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Capítulo 81 de 110

A Doutrinação

Mediunidade · Edgard Armond, espíritos diversos

O objetivo da iniciação espírita é o aperfeiçoamento moral e a ascensão aos planos superiores da vida espiritual; o intercâmbio com êsses planos e o conhecimento, o mais amplo possível, das forças e das leis que os regem, em franca evolução para Deus. A doutrinação de Espíritos inferiores e inconscientes nas práticas mediúnicas não é, portanto, o fim principal que se tem em vista mas, simplesmente, um setor de trabalho, um aspecto do conhecimento geral e uma oportunidade de realizar ação caridosa, em obediência ao preceito da solidariedade humana. No trabalho de desenvolvimento é preciso que se tenha isso em vista, no que respeita principalmente aos médiuns de incorporação, para não se circunscrever a atividade mediúnica, não se restringir a limites acanhados, tarefas tão elevadas como as que aos médiuns são atribuidas. Em outras palavras: impulsione-se o médium sempre para diante, visando coisas cada vez mais altas; evite-se a estagnação, o misticismo mórbido e a rotina estéril.

Nos primeiros tempos do desenvolvimento e por fôrça de suas próprias imperfeições (que são aliás as de tôda a humanidade) não poderão os médiuns assegurar intercâmbio e manifestações senão de elementos de planos inferiores do mundo invisível, habitados por Espíritos atrazados, sofredores ou maldosos. Daí a necessidade das doutrinações para que se preste auxílio e se esclareçam todos aquêles que hajam obtido permissão ou se valido da oportunidade de virem até nós. E, por outro lado, o médium também se beneficia dessas visitas porque o contacto com os fluidos pesados, próprios dessas entidades, são extremamente favoráveis ao desenvolvimento, visto que são mais afins e concordantes com suas condições psíquicas e provocam no perispírito maior intensidade de vibrações, apressando assim o desenvolvimento.

O alvo do trabalho mediúnico, porém, deve ser posto além dessas práticas de rotina porque o fim a atingir é transformar a mediunidade em instrumento dúctil e puro à disposição de entidades superiores, que dela carecem para realizar sua grandiosa tarefa de disseminar a verdade no seio das massas humanas. O fim visado não deve ser formar médiuns para somente receberem sofredores, mas, sim, para revelarem aos homens encarnados verdades universais e eternas. As doutrinações, portanto, devem ser feitas em sentido geral e não particular, de forma a beneficiarem a todos os presentes dos dois planos, como se fôsse ou realmente sendo, uma verdadeira pregação evangélica e uma revelação de verdades, servindo o caso particular do Espírito comunicante unicamente como um tema de doutrinação. Esta recomendação é feita em tese, para combater o sistema de personalização tão comumente usado, cabendo, é claro, ao doutrinador fazer as exceções que julgar convenientes ao momento. Esse sistema de doutrinações em caráter geral tem, além do mais, a vantagem de afastar as possibilidades de mistificação que quase sempre se baseiam em coisas pessoais. Assim sendo não haveria mais, por parte dos

Espíritos, necessidade de declaração de nomes, qualidades, posição social conquistada na Terra quando encarnados, fatos e circunstâncias históricas que lhe digam respeito, porque o que realmente interessa é o que resultar de bom e útil, para êles e para nós, dos contactos que com êles mantivermos. Sabemos que há casos especiais em que os Espíritos devem se identificar; mas em regra geral e no trato com Espíritos de hierarquia superior, raramente isso acontece e sistematicamente eles se mantém incógnitos, deixando entre nós somente o fruto de seu trabalho e cooperação. No caso de Espíritos inferiores, ao contrário, é sistemática a tendência de se identificarem prontamente, falarem muito de si mesmos, com um personalismo às vezes exagerado e pretensioso; e isso é natural que aconteça porque sua evolução espiritual não lhes permite ainda uma conduta mais elevada; nestes casos convém deixar de lado tais fraquezas, desculpando-as e cuidarmos de nossa própria tarefa que é esclarecê-los, visto que estão mais necessitados de receber que de dar.

Entretanto convém dizer que quando o Espírito comunicante anuncia-se, dando nome, fica também obrigado à competente comprovação, caso esta seja pedida. É comum se ver que diretores de trabalhos, assim que se dão as incorporações, perguntam aos Espíritos comunicantes seus nomes e outros sinais de identidade. Nestes casos, em se tratando de entidades já de alguma elevação, não responderão à pergunta e contorná-la-ão, aproveitando a oportunidade para doutrinar o diretor de trabalhos. Se, porém, o comunicante fôr atrasado duas coisas podem então acontecer: ou aproveita o ensejo para fazer personalismo, jactando-se de qualquer título ou tarefa referente à encarnação anterior ou atribue-se, para mistificar, personalidade qualquer que não a sua, mas sempre de pessoa importante e admirada, como Napoleão, Joana D’Arc, os Apóstolos, sendo que alguns não se escrupulizam em se dizerem Jesus Cristo e até mesmo o próprio Deus.

É verdade que desta forma muitas vêzes satisfazem aos encarnados, que se envaidecem da presença de tão eminentes personagens mas, no fundo, o comunicante simplesmente está tripudiando sobre a ignorância e a boa-fé dos presentes, gozando com o logro que lhes está pregando. A não ser nas sessões domésticas em que se comunicam Espíritos familiares de fácil e espontânea identificação, nas de caráter público a regra é que os Espíritos mais elevados somente se identificam quando para tal haja conveniência ou necessidade e isso o fazem espontâneamente e não por solicitação do diretor do trabalho. Todavia, mesmo nestes casos, há muitos outros meios de se estabelecer discreta e prudentemente a identidade dos comunicantes e a êsses meios já nos referimos, aqui e ali, em alguns capítulos desta obra; e comumente ocorre que se estabelece a identidade do espírito comunicante com o tempo, sem necessidade da declinação de nomes ou títulos. Cabe aqui também chamar a atenção dos doutrinadores sôbre o modo de tratar os Espíritos inferiores.

Lembremo-nos de que êles, por muito atrasados que sejam, não estão debaixo de nossa autoridade, não são nossos servos, não estão à nossa disposição para obedecer às nossas vontades, muitas vêzes arbitrárias e extravagantes. Como regra geral é preciso que haja urbanidade, paciência e respeito, tolerância e bondade porque, na maioria dos casos, êles necessitam de

compreensão, de estímulos e de benevolência para despertarem de seu letargo e vislumbrarem um pouco de luz. Raramente teremos necessidade de usar de expressões enérgicas quando os trabalhos se realizam em ambientes suficientemente espiritualizados, e isso porque, ao simples contacto com fôrças pacíficas, harmoniosas e positivas, ainda mesmo os mais atrasados são forçados a se manter em atitude respeitosa e moderada. Há ocasiões em que perseguidores procuram hipnotisar as suas vitimas para que estas não ouçam as palavras esclarecedoras do doutrinador. Nunca devemos contradizê-los pessoalmente, irritá-los, discutir com êles acrimoniosamente, para não ferir e pôr em liberdade paixões. e fôrças de maldade e ignorância que estão, momentaneamente contidas, graças à presença e à interferência de Espíritos bons, interessados no caso. A doutrinação em caráter geral, impessoal, a que já nos referimos, resolve tôdas estas dificuldades. E, nos casos em que fôr realmente necessário personalizar, façamo-lo sem discutir, mas peremptôriamente, com a autoridade que deve ter aquêle que prega ou doutrina.

Em relação aos Espíritos superiores devemos usar de cordialidade, circunspeção e deferência, mas nunca servilismo, já que são homens como nós, se bem oue mais evoluidos; são amigos, irmãos mais velhos, mas não juizes nem senhores, nesses atos de intercâmbio comum, para esclarecimento. Conhecem nossos defeitos e os compreendem porque também já os possuiram; são mãos sempre estendidas em nosso auxílio mesmo quando, ultrapassando certos limites, abusamos de sua bondade. Nunca deixam sem resposta nossos pedidos, e nos assistem até mesmo quando dormimos. Nunca regateiam a palavra esclarecedora ou o conselho sábio e fazem as vêzes extensas preleções, longos discursos, para edificação de um só ouvinte. Bondosos, tolerantes e compreensivos, representam junto de nós a providência divina, da qual são autorizados executores. Não carregam a nossa cruz, porque isso é contra a lei da justiça, mas nos ajudam a carregá-la. São os Cirineus de nossa caminhada e sem êles nossa vida seria muito mais trabalhosa e sombria; sem sua ajuda talvez nem mesmo a suportaríamos, a não ser afundando cada vez mais na materialidade

Sucede porém que, muitas vêzes, mesmo em trabalhos bem organizados, manifestam-se Espíritos violentos e maldosos que, atraidos por afinidades momentâneas, de médiuns ou assistentes, valem-se da oportunidade para darem expansão a seus maus sentimentos. Nestes casos não convém ouvi-los demoradamente, para não prejudicar a harmonia do trabalho. Se não se beneficiam com as doutrinações de caráter geral, feitas aos demais, e se perseveram no êrro ou mantêm o intuito deliberado de estabelecer confusão, respeite-se o livre arbítrio mas não se lhes dê atenção; êles que sigam seu caminho e voltem quando se acharem em condições de oferecer uma colaboração, sempre preciosa, no trabalho comum de evangelização das almas. Não nos referimos, é claro, aos casos especiais em que é permitida a audiência de Espíritos dessa natureza, seja para seu próprio esclarecimento, seja para treino simultâneo dos médiuns, seja ainda para se tirar de seus casos particulares ensinamentos de caráter geral.

Nas sessões de doutrinação de sofredores é comum que médiuns sentados com a assistência perturbem os trabalhos. Influenciados por pseudos protetores ou guias põem-se a dar conselhos proferir preces ou falar desatinadamente, com D intuito, segundo alegam, de auxiliar os trabalhos, quando realmente os estão perturbando, anarquizando o ambiente e desorientando os médiuns em desenvolvimento. Sua contribuição seria preciosa se procedessem justamente ao contrário, permanecendo calados e auxiliando as concentrações, para se manter na sessão a necessária harmonia. Para evitar isso coloque-se na corrente, antes da abertura dos trabalhos, todos os médiuns presentes, e os que, por qualquer circunstância, permanecerem fora dela, não se deixem dominar por animismo ou impulsos nervosos já que, em trabalhos bem organizados nos dois planos, os Espíritos comunicantes não atuarão sôbre tais médiuns. Por isso, repetimos, é indispensável que ao organizar-se uma sessão, pública ou partictlar, a primeira coisa a pleitear é o perfeito entrosamento nos dois planos. Isto afastará a maior parte das interferências perniciosas e fornecerá a indispensável segurança. Por outro lado é preciso ter sempre em mira transformar as casas espíritas, públicas ou domésticas, em núcleos acolhedores, postos avançados do inumerável exército de operários do Senhor que, no Espaço, se dedicam ao esclarecimento, proteção e redenção dos prisioneiros da carne.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.