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Capítulo 53 de 110

Considerações Gerais

Mediunidade · Edgard Armond, espíritos diversos

Vimos nos esforçando em esclarecer o leitor sobre os diferentes aspectos do fenômeno mediúnico, encarados à luz da experiência. Partimos do princípio segundo o qual a mediunidade natural é faculdade que todos possuem, em gérmen, mais ou menos desabrochada, conforme o grau de sensibilidade já atingido; e que não representa uma conquista do intelecto mas um conjunto de méritos em que predomina o sentimento. Assim, pois, a expansão do mediunismo natural depende da evolução espiritual do indivíduo. Essa possibilidade, potencial, com o tempo, ir-se-á desenvolvendo, paripasso com o progresso moral do espírito, até que as faculdades amadureçam e se manifestem em plena expansão. Mas certo é também que, a qualquer momento, o Espírito desencarnado pode solicitar ou receber a tarefa mediúnica em mundos de prova, para resgate de dividas cármicas, em determinado meio, época ou circunstâncias, colaborando assim com os Guias do mundo na obra comum de elevação coletiva; e isso sucede mesmo quando ainda não atingiu um grau de entendimento e pureza que lhe permita usar de certos poderes com consciência própria e discernimento moral. Esse é o caso da mediunidade de prova.

Fica assim contestada a crítica de muitos esoteristas que amesquinham a mediunidade sem maior exame, qualificando-a de expressão de passividade e inconsciência, contrárias às afirmações superiores do ser humano. Refiro-me, entre outros, aos adeptos da Sociedade Teosófica, fundada no século passado os quais, desmentindo eles próprios os ensinamentos iniciáticos da verdadeira teosof ia — que é muito antiga — taxam o mediunismo de prática impura, esquecendo-se de que a teosofia, como os demais ramos do conhecimento esotérico, nada jamais conseguiu no terreno das realizações práticas do espírito sem a mediunidade, que é justamente o conjúnto de faculdades que permite tais realizações. A própria fundadora do teosofismo ocidental, H. P. Blavatski, era médium; o mesmo sucedia com Leadbeater, e ambos utilizaram suas faculdades. Sem mediunidade nada se faz senão permanecer no terreno elucubrações, das concepções cerebrais, das introspecções platônicas, e quando algo se consegue de positivo, que representa conquista espiritual, verifica-se logo que foi ainda e sempre com auxílio da mediunidade.

Negam, pois, esses opositores, aquilo que usam, o que talvez suceda por falta de conhecimentos mais detalhados e profundos da questão. Nestas condições o que resta é que se disponham a estudá-la com boa vontade e sem “part-pris”. Essa questão tem duplo aspecto e somente assim poderá ser compreendida. As manifestações atinentes à mediunidade de prova — que é um aspecto rudimentar, muitas vezes precário e defeituoso da mediunidade natural — não bastam para a formação de um juizo completo e perfeito; como também é certo que essas manifestações, por si sós, não autorizam a formar

dessa mesma mediunidade juizo depreciativo. Há também opositores que da mediunidade somente conheceram fatos isolados, que não dão uma idéia do conjunto, e ficaram pensando que tudo o mais se resumia nisso; outros ainda foram informados por terceiros; bem como outros que a combatem por superstição religiosa ou por obediência fanática e inconsciente a conselhos de sacristia; havendo ainda alguns, inclusive espíritas, que lhe passam de largo por julgá-lo terreno difícil, complexo, decepcionante no que, em parte, têm razão. Estamos realmente muito longe de um conhecimento integral do assunto, mas não é negando ou criticando depreciativamente que chegaremos a resultados definitivos. Urge pois encarar a questão de frente, estudá-la e penetrar nela e, como elemento básico desse estudo, já sabemos que tudo depende de médiuns e do modo pelo qual são influenciados pelas entidades e forças do mundo invisível.

A primeira das modalidades citadas — a mediunidade natural — representa um poder, uma conquista definitiva do espírito, um atestado de espiritualização, ao passo que a mediunidade de prova é uma oportunidade apenas concedida a muitos, de trabalho e de provações em benefício coletivo. Quem possue a primeira, atua em planos elevados do mundo espiritual, ativa e conscientemente; conquistou aí o seu lugar e está acima do homem comum, ao passo que os da segunda agem em planos mais inferiores e, na maioria dos casos, passiva e inconscientemente. Por outro lado a primeira está à disposição dos próprios possuidores, que a utilizam segundo seu entendimento e livre arbítrio, visto que já estão capacitados para agir por si mesmos; a segunda, presentemente, está à disposição dos Guias do mundo para a realização de uma tarefa de caráter geral sendo, portanto, e no momento, a mais útil no nosso plano, por ser a mais acessível e representar a alavanca que está fazendo oscilar, desde a base, o monólito das descrenças e das maldades humanas, apressando a evolução da espécie.

Por isso nosso maior esforço será dirigido no sentido de orientá-la, protegêla, canalizá-la no devido rumo, desviando-a dos perigos e das quedas, mostrando suas vantagens e sua falhas, esclarecendo sua própria natureza e finalidade, para que os médiuns vençam suas provas e realizem sua tarefa com utilidade geral e pleno conhecimento de causa. E a maior dificuldade deste delicado trabalho é justamente despertar a consciência dos médiuns para isto, convencê-los disto, dar-lhes noção de responsabilidade própria e um sentido redencionista às suas atividades, ensinando-os a dominar a vaidade pessoal, destruindo-lhes o conceito errôneo de que são missionários ou de que possuem dons sobrenaturais; incitando-os a que adotem a humildade evangélica, desprendendo-se das coisas materiais e devotando-se ao trabalho mediúnico desinteressadamente, ao mesmo tempo que, valendo-se da oportunidade que lhes foi dada, se disponham a vencer os próprios defeitos e realizem sua reforma moral, num esforço rigoroso e sincero de auto-purificação. Essa reforma, como sabemos, exige um combate perseverante e

continuado e nem sempre pode ser concluida em uma só vida terrena; mas também é certo que a deliberação sincera de obtê-la, as tentativas sistemáticas de viver o mais aproximadamente possível segundo os ensinamentos evangélicos, abrirão aos médiuns, na medida de seus próprios esforços, as portas acolhedoras e benevolentes dos planos espirituais. Mantenham eles, pois, um estado interno de aspiração permanente nesse bom sentido e, ao mesmo tempo, no terreno das realizações imediatas, se sujeitem às servidões e práticas necessárias a um desénvolvimento metódico, harmonioso e pacífico, de suas atuais faculdades mediúnicas. Isto é o máximo que deles se pode exigir; o máximo que eles podem fazer e, como diz inspiradamente um mentor: “quem faz o que pode merece o salário da paz”.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.