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Capítulo 52 de 52

Terceira Parte — parte 9 de 9

No Invisível · Léon Denis

Assim, o fenômeno da mediunidade se patenteia em todas as épocas, ora fulgurando com intenso brilho, ora velado e obscurecido, conforme o estado de alma dos povos, jamais cessando de encaminhar a Humanidade em sua peregrinação terrestre. Todas as grandes obras são filhas do Além. Tudo o que há revolucionado o mundo do pensamento, aduzindo um progresso intelectual, nasceu de um sopro inspirador. Na hierarquia das inteligências existe uma solidariedade magnífica. Uns aos outros se têm os grandes inspirados transmitido, através do longo rosário dos séculos, o farol da mediunidade reveladora e gloriosa. A Humanidade ainda caminha à frouxa luz crepuscular dessas revelações, à claridade desses fogos acesos, nas eminências da História, secundada por predestinados instrutores. Essa perspectiva da história geral é consoladora e grandiosa; reveste as modalidades e o caráter de um drama sacrossanto. Deus envia seu pensamento ao mundo por emissários que incessantemente descem os degraus da escada dos seres e vão levar aos homens a comunicação divina, como os astros enviam à Terra, através das profundezas, suas irradiações sutis. Assim tudo se liga no plano universal.

As esferas superiores promovem a educação dos mundos inferiores. Os Espíritos celestes se fazem instrutores das Humanidades atrasadas. A ascensão dos mundos de prova para os de regeneração é o mais belo espetáculo que pode ser oferecido à admiração do pensador. Desde as mais elevadas e brilhantes esferas às regiões mais baixas e obscuras; desde os mais radiosos Espíritos aos homens mais grosseiros, o pensamento divino se projeta em catadupas de luz, numa efusão de amor. Com essa doutrina ou, antes, mediante essa visão de solidariedade intelectual dos seres, compreendemos de quanto somos devedores aos nossos antepassados espirituais, aos gloriosos médiuns, que, com o labor penosíssimo do gênio, semearam o que fruímos hoje, o que outros hão de melhor colher ainda no futuro. Estes pensamentos nos devem inspirar uma piedade reconhecida aos mortos augustos que implantaram o progresso em nosso mundo. Vivemos numa época de perturbação em que já quase se não sentem estas coisas.

Pouquíssimos, entre os nossos contemporâneos, se elevam a essas culminâncias, donde, como de um promontório, se descortina o vasto oceano das idades, o cadenciado fluxo e refluxo dos sucessos. A Igreja, transformada em sociedade política, não soube aplicar às necessidades morais da Humanidade estas verdades profundas e essas leis do Invisível. Os sacerdotes são impotentes para nos encaminhar, porque eles próprios esqueceram os termos sagrados da sabedoria antiga e o segredo dos "mistérios". A ciência moderna se engolfou até agora no materialismo e no positivismo experimental. A Universidade não sabe ministrar, pela palavra dos mestres, o ensino regenerador que retempera as almas e as prepara para as grandes lutas da existência. Até as sociedades secretas perderam também o sentido das tradições que justificavam seu funcionamento; praticam ainda os ritos, mas a alma que as vivificava emigrou para outros céus. É tempo de que um novo influxo percorra o mundo e restitua a vida a essas formas gastas, a esses debilitados envoltórios. Só a Ciência e a revelação dos Espíritos podem dar à Humanidade a exata noção de seus destinos.

Um imenso trabalho em tal sentido se realiza atualmente; uma obra considerável se elabora. O estudo aprofundado e constante do mundo invisível, que o é também das causas, será o grande manancial, o reservatório inesgotável em que se hão de alimentar o pensamento e a vida. A mediunidade é a sua chave. Por esse estudo chegará o homem à verdadeira ciência e à verdadeira crença que se não excluem mutuamente, mas que se unem para fecundar'se; por ele também uma comunhão mais íntima se estabelecerá entre os vivos e os mortos, e socorros mais abundantes fluirão dos Espaços até nós. O homem de amanhã saberá compreender e abençoar a vida; cessará de recear a morte. Há de, por seus esforços, realizar na Terra o reino de Deus, isto é, da paz e da justiça, e, chegado ao termo da viagem, sua derradeira noite será luminosa e calma como o ocaso das constelações,. à hora em que os primeiros albores matinais se espraiam no horizonte.

Notas de Rodapé

(251) Th. Darei ' "La Folie" (Leymarie, editor), passlm (252) Allan Kardec ' "O Livro dos Médiuns", cap. XXIII. (253) Ver em "Choses de rautre monde", pàg. 139, o caso de Victor Hennequin que, obstinando'se em experimentar sozinho e sem fiscalização, enlouqueceu. Recebia, pela mesa, comunicações da "alma da Terra", e acreditou'se elevado à categoria de "vice' deus" do planeta. Nisso, porém, talvez não houvesse mais que um fenômeno de auto'sugestão inconsciente (254) Reproduzido pelo ' Spiritualisme Moderne", Paris, 1903, pág. 57. (255) Ver 2* Parte, cap. XIX. (256) Reproduzido pela "Revue Spirite", 1902, pãg. 747 257) "Dux dubitantium et director perplexorum". (Le Guide des Egarés). Tra. Munck, tomo I, pág. 328. (258) Inserto no "Gaulois", de 19 e 2 de junho de 1907. (259) Paris, Fischbacher, editor, 1911. (260) Ver, entre outras, a "Revue du Monde Invisible", de Monsenhor Méric, e "L'Echo du Merveilleux", do Sr. Gastão Méry, e a recente brochura de um doutor em letras, de Líão, sobre o "Espiritismo", aprovada pelo cardeal'arcebispo de Lião. Livraria Católica, 14, rua da Abadia, Paris, 1911. (261) Ver os manuais de Teologia, por exemplo: Bonal, "Institut.

Theol.", tomo I, pág. 94; "Tract. de Revelatione", em que são expostos os principais caracteres do sobrenatural diabólico. (262) 11 Pedro, 3:9. (263) No próprio seio das igrejas o Espiritismo tem seus adeptos. O P. Lacordalre, o P. Lebrun, do Oratório, os abades Poussin, Lecanu, Marouzeau, o venerando abade Grimaud, o P. Marchal, e com eles grande número de pastores (ver "Cristianismo e Espiritismo", cap. VII, enxergaram nas manifestações dos Espíritos um ato da vontade divina, exercendo'se por uma nova forma, para elevar o pensamento humano acima das regiões materiais. (264) O “Banner of LighV, de Boston, de 5 de agosto de 1899 anuncia ter'se descoberto a trama de uma vasta associação entre certos médiuns profissionais, para exploração do público espiritualista. Essa associação dirigiu a todos os médiuns daquela natureza uma circular, oferecendo uma série de aparelhos destinados a imitar as manifestações espiritas, com indicações dos preços, de 1 a 5 dólares”. (265) Vide "Revue Spirite", fevereiro e abril de 1900. (266) "Annales des Sciences Psychiques", dezembro de 1908. (267) Essa ação já não é quase contestada nos círculos intelectuais superiores.

"A ciência oficial ' diz o professor Falco Mer ' ensina atualmente que um sensitivo pode enganar por sugestão mental proveniente de outrem." (Phénoménographie", pelo professor Falcomer.) Ver "Itevue Spirite", 1903, pág. 173. (268) Gabriel Delanne ' "Investigações sobre a mediunidade", pág. 185. (269) Stainton Moses (aliás Oxon), "Spirit Identity". "Revue Selentifique et Morale", janeiro de 1900, pág. 397. (270) Ver A. Erny, "Annales des Scíences Psychiques", e "Líght", de 19 de janeiro de 1895. (271) Ver, quanto às particularidades do processo, a "Revue des Études Psychiques", janeiro de 1903, págs. 15 e seguintes. (273) "Proceedings", S.P.R., fascículo XLIV. (274) Th. Flournoy ' "Des Indes à Ia Planète Mars", páginas 41 a 45. (275) Ver mais atrás, 2s Parte, cap. XIX. (276) "Light", de 22 de março de 1902 (276'A) Segundo a Escritura, "profetizar" não significa unicamente predizer ou adivinhar, mas também ser impulsionado por um Espírito bom ou mau (1, "Reg.", trad. Glaire, cap. XVIII, 10). Encontram'se muitas vezes estas expressões na boca dos profetas: "O peso do Senhor caiu sobre mim", ou ainda: "O Espírito do Senhor entrou em mim."

Esses termos claramente indicam a sensação que precede o transe, antes de ser o médium tomado pelo Espírito. E ainda: "Vi, e eis o que disse o Senhor", o que designa a mediunidade vidente e auditiva simultâneas. "Se entre vós se achar algum profeta, eu lhe aparecerei em visão." ("Números", cap. XII, 6.) "Porei na sua boca as minhas palavras." ("Deut.", XVIII, 18.) "O espírito me levantou e me levou consigo." ("Ezequíel", III, 14.) Caso de levitação que se aplica igualmente ao apóstolo Filipe. Como em nossos dias, a mediunidade se achava por igual espalhada nos dois sexos. Havia profetas e profetisas. As mais célebres entre estas são Maria, irmã de Moisés, Deborah. Holda, Ana, mãe de Samuel, Abigail, Ester, Sara, Aebeca e Judíth. (277) Ver, quanto às escolas de profetas, o estudo abundantemente documentado do Cardeal Meignan, "Les Prophètes d'Israel", considerações preliminares, págs. 14 e seguintes, Lecoffre, editor. (278) Na visão profética os planos visuais sucessivos são muitas vezes invertidos, e transtornadas as leis da perspectiva.

E o que torna tão obscuros os oráculos proféticos de todos os tempos, particularmente os oráculos bíblicos. Todos os sucessos da História estão previstos por Deus e gravados em sua luz. A maior dificuldade consiste em os poder e saber ler( ; porque é muito difícil distinguir o passado do futuro nessa rápida visão. É por isso que o oráculo fala sempre no passado, mesmo quando se trata do presente. Assim a grande epopéia humana, com seus dramas, seus episódios tão múltiplos e movimentados, está inscrita na divina luz, de onde pode, concretando'se, refletir'se no cérebro do vidente. (279) Quer seja uma voz, uma luz, uma visão ou qualquer outro fenômeno, o vidente exclama: "Eu vi Deus, face a face." ("Gên.", XXXII, 30.) No cap. XVIII lemos: "O Eterno apareceu a Abraão no maior calor do dia; e eis que três homens apareceram junto a ele." Esses homens discutem com Abraão e acompanham a Lot. L evidente que o texto quer dizer homens de Deus, ou Espíritos. "VI um deus subir da terra", diz a pitonisa de Endor a Saul.

E sabido que se trata do Espírito Samuel; a dúvida é inadmissível (I, "Reis", XXVII, 7'20). Samuel prediz a Saul sua morte próxima e a de seus filhos, acontecimento que se realizou. (280) IV, "Esdras", X, 41 a 44. (281) "Reis", XVI, 14. (282) L. Denis ' "Cristianismo e Espiritismo", cap. VI. (283) Corruptela da palavra Mohammed. (284) Ver Bartelemy Saint'Hílaíre, Mahomet et le Coran", págs. 103 e 158. (285) "Alcorão", cap. LIII, 1 a 11. Tradução de Kasimirski. (286) Caussín de Perceval ' "Essaí sur Mistoire des Arabes". (287) E. Bonnemère ' "L'ãme et ses manifestations à travers lMistoire", pág. 210. (288) Rosely de Lorgues ' "Cristophe Colomb", pãg, 465. (289) "Procès", tomo I, págs. 162 a 176. (290) Victor Hugo ' "W. Shakespeare", pág. 50. (291) Berthelot ' "Louis Ménar det son ceuvre", pág. 64. (292) Segundo uma tese recente, as obras principais de Shakespeare deveriam ser atribuídas ao chanceler Bacon. Outros críticos, tomando por base as relações do chanceler com os ocultistas e cabalistas do tempo, fazem de Shakespeare o médium de Bacon.

Como quer que seja, os fatos assinalados nem por isso conservam menos todo o seu interesse e significação. (293) Felix Rabe ' "Vie de Shelley". (294) "Wie ein Schafwandler", diz Goethe, conforme a "Occult Review". (295) "Annales Politiques et Littératues", de 25 de julho e de 22 de agosto de 1897. (296) Paul Marleton ' "Une Histoire d'Amour", 1897, página 168. (297) G. Sand ' "Elle et Luí", XII. (298) Sra. Colet, "Lui", XXIII, págs. 368 e 369, e cf. "Mélanges de Littérature et de Critique". (Compilação da Srta. Garela, 1839.) (299) Idem, Ibidem, XXIII, pãgs. 369'381. (300) G. Sand, "Eile et Lui", VIII e XI. Sra. Colet, "Lui", VI, VII e XXIII. (301) Flammarion ' "O Desconhecido e os Problemas Psíquicos", cap. VI. (302) "Histoire de Ia Littérature Française", de Petit de Julleville. Artigo de Em. Des Essarts sobre Chateaubriand, tomo VII, pág. 4. (303) "Revue Latine" e "Journal des Débats", de 6 de setembro de 1903. (304) Victor Hugo ' "William Shakespeare", pãgs. 49 e 50. (305) Ver 2s Parte, cap. XVII. (306) "Os mortos vivos são; partilham nossas lutas. E ouvimos sibilar suas setas." (307) "Le Journal", de 5 de agosto de 1899. (308) "La Paix Universe11e", de 15 de novembro de 1910. (309) Tácito ' "Hist.", liv. IV, cap. 81. (310) Lamartine ("XIe.

Méditation, 1'Enthousiasme"), descreveu em esplêndidos versos esse estado: Aínst quand tu fonda sur mon Ame, Enthousiasme, aigle vainqueur, Au brult de tes alies de flamme Je frémis d'une sainte horreur; Je me débats sous ta pu! ssance, Je fuls, je crains que ta présence N'anéantisse un cceur mortel, Comme un feu que Ia foudre allume, Qui ne s'éteint plus et consume Le búcher, le temple et 1'autel. Mais à 1'essor de Ia pensée L'ínstinct des sena s'oppose en valn: Sous le dleu mon Ame oppressée Bondit, s'élance et bat mon sein. La foudre en mes veins circule. Etonné du feu qui me brifle. Je 1'lrrite en le combattant, Et Ia lave de mon génie Déborde en torrents d'harmonie Et me consume en s'échappant. Nota do Tradutor ' Destes magníficos versos, que reproduzimos em original, para deixar aos leitores apreciarem toda a sua beleza, pedimos licença para oferecer, aos que desconheçam o francês, a seguinte descolorada imitação: Quando assim de minha alma te apoderas, Águia vitoriosa ' õ entusiasmo! De tuas asas flamantes ao ruído Eu estremeço de sagrado horror.

Sob o teu jugo debater'me intento, Fujo, temendo que a presença tua Um coração mortal pronto aniquile, Qual labareda que produz o raio, Que não se extingue mais e que consome Assim a pira como o altar e o templo. Ao arrojo, porém, do pensamento, Em vão se opõe o instinto dos sentidos: Sob a opressão do deus pulsa minha alma Tumultua'me o peito a palpitar. Sinto que o raio me percorre as veias. Aturdido com o fogo que me abrasa, Mais o ateio, buscando combatê'lo. E a lava impetuosa do meu gênio Extravasa em torrentes de harmonia, E ao passo que se escapa me consome. (311) Ver "Cristianismo e Espiritismo", cape. IV e V. (312) Ver suas "Olímpicas". O Sr. A. Fuzilei, em sua biografia de Descartes", pãg. 12 (Abete, editor 1893), escreve a respeito dessa inspirarão: "Ele (Descartes) a considerava uma revelarão do Espírito de Verdade acerca do caminho que lhe cumpria seguir. Porque possuía a imaginação ardente, uma espécie de exaltação Interior que ia, diz Voltaire, até a singularidade.

Numa de suas notas, escreveu ele relativamente há esse dia decisivo, em sinal de reconhecimento ao que considerava ter sido uma inspiração divina: "Antes do fim de novembro irei a Lorete. e para lá seguirei, de Veneza, a pé."

' ESTARÁ MAIS SÁBIO

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