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Capítulo 93 de 110

Auto-Aperfeiçoamento

Mediunidade · Edgard Armond, espíritos diversos

Se nos abandonarmos à corrente da vida, passivamente, inertemente, como uma folha levada pelas águas, os acontecimentos não deixarão de ocorrer, influindo sobre nós de certa maneira; porém levaremos um tempo muito mais longo para realizar a tarefa evolutiva que nos é obrigatória; mas se, contràriamente, entrarmos na luta com coragem e decisão, enfrentando os obstáculos resolutamente e procurando vencê-los face a face, nossa evolução será mais rápida, nesse período de maior atividade, e colheremos os frutos benéficos de nosso inteligente esforço. Se deixarmos que o tempo resolva o caso da transformação moral por que devemos passar para atingir um grau mais elevado na escala na perfetibilidade, abandonando-nos cegamente à própria sorte, quando virá para nós algum progresso? Dentro de quanto tempo poderemos obter alguma melhoria espiritual? Mas, ao contrário, se desde já nós esforçarmos nesse sentido desde já também iremos recebendo benefícios, melhorando nossa situação e apressando a nossa marcha. Porque escrito está que “cada um receberá segundo suas obras”. Para ser médium não basta servir de instrumento a manif estação de espíritos. É preciso, sobretudo, renovar-se moralmente espiritualisar-se dia por dia, com base no Evangelho redentor.

A reforma liberta o indivíduo da escravidão das paixões. Os vícios escravizam o Espírito na carne, continuam a escravizá-lo, depois da morte e então, não podendo os viciados satisfazê-los inteiramente, pela ausência do instrumento carnal, comparecem às sessões de falso Espiritismo, assaltam os médiuns que aí se encontram, incorporam-se neles e dessa forma se satisfazem, fumando, bebendo e praticando outros atos ainda menos edificantes; satisfazem-se tamhém de alguma forma, vampirizando obsedados, ou atacando, nos momentos de fraqueza ou desvario, pessoas das mais diferentes condições porém dotadas de um certo grau de sensibilidade. Os vícios afetam o corpo físico e envenenam as células orgânicas, mas as raizes do desejo estão sempre no espírito e, por isso, quando este desencarna, carrega consigo esses vícios; mas com as restrições e impedimentos que a nova esfera de ação lhe oferece, passa a viver inquieto, atormentado, e por causa disso não pode evoluir; permanece apegado à Terra, desesperado por voltar e, se por qualquer circunstância não o consegue, então revolta-se e passa a engrossar as legiões de Espíritos maléficos, afundando-se assim, cada vez mais, nas sombras do Umbral.

Os mundos de expiação como este nosso não são o “habitat” normal, natural, dos Espíritos — que é o Espaço infinito — mas sim escolas educativas, oficinas de trabalho forçado, estações provisórias de provações, tudo dependendo da reforma de cada um. Se não nos reformarmos, como expiaremos as faltas? E não o fazendo, como poderemos nos libertar das provações? A reforma, pois, liberta o Espírito do círculo vicioso das encarnações

punitivas, arroja-o para fora dos limites dos mundos inferiores e lhe abre as portas douradas dos mundos felizes. (39)

(39) Para auxiliar a reforma individual foi inaugurada na Federação Espírita do Estado em maio de 1950 a Escola de Aprendizes do Evangelho que está publicando uma Biblioteca especial sob a legenda — Iniciação Espírita — com 21 volumes já editados pela LAKE.

No que respeita aos médiuns há alguns que se esforçam e procuram obter melhoria espiritual; a maioria, porém, e infelizmente, nenhum esforço desenvolve nesse sentido e deixa-se levar passivamente pelas circunstancias. Por isso, paradoxalmente, as mesmas faculdades mediúnicas que são a base fundamental da propagação doutrinária, vêm servindo como elemento retardador, afastando mesmo de suas hostes inúmeros candidatos ao serviço da seara, sendo certo que muitos, após vários anos de labor profícuo, abandonam decepcionados os trabalhos práticos, privando a doutrina de uma colaboração que poderia ser preciosa. Não nos referimos às próprias faculdades em si mesmas, éclaro, mas aos médiuns, que nem sempre estão à altura de suas tarefas, principalmente no que respeita à condição moral. Esquecidos dos compromissos que assumiram no Espaço, antes da encarnação, deixam-se dominar pelas tentações do meio ambiente, material e grosseiro, esquecem-se de suas tarefas coletivas e passam a viver vida de comodidades e de vantagens pessoais, fracassando ingloriamente.

Porque possuem determinadas faculdades, julgam que somente isso lhes basta e se esquecem de que é preciso lutar pelo aperfeiçoamento próprio, pela aquisição de verdades mais altas, visando sempre a redenção espiritual, que lhes poderá ser outorgada ou não, segundo o modo pelo qual se desempenham de seus deveres. O ponto mais alto da expressão mediúnica na presente fase de evolução do planêta é o Evangélico, isto é: a compreensão e a capacidade de divulgação, segundo o espírito, das verdades ensinadas pelo Divino Mestre. Pois, em que pese, não a estranheza mas a lástima, é preciso dizer que a maioria dos médiuns não lê o Evangelho, uns por serem incultos, outros por falta de hábito, outros enfim por julgarem que esse estudo não lhes é necessário, visto que os Espíritos, que por seu intermédio se manifestam ao público, podem fazê-lo com mais autoridade e conhecimento.

Este conceito errôneo deve ser combatido, entre outras razões porque é fora de dúvida que além dos benefícios pessoais que o médium obtém abeberando-se diretamente nessa fonte inesgotável de luzes espirituais, o trato com o Evangelho facilitará e aumentará de muito as possibilidades dos Espíritos comunicantes porque, entre outras consequências, o teor vibratório individual se purificará com esse estudo e essa exemplificação. Eis o que já dizia o Codificador, na previsão luminosa desse estado de coisas que hoje constatamos: “Se o Evangelho, realmente, não se tornar em vosso espírito um broquel, quem poderá socorrer-vos, se a revelação tende a absorver todas as conseqüências, emancipando o vosso século? Se o Evangelho em vossas mãos apenas tem a serventia dos livros profanos que deleitam a alma, embriagam o pensamento, quem vos poderá socorrer, no momento dado dessa revolução planetária que já se faz sentir, dando o domí-

nio da Terra aos bons, preparando-os para seu desenvolvimento, bem como transmigrando os obsecados e endurecidos para o mundo que lhes for próprio? “O que será de vós, quem vos poderá socorrer, se à lâmpada de vosso espírito faltar o elemento da luz com que possais ver a chegada de N. S. Jesus Cristo, para testemunhar o valor dos bons e a fraqueza dos maus e dos ingratos? “E’ possível que nos preparemos para os termos que chegam dando a todo momento a nota do. escândalo, apresentando-nos aos homens como homens cheios de ambição, que não trepidam em lançar mão até das coisas divinas para gozo da carne e satisfação de paixões do mundo?“

Estas são as advertências póstumas do grande irmão, aquele que impropriamente tem sido dado como o fundador do Espiritismo, aleivosia que devemos uma vez por todas afastar de nossos pensamentos. (40)

(40) Servimo-nos do ensejo para declarar que os inimigos da luz, as forças adversárias da doutrina, é que espalham essa expressão. Dizem que Kardec é o autor do Espiritismo para tirarem a este seu caráter de revelação divina, dar-lhe cunho pessoal e humano, confundi-lo com muitas das demais escolas filosóficas existentes no mundo. O próprio Codificador, prevendo isso, declarou categoricamente que não é o autor da doutrina, que não são suas as idéias que se encontram nos seus livros mas sim de altos Espíritos desencarnados que, por mandato de Deus, as difundiram na Terra. Portanto, não sejamos cúmplices de nossos adversários colaborando na difusão deste erro. Não há Espiritismo kardecista nem de outra qualquer denominação. O Espiritismo é um só e vem do Alto, como um precioso auxílio dado ao homem atual para sua redenção. É o Paracleto prometido por Jesus Cristo, conforme está expresso no evangelho de João.

Estas considerações todas nos levam a recomendar insistente-mente o auto-aperfeiçoamento espiritual, isto é: o esforço e a determinação do próprio indivíduo em melhorar-se, realizando um verdadeiro combate contra si mesmo, naquilo que ainda possui de mau. Mas, perguntarão muitos: como se poderá de forma eficiente realizar esse elevado trabalho? Apesar de ser este um problema muito velho, uma preocupação de todos os tempos; o fundamento objetivo de muitas doutrinas religiosas e filosóficas; o ponto central da exemplificação do Divino Mestre, muitos ainda fazem a mesma pergunta, milhares a fazem, e não seremos nós, que aqui unimos o nosso apelo à sua realização e que também necessitamos dessa reforma, que iremos deitar regras e nos colocarmos presunçosamente na posição de mestre. E seria mesmo uma tolice estabelecer regras para um esforço de pura introspecção individual e que deve ser realizado mais que tudo pela própria experiência, através de sofrimentos e de decepções de toda ordem. Só podemos dizer que, justamente, não há regras fixas nem esquemas rígidos, nem processos determinados para esse trabalho tratando-se, como se trata, de situações íntimas ligadas à consciência profunda de cada um.

Há compêndios de filosofias e sistemas esotéricos que oferecem misteriosamente processos infalíveis de purificação espiritual mas, de nós, não cremos que qualquer deles dê o menor resultado porque não se trata aqui de adotar processos ou de empregar regras mas sim de mudar sentimentos, de alterar o caráter moral, e isso o homem só o consegue, como já dissemos, através de provas, em tempo mais ou menos longo; todavia é certo que quando o espírito estiver maduro, quando a hora chegar, sobre ele descerá o fogo da redenção. Mas como o Espiritismo chama para a redenção e exige essa reforma moral urgentemente, todos devem iniciar desde já sua luta, estabelecendo sua vida em novas bases, organizando um programa simples e viável e se utilizando, com todas as energias de que dispuser, dos poderes que lhes vêm do livre arbítrio, que é vontade, inteligência e liberdade. Qualquer esforço neste sentido deve começar por um balanço moral, desnudando perante nossa própria consciência, sem a menor tolerância, as más qualidades que possuimos.

Raro é o homem, da atual geração, que possui mais virtudes que defeitos o que aliás é natural que aconteça porque este é um mundo atrasado e, portanto, o primeiro passo nesse esforço de reforma deve ser o exercício da tolerância recíproca, uma vez que ainda não somos capazes de amar. O Evangelho de Jesus, segundo nos parece, não pode ser realizado pelo homem atual, por causa de suas condições de inferioridade moral; é preceito para dias vindouros, mas qualquer esforço que fizermos no sentido dessa realização será útil e meritório porque estaremos plantando os alicerces desse futuro mundo de felicidades espirituais. Os defeitos mais comuns, a saber: o orgulho, o egoismo, a ferocidade, a sensualidade, são inimigos tenazes, que devemos um por um combater e vencer, à custa de lágrimas e de sangue, porque são estigmas que nos vêm do nosso passado de brutos e estão profundamente arraigados em nosso coração.

Mas temos que passar pelas provas purificadoras e em nossas mãos está o antecipá-las, melhor sendo que o façamos por nossa própria deliberação que obrigados pelos látegos do carma. Melhor que o façamos hoje que amanhã, como lutadores conscientes e não como vitimas passivas, pois o mérito justamente vem do exercício deliberado do livre-arbítrio. E quando no decorrer do tempo, todos os defeitos estiverem vencidos, teremos automàticamente conquistado as virtudes correspondentes, flores da espiritualidade que, no amanhã de nossa existência universal, torná-la-ão bela e radiosa, nas inumeráveis moradas da casa do Pai.

Uma única regra segundo parece, poderá ser ditada, nesse salutar esforço de edificação própria: resolver lutar, começando pelo menor defeito e perseverando tenazmente até o fim. Levamos séculos para chegar a esta situação de hoje; séculos para conquistar tão pouca coisa no rol das benemerências representadas pelas virtudes dignificantes do espírito e não será por um gesto de malabarismo mental, ou pelo simples desejo platônico de melhoria, que conseguiremos nos elevar a maiores alturas.

Comecemos, pois, pelo menor, pelo mais acessível, pelo mais ao alcance das armas ainda rudimentares que possuímos mas, encetada a tarefa, não nos detenhamos mais, não olhemos para trás; orando e vigiando como recomendou o Mestre, prossigamos até o fim, porque qualquer vacilação destrói tudo quanto já se conseguiu até um dado momento. Esse trabalho de repressão psíquica, iniciado no campo intelecttual (a deliberação) irá lançando raízes profundas no sub-consciente; insensivelmente irá influenciando o caráter do Espírito e modificando-o no correr dos tempos. Desta forma prudente e segura iremos nos estimulando e fortalecendo com os resultados parciais e não teremos decepções desencorajadoras. A luta contra nossas paixões é terrível e só consegue triunfar delas quem tem ânimo forte, vontade firme e fé, sobretudo fé. nas luzes e nas forças que nos vêm do Alto.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.