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Capítulo 17 de 33
Segundo Grau — parte 7 de 17
Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2
Depois da tentativa de mostrar, mediante a persona · lidade e a obra de Pitágoras, o maior iniciado da Gré- - eia, o fundo primordial e universal da . religiosa verdade e filqsófica, poderíamos deixar de falar em Platão, pois este apenas deu a essa verdade uma forma mais fanta sista e mais determos um popular.· Eis a razão de nos momento . diante da nobre figura do filósofo ateniense . Sim, hã uma doutrina-mãe e síntese das religiões e das filosofias. Ela desenvolve-se e aprofunda-se no decor rer das idades. Mas o fundo e o centro permanecem os mesmos. Jâ encontramos as suas grandes linhas. Deve-se ainda mostr·ar a razão providencial das suas diversas for- . . mas, segundo as raças e as_ idades. -Deve-se restabelecer a cadéia dos grindes . iniciados, que f oranld()s verdadeiros iniciadores da · humanidade. Então, a força de cada um deles se multiplicará pela de todos os outros e a unida de da verdáde aparecerá na diversidade da sua expres são. Como tudo mais, a Grécia teve s.ua aurora, seu apo geu e seu declínio. � a lei dos dias, dos homens, dos povos, · das terras, dos céus. Orfeu foi o iniciado da aurora. Pitágoras foi o . do apogeu do meio, Platão o do declínio, o ocaso de púr pura ardente, que serâ a . claridade rósea de uma· nova aurora, a da humanidade. Platão segue Pitágoras como nos mistérios de Eleusis · O· porta-brandão acompanhaya o . grande· hierofante. Com ele vamos entrar ainda uma vez, . por um novo caminho, através das avenidas do santuâ-· o, até o coração do templo, para a contemplação . ri do grande arcano. Mas, antes de ir a Eleusis ouçamos um instante , o nosso guia, · o divino. Platão. Que ele nos d�ixe ver seu horizonte natal, conte-nos a história da sua alma e con duza-nos até o seu mestre bem-amado.
A mocidade de Platão Platão nasceu em Atenas, a cidade do Belo e da Hu manidade. Não havia limitações· aos seus jovens olhares. Aberta a todos os ventos Atica avança como a proa , a de um navio no mar Egeu. Prepondera como· rainha sobre os arquipélagos, ilhas que · parecem sereias brancas, sen tadas . no azul escuro das ondas. Ele cresceu aos pés da Acrópole, sob a guarda de Palas Atenéia, naquela extensa planície, rodeada de montanhas violentas, envoltas em azul luminoso, entre o Pentélico de flancos de mármore, o Himeto coroado de pinheiros odoríferos, onde voejam as abelhas, e· a tranqüila baía de Eleusis. Foi sombrio e perturbado o horizonte político, na época da infância e da mocidade de Platão. Elas decor reram durante a implacável guerra do Peloponeso, luta fratricida de Esparta e de Atenas, que preparou a disso-· lução da Grécia. Estavam longe os grandes dias das guer ras médicas, tinham-se apagado os sóis d-e Maratona e de Salamina. Platão nasceu no ano em que morreu Péri cles (429 a.C.). Este· foi o maior homem da Grécia, ínte gro como Aristides; hábil como Temístocles, o mais per feito representante da civilização helênica, o hipnotizador daquela democracia. turbulenta, patriota ardente, que soube conservar a calma de um semi-deus, no meio das tempestades populares. A mãe de Platão deve ter contado ao filho uma cena de que ela teria sido testemunha, dois anos antes do nascimento do filósofo. Os Espartanos· tinham invadido a · Atica. Atenas, ameaçáda em sua existência nacional, lu tara durante um inverno inteiro e Péricles era a alma da defesa�· Naquele ano sombrio, houve uma cerimônia im ponente no Cerâmico. Os ataúdes dos guerreiros mortos pela pátria foram colocados em carros fúnebres. Convo · cou-se o povo para ficar em frente do túmulo monumen tal destinad a reunir aqueles co�pos. O mausoléu pareo
eia o símbolo magnífico e sinistro do túmulo que a Gré cia estava cavando para ela em sua luta criminosa. En tão Péricles · pronunciou . mais belo discurso que a �nti o guidade nos legou. Tucidides transcreveu-o em pl�cas de bronze. Aquela peroração brilha como um escudo no · frontão de um templo. "O túmulo dos heróis é o univer so inteiro e não se apóia em colunas ornadas de faustosas inscrições." Não respira nesta frase a consciência da Grécia e da sua imortalidade? Péricles morto, que restava da antiga Grécia, que vivia em seus homens de ação? No interior de Atenas, havia uma demagogia ululante, provocadora de discór dias. No exterior, a invasão lacedemônia iminente, a guerra no mar e em terra. O ouro do rei da Pérsia cir culava como veneno corrutor nas mãos dos tribunos e dos magistrados. AlC'ebíades substituira Péricles, no pres tígio público. Aquele tipo de moço de uma classe privi legiada tornara-se o "homem do dia." Pplítico aventurei., ro, intrigante sedutor, sorridente, levou a pátria à sua perda. Platão observara-o bem. Mais tarde traçou-lhe com mão de mestre o perfil psicológico. Comparâ o furioso desejo de poder, na alma de Alcebíades, a um grande besouro, "em torno de quem as paixões, coroadas de flo res, perfumadas de essências, embriagadas de vinho e de todos os prazeres desenfreado�, vêm zumbir em tor no, alimentando-o, nutrindo-o, armando-o enfim com o aguilhão da ambição. Então, esse tirano da alma, escol- . tado pela demência, agita-se furioso. Se ele encontra em tprno pensamentos e sentimentos honestos, que possam fazê-lo enrubescer, ele mata-os, expulsa-os, até que tenha extirpado da alma. toda a moderação, enchendo-a com o furor que traz consigo." Durante a mocidade de Platão, portanto, foi sombno\ o céu de Atenas. Aos vinte e cinco anos, ele assistiu à\. tomada de Atenas pelos Espartanos, depois da desastrosa batalha naval de Aigos P6tamos. Depois viu . à entrada de Lisandro, na terra natal, o que significava o fim da independência ateniense. Viu a demolição das extensas muralhas, mandadas construir por Temístocles. A demo lição foi feita aos sons de música festiva. O inimigo
vencedor literalmente dançava sobre as ruínas da Pátria. Depois vieram -os trinta tiranos e suas proscrições. · Esses espetáculos entristeceram a alma do moço Pla tão; sem contudo pertur á-la. Platão. era de estatura ele b vada, tinha os ombros largos, era grave, discreto, quase sempre silencioso. Quando falava, emanava das suas pa lavras uma doçura encantadora, uma sensibilidade deli cada. Não era excessivo nas ·ações. Suas atitudes varia das fundiam-se na harmoni.a superior do seu ser. Uma graça -alada, uma modéstia natural, ocultavam a. serieda de do seu espírito. Uma ternura quase feminina escondia a firmeza do seu caráter. Nele a virtude revestia-se de sorriso e o pra zer de uma castidade .ingênua. A marca dominante e ex traordinária da· sua alma era que nela parecia haver um pacto misterioso com a Eternidade. No fundo dos seus grandes olhos, pareciam vivas as coisas eternas. Tudo mais se passáva neles como vãs aparências em um espe lho profundo. Por trás das formas visíveis, mutáveis, im perf ei_tas, do mundo e dos seres, apareciam-lhe as formas invisíveis, perfeitas, para sempre radiantes desses mes mos seres, vistas pelo espírito, e que são seus modelos eternos. Por isso, � jovem Platão, sem ter formulado sua doutrina, sem saber mesmo que seria filósofo, tinha jâ consciência da realidade divina do Ideal e da sua onipre sença. Por isso vendo as mulheres com seus m,eneios, os: carros. fúnebres, os exércitos, as festas, os - lutos, seu olhar parecia ver outras coisas e dizer: "Por que choram? Por que soltam gritos de alegria? Pensam ser e não são. Por que não posso apegar-me ao · que nasce e ao que morre? Por que só posso amar o Invisível, que não nasce nem morre nunca; mas ·que é sempre?" O Amor e a Harmonia, eis o fundo da alma de Platão. Mas, que Amor, que Harmonia.! O Atnor da Be- · 1eza eterna e a. Har,monia que envolve o universo. Quan to mais a alma é grande e profunda, mais de.mora a conhecer-se a si mesma. Seu primeiro entusiasmo diri giu-se às artes. Ele era de orig�m nobre, pois o seu pai pretendia descender do. rei Codro, sua mãe de Sólon. Sua mocidade foi a de um ateniense rico rodeado de todos os
luxos, de· todas as seduções das épocas de decadência. ·
os seus campa- (J endo co1no aos gozos, viv Entregou-se este- � rodeado e f nheiros gozando de uma bela herança, , N descreveu muito jado por numerosos amigos. o Fedro, bem a paixão do amor, sem ter sentido os êxtases e as decepções .cruéis. Dele resta apenas um verso, tão apai xonado como os de Safo, tão cheio de luz como · uma noite ,es se trelada "Eu quisera r o no 1nar das Cíclades: r1 céu, pa n ra ser Buscando todo olhos para te olhar." belo pintura, � , em todas cultivou a as suas modalidades,
a úsica us m , e a poes i er aos se i ia. Esta parec a correspond anseios. ara Platã facilidade p o dispunha de maravilhosa to os os a d gêneros. Sent o a poesi ia c m igual intensidade '(
amorosa e J ditirâmbica, a rópria a epopéia, a tragédia, p comédia com o seu mais fino sal ático. Que lhe faltava · para ser u m outro Sófocles a imi e evitar a decadênci nente do teatr ateniense? tentou-o e os o Essa ambição a igos m animaram -no. Aos vinte e sete tinha já anos, �· comp osto várias tragédias gi e apresentou um · dos ori -_;\
nais em concurso. Nessa época, ele encontrou-se com ·
Sócrates que discutia com os rapazes nos jardins da;·
Academia. Aquele filósofo falava do Justo e do Injusto,
do Belo, do Bom, do Verdadeiro. O poeta aproximou-s · e do filósofo, ouviuo e voltou nos dias subseqüentes. Depois de . algumas semanas, ocorrera uma revolu- , ção completa em seu espírito. Não se reconhecia mais o rapaz feliz, o poeta cheio de ilusões. Tinha mudado o curso dos seus pensamentos. Dentro dele nascera outro Platão, ao ouvir a palavra daquele que se denominava "parteiro de· almas." Que houve? Aquele raciocinador de face de sátiro afastara do luxo, dos prazeres, da poesia,
do belo, o genial Platão, convertendo-o à grande renún cia da sabedoria. Sócrates er um· homem muito simples, mas um,\ a grande original. Filho de um escültor, chegou a - 1\ escul pir um grupo das três Graças, quando adolescente. De- ' \ pois deixou o· cinzel, dizend que preferia esculpir sua o �lma. Desde então, consagrou-se à pesquisa da sabedo ria. Viam-no nos ginásios, nas praças públicas, nos tea tros, conversando com os moços, os artistas, os filósofos, perguntando a c·ada um que justificasse o que estava di zendo. Desde alguns anos, os sofistas eram muitos em Atenas. O sofista é a falsificação e a negação dos f ilô-
é falsificação do homem safos, assim como o demagogo a do sacerdote, o mago de Estado, o hipócrita é o oposto iniciado. O tipo negro a oposição infernal do vevdadeiro mais raciocinador, mais grego de sofista é mais sutil, o gênero pertença a corrosivo do que· os outros, embora Pululam nelas como os todas as s decadentes. civilizaçõe Chamem-se ateus, vermes num corpo em decomposição. todos os tempos se niilistas, pessimistas, os sofistàs de e a Alma, quer dizer a parecem. Negam sempre Deus Os do tempo de Sócrates, os Verdade e a Vida supremas. Gorgias, os Protágoras, diziam que não há os Pródicos, · diferença e o erro. Faziam questão de entre a verdade · hã provar qualquer idéia e sua oposta, afirmando que só uma justiça, a força, uma só verdade, a opinião do indivíduo. Satisfeitos deles mesmos, vivendo bem, co bravam caro as suas lições e induziam os moços ao de boche, à intriga, à tirania. Sócrates com a sua bonomia, sua doçura insinuante, aproximava-se dos sofistas como um ignorante que· pror curava instruir-se. De pergunta em pergunta, ele forçal va-os · a dizerem o contrário daquilo que tinham antes . afirmado, obrigando-os a confessarem que não sabiam aquil de qu,e e tayam falando. Depois, S crat s demons o � � � trava que eles ignoravam a causa e o princípio de tudo. \ No final, sorridente, ele agradecia-lhes por lhe terem en- \ sinado com as · suas respostas, acrescentando que saber \ que não . se sabe é o começo da verdadeira sabedoria. l Mas, Sócrates, em que é. que ele acreditava? Ele não
negava os deuses, prestando-lhes o mesmo culto· que os demais cidadãos. Dizia que era impenetrável a natureza deles. Confessava não compreender a física e a metafí sica, ensinadas nas escolas. Segundo ele, o importante é acreditar no Justo e no Verdad,eiro, aplicando-'Os na vida. Assim, a tática da educação moral muda segundo os tempos e os meios. Diante dos seus iniciados, Pitágoras trazia a moral das . alturas da cosmogonia. Em Atenas, · na praça pública, entre os Cleos e os Gorgias, Sócrates falava do sentimento inato _do Justo e do Verdadeiro, . para reconstruir o mundo e o estado sócial abalado. Mas, ambos, um na ordem descendente dos princípios, óutro . .
na ordem ascendente, afirmavam a mesma verdade. Pa ra não deixar o seu papel de vulgarizador, recusou ini ciar-se em Eleusis. Nem por isso deixava. de possuir a verdade total e suprema de que falavam os grandes Mis térios. Por que Plàtão foi irresistivelmente encantado e subjugado por esse homem? Vendo-o, compreendeu a. superioridade do Bem sobre o Belo. O Belo ·só realiza o Verdadeiro na m1ragem da Arte, ao passo que o Bem o executa no fundo das almas. Rara e poderosa fascinação" pois os sentidos não participam dela. Esse homem mos trou-lhe a inferioridade da beleza e da glória, tais como . Platão as conc,ebera até então, em fac·e da beleza e da , glória da alma em ação, atraindo outras almas à sua verdade, para sempre, ao passo que as pompas da Arte conseguem apenas espelhar um instante a verdade en ganadora sob um véu decepcionante. Essa Beleza irra diante, eterna, que é o "esplendor do Verdadeiro" ma tou a beleza mutâvel e enganadora na alma de Platão. Por isso, Platão, esquecendo e deixando tudo o que ama ra até então, dedicou-se a Sócrates, na flor da mocidade, com toda a poesia da sua alma. Grande vitória da Ver dade sobre a Beleza, que teve incalculâveis conseqüên cias para a história do espírito humano. · Enquanto isso, os amigos çle Platão vêem-no estrear na cena trâgica. Ele convidou-os para um grande almoço em sua casa e todos estranharam que ele quisesse dar �ssa festa naquela ocasião.· A praxe era dar essa festa depois da peça ter sido premiada e reapresentada. Mas, ninguém recusava o convite do rico filho-família, em sua casa onde se encontravam ·as Musas e as Graças em companhia de Eros. Desde muito tempo, a casa de Pla tão era o ponto de reuniões da mocidade elegante de Atenas. Platão gastou unia fortuna para aquele banque� te. Prepararam a mesa no jardim. Criados segurando fa chos iluminavam o local. As 'três mais belas. hetaíras de Atenas participavam do · festim. Cantaram hinos ao Amor e a Baco. Houve bailados volutuosos ao som das flautas. Afinal, pediram Platão que declamasse um dos· seus a ditirambos. E ele levantando-se, declarou: -Este é o último festim que vos ofereço. A partir de hoje, renuncio aos prazeres da existência para con- .
sagrar-me à sabedoria e a seguir os ensinamentos de Só crates. Saibam todos: renuncio até à poesia. Reconheci sua incapacidade para exprimir a verdade que estou bus cando. Não farei mais versos e vou queimar diante de vós todos, os que compus. De todos os pontos da mesa, elevou-se um brado de. espanto e de protesto. Todos estavam sentados em leitos suntuosos. Os convivas coroados de rosas, faces en rubescidas pelo vinho, trocavam ditos alegres, alguns exprimiam surpresa, outros indignação. Ouviu risos de incredulidade e de desprezo, disseram que a intenção de Platão era loucura e sacrilégio. Intimaram-no a desistir da sua int,enção. Mas ele, calmo e resoluto, afirmou: -Agradeço a todos os que participaram desta f es ta de despedida. Só manterei ao meu lado, aqueles que quiserem participar da minha nova vida. Os amigos de Sócrates serão agora os meus amigos. Estas pàlavras foram como uma geada sobre um campo de flores. Ouvindo-as, todos ficaram tristes como pessoas que assistem a um enterro. As cortesãs levanta ram-se, retiraram-se em suas liteiras, lançando um olhar de desprezo para o dono da casa. Os sofistas e os ele gantes afastaram-se, dizendo palavras ônicas e gracejos. ir -Adeus, Platão. Sê feliz! Tu voltarãs para a nossa companhia! Adeus! Dois moços sérios ficaram ao seu lado. Platão to� mou-lhes as mãos e conduziu-os para o interior da sua casa, deixando as· ânforas de vinho meio esvaziadas, ·as rosas despetaladas, as liras e flautas atiradas ao chão, entre as taças ainda cheias de vinho. No pãtio interno, eles viram, sobre um pequeno altar, uma pirâmide de rolos de papiro. Eram todas as obras poéticas de Platão. O poeta tomou um facho e tocou. fogo nos papéis com . sorriso, dizendo: "Vulcano, vem! Platão necessita um · de ti!" (*) . Quando a chama se apagou, os dois amigos sentiram lágrimas nos olhos e, silenciosamente, disseram adeus ao seu futuro mestre. Platão ficou sozinho. Não chorava. Sentiu no íntimo uma paz, uma serenidad� maravilhosa. ('*) Fragmento das obras completas de Platão com este ti• tulo: "Platão queimando suas poesias."
Pensava em Sócrates, com quem iria encoritrar-se. A alvorada jâ iluminava os terraços das casas, -as coluna tas, os frontões dos-' templos. Logo, o primeiro raio de sol faria brilhar o capacete de Minerva na ponta da ·Acrópole.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.