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Capítulo 11 de 33
Segundo Grau — parte 1 de 17
Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2
Purificação (katharsis). Os números. A teogonia Era um belo dia, um "dia de ouro", com diziam os o antigos, aquele em que Pitágoras recebia um noviço em sua morada e solenemente o admitia no número dos seus discípulos. Depois de contatos repetidos, o noviço entra va no interior da habitação. Daí o nome de esotéricos (os de dentro) oposto ao de exotéricos (os de fora). Começava a verdadeira iniciação. A revelação consistia em uma exposição completa e racional da doutrina ocul ta, desde o início até o término da evolução universal, incluindo o destino e a finalidade suprema da Psiqué di vina. A ciência dos números era conhecida nos templos do Egito e da Ásia, sob nomes diferentes. Os algarismos, .as letras, as figuras geométricas, as figurações humanas, que tinham o valor de signos nessa 'álgebra do mundo oculto, só eram entendidos do iniciado. Este só revelava · o seu significado ao adepto, depois do juramento de silêncio. Sobre esta ciência, PITÁGORAS escreveu um livro intitulado HIEROS LOGOS (a palavra sagrada). Esse livro não chegou até nós. Mas os escritos posterio res dos pitagóricos FILOLAUS, ARQUITAS, HI.ÉRO CLES, os diálogos de PLATÃO, os tratados de ARISTÓ TELES, de PORF1RIO, de JÃMBLICO, mencionam os seus princípios. Para entender o seu significado, entre tanto, é necessário compará-los a todas as doutrinas eso téricas do Oriente. Pitágoras chamava seus discípulos de matemáticos, porque seu ensino superior começava pela doutrina dos números. Essa matemática sagrada era mais transcen dente, mais viva, do que a matemática profana, a única conhecida dos nossos sábios e filósofos. Nela, o NúME RO não se reduzia a quantidade abstrata. Era a virtude intrínseca e ativa do UNO supremo, de Deus, fonte da harmonia universal. A ciência dos números era a das for ças vivas. das facu 'dades divinas em ação, nos mundos, no homem, no macrocosmo, no microcosmo. Penetran do-as, distinguindo-as, explicando-lhes a ação, Pitágoras elaborava uma teogonia ou uma teologia racional.
Uma teologia verdadeira devia fornecer os rincí p pios de toda ciência. Só será ciência de Deus, se mostrar a unidade e o encadeamento da da natureza. s ciências Só merece. este nome, se constituir-se em órgão e síntese de todas as outras. Era essa a função que, nos templos p . egí cios, a ciência do verbo sagrado, formulada e pre cisada por Pitágoras, �ob o nome de ciência dos núme ros. Um poeta moderno pressentiu essa verdade, ao ima ginar Fausto descer até às Mães, para dar vida ao fan ta�ma de Helena. Fausto pega na chave mágica, a terra abre-se sob os seus pés, ele tonteia, mergµlhando no vazio dos espaços. Chega. ao reino das Mães, vigilantes sobre as formas originárias do grande Todo e fazem os seres sairem do molde dos arquétipos. Essas Mães são os Números de Pitágoras, as forças divinas do mundo. Para o iniciado antigo, o exercício da inteligência des pertava-se aos poucos, como um novo sentido. A revela ção interior parecia mais uma ascensão no · grande so� incandescente da Verdade, de onde, na plenitude da luz · dos seres e das formas, ele as contemplava, projetadas no turbi!hão das vidas por uma irradiação vertiginosa. A posse interna da verdade não se realizava em um só dia. Eram necessários anos de exercício, a concordân cia tão difícil da inteligência e da vontade. Antes de ma nejar a palavra criadora, faz-se indispensável soletrar o verbo sagrado, letra pC>r letra, sílaba por sílaba. Pitágo ras costumava dar esse ensinamento no templo das Mu sas. Os magistrados de Crotona tinham mandado cons trui-lo, a pedido dele e conforme suas indicações, perto da sua moradia, em um jardim fechado. Os discípulos do segunde> grau só entravam lá em companhia do mestre. O templo era circular e no seu interior viam-se as nove Musas, em mármore. No centro estava Hestia, envolta em um véu, solene e misteriosa. Com a mão esquerda protegia a chama de uma ara e com a direita apontava para o céu. Para os Gregos e Romanos, Hestia ou Vesta é a guardiã do princípio divino, presente em todas as coisas. No templo de Pitágoras, e!a simbolizava a Ciên cia divina ou .-a Teogonía. Quanto às Musas, além dos nomes tradicionais, possuiam os seguintes corresponden tes às artes sagradas de que elas eram guardiãs, e que eram os seguintes: Urânia, correspondente à astronomia 'l4 e astrologia; Polínia, relacionada com a ciência das almas na outra vida e a advinhação; Melpomene, com a más cara trágica, relativa à ciência da vida e da morte, das transformações e renascimentos. Essas três Musas superiores reunidas constituíam a cosmogonia ou física ce leste. Calíope, Clio, Euterpe, presidiam à ciência do ho mem ou psicologia com as artes correspondentes: medi cina, magia moral. O último grupo, Terpsícore, Erato, , . Tália, reunia a física terrestre, a ciência dos elementos, das pedras, das plantas, dos animais. Depois de ter conduzido seus discípulos àquele pe queno santuário, Pitágoras abria o livro do Verbo e co meçava seu ensinamento esotérico, dizendo: "As Musas são apenas as efígies terrestres · das potências divinas, cuja beleza sublime e in1aterial ides agora contemplar. Assim como elas vêem o fogo de Hestia, do qual elas emanam, que lhes dá movimento, ritmo, melodia, assim deveis mergulhar no Fogo central do universo, no Espí rito divino para expandir-vos con1 ele, em suas manifes tações visíveis". Então Pitágoras afastava os discípulos do mundo das formas e das realidades. Anulava o tempo e o espaço, levava-os com ele até a grande Mônada, na essência do Ser incriado. Pitágoras denominava o Uno primeiro composto de harmonia, o Fogo macho, que atravessa tudo, o Espírito que se move por si mesmo, o Indivisível, o grande Não Manif esto, cujo pensamento criador está manifesto nos mundos efêmeros, o único, o Eterno, o Imutável, oculto sob as coisas múltiplas que passam e mudam. · Diz o pitagórico FILOLAU: "A ,essência nela mesma foge à percepção do homem. Este somente conhece as coisas deste mundo, onde o finito combina-se com o infinito. E como pode ele conhecê-las? Há entre ele e as coisas uma harmonia, uma relação, um princípio comum. Esse prin cípio lhe é dado pelo Uno, juntamente com a sua essên cia e a sua inteligibilidade. .É a medida comum entre o objeto e o sujeito, a razão das coisas, mediante a qual a alma participa da razão última das coisas: o Um. (7) Mas
( ) Nas matemâticas transcendentais, demonstra-se, algebri camente, que zero multiplicado pelo infinito é igual a Um. Na or dem das idéias absolutas, zero significa o ser indeterminado. O
como se aproximar do Ser inapreensível? Alguém já viu o senhor do tempo, a alma dos sóis, a fonte das inteli gências? Não? Somente confundindo-se com ele é que se penetra em sua essência .. É semelhante a um fogo invisí vel, no centro do universo, com a chama ágil a circular em todos os mundos e movendo a circunferência". Ele acresce na apro ima ntava que a obra da iniciação estava x ção do grande Ser, assemelhando-se a ele, tornando-se tão perfeito quanto possível, dominando as coisas pela inteligência, tornando-se ativo· como ele e não passivo como elas. Vosso próprio ser, vossa alma não é um mi crocosmo, um pequeno universo? Mas ela está cheia de tempestades, de discórdias. Trata-se de realizar a uni dade na harmonia. Então somente, Deus descerá em vos sa consciência, então participareis do seu poder, fareis da vossa vontade de ferro a pedra do lar, o altar de Hestia, o trono de Júpiter! --�us, a substância indivisível, tem por número a Unidade, que contém o infinito, e por nome o de Pai, Criador - ou Eterno Masculino, por signo o Fogo vivo, símbolo do Espírito, essência do Todo. Eis o primeiro dos princípios. Mas as faculdades divinas são semelhantes ao ló tus místico que o iniciado egípcio, deitado em seu se pulcro, vê surgir da noite escura. A -princípio um ponto brilhante, depois aberto co1no flor, o centro incandescen te expandindo-se como rosa de luz com mil pétalas. - tágoras dizia que a grande Mônada (,-- -----p� age como Díada/ ora. Quando se manifesta, criad Deus é duplo, es sência indivisível e substância divisível, princíp io mas ativo, nimador, e princípio culino, a feminino, passivo, ou matéria plástica animada. A Díada representava portan- Infinito, o Eterno, na·· linguagem dos templos, marcava-se por um círculo ou uma serpente a morder a cauda. Isso significava o In finito movendo-se por si mesmo. · Quando o Infinito se determina
e e produz todos os números contidos em sua grande unidade � que ele governa em perfeita harmonia. Tal é o sentido transcen dente do primeiro problema da teogonia pitagórica, a razão pela qual a grande Mônada contém todas as pequenas e todos os núme ros saem da mesma unidade em movimento.
to a união do Eterno Masculino e do Eterno Feminino em Deus, as duas faculdades divinas .essenciais e correspon dentes. Orfeu exprimiu poeticamente· essa idéia no se guinte verso: Júpiter é o Esposo e a Esposa divinos Intuitivamente, todos os p0Iiteís1nos têm consciên cia desta idéia, representando a Divindade ora sob forma masculina, ora sob forma feminina. Essa Natureza viva, eterna, grande Esposa de Deus, não é somente a natu reza terrestre, mas a natureza celeste invisível aos nos sos olhos carnais, a Alma do mundo, a Luz primordial, Maia, Isis, vibrantes sob o primeiro .sopro divino, en cerrando as essências de todas as almas, os tipos espi rituais de todos os seres. É depois Demeter, a terra viva com todos os corpos que ela encerra, em que as almas vêm se encarnar. É em seguida a Mulher, companheira do Homem. Na humanidàde, a Mulher representa a Na tureza. A imagem perfeita de Deus não é só o Homem, mas o Homem e a Mulher. Daí a recíproca e invencível atração de um para o outro, a embriaguez do Amor, o obscuro . pressentimento de que o Eterno-Masculino e o Eterno-Feminino gozam de união perfeita no S·eio de Deus. Dizia Pitágoras com todos os iniciados antigos: "Honra à Mulher, que nos faz compreender a grande Mu lher, a Natureza. Que ela seja a sua imagem santificada, que ela nos auxilie a subir os degraus da escada que vai até a grande Alma do l\ilundo, que concebe, conserva e renova, até a divina. Cibele, que conduz as almas em seu manto luminoso." A Mônada representa a essência de Deus, a Díada a sua faculdade geratriz e reprodutiva. Esta gera o mun do, expansão visível de Deus, no espaço e no tempo. Ora, o mundo real é tríplice. Assim como o ho1nem compõe� -se de três elementos distintos, unidos um no outro - corpo, alma, espírito - assim o universo é dividido em três esferas cog_c_êntricas: o mundo natural, o humano e o divino. A.._Tríada'ou lei do temário é a lei constitutiva das coisas, averctadeira' chave da vida. 77: Expliquemos esta lei pela correspondência essencial do homem e do universo. Pitágoras admitia que o espí rito do home1n ou intelecto tem de Deus sua natureza imortal, invisível, absolutan1ente ativa. O espírito é aqui lo que se move por si 1nesmo. EJe chamava o corpo sua parte mortal, divisível, passiva. Segundo ele, aquilo que chan1amos alma está. streitamente unido ao espírito, mas e , formando-se de um terceiro elemento intermediário, pro- / veniente do fluido cósmico. A alma assemelha-se a um corpo etéreo que o espírito tece para si m_esmo. Sem esse corpo etéreo, o corpo material seria massa inerte e sem vida. A alma tem forma sen1elhante à do corpo que ela vivifica, sobrevivendo-lhe depois da dissoluç�o ou mor te. Segundo a expressão de Pitágoras, repetida por Pia- . tão, ela torna-se o carro sutil, que leva o espírito para as esferas divinas ou deixa-o cair nas regiões tenebrosas da matéria dependendo de ser ela boa ou má. A consti tuição e a · evolução do homern repetem-se em círculos crescentes, em toda a escala dos seres e em todas as es feras. Assim como a Psiqué humana luta entre o espírito que a atra · e o corpo que a retém, assim a humanidade i evolui entre o mundo natural e animal, onde ela mergu lha por suas raízes terrestres, e o mundo divino dos pu- . ros espíritos, onde se acha sua fonte celeste e para o qual ela trata de subir. O que se passa na humanidade ocorre em todas as terras, em todos' os sistemas solares, e1n proporções sempre diversas, em modos sempre no vos. Estendei o círculo até o infinito, e se puderdes apli cai um único conceito a todos os mundos sem limite. Que encontrareis? O pensamento criador, o fluido astral, mundos em evolução: espírito, aln1a e corpo da divinda de. Levantando véu após véu, sondando as faculdades dessa divindade, vereis a Tríada e a Díada envolvenqo-se na sombria profundidade da Mônada, como florescência de estrelas nos abismos da imensidade. Segundo esta rá pida exposição, concebe-se a . importância capital que Pitágoras atribuía à lei do ternário. Pode-se dizer que ela é a pedra angular da ciência esotérica. Tiveram cons ciência disso todos os grandes iniciadores religiosos, to dos os teósofos. Um oráculo de Zoroastro diz:
O número três reina em toda parte no universo E a mônada é _o se u princípio. O incomparável mérito de Pitágoras é ter formula
do essa lei com a clareza do gênio grego. Assim como ( ) o tern ário humano concentra-se na consciência do u e e na vontade, que reúne todas as faculdades da alma, do espírito e do corpo em sua unidade --/ viva. O ternário-:--hu mano e divino resumido na· constitui trada ) Môn'ada a � sagrada. Mas o homem só realiza sua própria un1oaâede rnaneira relativa. Sua vontade que em todo ser atua o não pode, entretanto plenamente nos , agir simultânea e seus três órgãos, ou seja, no instinto, na alma e no inte lecto. O universo e Deus só lhe aparecem, alternativa e sucessivamente, refletidos nestes três espelhos. 1 . Visto a través do instinto e d caleidoscópio dos o sentidos, Deus é múltiplo e infinito como suas manifes tações. Daí o politeísmo em que o número dos deuses não é limitado. 2. Visto através da alma racional, Deus é duplo, ou · seja, espírito e matéria. Daí o dualismo de Zoroastro, dos maniqueus e de várias outras religiões. 3. Visto através do intelecto puro, ele é tríplice, ou seja, espírito, alma e corpo, em todas as manifesta ções do universo. Daí os cultos trinitárias da índia (Brahma, Visnú, Siva), e a própria trindade do cristia nismo (Pai, Filho, Espírito Santo) . 4. Concebido pela vontade, que resume o todo, Deus é único e temos o monoteísmo hermético de Moi sés, em todo o seu rigor. Aqui não há mais personifica ção, não há mais encarnação, saímos do universo visí vel e entramos no Absoluto. O Eterno reina só no mundo reduzido a pó. A diversidade das religiões provém por tanto do fato de que o homem só realiza a . divindade através do seu próprio ser, relativo e finito, ao passo que Deus realiza a todo instante a unidade dos três mundos na harmonia do universo. ( s) Essa lei foi posteriormente apreendida por F ABRE D'OLIVET. A concepção das forças do universo a atravessarem-no por assim di.zer, de alto a baixo, não tem nenhuma relação com as especulações vãs de metafísicas medíocres, como por exemplo a tese, a antites� e a síntesf? de Hegel, simples jogos do espírito.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.