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Capítulo 28 de 33

A Destruição Do Templo E O Fim De Israel — parte 1 de 3

Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2

"Uma nação se levantará contra outra. Sereis entre­ gues aos governadores para serdes atormentados. Em v,erdade, vos digo que esta geração não passará sem que isso aconteça". (MATEUS, XXIV 4,34). O FIM TERRESTRE DA HUMANIDADE. Será precedido de eventos sucessivos. Esse fim é o advento do Cristo social ou do homem divino, na terra. É a organização da Verdade, da Justiça, do Amor na so­ ciedade humana, após a pacificação dos povos. !saias previra isso em uma visão magnífica que se inicia com estas alavras: "Quanto mim, vendo suas ações e seus p a pensamentos, venho para unir todas as nações, todas as línguas. Elas virão e verão minha glória". (!SAIAS, XXIV, 18-33) . Completando essa profecia, Jesus diz que será a revelação completa dos mistérios, a vinda do Es­ pírito Santo, por ele denominado o Consolador, ou Espí­ rito de Verdade. (JOÃO XXIV, 16�17) . Os apóstolos se­ rão os primeiros a receberem essa revelação. A humani­ dade recebê-la-á mais tarde, na seqüência dos tempos. Em cada indivíduo ou grupo de indivíduos, essa revela­ ção irá até o fundo. "A Filho do Homem será vinda do como um relâmpago, que sai do Oriente e vai até o Oci­ dente". (MATEUS, XXIV, 27). O JU1ZO FINAL Sign ifica o fim da evolução cósmica da humanidade ou sua entrada em um estado espiritual definitivo. O esoterismo persa denominava-o a vitória de Ormuz so­ bre Arimã. Segundo o esoterismo hindu. é a reabsorção completa da matéria no espírito, o fim de um dia de Brahma. Depois de milhares e de milhões de séculos, após séries · e mais séries de reencarnações, os indivíduos com­ ponentes da humanidade ou entrarão em um sublime es­ tado espiritual ou serão aniquilados como almas cons• cientes, pelo mal, ou seja, pelas próprias paixões, simb� lizadas no fogo do inferno ou no rilhar de dentes. Então apàrecerá no céu, o sinal do Filho do Homem sobre a ,06 reuni­ sendo e Seu anjo tocará uma trombeta, Nuvem, (MATEUS, terra. dos os Eleitos de todos os cantos da XXIV, 30,31). fi­ signi é um termo genérico, O Fi!hO do Homem s, perfeito cando a humanidade em seus representantes posi­ até a no pequeno número daqueles que se elevaram a cruz,. ção d.e cordeiro e filhos de Deus. Seu signo é o isto é, o Amor e a Vida eterna. que se tor­ -A Nuvem, é a dos Mistérios, imagem naram translúcidos. A própria verdade espiritual, o mun­ do interior, manifesta-se, instantaneamente, diretamente, que. fluídica através da matéria sutilizada, da substância os deixou um véu espesso. Os Anjos, reunindo de ser eleitos, são os espíritos glorificados, provindos da pró­ pria humanidade. A Trombeta é o verbo vivo do Espírito, mostrando as almas tais comó elas são, destruindo todas as aparêndas mentirosas da matéria. Sentindo-se às vésperas da morte, Jesus revelou aos apóstolos aqueles misterios que os fundadores de reli­ giões, na antiguidade tinham colorido de tons pessoais. Ele os resumiu em imagens ousadas e dotadas de inci­ siva energia. A imagem reveladora, o símbolo falante era a linguagem universal dos antigos iniciados. Servindo-se de símbolos, Jesus seguiu o exemplo de Moisés e dos profetas. Não sendo logo compreendida a imagem, deve ser gravada na alma dos indivíduos simples em letras flamejantes. Jesus sentia-se unido a todos os profetas, seus antecessores. Nesse sentimento de unidade, de soli­ dariedade com a verdade imutável, ele dirâ aos discipu­ los aflitos estas palavras altivas: "O céu e a terra passa­ rão, mas as minhas palavras não passarão." Assim transcorriam os dias. Movido por um desses impulsos de simpatia, característicos da sua natureza ardente impressionável, olhando para Jerusalém, para a cidade santa onde vivia uma parte da sua gente, Jesus derramou lágrimas, pressentindo a sua destruição. Quanto a ele próprio, seu fim aproximava-se, pois o Sinédrio já deliberara obre sua s morte e Judas Escario­ tes prom etera entregar o seu mestre. O que determino u essa negra traição não foi a avareza sórdida, mas a am ... bição e amor o próprio ferido. Judas, tipo do ego - lsta frio, dominado por um positivismo absoluto, incapaz do . menor idealismo, só .se fizera discípu!o do .Cristo por am­ . bição mundana. Contava com o triunfo terrestre imedia­ o do profeta e com o lucro que ele teria com isso. Nada t compreendeu da profunda frase do Cristo: "Aqueles que quiserem salvar sua vida, perdê-la-ão. Aqueles que qui­ . serem perdê-la, ganhá-la-ão". Em sua caridade sem li­ mites, Jesus adm�tira-o, esperando· mudar sua natureza. Quando Judas viu que as coisas estavam indo mal, que Jesus estava perdido, seus discípulos comprometidos, ele m,esmo frustrado em suas esperanças, sua decepção mu­ dou-se em raiva. O infeliz denunciou aquele que lhe pa­ recia um falso Messias e pelo qual ele se supunha en­ ganado. Jesus percebeu o que se passava no íntimo do . apóstolo infiel. Resolveu não mais evitar o destino. Era a véspera da ·Páscoa. Ordenou aos discípulos que prepa­ rassem a ceia na cidade, em casa de um amigo. Pres­ , sentia que. seria a sua última ceia e quis dar-lhe sole­ nidade. Chegamos ao último ato do drama messiânico. Para apreender a alma e a obra de Jesus, em sua fonte, é necessário esclarecê-la interiormente nos primeiros atos da sua vida, sua iniciação, sua carreira pública. O último ato da sua vida, o drama da paixão, foi a conseqüência lógica dos. dois anteriores. Para terminar minha tarefa, devo concentrar os raios da tradição esotérica sobre os três acontecimentos essenciais, pelos quais se findou a vida do Divino Mestre: a santa ceia, o processo do Messias, a ressurreição. Os doze, formando treze, com o mestre, reuniram­ -se em uma sala ampla de uma casa em Jerusalém . . A .s ala estava ornada de um rico tapete. Segundo o costume oriental, sentaram-se em grupos de três em quatro divãs idos, em forma · compr de triclínio, em redor da mesa. eram o cordeiro pascal, os Troux vasos cheios de vinho, . ciosa, cálice taça pre o de ouro, emprestad a o pelo ami­ onhecido. Sentado entre Pedro go desc e . João, Jesus de­ ou: clar -Muito desejei comer convosco, nesta Páscoa, pois não mais comeremos juntos, enquanto ela não se tiver realizado n reino do céu. (LUCAS XXII, 15). o Ditas estas palavras, as · fisionomias ficaram som- · . brias e o ambiente tomou-se · pesado. O discípulo amado JJOB de Jesus inclinou em silêncio a cabeça sobre o peito do mestre. Era costume dos Judeus, na refeição da Páscoa comerem s silenciosos as ervas amargas e o .assado. Jesu tomou o pão, deu graças , e partiu-o, dizendo: -Isto é meu corpo, que vos será entregue. Fazei isto em memória de mim. Depoi apresentou-lhes a taça dizendo: s -Esta é a taça da nova aliança em meu sangue, que :é derramado por vós. Foi assim a instituição da Ceia em toda a sµa sim­ plicidade. Encerra mais ensinamentos do que se supõe . .t · não somente um ato simbólico e místico, mas também a conclusão e o resumo de todo o ensino do Cristo. 1! além disso a consagração e o revigoramento de um muito antigo sfmboio de iniciação. Entre os iniciados do Egito e da Caldéia, como entre os profetas e os Essênios, o ágape fraternal marcava o primeiro grau da iniciação. A comunhão sob a espécie do pão, fruto da colheita do trigo, significava o conheci­ mento dos mistérios da vida terrestre e ao mesmo tem­ po a distribuição dos bens terrestres, por conseguinte a união perfeita dos irmãos filiados. No grau superior, a comunhão sob a espécie do vinho, o sangue da vinha iluminado de sol, significava a distribuição dos bens ce­ lestes, a participação nos mistérios espirituais e na ciên".' ·eia divina. Legando esses símbolos aos Apóstolos, Jesus am­ pliou-os. Através deles, ele estende a fraternidade e a iniciação, outrora limitada a alguns, para a humanidade inteira. Acrescenta-lhes o mais profundo mistério, a maior força: o seu sacrifício. Estabelece a cadeia de amor invisível, mas inquebrantável, entre ele e os seus. Dará à sua alma glorificada um poder divino sobre os seus corações e sobre os de todos os homens. Essa taça de verdade, vinda do fundo das idades prof éticas, esse cálice de ouro da iniciação que o velho essênio lhe pre­ senteara, chamando-o profeta, esse cálice de amor celes­ te, que os filhos de Deus lhe tinham oferecido no trans­ .porte do seu mais alto êxtase, essa taça onde ele a3ora .vê reluzindo o próprio sangue, ele a estendia aos discí­ pulos bem-amados com ternura inefável do adeus su­ .premo.

Vêem os apóstolos, compreendem-no, esse pensa­ mento redento� que envolve os mundos? Esse pensamen­ to brilha no profundo e doloroso olhar do discípulo ama­ do sobre aquele que vai trair. Não, eles não compreen­ dem. Respiram penosamente como em um sonho ruim. Uma espécie de vapor espesso e avermelhado flutua no ar, e eles perguntam de onde vem a estranha irradiação da cabeça do Cristo. Afinal Jesus diz que vai passar a noite em preces, no jardim das Oliveiras. Levanta-se e ordena-lhes: "Vamos!" Eles não duvidam · do que vai acontecer. Jesus atravessou a noite e a angústia de Getsemani. Com terrível lucidez, viu o círculo infernal que vai aper­ tá-lo. Estremeceu no terror daquela situação, na terrível espera de ser agarrado pelos inimigos. Sua alma recuou ante as torturas que o esperam. Um suor de sangue po­ rejou em sua fronte. Depois a prece deu-lhe coragem. Ouviram-_se rumores de voz€s confusas, o tinir de armas e viram-se clarões de tochas entre os troncos das oliveiras. Eram os so!dados do sinédrio. Judas que os guiava, beija o mestre a fim de que os soldados o reco­ nheçam. Jesus retribui-lhe o beijo com inefável piedade e diz-lhe:· -Amigo, que estás fazendo por aqui? O efeito daquela doçura, daquele beijo fraterno, em troca da traição, será ta naquela alma dura que, momen­ l tos depois, roído de remorso e de horror ante si mesmo, Judas irá suicidar-se. Os soldados prenderam o Rabi galileu. Depois de curta resistência, s discípulos atemo­ o rizados fugiram como um punhado de caniços levados pelo vento. Jesus readquiriu a calma. Desde aquela hora, nenhuma queixa e nenhum protesto sairam da sua boca. O sinédrio reuniu-se às pressas em sessão plenária. A meia-noite, apresentam Jesus. O tribunal quer liquidar o perigoso profeta. Estão sentados em meia-lua, os sa­ cerdotes, os sacrificadores vestidos de túnicas verme- . lhas, amarelas, ·violetas, tendo os turbantes na cabeça. No meio, em uma poltrona mais alta, estava sentado .Caifás, o grande pontífice, tendo na cabeça o migbá. Hã duas tribunas laterais, uma para o advogado da defesa, outra para o da · acusação, o advocatus Dei, o advocatus Diaboli. No centro, com sua veste branca de Essênio, im-

ei, está Jesus. Rodeiam-no oficiais de justiça, se­ passiv gurando correias e cordas, com braços nus. As teste­ munhas são de acusação. Não há uma testemunha sequer .para defesa. O acusador principal é o pontífice, o juiz supremo. O processo, dizem, é uma medida de salvação pública, contra um crime de lesa religião, mas é na reaict.o. . lidade a vingança- preventiva de um sacerdócio inqv sentindo-se am·eaçado em seu poder. Caifás levanta-se, acusando Jesus de ser um sedutor do povo, um mésit. Depõem algumas testemunhas, apa­ nhadas no meio do povo, na rua. Mas elas se contradi­ zem. Afinal, uma de!as refere-s-e a uma frase de Jesus, considerada blasfema: "Posso destruir o ten1plo e re­ construí-lo em três dias." Jesus continua calado. Pergunta-lhe o grão sacer­ dote: -Não respondes? Jesus sabe que já está condenado. Não quer falar inutilmente. Mas sua resposta não bastaria para a �oh­ denação. Para arrancar uma confissão ao acusado, , . hábil saduceu Caif ás desafia-o: -Se és o Messias, diz! Jesus observa: -Se eu dissesse, não acreditaríeis. Se eu pergun­ tar-vos, não respondereis. ás fora mal sucedid Caif o . em sua astúcia de organi­ zador do processo. Declara portanto solenemente: -Conjuro-te. por Deus vivo, que nos digas se és o Messias, o Filho de Deus! a desdizer-se ou a afir­ interpelado, intimado Assim mais alto representante da perante o mar sua missão, hesita mais. Responde, tran- Israel, Jesus não religião de quilo: -Tu o disseste. Mas declaro que desde agora vereis o filho de Deus sentado à direita do Pai e vindo nas nuvens do céu! (MATEUS �VI, 64). , Falando na linguagem profética de Daniel-e do livro âs como de Enoque, o inicfado Essênio não falou a Caif indivíduo. Sabe que o Saduceu agnóstico não pode com­ preendê-lo. Fala a todos os pontífices futuros, a todos os sacerdotes na terra, e afirma: . -Quando a minha missão terminar com a minha morte, estará terminado o reino da Lei religiosa sem ex­ plicação. Os Mistérios serão revelados, o homem verá o divino através do humano. . Não terão autoridade as reli­ giões e os cultos que não puderem se demonstrar e vi­ vificar uns pelos outros. Eis, segundo o esoterismo dos prof e tas e dos Essê­ nios. o sentido do Filho sentado à direita do Pai. Assim entendida, a resposta de Jesus contém seu legado de amor e de iniciação aos Apóstolos e aas homens. Por cima da cabeça de Caifás, Jesus falou ao mun­ do. Mas o Saduceu tendo obtido o que queria, não lhe dá mais atenção. Rasgando sua veste de linho fino, ex­ clama: -E!e blasfemou! Para que testemunhas? Ouvistes a sua blasfêmia! Que vos parece? O sinédrio, num murmúrio, é unânime: "Merece a morte!" Segue-se então a injúria vil e o u!traje brÜtal dos inferiores, que o esbofeteiam e cospem-lhe no rosto, di­ zendo: "Profeta,· adivinha quem te bateu!" O drama não está ainda acabado. O sinédrio pode condenar à morte, mas a execução da sentença depende do braço secular · da autoridade romana. João narra o encontro com Pilatos, que é tão notável quanto o que houve com Caifás. O diálogo entre Cristo e Pilatos foi intercalado pelas violentas interjeições dos sacerdotes, pelos gritos da população fanatizada. Mostra-se ai o choque entre três potências: o cesarismo romano, o ju­ daísmo estreito e a religião universal do Espír�to, repre­ sentada pelo Cristo. Pilatos, indiferente àquela disputa osa, aborrecido com o caso, temendo aliás que a religi m�rte de Jesus suscitasse um levantamento popular. Cau­ teloso, interroga Jesus a quem proporciona uma escada de salvação, esperando que Jesus se aproveite da mesma: -És o rei dos Judeus? -Meu reino não estâ neste mundo. -És rei, então? -Sim. Nasci para isso. Vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Sem compreender a realeza espiritual de Jesus, como Caifâs não entendera antes o Mestre, Pilatos interroga: -Que é a Verdade?

Pilatos f z essa pergunta, � levantando os ombros, o que era um s ntoma do ceticismo da sociedade pagã, na­ ! quele t�mpo Já decadente. No entanto, ele vê no acusa­ do apenas um sonhador inocente. Declara aos sacerdotes: -Não vejo nenhuma culpa nele. Propõe soltar Jesus. Mas a populaça, insuflada pe­ los sacerdotes, grita: "Solta Barrabás!" Pilatos detestava os judeus e por isso manda açoi­ tar Jesus, supondo que isso bastará para acalmar os mais exaltados. Mas eles ficam ainda mais furiosos e gritam com raiva: "Crucifica-o!" Pilatos continua resistindo à pressão da populaça. ·Está cansado de ser cruel. Em sua vida, já viu correr· muito s�ngue, já mandou muitos revoltosos para o su­ plicio, já ouviu gemidos e maldições e não deixou de ser indiferente. Mas ele sentiu um estremeção a·o ver o so­ frimento mudo e estóico do profeta galileu, com o manto de púrpura e a coroá de espinhos. Sem· pensar no al­ cance das suas palavras ele declarou: Ecce Homo - Eis o Homem. _ Quase comovido, o duro romano está para · absolver Jesus. Os sacerdotes . do sinédrio atentos observam-no e percebem a emoção de Pilatos. Sentrm que a presa vai escapar-lhes. Então gritam todos: "Ele se dis filho de Deus!" se Ouvindo tais palavras, Pilatos atemorizou-se. Por quê? Que mal haveria nesse título para um romano in­ crédulo, que sinceramente desprezava os judeus e sua religião? Ele só acreditava na religião política de Roma e em César. Mas havia uma razão séria para aquele te­ mor. A expressão filho de Deus tinha vários significa­ dos, sendo bastante divulgada no antigo esoterismo. Ora, Pilatos, embora cético, não deixava de ser um pouco supersticioso. Em Roma, nos pequenos mistérios de Mi­ tra, ele ouvira dizer que um filho de Deus era uma es­ pécie de intérprete da divindade. Qualquer que f asse a sua crença, a sua nacionalidade, atentar contra a exis­ tência de um filho de Deus era um grande crime. Pila­ tos não acreditava nesses devaneios dos Persas. Mas sentia-se embaraçado ao ouvir aquelas palavras. Então os judeus proclamam acusação suprema: "Se _soltares a

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