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Capítulo 106 de 110

Programa de Ação

Mediunidade · Edgard Armond, espíritos diversos

Segundo a esfera a que pertencer e o modo de vida que lhe for próprio, organizará o médium seu programa de ação individual. Em geral a mediunidade é exercida mecânicamente, passivamente, sem objetivo definido, pelos simples fato de existir. Mas isso é um erro. O médium deve saber por que é médium, que faculdades possui, limites de sua aplicação,

consequências de sua ação, objetivos a atingir e responsabilidades que assume, tanto como indivíduo quanto como membro da coletividade. Por isso, repetimos, organizará seu programa de ação tendo também em vista o necessário entendimento com o protetor individual. Esse programa, como quer que seja, comportará os seguintes princípios de caráter geral: 1. Deveres sociais: O exercício mediúnico não deverá prejudicar os afazeres comuns, de ordem material. Muito ao contrário a responsabilidade como médium reforça a responsabilidade do dever para com a família e a sociedade; aumenta-lhe o devotamento, o escrúpulo e o rigor no cumprimento de suas obrigações mundanas porque daí é que lhe virá a estabilidade material, necessária às realizações do espírito. 2. Bens materiais. A pobreza, a carência de recursos e a renúncia a confortos comuns, não são condições necessárias à execução da tarefa mediunica (salvo quando estas circunstancias estão no quadro da provação individual) ; e enquanto os bens materiais não forem motivo de inquietação ou de atração para o espírito, podem ser utilizados livremente.

No exercício de suas tarefas não devem os médiuns manter, pois, apreensões quanto aos bens e recursos necessários à vida material, porque os protetores invisíveis prevém e provêm a todos os casos e, nada do que fôr necessário ou justo, será negado àquele que se devota ao trabalho de evangelização e de assistência espiritual a seus semelhantes. Aqui é que tem aplicação, mais que adequada, a parábola de Jesus quando se referiu às aves dos céus e aos lírios do campo. Entretanto há trabalhadores, como acima dissemos, que devem mesmo viver na obscuridade e na escassez, porque isso é o que lhes convém em face da tarefa que lhes cabe executar, de redenção própria. Nestes casos é preciso que haja, da parte do médium, além do esforço próprio, do campo mediúnico, humildade e paciência, no cumprimento da provação.

Devotem-se, pois, ao trabalho que lhes está determinado — que é o essencial — e não disputem com o mundo posses, títulos ou posições transitórias que, na maioria dos casos, só servirão para desviá-los de seus rumos. 3. Especulação: A mediunidade não pode ser comerciada. Todos conhecem a advertência de dar-se de graça o que de graça se recebeu. Aquele que mercadeja com as coisas do espírito prepara para si mesmo um porvir de privações e terá que pagar, em futuras vidas miseráveis, cem por um daquilo que ilegitimamente auferiu. Isso quer dizer, também, que é francamente condenável todo e qualquer processo de profissionalismo interesseiro, seja de médiuns, seja de dirigentes que, imitando práticas comuns de religiões materializadas, tentam viver ou, mesmo, vivem a custa da doutrina, como parasitas.

Lembremo-nos do Apóstolo dos Gentios que de suas mãos calejadas tirava o seu sustento material para não ser pesado às comunidades cristãs que ia fundando pelos seus caminhos. 4. Práticas inferiores: O “orai e vigiai” se aplica com propriedade a este título, porque é orando e vigiando que o médium lutará por seu constante aperfeiçoamento, combatendo as influências impuras que o assaltarão a cada passo, nos contactos que forçosa-mente terá que manter com uns e outros. Desses contactos não poderá fugir em suas relações de indivíduo para indivíduo mas o poderá em relação às reuniões coletivas que frequenta.

Se quiser manter seu equilíbrio mental, sua saúde física, sua pureza moral e sua capacidade mediúnica, deverá fugir dos contactos impuros, das reuniões de caráter inferior que envenenam o espírito, degeneram as faculdades, desorientam e perturbam. Mais que quaisquer outros, deve fugir da macumba e dos terreiros e de todas as práticas que merecem essa qualificação, tenham os rótulos que tiverem, mesmo os do exercício da caridade, com os quais muitas vezes se mascaram. São práticas perniciosas, herdadas de um passado de erro e de superstição, que não podem mais ser toleradas nos tempos atuais, salvo nos meios mais retardados da sociedade humana. São uma mistura de africanismo, indianismo e catolicismo romano, e os agentes das manifestações são espíritos inferiores, habitantes das esferas mais baixa do astral. Alimentar os homens com essas práticas é tirar-lhes a oportunidade de conhecerem ou cultuarem coisas melhores e mais altas.

Fujam pois os médiuns dessa baixa expressão de animalidade onde só se cogita de interesses pessoais, de ligações amorosas forçadas, verdadeiros atentados à lei do livre arbítrio; de arranjos financeiros muitas vezes impossíveis, de garrafadas muitas vezes venenosas, de alimentação de vícios repugnantes e de vinganças pessoais; dessas práticas malsãs, onde Espíritos materializados, incorporados em médiuns infelizes fumam dançam e bebem, dando livre expansão a seus instintos inferiores e arrastando em seus desvairamentos tanto médiuns como assistentes, ingênuos ou ignorantes, pervertendo-os, embrutecendo-os e comprometendo-lhes gravemente a integridade moral e a compreensão, em relação às verdades fundamentais da vida espiritual. Essas práticas têm• se propagado enormemente em nosso país e em outros centros da vida civilizada, mormente naqueles em que predomina a descendência de raças primitivas, havendo regiões inteiras e até mesmo cidades famosas e adiantadas, que se deixaram dominar por elas.

É uma epidemia que vem se alastrando com auxílio da degeneração moral que atualmente impera no mundo, invertendo os valores espirituais, confundido a muitos e permitindo lastimável exploração em torno às altas verdades doutrinárias pregadas pelo Espiritismo verdadeiro. Esta situação é em grande parte devida aos médiuns porque é por seu intermédio que os Espíritos inferiores realizam suas manifestações; mas os sacerdotes dos cultos negros terão suas atividades muito reduzidas se seu concurso lhes for negado. Está nas mãos dos médiuns trabalharem para o bem ou para o mal, selecionarem suas atividades e os meios que frequentam; escolhendo um caminho reto ou tortuoso, colaborando com Espíritos atrasados ou adiantados, mas certos sempre de que colherão conforme semearem e serão responsabilizados pelo que deixaram de fazer. Bastará que em cada centro exista um médium idealista e bem orientado para que o ambiente possa ser saneado de impurezas porque, por intermédio dêle, os Espíritos esclarecidos poderão ali descer e espalhar a luz, derrotándo as trevas. E, cada alma que assim se salvar por seu intermédio, será uma tocha que se acenderá, no dia da prestação de contas, para iluminar seu julgamento.

5. Respeito às leis: A sociedade humana se rege por duas ordens de leis: umas transitórias, mutáveis, falíveis, criadas pelos homens, visando a harmonia social, a ordem pública e o respeito relativo aos direitos individuais; outras, estabelecidas pelo Criador, permanentes e infalíveis, visando o aperfeiçoamento moral e o progresso evolutivo de todos os seres. As primeiras são fruto da própria experiência humana e se baseiam em interesses materiais deste mundo, ao passo que as últimas resultam de sabedoria divina e se aplicam a todo o Cosmo. Os médiuns devem ter em vista estas duas ordens de leis, dando á Cesar o que é de Cesar, para que possam viver em concordância com os homens e com Deus, visto não serem agentes de perturbações mas de harmonização, não de rivalidades mas de concórdia.

Como regra geral e no campo do espírito devem ter em conta, porém, que, tudo aquilo que contrariar as leis de Deus deve ser rejeitado, mesmo quando seja exigido pelas leis dos homens, porque o espírito deve prevalecer sobre todas as coisas. 6. Atitude ante o bem e o mal: O progresso espiritual se opera ao impulso de dois agentes potenciais: o bem e o mal. São princípios sempre antagônicos, o primeiro impelindo para a frente e para cima, como elemento acelador da evolução; o segundo atraindo sempre para trás e para baixo — como elemento retardador. Desta ação antagônica resulta a espiral mística, representação geométrica do desenvolvimento evolutivo dos seres. As forças do bem são evidentes por si mesmas, na Natureza e na consciência humana, pois traduzem harmonia e bem-estar; as do mal, todavia, são cavilosas e traiçoeiras, enganando constantemente por seus inúmeros artifícios. São as chamadas “forças arimanicas” que confundem, desorientam e iludem os espíritos os mais atilados, tornando-se, por isso, extremamente perigosas.

Ambas, entretanto, exercem influência benéfica na evolução dos seres, porque é dos contactos com uma e outra que resultam a experiência e a aplicação sábia do livre arbítrio. Torna-se, pois, necessário conhecê-las bem e, nos conflitos que provocarem, os médiuns, mais que quaisquer outros, precisam saber distinguir a verdade do erro, para optarem pelo mais acertado. Seus recursos para isso serão as preces, as meditações, o apelo aos protetores e, sobretudo a intuição, de todos o mais elevado e o menos suscetível de limitações ou dúvidas. 7. Necessidade do estudo: A possibilidade, sempre iminente, de poderem ser iludidos e influenciados pelos multiformes agentes dos planos espirituais inferiores; a responsabilidade que lhes pesa sobre os ombros como propagadores de verdades transcendentes e orientadores da opinião; e a necessidade de preservação própria nos ambientes e condições diversas em que atuam, obrigam os médiuns a acrescentarem constantemente conhecimentos novos àqueles que porventura já possuam.

Por outro lado devem se manter ativos e conscientes, combatendo esse estado tão comum de passividade inerme, que os torna presas fáceis de forças, influências e entidades espirituais que, na maioria dos casos, desconhecem. No mínimo precisam ‘saber de que natureza são e qual a origem dos agentes que atuam sobre eles em dado momento; se são, por exemplo, larvas

vitalizadas por pensamentos humanos; idéias do seu próprio subconsciente, ou de mentes estranhas agindo telepaticamente; seres elementares da natureza, elementais humanos, ou enfim Espíritos encarnados ou desencarnados de uns e outros, dos muitos planos do mundo espiritual. Como se vê destas simples e ligeiras referências muitas coisas há a aprender para que possam agir com segurança, conhecimento de causa, para que possam se transformar em autênticos e autorizados intermediários; para se libertarem da ignorância e da superstição, que obscurecem o verdadeiro conhecimento, e para se emanciparem desse empirismo tão generalizado, que os transforma muitas vezes em agentes retardadores do esplêndido movimento espiritual, que está renovando o mundo e acelerando a evolução dos homens. Sem a indispensável preparação física e moral não devem os médiuns tentar transpor as barreiras vibratórias que separam os dois mundos, invocando potências invisíveis de qualquer natureza para desenvolvimento de faculdades ou produção de fenômenos.

A lei das afinidades, nestes casos, provoca dolorosas surpresas, porque as respostas podem vir de forças e entidades dedicadas ao mal, com grave prejuízo para a integridade do médium. Os que buscam fenômenos, batendo levianamente às portas do desconhecido, lembrem-se que a Natureza mesma representa um conjunto maravilhoso de fenômenos de toda ordem, que estão ainda por desvendar. Isto quer dizer que a solução do problema espiritual humano não está na presenciação de fenômenos, por mais interessantes que sejam, mas na obtenção de virtudes morais enaltecedoras. Ser médium não é agir desvendando mistérios mas “servir”, elevando-se gloriosamente para Deus.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.