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Capítulo 35 de 52

A Sombra do Sepulcro a Victor Hugo — parte 7 de 15

No Invisível · Léon Denis

Estudemos mais de perto essa teoria da subconsciência, de que incidentemente acabamos de falar, e com a qual acreditam certos psicólogos poder explicar os fenômenos do transe e da incorporação. Os Srs. Pierre Janet (181), A. Binet, Taine, Ribot e Flournoy acreditam que uma cisão se produz na consciência dos sensitivos adormecidos e que dai resulta uma segunda personalidade, desconhecida da pessoa normal, e com a qual se relacionam todos os fenômenos. Deram'lhe eles os mais diversos nomes: inconsciente, subconsciência, consciência subliminal, personalidade secundária, etc. Essa hipótese serviria para explicar a maior parte das anomalias observadas em histéricas, nos casos de sugestão, assim como os diferentes aspectos do sonambulismo e todas as variações da personalidade. A unidade do "eu'consciente" não passaria de uma ilusão. Este seria suscetível de desagregação em certos casos patológicos, e personalidades distintas, inconscientes ou dotadas de subconsciência, ignorando'se reciprocamente, poderiam surgir no estado de sono e manifestar'se à revelia uma da outra. Assim se explicariam os fatos espíritas.

Os médiuns seriam apenas histéricos, neuróticos, particularmente predispostos, por seu estado fisiológico, a tais cisões da personalidade. (182) Observemos antes de tudo, com o Dr. Geley, que a histeria e a neurose nada explicam (183). Por outro lado, os médiuns não são histéricos. O Dr. Hodgson e Myers atestam que as Sras. Piper e Thompson gozam perfeita saúde. O professor Flournoy, que é médico, diz a mesma coisa de Helena Smith. Nenhum sinal de histeria se manifesta nessas três célebres médiuns. A menor indisposição nelas, ao contrário, os fenômenos diminuem de intensidade, cessam de se produzir. A mesma declaração posso eu fazer em relação aos sensitivos de transe que por muito tempo fizeram parte do nosso grupo. Sobre esse ponto as comparações que os nossos adversários procuram estabelecer são errôneas, e sua argumentação é completamente falha. As personalidades fictícias que eles provocam, por meio de sugestões pós'hipnóticas, nas histéricas, têm apenas uma vaga semelhança com as manifestações de personalidades no transe.

Em relação a estas, não passam de imperfeitas cópias, de esmaecidas e longínquas imitações. No transe, a entidade psíquica, a alma, se revela por distinta atividade do funcionamento orgânico, por particular acuidade das faculdades. Quando é completa a exteriorização, o Espírito do médium pode agir sobre o corpo adormecido com mais eficácia que no estado de vigília e do mesmo modo que um Espírito estranho. O cérebro não é então, como no estado normal, um instrumento movido diretamente pela alma, mas um receptor que ela aciona de fora. É o que resulta de numerosas observações. O Sr. Cromwell Varley, engenheiro'chefe dos Telégrafos da Grã'Bretanha, em seu depoimento perante a comissão de inquérito da Sociedade Dialética, a respeito de sua esposa que é médium de transe, refere o seguinte fato (184)

"A Sra. Varley, adormecida, me diz: Agora não são os Espíritos que vos falam; sou eu mesma, e sirvo'me de meu corpo do mesmo modo que o fazem os Espíritos quando falam por minha boca."

Myers, em seu relatório ao Congresso de Psicologia, 1900 (185), faz a seguinte declaração a propósito dos transes da Sra. Thompson:

"Os ditados são, em sua maioria, transmitidos mediante 0 organismo do médium, por Espíritos que nesse momento o influenciam ou se apossam desse organismo. Alguns são diretamente colhidos no mundo invisível por seu próprio Espírito e por ele transmitidos."

Uma coisa evidente para o psicólogo refletido é que muito pouco nos conhecemos ainda. Há em nós profundezas cheias de mistério, que às vezes se entreabrem e cuja visão nos perturba. Um mundo inteiro ai reside, mundo de intuições, de aspirações, de sensações, cuja origem nos é desconhecida, e que parece provirem de um passado distante; mescla de aquisições pessoais, de hereditariedades psíquicas e atavismos étnicos, vestígios das existências percorridas na sucessão dos tempos, tudo isso está gravado nos refolhos abscônditos do "eu". A consciência, no estado normal, é acanhada; no de desprendimento é vasta e profunda. Não há, porém, duas consciências, do mesmo modo que não há em nós duas entidades. É sempre o mesmo ser, a mesma personalidade vista sob dois aspectos diferentes. A permanência e unidade do "eu" consciente são demonstradas por um fato bem conhecido; enquanto o nosso corpo físico incessantemente se renova, a consciência e a memória persistem em nós, através das flutuações da matéria. É verdade que a consciência normal não conserva todas as impressões recolhidas pelos sentidos.

Muitas sensações e conhecimentos ficam na aparência esquecidos; mas são realmente arquivados na consciência profunda. Podem ressurgir por um esforço intelectual, sob o influxo de uma emoção, ou ainda no sono e, em geral, em todos os estados que provocam o despertar das faculdades adormecidas. No estado de exteriorização total, esse despertar é completo. O Espírito readquire, com a plenitude de suas faculdades latentes, de seus conhecimentos e recordações, uma liberdade e uma energia de ação amplificadas. Atinge o seu "maximum" de vibrações e pode reconstituir seu passado. Há, portanto, duas ordens de fatos no transe, e é preciso distingui'los com cuidado: primeiramente a intervenção dos desencarnados, e depois os outros casos, em que o médium, sob o influxo magnético de seu guia espiritual, se reconstituí numa de suas anteriores existências. No caso de Helena Smith, que o Sr. Flournoy, professor de Psicologia da Universidade de Genebra, estudou durante quatro anos, a médium em transe reproduz as cenas de uma de suas existências, passada na índia, no século XII.

Nesse estado, serve'se freqüentemente de termos sanscríticos, língua que ela ignora no estado normal. Fornece, a respeito de personagens históricas da índia, indicações positivas, impossíveis de achar em obra alguma usual, e cuja confirmação, depois de muitas pesquisas, o professor descobre numa obra de Marlès, historiador pouco conhecido e inteiramente fora do alcance da sensitiva. Esta, nas fases do transe, assume atitude que enleva e impressiona. Eis o que a respeito diz o Sr. Flournoy (186) "Há em todo o seu ser, na expressão da fisionomia, nos movimentos, no timbre da voz, quando fala ou canta em hindu, uma graça indolente, um abandono, uma doçura melancólica, alguma coisa de encantador e lânguido que corresponde maravilhosamente ao caráter do Oriente...

Toda a mímica de Helena, tão diferente, e esse falar exótico têm tal cunho de originalidade, próprio, natural, que se chega a perguntar com estupefação donde vem a essa filha das ribeiras do Lemen, sem educação artística nem conhecimentos especiais do Oriente, uma perfeição de desempenho que a melhor atriz não alcançaria senão à custa de demorados estudos ou de longa permanência nas margens do Ganges." No que se refere à escrita e à linguagem hindus, o Sr. Flournoy acrescenta que, em suas pesquisas para as experiências, todas as pistas que pôde descobrir eram "falsas", e pede ao leitor que "o dispense de pormenorizar seus insucessos". Todas essas experiências, porém ' diz ele ' o induziram a "divertir'se". Depois do que, conclui rejeitando a teoria dos Espíritos, para ver nos fenômenos espíritas unicamente uma criação, um manejo da consciência "subliminal". Observemos que as conclusões do Sr. Flournoy (187) estão em contradição com os fatos observados. No transe, a Srta. Smith vê muitas vezes seu Guia, Leopoldo, a seu lado, e ouve'lhe a voz.

Ele tem vontade própria e procede como entende, muitas vezes se estabelecendo luta entre eles. A Srta. Smith discute; resiste, ao querer ele tomar posse do seu organismo. E quando, apesar de seus esforços, esta se torna completa, toda a sua pessoa se transforma; muda'se a voz; é a de um homem, lenta e grave, de pronúncia italiana; o aspecto se lhe torna majestoso. Quando Leopoldo se apodera da mão de Helena, para a fazer escrever, a escrita é inteiramente diversa, e a ortografia é a do século XVIII, época em que ele viveu na Terra. Mais ainda: ele "intervém constantemente em sua vida de modo sensível e quase físico, não deixando margem à menor dúvida". Querem um exemplo? Numa sessão, o Espírito Leopoldo levanta a médium com a almofada em que repousa, sem o concurso de nenhum dos assistentes. Eis aí um fenômeno de levitação perfeitamente caracterizado, e que não seria licito atribuir ao "subliminal", pois que exige a intervenção de uma força e de agente exterior. Certamente nem tudo é de fácil explicação nos fenômenos de que a Srta. Smith é o foco.

Em seu caso, cumpre reconhecê'lo, são abundantes as dificuldades, e fatores diversos parece intervirem. Nota'se um entrelaçamento de fatos espíritas e de fatos de animismo, de produtos da subconsciência intercalados com intervenções de Inteligências exteriores e super'humanas, que complicam singularmente o problema. Desse conjunto uma tanto confuso sé destacam, todavia, provas de identidade, claras, nítidas, positivas, como, por exemplo: a manifestação de João, o cavouqueiro, cuja personalidade se revela com particularidades convincentes; a do cura Burnier e a do síndico Chaumontet, falecidos há cerca de meio século, e cuja escrita e assinatura a médium reproduz automaticamente, e são reconhecidas, após averiguações, exatamente iguais às que figuram em grande número de termos de nascimentos, casamentos e óbitos, que formam os arquivos da Comuna de Chessenaz, onde a Srta. Smith nunca esteve. Somos levados a crer que nessa médium a força psíquica é muitas vezes insuficiente, as fases do transe extremamente desiguais e freqüente o despertar da própria personalidade.

Daí, contudo, não se segue que os fatos observados se possam explicar, como o pretenderia o Sr. Flournoy, pelo mecanismo das faculdades da memória associadas ao poder de imaginação da subconsciência. Além disso, o professor, em sua disposição de "divertir'se", terá mais de uma vez atraído Espíritos galhofeiros a essas sessões, em que ' diz ele ' "ria'se bastante". Os mistificadores são para recear em casos tais. E é ai que se compreende a utilidade das regras que indicamos: unidade e elevação de pensamento dos assistentes, como meio de facilitar a ação dos agentes exteriores. Rir, brincar, interromper a todo instante, interrogar fora de propósito, tudo isso constitui péssimas condições para experiências sérias. Não é caso insulado o de Helena Smith. Um médium do nosso grupo reproduziu diversas vezes, em transe, sob a influência do Espírito'guia, cenas de sua vida anterior. Um magnetizador, amparado pela ação oculta dos Espíritos protetores, pode também provocar esses fenômenos em certos sensitivos. Fernandez Colavida, presidente do Grupo de Estudos Psíquicos de Barcelona, obteve resultados que acreditamos dever assinalar. Eis o que a tal respeito consta no relatório dos delegados espanhóis ao Congresso Espírita, de 1900 (188)

“Magnetizado o médium no mais alto grau, F. Colavida lhe ordenou que dissesse o que havia feito na véspera, na antevéspera, uma semana, um mês, um ano antes, e o fez sucessivamente recuar até à infância, que explicou em todas as suas particularidades”. Impelido sempre pela mesma vontade, o médium referiu sua vida no Espaço, sua morte na última encarnação, e, continuamente estimulado, chegou até quatro encarnações, a mais antiga das quais era uma existência inteiramente selvagem. A cada existência, as feições do médium mudavam de expressão. Para ser restituído a seu estado habitual, foi gradualmente reconduzido até sua presente encarnação, e despertado em seguida."

Num intuito de verificação, o experimentador fez magnetizar o sensitivo por uma outra pessoa e sugerir'lhe que suas anteriores narrativas eram falsas. Apesar dessa sugestão, o médium reproduziu a série de quatro existências, como antes o fizera. Esteva Marata, presidente da União Espírita de Catalunha, declara ter obtido análogos resultados, pelos mesmos processos, em sua esposa, em estado de transe. Essas experiências poderiam ser multiplicadas e obteríamos assim numerosos elementos de certeza sobre o fato das existências anteriores da alma; elas, todavia, exigem grande prudência. O experimentador deve escolher sensitivos que sejam dotados de muita sensibilidade e bem desenvolvidos. Deve ser assistido por um Espírito bastante poderoso para afastar todas as influências estranhas, todas as causas de perturbação, e preservar o médium de possíveis acidentes.

Recapitulemos. A teoria da subconsciência é verdadeira no sentido de que nossa consciência plena é mais extensa que nossa consciência normal. Dela emerge nos estados sonambúlicos, domina'a e a ultrapassa, sem dela jamais se separar. A teoria da subconsciência é falsa, se pretender'se considerar esta como segunda consciência autônoma, como dupla personalidade. Não há em nós dois seres que coexistam, ignorando' se. A personalidade, a consciência é una. O que simplesmente acontece é que ela se apresenta sob dois aspectos diferentes: ora, durante a vida material, nos restritos limites do corpo físico, com uma memória e faculdades circunscritas; ora, durante a vida psíquica, na plenitude de suas aquisições intelectuais e de suas recordações. Nesse caso, abrange todas as fases de seu passado e as pode fazer reviver. Todas as teorias dos Srs. Pierre Janet, Binet, Taine, Ribot, etc., assentam sobre aparências vãs. O "eu" não se fraciona. As faculdades extraordinárias, reveladas no transe, convergem, ao contrário, no sentido de uma unidade tanto mais grandiosa quanto mais completa é a exteriorização. Infelizmente a situação nem sempre é clara, nem o desprendimento suficiente.

As vezes se produzem umas espécies de intercalação, de fluxo e refluxo vibratório entre as causas atuantes, que tornam obscuro e confuso o fenômeno. i; principalmente o caso quando se manifestam diversas personalidades invisíveis, e nenhuma delas tem a força nem a vontade necessárias para afastar os motivos de erro. As causas em ação podem confundir'se nos estados sonambúlicos parciais e incompletos. Há, porém, um estado superior em que o Espírito se apresente em todo o seu poder vital, em sua penetração íntima das coisas. Pode'se então assistir a fenômenos realmente grandiosos. Para os obter, contudo, é preciso proceder de modo mais sério do que o fazem os psicólogos "hílares e brincalhões". São dessa ordem às manifestações de George Pelham, Robert Hyslop e, principalmente, as de Imperator, de Jerônimo e do Espírito Azul. Nelas, os sinais característicos, as provas de identidade são abundantes; nenhuma dúvida poderia existir.

O mesmo acontece nos casos em que numerosas personalidades, apresentando grande variedade de caracteres e opiniões, se sucedem com precisão e regularidade no corpo de um médium e fazem ouvir, pela mesma boca, ora a linguagem mais trivial, ora a linguagem seleta e elevada, exprimindo nobres e delicados sentimentos, apreciações tão profundas que extasiam todo o auditório. As manifestações de Espíritos desventurados, que vêm, guiados por almas compassivas, referir'nos seus sofrimentos, suas dores e aflições, buscar ensinos e conforto, não são também imposturas do subliminal. Temos a esse propósito muitas vezes observado um fato: a Influência fluídica dos Espíritos inferiores incomoda os médiuns, causa'lhes indisposições durante o transe e violentas dores de cabeça ao despertar, a ponto de reclamar o desligamento imediato por meio de passes magnéticos. Nos mesmos sensitivos, ao contrário, com outras entidades elevadas, como, por exemplo, o Espírito Azul, o transe é doce, a Influência benéfica, o médium desperta sob impressão de calma, como saturado de uma atmosfera de paz e de serenidade.

As teorias da subconsciência e da dupla personalidade são impotentes para explicar esses fatos. O subconsciente é simplesmente um estado da memória, cujas camadas profundas, silenciosas na vida normal, despertam e vibram durante a exteriorização. E o que demonstram os casos de reconstituição das vidas anteriores nos médiuns. Há nisso magnífico objeto de estudo, para chegar'se ao conhecimento do ser e das leis de sua evolução. Aí encontramos a prova de que o "eu" consciente não é uma criação espontânea, mas constituiu sua individualidade mediante sucessivas aquisições, através de longa série de existências. Não tendo o organismo físico atual contribuído para algumas dessas aquisições, é evidente que não poderia o Espírito ser considerado a resultante desse organismo, pois que ele existiu antes dele e lhe sobreviverá. Assim se deriva a teoria espírita, em toda a sua lógica e esplendor, de um conjunto de fatos que só ela é capaz de explicar.

A alma neles se revela, independente do corpo, em sua personalidade indivisível, em seu "ego" lentamente constituído através dos tempos, com o auxílio de materiais que conserva latentes em si mesma, e cuja posse readquire no estado de desprendimento: assim no sono, como no transe, ou por ocasião da morte.

XX ' Aparições e materializações de Espíritos

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.