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Capítulo 13 de 52
Primeira Parte — parte 9 de 12
No Invisível · Léon Denis
Se os pensamentos divergentes dos circunstantes são uma causa de perturbação e de insucesso, por um efeito contrário, os pensamentos dirigidos para um objetivo comum, sobretudo quando elevado, produzem vibrações harmônicas que difundem no ambiente uma impressão de calma, de serenidade, que penetra o médium e facilita a ação dos Espíritos. Estes, em vez de lutarem, empregando o poder da vontade, não têm mais que associar seus esforços às intenções dos assistentes; e desde logo a diferença dos resultados é considerável. É por isso que nas reuniões do nosso grupo de estudos reclamamos constantemente o silêncio, o recolhimento, a união dos pensamentos, e, a fim de os facilitar e de orientar a assistência no sentido de elevados assuntos, abrimos sempre as sessões com uma prece coletiva, com uma Invocação improvisada ao Poder Infinito e aos seus invisíveis Agentes, pondo nessa invocação todas as forças de nosso espírito, todos os espontâneos surtos de nosso coração.
Além disso, nas sessões de efeitos físicos, quando se pretende obter fenômenos de transportes, escrita direta, materializações, é conveniente empregar um meio artificial para fixar num ponto os pensamentos dos circunstantes. Pode'se adotar um signo e colocar imaginariamente acima do médium, como, por exemplo, uma cruz, um triângulo, uma flor, e, de quando em quando, no curso da sessão, lembrar o signo convencional, atrair para ele a atenção oscilante e prestes sempre a desviar'se. Esse processo substitui com vantagem as cantarolas vulgares, pouco edificantes, a que muitos costumam recorrer em certas reuniões e que impressionam desagradavelmente as pessoas de fino gosto e espírito culto, e só tem aplicação na obscuridade. A luz geralmente exerce uma ação dissolvente sobre os fluidos. Em todos os casos em que não seja indispensável, como para obter'se a escrita semimecânica, será conveniente diminuir'lhe a intensidade e mesmo suprimi'la inteiramente, desde que, por exemplo, se dispõe de médiuns videntes e de incorporação. A música, os cantos graves e religiosos podem também contribuir poderosamente para determinar a harmonia dos pensamentos e dos fluidos.
Isto não é, porém, suficiente. Nas sessões, à união dos pensamentos é necessário acrescentar a união dos corações. Quando reina a antipatia entre os membros de um grupo, a ação dos Espíritos elevados se enfraquece e aniquila. Para obter sua intervenção assídua é preciso que a harmonia moral, mãe da harmonia fluídica, se estabeleça nos corações, e que todos os adeptos se sintam na conjunção de esforços por alcançar um objetivo comum, ligados por um sentimento de sincera e benévola cordialidade. As mais secretas leis do pensamento se revelam nas experiências. Quando, às vezes, os membros de um grupo estão agitados por intensas preocupações, pode a linguagem do médium ressentir'se desse fato. O mesmo se dará com a ação dos Espíritos sobre o médium e reciprocamente. Qualquer que seja o predomínio de um Espírito sobre o sensitivo, se este se acha desassossegado, inquieto, agitado, as comunicações apresentarão o cunho desse estado de perturbação. As inteligências que se manifestam, quando sejam pouco adiantadas, podem também sofrer a influência dos assistentes.
Há, de modo geral, entre o meio terrestre e as entidades invisíveis uma reciprocidade de influências que é preciso ter em consideração na análise dos fenômenos. O Espírito elevado, porém, mesmo em virtude de sua superioridade e das forças de que dispõe, escapa a essas influências, as domina e governa, e se afirma com uma autoridade que não deixa lugar à menor dúvida. É por isso que convém acima de tudo captarmos a intervenção das almas superiores e facilitá'la, colocando'nos nas condições que elas nos impõem, sem as quais não podemos atrair senão Espíritos medíocres, pouco aptos a nos servir de guias e traduzir fielmente os altos ensinamentos do Espaço.
Os grupos pouco numerosos e de composição homogênea são os que reúnem as maiores probabilidades de êxito. Se já é difícil harmonizar as vibrações de cinco ou seis pessoas entre si e com os fluidos do Espírito, é evidente, "a fortiori", que as dificuldades aumentam com o número dos assistentes. i; prudente não exceder o limite de dez a doze pessoas, de um e outro sexo, quando possível sempre às mesmas, sobretudo no começo das experiências. A renovação freqüente da assistência, reclamando contínuo trabalho de fusão e assimilação da parte dos Espíritos, compromete ou pelo menos demora os resultados. Se é excelente, no ponto de vista da propaganda, franquear os círculos a novos adeptos, é necessário que ao menos um núcleo de antigos membros permaneça compacto e constitua invariável maioria. Convém reunir'se em dias e há horas fixos e no mesmo lugar. Os Espíritos podem'se apropriar assim dos elementos fluídicos que lhes são necessários, e os lugares de reunião, impregnando'se desses fluidos, tornam'se cada vez mais favoráveis às manifestações.
A perseverança é uma das qualidades indispensáveis ao experimentador. Aborrece muitas vezes passar um serão infrutífero na expectativa dos fenômenos. Sabemos contudo que uma ação insensível, lenta e progressiva, se realiza no curso das sessões. A concentração das forças necessárias não se efetua às vezes senão depois de repetidos esforços, em reuniões de tentativas e de ensaios. Os seguintes exemplos nos demonstram que a paciência é freqüentemente a condição do êxito. Em 1855 o professor Mapes formou, em Nova Iorque, um grupo de doze pessoas, homens cultos e cépticos, que combinaram reunir' se, com um médium, vinte vezes seguidas. Durante as dezoito primeiras noites os fenômenos apresentaram caráter tão indeciso e trivial que muitos dentre os assistentes deploravam a perda de um tempo precioso; no curso das duas últimas sessões, porém, produziram'se fatos de tal modo notáveis que o estudo foi prosseguido pelo mesmo grupo durante quatro anos; todos os seus membros se tornaram convencidos adeptos. (46) Em 1861, o banqueiro Livermore, experimentando com a médium Kate Fox, com o fim de obter materializações do Espírito de sua esposa Estela, só a 24.11 sessão viu desenhar'se a sua forma.
Pôde mais tarde conversar com esse Espírito e obter comunicações diretas (47). A falta de perseverança nenhum desses resultados teria permitido colher. Compreende'se, à vista desses fatos, quanto é necessário aplicar uma atenção rigorosa à composição dos grupos e às condições de experimentação. Tal seja a natureza do meio, a faculdade do médium produzirá efeitos muitíssimo diversos. Ora se manifestará em fenômenos, de caráter equívoco, que despertarão a dúvida e a desconfiança, fazendo que as sessões, em tal caso, deixem uma impressão de mal'estar indefinível; ora dará lugar a efeitos tão poderosos que diante deles toda incerteza se dissipará. Tenho, por minha parte, assistido a muitas sessões nulas ou insignificantes; mas também posso afirmar que tenho visto médiuns admiravelmente inspirados em suas horas de êxtase e de sono magnético. Outros tenho eu visto escrever de um jato, às vezes mesmo na obscuridade, páginas magníficas de estilo, esplêndidas de elevação e de vigor.
Tenho assistido, aos milhares, a fenômenos de incorporação que permitiam a habitantes do Espaço apoderar'se, durante algumas horas, do órgão de um médium e proferir frases, discursos, com inflexões tais que todos quantos os ouviam guardavam dessas reuniões uma recordação imorredoura. Para o observador atento, que estudou todos os aspectos do fenômeno, há como que uma gradação, uma escala ascensional, que vai desde os ligeiros ruídos e os movimentos de mesas até as mais altas produções do pensamento. É uma engrenagem que se apodera do experimentador imparcial, e cujo poder todos os homens que têm a preocupação da verdade cedo ou tarde reconhecerão. Apesar das hostilidades, das repulsas e hesitações, forçoso virá a ser um dia consagrar'se, de modo geral, ao estudo das manifestações físicas; este, por um rigoroso encadeamento, conduzirá à psicografia e, em seguida, pela visão e audição, à incorporação; e desde que se quiser investigar as causas reais desses fenômenos, defrontar'se'á com o grande problema da sobrevivência. À medida que o observador penetrar nesse domínio, sentir'se'á pouco a pouco elevado acima do plano material.
Será induzido a reconhecer que os fatos de ordem física não são mais que preparação para fenômenos mais eminentes, e que todos, em conjunto, convergem para a manifestação desta verdade: que a alma humana é imperecível e os seus destinos são eternos. Conceberá, desde então, das leis do Universo, da ordem e harmonia das coisas, uma idéia cada vez mais grandiosa, com uma noção sempre mais profunda do objetivo da existência e dos imprescritíveis deveres que ela impõe.
Nos fenômenos, é portanto necessário distinguir três causas em ação: à vontade dos experimentadores ' as forças exteriorizadas do médium e dos assistentes ' e a intervenção dos Espíritos. Os próprios fenômenos se podem dividir em duas grandes categorias: os fatos magnéticos e os fatos mediúnicos; uns e outros, porém, intimamente se entrelaçam e muitas vezes se confundem. O médium, uma vez mergulhado em sono magnético, acha'se em três estados distintos que se podem nele suceder, a cada um dos quais corresponde uma ordem de fenômenos. São eles: 1 ' O estado superficial de hipnose, favorável aos fatos telepáticos e à transmissão de pensamento; os que, todavia, se produzem nesse estado são em geral pouco concludentes; o desprendimento do corpo fluídico do médium é incompleto, e sua ação pessoal se pode misturar à sugestão do Espírito. 2 ' O sono magnético real, que permite ao corpo fluídico do médium exteriorizar'se e agir à distância. 3 ' O sono profundo, graças ao qual se produzem às aparições, as materializações, a levitação do médium, as incorporações.
O sono mediúnico, em suas várias fases, pode ser provocado, ora por um dos experimentadores, ora diretamente pelo Espírito. Julgamos preferível deixar agir a influência oculta, quando suficiente. Assim se evitará a objeção habitual de que a ação do magnetizador favorece a sugestão.
Os fatos espíritas podem ser subdivididos em quatro classes:
1.a ' A tiptologia e o fenômeno das mesas ' Neste gênero de experiências é preciso eliminar com cuidado as causas físicas, os movimentos involuntários, o magnetismo dos assistentes, a sugestão mental. Excluídos todos os fatos explicáveis por essas causas, restará um número considerável de fenômenos que demonstram a intervenção de inteligências alheias às pessoas presentes.
2.a ' A escrita automática ' Muitos ditados obtidos por esse processo podem ser atribuídos à sugestão inconsciente. Podendo o pensamento, como vimos, exteriorizar'se, acontece em certos casos que o pensamento do médium responde à pergunta por ele próprio formulada. Dar'se'ia então um fenômeno de auto' sugestão involuntária, ou de sugestão dos assistentes. A ação dos Espíritos, porém, se revela nos casos em que escritas desconhecidas são traçadas, e fatos, particularidades, revelações, que constituem outros tantos elementos de identidade, são obtidos por esse modo de experimentação. (48)
3.a ' A incorporação ' Nos fenômenos desta ordem pode o inconsciente do médium exercer uma certa intervenção. Há em cada um de nós aquisições mentais, aptidões, reminiscências, uma extensa acumulação de riquezas intelectuais, fruto de nossas anteriores existências, as quais, sepultadas nas profundezas da consciência, se nos conservam ignoradas no estado de vigília. É o que constitui o inconsciente, ou antes, o subconsciente. Nos casos de desprendimento sonambúlico e de exteriorização, essas energias despertam, vibram e irradiam em torno do corpo fluídico do médium; a psique readquire suas recônditas capacidades e entra em ação. Fácil, porém, é reconhecer os numerosos casos em que ocultas personalidades se apoderam do organismo do médium e se substituem ao seu próprio espírito. Essas personalidades se evidenciam por sinais característicos, gestos, voz, que lhes são próprios, como por certas particularidades psicológicas que não as permitem confundir com o inconsciente do médium. (49)
4.a ' As materializações ' Esses fenômenos, em virtude de se produzirem na obscuridade, exigem rigorosa verificação. Pode'se, para isso, fazer uso, quer de balanças munidas de aparelhos registradores que permitam averiguar a diminuição de peso do médium, como nas experiências de Armstrong e Reimers (50), quer, a exemplo de W. Crookes e do engenheiro Varley, de baterias elétricas, a que é ligado o médium por uma corrente que impede todo movimento equívoco de sua parte. No que se refere às manifestações espíritas, propriamente ditas, qual será o critério de certeza? Onde estará a prova da intervenção dos Espíritos? Essa prova, já o dissemos, reside no conjunto das particularidades que permitem estabelecer uma identidade positiva.
Só o experimentador pode nesse caso ser juiz, e sua convicção não se pode basear senão sobre o reconhecimento desses indícios característicos desconhecidos do médium e às vezes mesmo dos assistentes, mediante os quais se revela a personalidade do ser invisível. (51) Para adquirir certeza e multiplicar os meios de verificação é conveniente variar as experiências, completar umas com as outras, recorrendo aos diversos gêneros de mediunidade. Do conjunto dos testemunhos e dos resultados obtidos poderemos assim coligir a mais considerável soma de provas que seja possível obter nesse domínio, em que múltiplas causas intervêm e não raro se confundem. E às vezes cruel e desolador sabermos, sentirmos, ao pé de Pós, um ente amado e desaparecido, sem podermos com ele conversar; e se, dotado de mediunidade, procurarmos obter uma comunicação, não o é menos percebermos, enquanto o lápis corre veloz sobre o papel, que o nosso pensamento se intercala ao seu de um modo tão íntimo que não podemos separar um do outro e determinar o que emana de nós ou provém dele.
Recorremos então a outro médium. Quer ele escreva, porém, quer fale por sua boca, durante o sono mediúnico, o Espírito evocado, reconhecemos ainda, por um efeito dessa malfadada sugestão, que por toda parte se insinua, que a personalidade do médium se mistura com a do ser que nos é caro. E a dúvida nos assalta, a angustiosa incerteza nos oprime. Súbito, porém, uma prova de identidade brota como uma faísca, tão viva, tão brilhante, tão incontestável que, diante dela, todas as hesitações desaparecem, todas as dúvidas se dissipam e a nossa razão satisfeita e o nosso coração emocionado entram, num transporte de amor e de fé, em comunhão com a alma idolatrada que de modo tão claro e inconfundível acudiu ao nosso reclamo e para sempre firmou a certeza de sua presença e de sua proteção. Quanto às comunicações de caráter geral e que revestem a forma de ensino filosófico, devem ser cuidadosamente examinadas, discutidas, julgadas com rigor, com a mais completa liberdade de apreciação.
A Humanidade invisível se compõe dos Espíritos que viveram neste mundo, em cujo número ' sabemos ' contam'se muitos, bem pouco adiantados. Mas no Espaço há também inteligências brilhantes, iluminadas pelos esplendores do Além. E quando anuem a vir até nós, podemos reconhecê'las na elevação do pensamento, como na judiciosa retidão das apreciações. Nesta ordem de idéias o discernimento é uma qualidade indispensável. O investigador deve ser dotado de critério seguro, que lhe permitirá distinguir o verdadeiro do falso e, depois de haver tudo examinado, conservar o que tem legítimo valor. Nada é mais prejudicial à causa do Espiritismo que a excessiva credulidade de certos adeptos e as experiências mal dirigidas. Estas produzem aos pesquisadores novatos uma deplorável impressão; fornecem alimento a critica e ao motejo e dão uma idéia falsa do mundo dos Espíritos. Muitos saem dessas reuniões ainda mais incrédulos que dantes. O homem crédulo é dotado de boa'fé; a si mesmo se engana inconscientemente e torna'se vítima de sua própria imaginação.
Aceita as coisas mais inverossímeis e muitas vezes as afirma e propaga com entusiasmo extravagante. É isso um dos maiores estorvos para o Espiritismo, uma das causas que dele afastam muitas pessoas sensatas, muitos sinceros investigadores, que não podem tomar a sério uma doutrina e fatos tão mal apresentados. É preciso não aceitar cegamente coisa alguma. Cada fato deve ser objeto de minucioso e aprofundado exame. Só nessas condições é que o Espiritismo se imporá aos homens estudiosos e racionalistas. As experiências feitas superficialmente, sem conhecimento de causa, os fenômenos apresentados em más condições fornecem argumentos aos cépticos e prejudicam a causa a que se pretende servir.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.