o cérebro. Os homens de gênio têm às vezes suetos vulgares. Alguns mesmo há que não foram inspirados mais que uma vez na vida; escreveram uma obra imortal, e em seguida repousaram. Numerosos exemplos o demonstram: a mediunidade genial se assemelha à mediunidade de incorporação. E precedida de uma espécie de transe, que tem sido justamente denominado "a tortura da inspiração". O mensagem divina não penetra impunemente o ser mortal; impõe'se'lhe de alguma sorte pela violência.
Uma espécie de febre e um frêmito sagrado se apoderam daquele que o Espírito visita (310). Manifestações, transportes semelhantes aos que agitavam a pítia em sua trípode, anunciam a chegada do deus: Ecce deus! Todos os grandes inspirados ' poetas, oradores, músicos, artistas ' têm experimentado essa hiperexcitação sibilina, em conseqüência da qual chegaram alguns mesmo a morrer. Rafael consumiu'se na flor dos anos. Há jovens predestinados cujo invólucro demasiado frágil não pôde suportar a energia das inspirações super'humanas, e que tombaram, logo ao alvorecer do próprio gênio, como a delicada flor que o primeiro raio de sol atira morta ao chão. A Igreja admite essa doutrina; ensina que de entre os seus autores sagrados alguns são diretamente inspirados, como os profetas, outros simplesmente assistidos. Essa distinção entre a Inspiração e a assistência é para nós representada pelos diferentes graus da mediunidade. Lembremo'nos a esse respeito do que expusemos em outro lugar (311). A Igreja foi espírita durante os três primeiros séculos.
As Epistolas de S. Paulo e os livros dos Atos dos Apóstolos são manuais clássicos de mediunidade. A teologia escolástica veio turvar a límpida fonte das inspirações, introduzindo elementos de erro na magnífica síntese da doutrina hierática das primeiras épocas cristãs. A obra chamada de Denis o "Areopagita" é inteiramente impregnada de Espiritismo. Na vida dos santos ressuma exuberante a seiva mediúnica de que foi saturada a primitiva Igreja pelo Cristo e seus apóstolos. Os conselhos de São Paulo aos Coríntios são recomendações de um diretor de grupo aos seus iniciados. Tomás de Aquino afirma ter comentado essas epístolas sob o próprio ditado do apóstolo; ele conversava com uma personagem invisível; à noite sua cela era inundada por uma luz estranha, e seu discípulo Reginaldo, três dias depois de morto, lhe veio dizer o que vira no Céu.
Alberto, o Cirande, hauria sua incomparável ciência da Natureza por meio de infusão mediúnica, ciência que lhe foi retirada subitamente, do mesmo modo que lhe havia sido transmitida; e na idade de quarenta anos tornou'se ele novamente ignorante como uma criança. Joaquim de Flora e João de Parma, seus discípulos, foram instruídos por meio de visões, e escreveram sob o ditado de um Espírito. "O Evangelho Eterno", que contém, em gérmen, toda a revelação do futuro. Os "litterati" da Renascença, Marsilio Ficino, de Florença; Pico de Mirandola, Jerônimo Cardan, Paracelso, Pomponácio e o insigne Savonarola imergiram na mediunidade como num oceano espiritual. O século XVII teve também seus gloriosos Inspirados. Pascal tinha êxtase; Malebranche escreveu, na obscuridade de uma cela fechada, sua "Pesquisa da Verdade". O próprio Descartes refere que o seu sistema genial da "Dúvida Metódica" lhe foi revelado por súbita intuição que lhe atravessou o pensamento com a rapidez de um raio (312).
Ora, à filosofia cartesiana, assim oriunda de uma espécie de revelação mediúnica, é que devemos a emancipação do pensamento moderno, a libertação do espírito humano, encarcerado havia séculos na fortaleza escolástica, verdadeira bastilha do despotismo aristotélico e monástico. Esses grandes iluminados do século XVII são os precursores de Mesmer, de Saint'Martin, de Swedenborg, da escola san'simoneana e de todos os apóstolos da doutrina humanitária, precedendo Allan Kardec e a atual escola espiritualista, cujos inúmeros luzeiros se vão acendendo em todos os pontos do Universo.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.