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Capítulo 46 de 52

Terceira Parte — parte 3 de 9

No Invisível · Léon Denis

A teoria da subconsciência deve ser considerada seriamente, pois que contribui para o esclarecimento de grande número de casos psíquicos; fez progredir a ciência do Ser, pondo em evidência os aspectos ocultos de nossa natureza, e tornou mais fácil e positiva a classificação dos fatos. Só é, todavia, aplicável a certos fenômenos de animismo, isto é, de exteriorização dos vivos, aos casos, por exemplo, de renovação da memória. Não poderia explicar os fatos de ordem física e intelectual tudo que constitui o Espiritismo puro. A intervenção dos sobrevivos é a solução mais simples, mais lógica, a que melhor ae adapta ao conjunto desses fatos. Não dão as Entidades que se manifestam outra explicação, e seu testemunho é universal. Até os próprios erros que cometem não deixam de constituir elementos de certeza; porque o que não existe não pode deixar vestígio subconsciente e ser conhecido pelo médium ou pelos assistentes. F. Myers, em seu magnífico livro "A Personalidade Humana", deu uma definição magistral da subconsciência.

Depois dele, porém, muitos sábios abusaram dessa teoria, tornando'a extensiva a fatos em que é completamente inadmissível. Na impossibilidade em que se encontram de explicar os fenômenos espíritas, recorrem a hipóteses que de modo algum se adaptam à realidade das coisas. O recente livro do Sr. Th. Flournoy, "Espíritos e Médiuns" (259), é bem característico em tal sentido. Nele enfeixou o autor centenas de fatos colhidos numa pesquisa informativa que empreendeu. As explicações que dá são de pasmosa fragilidade e deixam intacta a interpretação espírita, que pretendem destruir. Sua idéia preconcebida é evidente, sobretudo quando procura relacionar com os fenômenos de inconsciência um caso vulgarismo de plágio (pág. 340). Assinalemos ainda o caso Buscarlet (pág. 359). Trata'se de uma senhora (com esse nome), que sonhou em Paris, no dia 10 de dezembro de 1883, que a Sra. Nitchinoff, residente em Kazan (Rússia), deixaria no dia 17 o Instituto que dirigia, e isso com certas particularidades que indicavam a idéia de morte. Escreve, relatando esse sonho, à Sra. Moratief, também residente em Kazan.

Esta lhe responde que a indicada pessoa deixara realmente seu Instituto no dia 17, mas no estado de cadáver, tendo sucumbido em três dias, vitimada pela difteria. O Sr. Flournoy vê nisso um caso tipico de telepatia! A Sra. Moratief, estando relacionada com as duas outras pessoas, que mal se conheciam, percebeu subconscientemente, no dia 10, os primeiros sintomas da moléstia da Sra. Nitchinoff e transmitiu involuntariamente essas percepções à Sra. Buscarlet! Aí está um exemplo das explicações do Sr. Flournoy! Se é pouco admissível semelhante hipótese, qual será, pela telepatia ou a subconsciência, a explicação possível do caso n.° 15, em que a Srta. Sofia S., devendo encontrar'se em Mayens com o pastor H., para fazer uma excursão com ele e suas pensionistas, recebe pela mesa, 10 dias antes da catástrofe em que o pastor e uma de suas discípulas perderam a vida, o seguinte aviso: "Sofia não deve ir a Mayens; correria perigo de vida"? Ou ainda a explicação do caso n .O 28 (previsão de morte em conseqüência de uma queda de bicicleta, com algumas semanas de antecipação) ?

E fácil ao demais, nessa coletânea, em que tantas pessoas de boa'fé comunicaram os mais notáveis fatos de suas experiências, encontrar um número regular de fenômenos de que o Sr. Flournoy nem tenta mesmo dar explicação. Podem citar'se por exemplo: o caso n .O 267 (comunicação anunciando o assassínio de Sadi Carnot, antes que fosse conhecido) ; o caso n.° 190, em que o aviso de alteração num programa de viagem é de perto acompanhado pela chegada de uma carta com a notícia de uma imprevista enfermidade, que transtorna todos os planos de viagem; o caso n .O 191, em que é obtida a redação de um cartão postal, que ninguém havia previamente lido; o caso n .O 307, em que se faz alusão, na ausência da pessoa interessada, a fatos íntimos que somente ela e seu falecido marido conheciam. O caso n ° 322 é igualmente inexplicável pelos processos tão do agrado do Sr. Flournoy. A narradora recebeu certo dia uma comunicação de um Sr. Martinol, falecido na Austrália no momento em que embarcava de regresso à Europa.

"Esse homem, cuja existência eu ignorava ' diz ela ' me fez uma aflita confissão, que me incumbia de transmitir a sua mulher. Havia pouco tempo que eu praticava a escrita mediúnica e, não conhecendo a senhora em questão, me abstive de a procurar. Vendo que eu não ia, o mesmo Martinol deu uma comunicação ainda mais insistente à minha amiga H., que conhecia a Sra. Martinol e com ela foi ter, levando as duas mensagens. Era tudo verdade, e as duas confissões esclareciam o motivo de atos até então incompreendidos para a família." A tática do Sr. Flournoy consiste, além de tudo, em abafar numa profusão de termos técnicos e pretensiosos os elementos probatórios que se destacam da experimentação: criptomnésia, complexos emotivos subjacentes, camadas hipnóides, etc. Por essa forma é que sempre a Ciência obscureceu as verdades primárias e os grandes problemas da vida e do destino. Sob esse ponto de vista, não é ela menos responsável que a ortodoxia religiosa pelo deplorável estado mental de nossos dias e pelas tremendas conseqüências que dele resultam.

Ao cabo de séculos de predomínio religioso e de trabalho científico, a Humanidade ainda está à procura do caminho que pelo Espiritismo lhe é claramente indicado. Força é, todavia, reconhecer que o Sr. Flournoy imprime aos seus argumentos uma perfeita cortesia. A moderação de sua linguagem, o talento de observação e de análise, que em toda circunstância patenteia, o tornam eminentemente simpático. Há mesmo ocasiões em que parece inclinar'se às probabilidades espiríticas, deixando escapar uma confissão como esta: "E possível que, entre os fatos, alguns haja autênticos, isto é, que tenham origem espírita; mas não me encarrego dessa escolha." Sente'se que ele é tolhido por considerações de ordem pessoal. Seu livro terá para nós a vantagem de atrair grande número de investigadores 'para os nossos estudos, porque o autor insiste muitas vezes no dever que aos sábios e intelectuais se impõe de sondar os múltiplos problemas que a experimentação física vem pôr em foco.

Temos indicado os perigos reais que oferece a prática da mediunidade. Também os há imaginários, inventados por gosto e estrepitosamente apregoados pelos adversários do Espiritismo, dando origem a duas teorias principais, que por seu turno examinaremos: a das larvas, ou elementais, e a dos demônios. As manifestações espíritas, dizem cotidianamente certas revistas católicas (260), quando não provêm consciente ou inconscientemente do médium ou dos assistentes, são obra do demônio. Encontramos aí o argumento habitual da Igreja, o principal instrumento de sua dominação, que lhe permite resistir a todas as inovações, mantendo sob o terror o rebanho dos fiéis e assegurando o seu império através dos séculos.

Mesmo quando os Espíritos nos falam de Deus, de prece, de virtude e sacrifício, cumpre ver nisso a intervenção do demônio ' dizem os teólogos ', porque Satanás, o pai da mentira, sabe revestir todas as formas, empregar todas as linguagens, fornecer todas as provas; e quando acreditamos estar em presença das almas de nossos parentes e amigos, de uma esposa ou de um filho falecidos, é ainda o grande impostor que se disfarça para nos enganar. Tem'se visto ' afirmam eles ' o Espírito do mal revestir as mais dolorosas aparências, mesmo a da Virgem e dos santos, para melhor lograr os crentes. É o que assevera o Cônego Brettes na "Revue du Monde Invisible", de 15 de fevereiro de 1902, após um estudo de Monsenhor Méric acerca das materializações de fantasmas:

"Os resultados ' diz ele ' me parece concluírem a favor da opinião que sustenta ser tudo diabólico nas aparições de Tilly. Se são verdadeiras estas deduções, é o diabo que ali se apresenta sob a forma aparente da santa Virgem, e recebe as homenagens dirigidas à mãe de Deus."

Objetam outros críticos que em suas relações com o mundo invisível o homem não comunica somente com as almas dos mortos, mas também com ilusórias aparências de almas, com larvas, formas fluídicas animadas por uma sorte de vibração expirante do pensamento dos defuntos. Por outro lado, dizem eles, é condenável, é quase sacrilégio evocar as almas dos mortos, porque estas, abandonando a Terra, sobem às regiões superiores, e toda volta aqui abaixo é um constrangimento, um sofrimento para elas. "O método espírita ' diz um teósofo notável ' oferece o grande inconveniente de ser prejudicial aos mortos, cuja evolução estorva." Vimos, com exemplos numerosos e provas de identidade, que a hipótese das larvas não é de modo algum justificável; os fatos demonstram ao contrário que é com almas de homens, outrora existente na Terra, que confabulamos nas manifestações, pois que apresentam um caráter essencialmente humano. A ação dos manifestantes é humana, como também o são os desenhos, a escrita e a linguagem de que se servem.

Os fenômenos intelectuais que produzem trazem o cunho das idéias, dos sentimentos, das emoções, numa palavra, de tudo que constitui a trama de nossa própria existência. De todas as ordens podem ser as suas manifestações, desde o trivial até o sublime, e é o que igualmente caracteriza as sociedades humanas. As formas dos fantasmas que se apresentam materializados, as fotografias obtidas, são de seres semelhantes a nós e nunca de demônios, elementares ou larvas. Acrescente'se a isso todos os fatos e particularidades com caráter positivo tendente a estabelecer que os manifestantes viveram entre as gerações humanas, e a certeza se impõe de que a intervenção atribuída aos demônios e às larvas nos fenômenos espíritas não é mais que o produto de um desvario da imaginação. Quanto à segunda objeção, não tem maior consistência. Como poderia ser condenáveis essas comunhões do Céu com a Terra, da qual sai a alma humana esclarecida, confortada, enlevada por todas as exortações, por todas as inspirações que lhe vêm do Alto?

As práticas espíritas têm consolado, reanimado muitas criaturas combalidas sob a prova da separação; têm restituído a paz aos aflitos, provando'lhes que, aqueles que julgavam perdidos estão apenas ocultos por algum tempo a suas vistas. E que influência moral exerce em toda a nossa vida o pensamento de que seres caros, seres invisíveis nos acompanham e observam, examinam e apreciam os nossos atos, e que os nossos bem'amados estão muitas vezes perto de nós, associando'se aos nossos esforços para o bem, regozijando'se com as nossas alegrias, com os nossos progressos, e entristecendo'se com os nossos desfalecimentos, como nos amparando nas situações difíceis! Quem haverá que, tendo perdido um ente caro, possa permanecer indiferente a esse pensamento? Longe de estorvar a evolução das almas desencarnadas, sabemos ao contrário que os nossos chamados a favorecem em muitos casos. Não se trata de evocações imperiosas, como o pretenderiam insinuar. Os Espíritos são livres, e vêm a nós, se isso lhes agrada. Ao demais, que é em si mesma a evocação?

É a frágil palavra humana ensaiando'se em articular a linguagem sublime do pensamento; é o balbuciar da alma que entra na comunhão divina e universal! A experiência todos os dias o demonstra: graças aos conselhos dos humanos, muitas almas obscurecidas e atrasadas têm podido reconhecer'se e orientar'se em sua nova existência. Na maior parte, os materialistas passam pelo fenômeno da morte, sem o perceber. Acreditam ainda participar da vida terrestre, muito tempo depois de haverem falecido. Os Espíritos elevados não têm ação sobre eles, em virtude das diferenças de densidade fluídica, ao passo que as evocações, as advertências, as explicações que eles recebem nos grupos espíritas os arrancam de seu torpor, de seu estado de inconsciência e lhes facilitam o surto, em vez de o estorvar. Para nós, como para os desencarnados, a comunhão das duas humanidades é salutar, quando se efetua em condições sérias. É um ensino mútuo ministrado pelos Espíritos adiantados de ambos os planos, visando esclarecer, consolar, moralizar as almas sofredoras ou atrasadas dos dois mundos.

As teorias dos ocultistas e teósofos tão justas no que se refere à lei do Carma, ou das reencarnações, claudicam por completo no ponto de que nos ocupamos. Apartando o investigador do método experimental, para o encerrar no domínio da metafísica pura, elas suprimiram a única base positiva de toda a verdadeira filosofia. Graças às provas experimentais é que a imortalidade, mero conceito até agora, vaga esperança do espírito humano, se torna uma realidade palpitante. E com ela, muitas almas cépticas e desiludidas se sentem reviver em face dos destinos que lhes são patenteados. Longe de as depreciar, saibamos, conseguintemente, fazer justiça a essas práticas espíritas que têm enxugado tantas lágrimas, acalmado tantas dores e projetado tão abundantes claridades na noite das inteligências.

Voltemos à teoria do demônio e consideremos uma coisa. Se o Espírito maligno, como pretendem os teólogos, tem a facilidade de reproduzir todas as formas, todas as figuras, revelar as coisas ocultas, proferir as mais sublimes alocuções; se nos ensina o bem, a caridade, o amor, pode'se igualmente atribuir'lhe as aparições mencionadas nos livros santos, acreditar que foi ele quem falou a Moisés, aos outros profetas e ao próprio Cristo, e que toda ação espiritual oculta é obra sua. O diabo, tudo sabendo e podendo, até mesmo fazer sábio e virtuoso o Espírito, pode muito bem ter assumido o papel de guia religioso e, sob o pálio da Igreja, nos conduzir à perdição. A História, com efeito, nos demonstra com irrefragável lógica que nem sempre a Igreja foi inspirada por Deus. Em muitas circunstâncias, os seus atos têm estado em absoluta contradição com os atributos de que nos apraz revestir a divindade. A Igreja é uma árvore colossal, cujos frutos nem sempre foram os melhores, e o diabo ' pois que é tão hábil ' pode muito bem se ter abrigado à sua sombra.

Se devemos admitir, com os teólogos, que em todos os tempos e lugares tenha Deus permitido as mais odiosas fraudes, o mundo se nos apresentará como imensa impostura, e nenhuma segurança teremos de não ser enganados: assim pela Igreja como pelo Espiritismo. A Igreja ' ela própria o reconhece ' apenas possui, relativamente ao que denomina "sobrenatural diabólico ou divino", um critério de certeza puramente moral (261). E daí, com tão restritas bases de apreciação, dado o talento de imitação que atribui ao inimigo do gênero humano, que crédito a ela própria podemos conceder em todas as matérias? E assim que o argumento do demônio, como arma de dois gumes, se pode voltar contra aqueles que o forjaram. Cabe, entretanto, perguntar se de fato haveria tamanha habilidade da parte do diabo em proceder como os nossos contraditores o pretendem.

Nas sessões espíritas, vê'lo'íamos convencer da sobrevivência da alma e da responsabilidade dos atos a indivíduos materialistas; libertar da dúvida os cépticos, e da negação e de todas as suas conseqüências, dizer às vezes duras verdades a pessoas desregradas e obrigá'las a cair em si e orientar'se no sentido do bem. Onde estaria, pois, em tudo isso a vantagem para Satanás? Não deveria, ao contrário, o papel do Espírito das trevas consistir em acoroçoar em suas tendências os materialistas, os ateus, os cépticos e os indivíduos sensuais? É verdadeiramente pueril atribuir ao demônio o ensino moral que nos prodigalizam os Espíritos elevados. Acreditar que Satanás se esforce por desviar os homens do mal, ao passo que, deixando'os resvalar pelo declive das paixões, tornar'se'iam fatalmente presa sua; crer que pode ensiná'los a amar, a orar, a servir a Deus, a ponto de lhes ditar preces, é atribuir'lhe um procedimento ridículo extremamente inepto. Se o diabo é hábil, podem imputar'lhe as respostas ingênuas, grosseiras, ininteligentes, obtidas nos círculos onde se experimenta sem critério?

E as manifestações obscenas! Não são antes próprias a nos afastar do que a nos atrair para ele? Ao passo que, admitindo a intervenção de Espíritos de todas as ordens, desde a mais baixa à mais elevada, tudo se explica racionalmente. Os Espíritos malfazejos não são de natureza diabólica, mas de natureza simplesmente humana. Não há na Terra, encarnadas entre nós, almas perversas, que se poderiam considerar demônios? Voltando ao, essas almas continuam a proceder do mesmo modo, até que venham a ser regeneradas pelas provações, subjugadas pelos sofrimentos. Aos investigadores prudentes compete pôr'se em guarda contra esses entes funestos e reagir contra sua influência. Na maior parte dos círculos de experimentação, em lugar de proceder com cautela e respeito, desprezam'se os conselhos dos que nos precederam no caminho das investigações. Com intempestivas exigências e modos inconvenientes, repelem'se as influências harmônicas e atraem'se individualidades perversas e Espíritos atrasados. Dai tantas decepções, incoerências, obsessões, que têm feito acreditar na existência dos demônios e lançado sobre certo espiritismo de baixa classe o ridículo e o descrédito.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.