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Capítulo 8 de 110

Resumo Histórico

Mediunidade · Edgard Armond, espíritos diversos

A faculdade mediúnica, tanto a natural como a de prova, não é fenômeno de nossos dias, destes dias nos quais o Espiritismo encontrou seu clímax mas, sempre existiu, desde quando existe o homem. Sim, porque foi muito por meio dela que os Espíritos diretores puderam interferir na evolução do mundo orientando-o, guiando-o, protegendo-o. Vindo conviver com os homens ou dando-lhes, pela mediunidade, as inspirações e os ensinamentos necessários, foram sempre êles, esses guias devotados e solícitos, elementos decisivos dessa evolução. E, coisa notável, quanto à mediunidade, a faculdade quase não se modificou desde milênios; manteve quase os mesmos aspectos; pouco variaram os fenômenos e as manifestações, o que prova ser muito lenta a ascensão espiritual do homem neste terreno. Se é verdade que, antigamente, o assunto não era bem conhecido e muito menos generalizado, nem por isso deixou de ser admitido, estudado e utilizado em benefício individual e coletivo. Nas épocas em que a humanidade vivia no regime patriarcal, de dás ou de tribos, a mediunidade era atribuída a poucos, que exerciam um verdadeiro reinado espiritual sobre os demais.

Passou depois para os círculos fechados dos colégios sacerdotais, criando castas privilegiadas de inspirados e, por fim, foi se difundindo entre o povo, dando nascimento aos videntes, profetas, adivinhos e pitonisas que passaram, por sua vez, a exercer inegável influência nos meios em que atuavam. Na Índia como na Pérsia, no Egito, Grécia ou Roma, sempre foi utilizada como fonte de poder e de dominação, e tão preciosa, que originou a circunstância de somente ser concedida por meio de iniciação a poucos indivíduos de determinadas seitas e fraternidades. E ainda hoje verificamos a existência dessas seitas e fraternidades que prometem a iniciação sob as mais rigorosas condições de mistério e formalismo, se bem que com medíocres resultados, como é natural. Somente após o advento do Espiritismo as práticas mediúnicas se popularizaram e foram postas ao alcance de todos, sem restrições e sem segredos.

A começar de Homero, o poeta lendário da Grécia antiga, que à mediunidade se referia indiretamente ao narrar os episódios heróicos da vida de Ulisses, podemos ver que muitos outros, como por exemplo Sócrates, que possuia o que chamava de “demônios familiares”; Pitágoras, que era visitado pelos deuses; Apolônio de Tiana, médium extraordinário de vidência e levitação; Simão de Samaria, contemporâneo dos apóstolos, todos exerciam mais ou menos publicamente a mediunidade. E papel preponderante teve também ela na administração pública e na vida política das nações de então, pois provado está que seus dirigentes (chefes e reis), jamais se aventuravam a qualquer passo importante sem consulta prévia a videntes, astrólogos e oráculos. E, na própria Roma imperial, apesar de sua visceral amoralidade, os césares não dispensavam essa consulta e submetiam-se de bom grado às inspirações e aos conselhos dos “deuses”. Ora, nós sabemos hoje o papel sobrelevante que os Espíritos do Senhor

desempenham no plano da vida material e no fenomenalismo cósmico e compreendemos que eram então chamados demônios, deuses e gênios essas entidades operosas e nem sempre benéficas que agiam, como sempre agem, por de trás de todos os fenômenos naturais e sociais. É por isso tão positiva e evidente a antigüidade das manifestações espíritas que nos abalançamos a dizer que esta é, justamente, umas das maiores provas de ser a doutrina espírita realidade de todos os tempos, base fundamental de tôdas as religiões, mau grado as restrições que a deturparam (3).

(3) Na China, por exemplo, a 3000 anos antes de Cristo o Espiritismo era praticado: uma prancheta era usada, nas cerimônias mortuárias, para receber as palavras do morto, dirigidas a seus descendentes. O culto dos antepassados é fundamenral na China, Japão e outros países orientais.

E, quanto ao cristiani Smo, valendo-nos de um conceito de Leon Denis — “ele repousa sôbre fatos de aparições e manifestações de mortos e fornece imensas provas da existência do mundo invisível e das almas que o povoam”. A Bíblia, ela mesma, está cheia de semelhantes manifestações, todas obtidas por meio da mediunidade. No Velho Testamento vemos os profetas, videntes e audientes inspirados, que transmitem ao povo a vontade dos Guias e, de tôdas as formas de mediunidade parece mesmo que a mais generalizada era a vidência. Samuel no capítulo 9, versículo 9 — assim o demonstra quando diz: “Dantes, quando se ia consultar a Deus dizia-se vamos ao vidente; porque os que hoje se chamam profetas chamavam-se videntes”. É já de rigor citativo a consulta feita por Saul ao Espírito de Samuel, na gruta do Endor.

As pragas que, segundo se narra, por intermédio de Moises, foram lançadas sôbre o Egito; as maravilhas ocorridas com o povo hebreu no deserto, quando conduzido por êsse grande Enviado, a saber; a labareda de fogo que marchava à frente dos retirantes; o maná que os alimentava; as fontes que jorravam recebimento do Decálogo, etc., tudo são afirmações, do extraordinário poder mediúnico do grande fundador da nação judaica. Que maior exemplo de fenômeno de incorporação que o revelado por Jeremias — o profeta da paz — quando tomado pelo Espírito, pregava contra a guerra aos exércitos de Nabucodonosor! E que outro maior de vidência no tempo, que o demonstrado pôr João escrevendo o Apocalipse! E como é notável de se observar que, nos remotos tempoS do Velho Testamento os fenômenos, em si mesmos, em quase nada diferiam, como dissemos, dos atualmente observados por nós!

Basta citar os de transporte: Reis, capítulo 6,versículo 6; os de levitação: Ezequiel, capítulo 3, versículos 14 e 15, e Atos, capítulo 8, versículos 39 e 40; os de escrita direta: Êxodo, capítulo 32, versículos 15 e 16 e capítulo 34, versículo 28. E tão semelhantes eram as práticas antigas com as atuais que até mesmo a música era empregada para a formação do ambiente. De fato vemos que o profeta EliseU reclamava “um tangedor” (harpista) para profetizar: 2º Reis 3, 15 — e muito vulgar é a citação da passagem em que David acalma e afasta os Espíritos obsessores de Saul, tangendo sua harpa.

E a obscuridade era também, em muitos casos, exigida e Salomão, no ato de consagrar o templo que edificara, declarou significativamente: “O Senhor tem dito que habitaria nas trevas” 2ª epístola aos Coríntios, capítulo 6, versículo 1 (4).

(4) Salmos 67 e 68 — Isaias, capítulo 32, versículos 3, 15 e 44 — Ezequiel, capítulo 11, versículos 19, 36 e 37 — Joel, capítulo 2, versículo 28.

No Novo Testamento, desde antes do Nascimento então, as provas são ainda mais concludentes e notáveis, maximé as de mediunidade curadora, o dom das línguas, as levitações e os fenômenos luminosos. Maria de Nazaré não viu o Espírito anunciador? Jesus não foi gerado com intervenção do Espírito Santo? E os milagres seus e dos apóstolos? Voltando a citar Leon Denis, é dêle esta pergunta: os apóstolos de Cristo foram escolhidos por serem sábios ou notáveis ou porque possuiam qualidades mediúnicas ?“ Esses apóstolos, como sabemos, e seus discípulos, durante o tempo de seus trabalhos, atuaram como verdadeiros médiuns, bastando citar São Paulo e São João, um o mais dinâmico e culto, outro o mais místico. E justamente por exercerem francamente a mediunidade é que sabiam de seus perigos, dos cuidados que sua prática exigia e sôbre isso constantemente chamavam a atenção de seus discípulos (5).

(5) João, capítulo 14, versículos 16, 17 e 26 — Atos, capítulo 1, versículos 2, 3, 5, 8, 9, 10, 11, 16. Capítulo 2, versículos 4, 38 e 39. Capítulo 4, versículo 31. Capítulo 9, versículo 17. Capítulo 10, versículo 44. Capítulo 11, versículo 15. Capítulo 13, versículo 52. Capítulo 19, versículo 6. Capítulo 20, versículo 23 — Romanos, Capítulo 5, versículos 5, 15 e 19 — Coríntios 12.

São Paulo dizia: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”; e São João ajuntava: “Caríssimos, não creiais em todos os espíritos mas provai que os espíritos são de Deus”. Advertiam, assim, contra a ação do espíritos obsessores e mistificadores. Era tão comum a mediunidade entre os primitivos cristãos que instruções escritas eram enviadas às comunidades das diferentes cidades para regular a sua prática; e essas instruções foram sendo, com o correr do tempo, enfeixadas em livros para melhor conservação. Hermas, que evangelizou no tempo de São Paulo adquirindo grande e justa autoridade, em seu livro “O Pastor” dizia: — “O espírito que vem da parte de Deus é pacífico e humilde; afasta-se de tôda a malícia e de todo vão desejo dêste mundo e paira acima de todos os homens. Não responde a todos que o interrogam nem às pessoas em particular porque o espírito que vem de Deus não fala ao homem quando o homem quer, mas quando Deus o permite.

Quando, pois, um homem que tem o espírito de Deus, vem à assembléia dos fiéis, desde que se fêz a prece, o espírito toma lugar nesse homem que fala na assembléia como Deus o quer. Reconhece-se ao contrário o espírito terrestre, frívolo, sem sabedoria e sem fôrça, no que se agita, se levanta e toma o primeiro lugar. É importuno, tagarela e não profetiza sem remuneração. Um profeta de Deus não procede assim”.

— Estas instruções, dadas há séculos, como se vê, continuam com plena oportunidade ainda hoje, até mesmo no que se refere à ganância de alguns e à vaidade de muitos.

Essas manifestações de mediunidade pública continuaram a se dar até quando foi possível porque, à medida que o cristianismo foi-se transformando em religião oficial foi perdendo sua espiritualidade e ganhando caráter mundano; e a partir do concilio de Nicéa, em 325, formaram-se duas correntes opostas, uma querendo permanecer no cristianismo primitivo e outra se esforçando por progredir no mundo dos homens. A partir daí a Igreja mais tarde chamada católica-romana, esquecendo, por seus continuadores, três séculos de vida exemplar e repudiando os ensinamentos do Mestre no seu verdadeiro sentido, consorciou-se com as fôrças do mal para obter, como obteve, o domínio do mundo pelo poder temporal. Essa igreja, tornada então toda poderosa pela oficialização que lhe outorgou Constantino, declarou que a mediunidade era ilegal, herética, obra de magia, obra demoníaca e entrou, em consequência, a mover-lhe sistemática perseguição.

Renegou todos os atos mediúnicos praticados por Jesus e seus discípulos — que os farizeus do Sinédrio, já a seu tempo, taxavam de práticas do demônio—e nisso foi coerente consigo mesma porque, tendo criado o seu sistema fechado de dogmas obscurantistas e privilégios sacerdotais, verificou que o exercício público da mediunidade viria derruír, solapar pela base o edifício material que estava laboriosa e ardilosamente construindo para consolidar seu poderio avassalador. Apesar dos testemunhos e dos protestos apresentados sincera e honestamente por vários de seus próprios luminares, como São Gregório de Nissa, S. Clemente de Alexandria, São Thomaz de Aquino, Santo Agostinho e outros, que admitiam e praticavam o mediunismo, não voltou atrás e durante séculos procurou, como até hoje procura, freiar o pensamento e o espírito de compreensão dos fenômenos mediúnicos, perseverando nos propósitos iniciais. Criou assim uma época muito extensa de obscurantismo, durante a qual tudo foi empregado para destruir a revelação divina: o ódio, a vingança, a perseguição e a morte pelo ferro; pelo fogo, pelo veneno, pela espada.

A Idade Média foi o período perfeito dessa verdadeira noite espiritual. Como consequência dessa situação de terror oficializado, os círculos que cultivavam a espiritualidade pura foram se fechando, se restringindo, desaparecendo e a palavra da Verdade somente podia ser transmitida em segrêdo, de bôca para ouvido, em sussurros débeis, numa forma tal que, realmente, nunca mais pôde ser derramada livremente em grande parte do mundo. Até mesmo nos rituais das igrejas encontrava-se esta oração de recitação obrigatória: “Afugentai, Senhor, todos os espíritos malignos, todos os fantasmas e todos os espíritos que batem”.

Ora, com o evolver das coisas e como era natural, todos aqueles, de espírito não fanatizado e mais liberal, amantes do progresso, não encontrando, nesses cultos assim organizados, nada que lhes satisfizesse a razão e os sentimentos, descambaram para o materialismo e, à obscuridade do fanatismo sucedeu a da descrença. A ciência estava tomando pé e tentando quebrar os jugos que a escravizaram até então e o mundo precisava mesmo de uma renovação para caminhar em melhores condições. Surgiram nessa época as filosofias naturalistas, realistas, baseadas na Razão, a cuja frente se puseram os chamados enciclopedistas, que produziram uma verdadeira revolução no pensamento; e solapado então por essas novas concepções teoristicas, o mundo entrou a sofrer abalos profundos que, em breve, degeneraram em tremenda convulsão social precursora, como sempre acontece, de acelerado movimento evolutivo. Ao terror do fanatismo religioso sucedeu o da vingança popular desenfreada e, no cadinho daquela dura provação, os destinos do mundo entraram de novo a ser fundidos.

E foi então que os Espíritos Diretores tiveram de intervir novamente para orientar o movimento e impedir que as paixões desencadeadas ultrapassassem os limites permitidos, prejudicando o progresso geral ou retardando-o demasiadamente. Entraram a agir de forma enérgica e positiva lançando em campo os elementos já de antemão preparados e dispostos nos setores mais convenientes. Isso sucedeu no século findo, bem nos nossos dias e em diferentes lugares ao mesmo tempo mas, notadamente, na América do Norte, onde fenômenos objetivos e por si mesmos impressionantes se revelaram, chamando a atenção do mundo. É verdade que ao tumulto causado pela explosão das massas o Positivismo viera trazer uma certa derivação, metodizando o pensamento e orientando o raciocínio no sentido da justiça e da moral, mas, o que os Guias queriam era focalizar o aspecto nitidamente espiritual da vida, sobrelevante do material ou especulativo para os quais, no momento, tôdas as fôrças vivas do homem se inclinavam.

E isso êles o conseguiram eficientemente porque o interesse despertado por essas manifestações do chamado sobrenatural, foi considerável; tôdas as classes intelectuais se movimentaram e a sábios de indiscutível autoridade foi cometida a incumbência de examinar o assunto à luz da ciência contemporânea. E então, para facilitar êsse exame, os Espíritos Diretores determinaram o aparecimento de médiuns de ampla capacidade, com o que visavam também concorrer para que tais trabalhos resultassem concludentes e categóricos. Êsses médiuns que eram, realmente, excepcionais, submeteram-se a tôda espécie de controle e os relatórios firmados por comissões científicas da América, Inglaterra, França, Itália e Alemanha, foram acordes em reconhecer que a vida realmente continuava além do túmulo e que era inegável o intercâmbio entre vivos e mortos. Essa foi a missão de Kardec — o Codificador — e dos notáveis espíritos de Crookes, Ochorowiez, Du Prel, Lombroso, Myers, Steed, Flamarion, Leon Denis, Aksakof, Notzing, seguidos logo de Lodge, Richet, Doyle, Geley,

Bozzano e Delane, para citar somente os mais conhecidos. E assim, com o auxílio dêsses sábios, foi posto freio ao materialismo dominante, dada nova orientação ao pensamento religioso e a verdade é que, até hoje, o impulso dado naquela época vem crescendo de vulto e velocidade produzindo um triplo resultado: a derrota. do materialismo estéril, a destruição do fanatismo religioso medieval e a implantação dos fundamentos da verdadeira espiritualidade. O mundo desde então evoluiu mais depressa, numa fermentação interior e silenciosa, cujos efeitos sentiremos em tempos muito próximos, no remate dêste fim de século com o advento do terceiro milênio. Os cientistas e os médiuns foram, inegàvelmente, os artífices materiais dessa grande vitória.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.