Voltar ao livro Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2

Capítulo 3 de 33

Os Grandes Iniciados — parte 3 de 9

Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2

djonisíaca no vale de Tempe Festa Na Tessália, no fresco vale do Tempe, era aquela uma noite santa, consagrada por Orfeu aos mistérios de Dionisos. Conduzido por um servo do templo, o discípu­ lo de Delfos caminhava por uma garganta estreita e pro­ funda. .. Na noite sombria, ou­ entre rochedos escarpados via-se· somente o murmúrio das águas do rio, entre as .margens cobertas de relva. Afinal, pot trás de uma montanha, mostrou-se a lua cheia, fazendo aparecer no vale uma claridade elísia. A iluminou-se, desde os fundos de relva fresca, paisagem · os pequenos bosques de freixos e de choupos, as fontes cristalinas, as grutas revestidas de heras suspensas, o rio sinuoso, enlaçando ilhas recobertas de árvores ou ro­ lando sob lençóis de verdura. Um vapor louro, um sono volutuoso envolvia a plantas. Suspiros de ninfas pare­ s ciam fazer palpitar o espelho das fontes, e tênu�s sons de flautas saíam do recesso dos tufos de bambu. E o fas­ cínio de Diana planava sobre todas as coisas. O dis·cípub de Delfos caminhava como se estivesse sonhando. De quando em quando, detinha-se para respi­ rar um leve perfume de madressilva ou de loureiro amar­ go. Mas, de repente. o luar çobriu-se de úma nuvem. Tu­ do enegreceu. as rochas assumiram aspectos ameaçado­ res, luzes errantes brilhavam por todos os lados, sob a espessura d �s arvoredos, à margem do rio e nas profun- . dezas do vale. E informa o velho guia do templo:

( ) S � egun o Pausânias, todos os anos uma teoria s : de a a

.pelfos rara o va e e Tempe, a fim de colher � o loureiro sagrado. Isso lembra\"a aos discípulos de Apolo que e�es se liga,·am à ini- · c�ação órfica. A l:ga-;ão entre a tradição apolínea e a órfica indi­ cava-se de outra maneira na história cos templos, mediante a disputa entre Apolo e Baco, sobre o tripé do templo. c Ba o cecfeu-o -ao irmão retirou-s . rar o Farnasso. Isso � � quer dizer qu � e o:oni- _ _ , m·ç1ação sos e a órf1ra ficaram sendo privilégio dos inic:ac!os, en­ quanto Apolo fazia seus orác o ul s para o mundo exterior. -1

-São os mistos, que começam a caminhar. Cada cortejo tem o seu guia empunhando um facho. Vamos acomp anhá-los. E ambos s. encontrara coros, saindo dos bosque m os A frente, adoles­ vinham os mistos do jovem Baco, centes , vestidos s de de longas túnicas de linho, coroado hera. Empunhava símbolos m taças de madeira cinzelada, da taça da vida. Hércules luta-· Seguiam-nos os mistos de dor, rapazes vigorosos s , vestindo curtas, perna túnicas nuas, uma pele de leão sobre descendo até . as espáduas a cintura, co roas de em oliveira na cabeça. Apareceram · seguida os mistos de Baco a lacerado com peles de zebr ou de pantera na cintura, faixas vermelhas na cabeça e tirso numa das mãos. Ao passarem perto de uma gruta, viram prosterna­ dos por terra os mistos de Aidoneu e de Eros subter­ râneo. Pranteavam os _parentes e amigos mortos, cantando em voz baixa: -Aidoneu! Aidoneu! Restitui-nos aqueles que nos levaste ou leva-nos até o teu reino! O vento, entrando na caverna, parecia prolongar sob a terra os risos e soluços fúnebres. De repente, um misto, dirigindo-se ao discípulo de Delfos, disse-lhe: -Tu passaste o limiar de Aidoneu e não verás mais a luz dos vivos! Um outro segreda-lhe estas palavras: - Sombra, tu serás a presa da sombra! Tu, que vens da Noite, vo!ta para o Érebo! E fugiu, correndo. O discípulo sentiu-se gelado de medo e perguntou baixinho ao seu guia: -Que quer isso dizer? pareceu não ter ouvido a pergunta e o servo observou: -É necessário passar a ponte. Ninguém evita o fim. E atravessaram uma ponte de madeira sobre o rio Peneu. Mas perguntou outra vez o neófito: -De onde vem essa melopéia triste, essas vozes soluçantes? Que são essas sombras brancas, caminhando em longas filas, por debaixo dos álamos? 1.5 São mulheres que vão se iniciar nos mistérios de - Dionisos. -Sabes os seus nomes? -Aqui ninguém sàbe do nome de outrem. Cada um esquece o seu próprio. Na entrada do domínio sagra­ do, os mistos despem seus vestuários ·manchados, ba­ nham�se no rio, vestem roupas de linho puro. E cada um . esquece o seu nome, adotando outro. Submetem-se todos a uma transformação, durante sete dias, entrando em outra vida. Vê Não estão reu­ essas teorias de mulheres. nidas, segundo as famílias ou as pátrias e sim de acordo com o deus que as inspira. Eles então viram desfilar moças coroadas de narci­ sas com p·eplos azulados, que o guia denominava as nin­ fas companheiras de Perséfona. Traziam enlaçados nos braços pequenos cofres, urnas, vasos votivos. Depois apa. receram com peplos vennelhos as amantes místicas, as esposas ardentes, as adoradoras de Afrodite. Entraram num bosque escuro, onde se ouviram apelos violentos com soluços lânguidos. Depois as vozes de um · coro cla­ mando:· - Eros, tu nos feriste! Afrodite, tu. quebraste os nossos membros! Nós cobrimos o seio com a pele do cor­ çozinho; mas trazemos no peito a púrpura sangrenta das nossas feridas. O nosso coração é um braseiro devora­ dor. Algumas morrem de pobreza, mas nós nos consu­ mimos em nosso amor. Devora-nos ou liberta-nos, Eros. Dionisos! Dionisos! Apareceu outra teoria. As mulheres estavam intei­ ramente vestidas de negro, usando longos véus lutuosos de lã, arrastados pelo chão, e choravam a morte dos es­ posos amados. O guia disse que eram as dolorosas de Perséfona. No local, havia um grande mausoléu de már­ more, recoberto de hera. As viúvas ajoelhavam-se em volta, desatavam as cabeleiras, soltavam altos gritos, res­ pondiam à estrofe do desejo com a estrofe da dor. Ex­ clamavam: -Perséfona, morreste arrebatada por Aidoneu e com ele desceste ao império dos mortos. Nós choramos o bem-amado. somos corno mortas-vivas. Que o dia não mais surja para nós. Que nos dê o grande sono a terra

que te cobre, Perséfona! Que a nossa sombra erre enla­ çada à sombra adorada. Perséfona, tem piedade de nós! A vista dessas cenas estranhas, sob o delírio conta­ gioso dessas dores profundas, o discípulo de Delfos sen­ tia-se invadido por mil sensações contrárias, torturantes. Sentia-se outro. Os desejos, os pensamentos, as agonias daquelas criaturas tinham-se tornado seus desejos, suas agonias. Sua alma dividia-se para penetrar em mil cor­ pos. Penetrava-o uma angústia mortal. Não sabia mais se era hom·em ou sombra. Então passava por lã um iniciado de elevada esta­ tura, que disse: -Paz às sombras aflitas! Mulheres sofredoras, as­ pirai à luz de Dionisos. Orfeu vos espera! Elas rodearam-no silenciosas, desfo1hando as coroas de asfódelos. Com o seu tirso, ele mostrou-lhes o ,ca­ minho. As mulheres foram beber em taças de madeira a âgua de uma fonte. Refizeram-se as teorias e as mulhe­ res reiniciaram a marcha. As moças iam à frente, can­ tando o refrão: - Agitai as papoulas. Bebei a água do Lete. Dai- -nos a flor desejada. Refloresça o narciso para as. nossas irmãs. Perséfona! Perséfona! O discípulo andou muito tempo ainda em companhia do seu guia. Atravessou campinas onde crescia o asfó­ delo. De quando em quando ouvia cantos lúgubres. Via também máscaras horríveis, suspensas das árvores, figu­ rinhas de cera como se fossem crianças enfaixadas. Aqui e ali, barcas atravessavam o rio, com pessoas silencio­ sas co1no se estivessem mortas. Afinal alargou-se o vale, o céu tornou-se claro, o sol apareceu. Viam-se ao longe as gargantas do Ossa e mais perto, no meio de um círculo de montanhas, erguia-se o templo de Delfos. A multidão estava ao pé da monta­ nha, agitando ramos e tirsos, saudando-se uns aos outros como se fossem todos amigos, e subiu para as proximi­ dades do santuário. O guia desaparecera. O discípulo es­ tava no meio de um grupo de iniciados de cabelos luzi­ dios. usando coroas com faixas de várias cores. · Todos no como a um pareciam estar à sua espera. Saudaram-

elos ou­ irmão, felicitando-o pela feliz chegada. Levado p tros, subiu aos degraus mais altos do templo, quando se sentiu. ofuscado, por um raio de luz. Era o .sol, que come­ çava a aclarar o vale. Então o coro entoou uma canção. Abriram-se as por­ Herme e tas do templo. Surgiu Orfeu, acompanhado do s do porta-fa�ho. Reconheceu-ó o discípulo de Delfos. Orfeu fa!ou: -Saúdo-vos a todos que· viestes para renascerem depois dos sofrimentos, na terra, e que renasceis agora. Vinde beber a luz do templo, vós que sais da noite, mistos, mulheres, iniciados. Vós que chorastes, vinde ale­ grar-vos. Vós que lutastes, vinde repousar. Evoco o sol sobre vossas cabeças. Ele vai brilhar em vossas almas. Não é o sol dos mortos. É a pura luz de Dionisos, o gran­ de sol dos iniciados. Pelos vossos sofrimentos no pas­ sado, pelo esforço que vos trouxe até aqui, sereis ven­ cedores. Se acreditais nas palavras divinas, já sois ven­ cedores. Depois do longo circuito das existências tene­ brosas, saireis afinal do círculo doloroso das gerações, e vós vos vereis como um só corpo, como uma só alma, na luz de Dionisos! "A chispa divina que nos guia está em nós! Torna­ -Sê - luzeiro no templo, estrela no céu. Assim cresce a luz da Verdade. Ouvi a vibração da lira de sete cordas, a lira de Deus: ela move os mundos. Ouvi, que o som vos atravesse. E as profundezas dos céus se abrirão!" "Socorro aos fracos, consolo aos sofredores, esperan­ maus, aos prof ça a t�dos. Mas, desgraça aos anos. Eles serão confundidos. No êxtase dos Mistérios, cada um vê até o fundo a alma do outro. Ali os maus são feridos pe­ lo terror, os profanos pela morte. E agora que Dionisos luziu sobre vós, eu invoco Eros celeste, todo poderoso. Esteja convosco em vossos amores, em vossas lágrimas, em vossas alegrias. Amai! Tudo ama! Amai a luz, não as trevas. Durante a viagem, lembrai-vos do fim. As al­ mas mostram em seu corpo sideral todos os pecados co­ metidos na existência, como se fossem manchas horrí­ veis. Para limpar essas manchas, elas têm de voltar à terra. Os puros, os fortes, vão para o sol de Dionisos!" "Agora entoai: Evoé!"

-Evoé! - gritaram os arautos, aos quatro cantos do Templo. -Evoé! gritaram todos nos degraus do tem­ plo. E os címbalos soaram. E pelo val e afora ecoou o gri­ to de Dionisos, repetido por mil gargantas. Até os pas­ tore s co m se us rebanhos, pelas florestas, repetiram: "Evoé!" (7)

( ) O grito Ht Vô Ht era o grito sagrado dos iniciados do Egito, da Judé:a, c'a Fenícia, ca Asia Menor, ca Grécia. As quatro letras sagrac'as Iod Hê Vô H� representavam Deus em sua fusão com a natureza, incluindo a totalidade do ser, o universo vivo. Jod (Osfris) significaYa a divindade propriamente dita. o intelecto criador, ·o Eterno-Masculino que está em tudo. HE Vô HE repre­ senta\·a o Eterno-Femin:no, Eva, fsis, a Natureza,. fecundac'a por ele. A letra Iod era a da mais alta iniciação. As outras ciências eram das letras de Evé. Orfeu reservou as ciências da letra Iod (Iove, Zeus, Júp:ter) e a idéia da unicade de Deus, aos iniclados do primeirà grau, que­ rendo interessar o poyo nas artes e seus símbolos vivos. Por isso o grito Evoé ouv:a-se nas festas de Dionisos, onde estavam os simples aspirantes. Nisso consistia a diferença entre a obra de Moisés e a de Orféu. Partem da iniciação egípcia, mas dirigem-se em rumos diferentes. Moisés, asperamente, glorifica o deus masculino. Confia sua guarc!a a um sacerdócio fec hado e sub­ mete o povo a uma disciplina implacável. Orfeu, amoroso da Na­ tureza, glorifica-a, em nome de Deus que a penetra. Por isso o grito Evohé! é o grito sagrado dos mistérios da Grécia.

Evocação A cerimônia findara como um sonho. Viera a noite e danças, cantos, preces, tinham silenciado. Orfeu e seu discípulo desceram à cripta sagrada, por un1a galeria subterrânea, que ia até o centro da montanha, onde so­ mente o hierofante podia chegar. Ao lado dos adeptos, ele entregava-se às meditações, à leitura de obras de magia e de teurgia. O recinto ilumi­ nava-se por dois brandões de hastes fincadas no solo, onde se abria uma fenda da qual subia um vapor quente, parecendo vir das entranhas da terra. Havia um pequeno altar, onde ardia um fogo de loureiro seco. Mais adiante, no alto, uma fenda oblíqua deixava passar a luz do es­ paço. Disse Orfeu ao seu discípulo: -Bebeste da fonte da luz santa e com um coração puro entraste no seio dos mistérios. Chegou a hora solene de ires até as fontes da vida e da luz. Não se tomam filhos dos deuses aqueles que não levantaram o véu que encobre aos olhos dos homens as maravilhas in­ que se ocultam à multi­ visíveis. Ouve pois as verdades · dão e que são a força dos santuários. "Deus é uno, sempre semelhante a Ele mesmo. Rei­ na em toda parte. Mas, os deuses são inúmer os e diver­ sos, pois a divindade é eterna e infinita. Os maiores são as almas dos astros. Sóis, estrelas, terras, luas, cada astro tem a sua alma e todas nasceram do fogo celeste de Zeus e da luz primitiva. Semiconsci entes, inacessívei s eis, imutáv elas dirigem com seus movimentos regula� res o grande todo. Cada astro, em seu giro, arrasta em sua esfera eterizada falanges de semideuses ou de almas resplande cente s, que foram outrora almas huma nas. Es­ tas, depois de terem descido a escala d os reinos subi­ ram, novamente, gloriosas, os ciclos para afinal se libertarem da roda das gerações. É por esses espíritos divinos que Deus respira, age, aparece. São o sopro da sua alma

viva, os raios da sua consciência eterna. Comandam os exércitos dos espíritos inferiores, que atuam nos elementos e dirigem os mundos. De longe, ou de perto, eles nos cercam e, embora de essência imortal, revestem-se de formas sempre mutáveis, conforme os povos, os tem- · . pos, as regiões. O ímpio nega-os, mas teme-os. O hom-em piedoso adora-os, sem conhecê-los� Somente o iniciado conhece-os, atrai-os e os vê. Se eu lutei para encontrá­ -los, se afrontei a morte, se, como dizem, desci aos infer­ nos, foi para dominar. os demônios do abismo, para cha­ mar os deuses das alturas sobre a minha Grécia, a fim de o céu profundo· casar-se com a terra. A beleza celeste se encarnará no corpo das mulheres, o foga de Zeus cir­ culará no sangue dos heróis. E muito antes de subirem aos astros, os filhos dos deuses resplandecerão como imortais." "Sabes o que é a Lira de Orfeu? O som dos templos inspirados. Os deuses são as cordas. A sua música, a Grécia, se afinará como a lira e o próprio mármore can­ tará em cadências brilhantes, em celestes harmonias." "Agora, evocarei os meus deuses, par� que te apa­ reçam vivos e que te mostrem, numa visão profética, o místico himeneu que estou arranjando para o mundo e que os iniciados verão. Deita-te ao abrigo desta rocha. Não tenhas medo. Um sono mágico vai cerrar tuas pál­ pebras. Primeiro, tremerás, vendo coisas terríveis. Mas depois uma luz deliciosa, uma felicidade ignota, inunda­ rão t�us sentidos e o teu ser." O discípulo já se deitara no nicho em forma de lei­ to cavado na rocha. Orfeu atirou alguns perfumes no fogo sobre o altar, e empunhando o seu cetro de ébano, coroado por um cristal flamejante, colocou-se perto da esfinge e com voz profunda iniciou a evocação. - Cibele! Cibele! Ouve-me, grande mãe� Luz origi­ nal, chama leve, etérea, sempre móvel através dos espa­ ços. que encerras os ecos e as imagens de todas as coi­ sas! Invoco os teus corcéis fulgurantes de luz. Alma uni­ versal, criadora de abismos, semeadora de sóis, que ar­ rastas pelo Éter o teu manto estrelado! Luz sutil, oculta, invisível aos olhos da carne! Grande mãe dos mundos e dos deuses, tu, que encerras os tipos eternos, antiga Ci­ bele, a mim, a mim! Por meu cetro mágico, por meu pacto !J1. com as Potências, pela alma de Eurídice! Evoco-te, Es­ posa multiforme, dócil, vibrante, sob o fogo do Macho eterno. Do mais alto dos espaços, do mais profundo dos abismos as partes, vem, aflui, enche esta ca­ , de todas verna com teus eflúvios. Envolve o filho dos Mistérios em uma muralha de diamante. Mostra-lhe em teu seio profundo os Espíritos do Inferno, da Terra, dos Céus! Ao serem pronunciadas estas palavras, um trovão . subterrâneo abalou as profundezas do ablsmo, a monta­ nha toda tremeu. Um suor frio gelou o corpo do discí­

pulo. Este só via Orfeu através de uma neblina que au­ mentava. Por um instante tentou resistir a uma força formidável que o abatia. Mas o seu cérebro foi vencido, a vontade anulada. Sentiu os pavores de um afogado a engolir água, cuja convulsão termina na inconsciência. Quando voltou a si, já era noite, uma noite atraves­ sada por um crepúsculo rastejante, amarelado, lodoso. Olhou por rpuito tempa sem ver coisa nenhuma. De quando em quando sentia algo roçar por sua pele, como se fossem morcegos invisíveis. Afinal, vagamente, supôs . estar vendo nas trevas, monstruosas formas de centau­ hidras, gó ros, rgonas. Mas o que primeiro viu, distinta­ mente, foi uma grande figura de mulher, sentada num trono. Envolvia-a um véu comprido, com pregas fúne­bres, semeado de estrelas pálidas, tendo sobre a cabeça uma coroa de papoulas. eus olhos enormes, abertos, velavam imóveis. A Os s sua volta, parecendo aves cansadas, moviam-se massas de sombras humanas, que segredavam à meia voz: - Rainha dos mortos, alma da terra , ó Perséfona ' · nós somos filhas do céu. Por que estamos exiladas no teu reino sombrio? ó ceifeira do céu, porque ceifaste as nossas mas que outrora voavam al , felizes na luz, entre as · suas irmãs, nos campos do ter? é Perséf ona respondia:· -Eu colhi o narciso. Eu entrei no leito nupcial. Bebi a morte com a vida. Como vós, também eu gemo nas trevas! Gemendo, perguntaram as almas: - Quando serem Os libertadas? Respondeu-lhes Perséfona:

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.