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Capítulo 105 de 110

Fermento que Leveda a Massa

Mediunidade · Edgard Armond, espíritos diversos

As grandes transformações do mundo não vieram de agentes materiais porque êstes, em si mesmos, nada constróem. Somente o espírito concebe e realiza. Por isso é imensa a fôrça da mediunidade, que é fôrça do espírito levando para as coisas do espírito. Por outro lado não sendo ela privilégio de classes, de fortuna, de cultura ou de posição social, surge por tôda parte e a todo instante intervém na vida do homem, no sentido espiritual; acessível a todos os entendimentos abre suas portas a todos e está ao alcance tanto do pária como do soberano, porque não depende de formalismos, rituais ou regulamentos. Não está sujeita ao homem mas sujeita o homem.

Nos tempos apostólicos os enviados do Cristo se deslocavam muitas vêzes a grandes distâncias, percorrendo caminhos ermos, vadeando rios caudalosos, afrontando as intempéries naturais e a dureza dos corações humanos e isso porque naquele tempo o conhecimento não era dado às massas e a revelação não se havia generalizado; mas hoje a propagação das mesmas verdades é feita por enviados que se movem no espaço invisível, que falam por portavozes humanos espalhados para tôda parte. Por isso ninguém mais poderá alegar ignorância derivada do isolamento e os homens ou crêem ou deixam de crer, abraçam ou repelem a verdade, segundo sua própria vontade, e podem, em consequência, assumir completa responsabilidade dos seus atos.

Os médiuns são o fermento evangélico e sua tarefa é levedar a massa para que o alimento se torne saudável e de fácil assimilação. Atuando primeiro em si mesmos, pela indispensável reforma, agem em seguida no círculo das famílias, parentes e conhecidos; depois movimentam-se em âmbitos cada vez mais amplos, com aspectos cada vez mais coletivos, ensinando, corrigindo, socorrendo, orientando e levam, por fim, sua ação benéfica a limites extensos e imprevisíveis. Dificilmente se pode calcular a extensão e as consequências do trabalho de um bom médium! Onde alcança e cessa o setor de um, começa o de outro e assim o movimento se propaga silenciosamente, imperceptivelmente, vamos dizer, subterrâneamente, atingindo grande parte da sociedade. À medida que os dias se passam o número de médiuns aumenta: milhares ainda aguardam a sua vez de entrar na liça e outros milhares estão ainda encarnando como reservas a serem utilizadas, oportunamente, na grande batalha da espiritualização da humanidade.

Os médiuns são auxiliares poderosos dessa espiritualização porque, em grande parte, ela resulta do próprio exercício de suas faculdades; são seus agentes legítimos por serem elementos naturais do intercâmbio com o mundo invisível; oferecem, assim, aos homens encarnados, viventes nas trevas ou na meia luz, as chaves mestras que abrem as portas do verdadeiro conhecimento espiritual. Quando adquirirem faculdades evoluídas, que permitam contacto com os Espíritos superiores, se transformarão em colaboradores autorizados da

harmonia social, concorrendo com seus conselhos para a estabilidade dos lares e das instituições, porque tomarão parte na educação e na moralização do povo suprindo, os Espíritos superiores que por êles falam, as deficiências próprias do Espírito humano encarnado. Mas, para gozarem dessa autoridade, serem dignos de tais poderes, devem viver uma vida reta, orientada pela mais elevada moral porque, assim, o que se propagar será conforme a verdade, inspirará confiança, afastará confusões, duplicidades, charlatanismo, mistificações. Dos Espíritos superiores é que poderão vir para o mundo as verdades maiores e as únicas autênticas. Inserimos os seguintes conceitos do venerável Irmão Bezerra de Menezes: “Mediunidade com Jesus é serviço aos semelhantes. Desenvolver êsse recurso é, sobretudo, aprender a servir. Aqui, alguém fala em nome dos espíritos desencarnados; ali, um companheiro aplica energias curadoras; além um cooperador ensina o roteiro da verdade; acolá, outrem enxuga as lágrimas do próximo, semeando consolações. Contudo, é o mesmo poder que opera em todos.

É a divina inspiração do Cristo, dinamizada através de mil modos diferentes por reerguernos da condição de inferioridade ou de sofrimento ao título de herdeiros do Eterno Pai. E nessa movimentação bendita de socorro e esclarecimento, não se reclama o título convencional do mundo, qualquer que seja, porque a mediunidade cristã, em si, não colide com nenhuma posição social, constituindo fonte do Céu a derramar benefícios na Terra, por intermédio dos corações de boa vontade. Em razão disso, antes de qualquer sondagem das fôrças psíquicas, no sentido de se lhes apreciar o desdobramento, vale mais a consagração do trabalhador à caridade legítima, em cujo exercício tôdas as realizações sublimes da alma podem ser encontradas. Quem desejar a verdadeira felicidade, há de improvisar a felicidade dos outros; quem procure a consolação, para encontrá-la, deverá reconfortar os mais desditosos da humana experiência. Dar para receber. Ajudar para ser amparado. Esclarecer para conquistar a sabedoria e devotar-se ao bem do próximo para alcançar a divindade do amor.

Eis a lei, que impera igualmente, no campo mediúnico, sem cuja observação, o colaborador da Nova Revelação não atravessa os pórticos das rudimentares noções de vida eterna. Espírito algum construirá a escada de ascensão sem atender às determinações do auxílio mútuo. Nesse terreno, portanto, há muito que fazer nos círculos da doutrina Cristã rediviva, porque não basta ser médium para honrar-se alguém com as bênçãos da luz, tanto quanto não vale possuir uma charrua perfeita, sem a sua aplicação no esfôrço da sementeira. A tarefa pede fortaleza no serviço com ternura no sentimento. Sem um raciocínio amadurecido para superar a desaprovação provisória da ignorância e da incompreensão e sem as fibras harmoniosas do carinho fraterno, para socorrê-las, com espírito de solidariedade real, é quase impraticável a jornada para a frente.

Os golpes da sombra martelam o trabalho iluminativo da mente por todos os flancos e imprescindível se torna aos instrumentos humanos das verdades divinas armar-se convenientemente na fé viva e na boa vontade incessante, a fim de satisfazer aos imperativos do ministério a que foi convocado. Age, assim, como isenção de ânimo, sem desalento e sem inquietação, em teu apostolado de curar. Estende as tuas mãos sõbre os doentes que te busquem o concurso de irmão dos infortunados, convicto de que o Senhor é o Manancial de tôdas as Bênçãos. O lavrador semeia, mas é a bondade Divina que faz desabrochar a flor e preparar-se o fruto. É indispensável marchar de alma erguida para o Alto, vigiando, embora, as serpentes e os espinhos que povoam o chão. Diversos amigos se revelam interessados em tua tarefa de fraternidade e luz e não seria justo que a hesitação te paralizasse os impulsos mais nobres, tão-somente porque a opinião do mundo te não entende os propósitos, nem os objetivos da esfera espiritual, de maneira imediata.

Não importa que o templo seja humilde e que os mensageiros compareçam na túnica de extrema simplicidade. O Mestre Divino ensinava a verdade à frente de um lago e costumava administrar os dons celestiais sob um teto emprestado; além disso, encontrou os companheiros mais abnegados e fiéis entre pescadores anônimos, integrados na vida singela da natureza. Não te apoquentes, meu irmão, e segue com serenidade. Claro está que ainda não temos seguidores leais do Senhor sem a cruz do sacrifício. A mediunidade é um madeiro de espinhos dilacerantes, mas com o avanço da subida, calvário acima, os acúleos se transformam em flôres e os braços da cruz se convertem em asas de luz para a alma livre na eternidade. Não desprezes a tua oportunidade de servir e prossegue de’ esperança robusta. A carne é uma estrada breve. Aproveitemo-la sempre que possível na sublime sementeira da caridade perfeita. Em suma, ser médium no roteiro cristão ‘é dar de si mesmo em nome do Mestre.

E foi Êle que nos descerrou a realidade de que somente alcançam a vida verdadeira aquêles que sabem perder a existência em favor de todos os que se constituem seus tutelados e filhos de Deus na Terra. Segue, pois, para diante, amando e servindo. Não nos deve preocupar a ausência de alheia compreensão. Antes de cogitarmos do problema de sermos amados, busquemos. amar, conforme o amigo Celeste nos ensinou. Que Ele nos proteja, nos fortifique e abençoe.”

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.