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Capítulo 23 de 33

Segundo Grau — parte 13 de 17

Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2

Viu o rude asceta, peludo, cabeludo, com uma cabe­ ça de leão visionário, num assento de madeira, sob um tabernáculo rústico, coberto de ramagens e de peles de cabras. Em torno, estavam os peões, os soldados de He­ rodes, Samaritanos, levitas de Jerusalém, Idumeus com seus rebanhos de carneiros. E ele em voz altissonante exclamava: "Arrependei-vos! Preparai os caminhos do Senhor! Aplainai as suas veredas!" Dizia que os Fariseus e Saduceus eram uma· raça de víboras. Proclamava que o machado já estava no tronco das árvores. E referia-se ao Messias, assegurando: "Eu batizo com a água. Ele batizará com o Espírito Santo". Vindo o crepúsculo, Je­ sus viu aquela gente aglon1erar-se, à margem de uma enseada do rio, mercenários de Herodes, bandidos cur­ vando o dorso para receberem a água derramada pelas n1ãos do Batista. Jesus aproximou-se. João não o conhe­ cia, mas notou a roupa de Essênio. Viu-o entrar na água, curvar-se para receber a água. Quando se levantou o neófito, encontraram-se o olhar do Galileu e o do bravio pregador. E este perguntou: "Serás o Messias?" O mis­ terioso Essênio nada respondeu. Apenas cruzou as mãos no peito e pediu a bênção do Batista. Depois ele desapa­ receu com os companheiros, por entre os caniços da mar­ gem do rio. C') Vendo-o afastar-se, o Batista sentiu ao mesmo tem­ po uma tristeza com um resquício de alegria. Que era a sua ciência e sua esperança profética ante a luz que ele percebera nos o1hos do Desconhecido? Ah, ele teria visto a alegria dos seus dias, se aquele belo galileu fosse o l'v1cssias. Mas assim ele teria de silenciar, sua missão es­ taria finda. Depois daquele dia, ele reiniciou com voz mais pro­ funda e mais comovida -a-p·regaçãu do seu tema:· "É ne- C') Segundo os ·Evangelhos, sabe-se que João Batista e­ im diatamente reconheceu Jesus como Messias e batizou-o como tal. Sobre este ponto entretanto, a narrativa é contraditória. Mais tar­ de, prisioneiro de Antipas, em Maquerus, João mandou perguntar a Jesus: "És aquele que tem de vir ou devemos esperar outro?" (MATEUS XI, 3). Isso prova que embora João estivesse des­ confiado, não estava contudo ainda convencido. Os primeiros reda­ tores dos Evangelhos er m judeus assim tinham de apresentar � � Jesus como tendo recebido sua missão e consagração de João Batista, profeta judeu popular.

cessário que eu diminua e. ele cresça." Começava a sen­ tir o cansaço e a tristeza dos velhos leões, quando se deitam em silêncio para morrer. Seria o Messias? A pergunta do Batista ecoava na alma. de Jesus. Desde a eclosão da sua consciência, ele encontrara Deus nele mesmo reino dos com a certeza do céus na bele za radiosa Essê­ das suas visões. Os sábios nios lhe tinha m revelado ciên o segredo das religiões, a ­ cia dos mist dade, érios, humani a decadência espiritual da a esperan ça de um a força salvador. Mas como obter para tirar a humanidade direto do abismo? Ora, o apelo de João Batista caía como no silêncio da sua meditação o raio d o Sinai. Seria ele o Messias? Jesus não podia responder a essa pergunta, senão recolhendo-se à profundidade do seu ser. Daí a descrição de Mateus, daquele retiro sob a forma de legenda simbó­ lica. Na vida de Jesus, a Tentação foi a grande crise, a visão soberana da verdade pela qual devem passar, infa­ livelmente, todos os profetas, todos os inicfadores reli­ giosos, antes de começarem sua obra. Acima de Engaddi onde os Essênios cultivavam o , sésamo ·e a vinha, um atalho escarpado levava a ema gruta. Os Essênios tinham preparado aquele local reti­ rado para aqueles que quisessem submeter-se à prova da solidão. Par asceta que fosse meditar, havia al­ a o guns rolos de escritos dos profetas, aromáticos fortifi­ cantes, figos secos e um fio de água. Era essa a sua ali­ mentação. Jesus dirigiu-se para lá. pensando na humanidade, Iniciou sua medltação espírito. Pesou a gravidade desfilou em seu cujo passado e com ela os magos hora. Roma predominava daquela imã de Ar e os e­ preparado o reinado prof persas tinham signo da Besta do Apocali de Satã, o pse, tas reinado o a humanidad As trevas invadiam e. O poteose do Mal. a a missão real e sacerdotal de de Israel recebera a povo Pai, do Espírito Puro, masculina do a religião representar e fazê-la triunfar. Seus outros povos ensiná-la aos para missão? Os pro­ cumprido essa sacerdotes tinham reis e históri­ das circunstâncias conscientes fetas, os únicos Israel agonizava, mamente: "Não!" cas unani afirmavam , ' cenarriscar, pela Seria conveniente asfixiada por Roma. os Fao sonhavam como ainda tésima vez, um levante,

ri seus, a fim de pela força restaurar a realeza temporal de Israel? Seria necessário declarar-se filho de Davi e proclamar como Isaias: "Na minha cólera, pisarei os povos, eu os enlouquecerei com a minha indignação, e derrubarei sua força"? Teria de apresentar-se como no­ vo Macabeu, fazer-se nomear pontífice-rei? Jesus pode­ ria tentá-lo. Vira a multidão disposta · a sublevar-se à voz de João Batista. E ele sentia-se com energia mais forte espada . Mas a violência dominaria a violência? A findaria o reinado da espada? Não seria isso proporcio­ nar mai·s vítimas às potências das trevas, que espiavam a presa na sombra? Não conviria antes tornar acessível ao povo a ver­ dade até então privilégio de alguns santuários e de al­ guns iniciados, abrir os corações de todos para que essa verdade entrasse nas inteligências, mediante a revelação interna? Pregar o reino dos céus aos humildes, substituir almas? o reino da Graça ao da Lei, regenerar as . Mas de quem seria a vitória? De Satã ou de Deus? Seria do espírito do mal, que reina com as terríveis po­ tências da terra? Seria do espírito divino, que reina com as invisíveis legiões celestes e dorme no coração do ho­ mem assim como a centelha se oculta na pedra? E qual seria a sorte do profeta que ousasse rasgar o véu do tem­ plo para mostrar o santuário vazio, desafiando ao mesmo tempo Herodes e César? Isso era necessário. A voz interior falava-lhe · como falara a Isaías: "Toma um grande volume e escreve nele com uma pena de homem!" A voz do Eterno dizla-lhe "Levanta e fala!" Tratava-se de encontrar o verbo vivo, que desloca montanhas, a fé a força que derruba forta­ lezas. s começou a orar com Jesu fervor. Então apodera­ e ele uma inquietação e ram-s d uma perturbaç ão cres­ Tinha a impressão da perda s. da ente c fel icidade e de nhar-se em · um abismo tenebroso despe . Envolve u-o uma egra. Estava essa nuvem em n cheia nuv de sombr as de cie. Distinguiam-se nela toda espé as figuras dos irmãos, mestres essênios, da mãe. _As sombra dos s gritav am-lhe: ensato, queres o impossível! Não "Ins sabes o que está te o! Desiste!" A voz in esperand terior insistia : "É neces­ sário!" Durante dias ·e noites · esteve nessa luta, ora de

joelhos, ora de pé, ora prosternado. Tinha a impressão de proximar-se de algo inominável, terrível. a Afinal, entrou em um êxtase lúcido, quando se des­ perta a parte profunda da consciência, entra em comu­ nicação com o Espírito vivo das coisas, projeta sobre a tela diáfana do sonho as imagens do passado e do futu­ ro. Desaparece o mundo exterior. Fecham-se os olhos. O Vidente contempla a .Verdade, sob a luz que inunda o seu ser e faz da sua inteligência um fogo incandescente. Roncou o trovão. A montanha tremeu até às bases. Um turbilhão de vento levou o Vidente até o pináculo do templo de Jerusalém. Telhados e minaretes reluziam no ar como uma floresta de ouro e de prata. Saíam hinos do Santo dos Santos. Subiam nuvens de incenso, provin­ das dos altares, e vinham até os pés de Jesus. Havia uma multidão em trajes festivos nos pórticos. Soavam trom­ betas. Mil vozes cantavam: "Glória ao Messias, Ao rei de Israel!" Então ele ouviu uma voz a dizer-lhe: -Serás rei, se quiseres, se estás disposto a adorar-me! E perguntou Jesus: - Quem és tu? O vento levou-o inda · a ao cimo de uma montanha. Aos seus pés, sob uma luminosidade dourada, estendiam­ -se os reinos da terra. E ele ouviu que lhe diziam de baixo: -Sou o rei dos espíritos, o Príncipe da Terra. Retrucou Jesus: -Sei quem tu és, tens muitas formas, teu nome é Satã. Mostra-te sob tua forma terrestre. E apareceu entronizado numa nuvem, a figura de um monarca coroado. Uma luminosidade amortecida cir­ cundava sua cabeça imperial. Distinguia-se a face som­ bria sobre um nimbo sangrento. O rosto era pálido, o olhar da cor do aço de um machado. E falou: curvares e eu te darei Basta te Eu sou César. - todo s esses reinos. Jesus exclamou: o: só adorarás o Está escrit trás, tentador! -Para teu Deus! Eterno, Então a visão desfez-se. 181. n Sozinho a caverna de Engaddi, Jesus perguntou: , "Por que sinal vencerei as potências da terra? Respon­ " deu-lhe uma voz do alto: "Pelo sinal do Filho do Ho­ mem!" Pediu Jesus: "Mostra-me esse sinal." Apareceu no horizonte uma constelação com quatro estrelas, for­ mando uma cruz. O galileu reconheceu o signo das anti­ gas iniciações, conhecido no Egito, conservado pelos Es­ sênios. No começo das civilizações, os filhos de Jafé tinham-no adorado como o signo do fogo terrestre e ce­ leste, o signo da Vida com todas suas alegrias, do Amor com todas as suas maravilhas. Mais tarde, os iniciados egípcios tinham visto nele o símbolo e!.: grande misté­ rio, a Trindade dominada pela Unidác .. _:, a imagem do sacrifício do Ser inefável, que se fragmenta ele mesmo para manifestar-se nos mundos. Sí?Tibolo ao mesmo tem­ po da vida, da morte, da ressurreição, estava nos hipo­ geus, nos túmulos, nos inumeráveis templos. A cruz es­ plêndida aumentava e aproximava-se, como que atraída pelo coração do Vidente. As auatr-o estrelas flamejavam como sóis de poder e de glória. Disse a voz celeste: -Eis o signo mágico da Vida e da Imortalidade. Outrora, os homens possuíram-no. Perderam-no. Queres r�stituir-lhes esse signo? E respondeu Jesus: -Quero! -Então olha! Vê o teu destino! As quatro estrelas extinguiram-se, bruscamente. Um trovão subterrâneo abalou as montanhas. Do fundo do Mar Morto, saiu uma montanha escura tendo no cimo uma cruz negra. Nela agonizava um homem pregado. O povo demoníaco cobria a montanha e urrava:· "Se é o s Messias, salva-te!" O Vidente abriu os olhos .e caiu para trás, coberto de um suor frio, pois aquele homem cruci­ ficado era ele próprio. Compreendeu. Jesus sentia ao .mesmo tempo as torturas do crucificado, os insultos dos homens e o profundo silêncio do céu. E a voz angélica se fez ouvir: "Podes aceitá-la ou recusá-la". A visão já empalidecia, quando Jesus viu ao seu lado os doentes de Siloé e mais uma multidão de almas desesperadas que, de mãos juntas, imploravam: "Sem ti, estamos perdidas! Salva-nos, tu que sabes amar."

Ele sentiu dilacerarem-se os membros e soltou um grito terrível. Ao mesmo tempo, desapareceram a montanha negra e a cruz. E o Vidente foi inundado de uma luz suave, de uma felicidade divina. Ainda uma vez ouviu-se, uma voz que descia das alturas do espaço azul: "Satã não é mais senhor! A Morte está vencida. Glória ao Filho do Homem! Glória ao Filho de Deus!" Quando Jesus despertou daquela visão, nada muda­ ra em torno dele. O sol matutino dourava as paredes da gruta de Engaddi. Os seus pés doridos estavam molha­ dos de orvalho e do Mar Morto levantavam-se neblinas. Mas ele não era mais o mesmo. No abismo insondável da sua consciência, ocorrera algo definitivo. Ele resolve­ ra o enigma da sua vida. Conquistara a paz e estava de posse da grande certeza. Do esfacelamento do seu ser, que ele esmagara aos pés, atirando-o no abismo, surgira uma nova consciência radiosa. Ele sabia que se tornara Messias por urri ato irrevogável da sua vontade. Desceu para a aldeia dos Essênios. Soube que João , Batista fora preso por Antipas e encarcerado na. fartaleza de Makerute. Em vez de intimidar-se com essa no- ,,.. / 1 "\

tícia, viu que os tempos estavam maduros e que ele por '- sua vez tinha de agir. Avisou aos Essênios que ele iria pregar na Galiléia o "Evangelho do reino dos céus". Isso queria dizer colocar os grandes Mistérios- -ao alcance do simples, traduzir-lhes a doutrina dos Iniciados. Nunca s vira tamanha audácia, desde os tempos do Sáquia Muni o último Buda, que movido por imensa piedade, fizer idêntica pregação às margens do Ganges. A mesma COIAf paixão sublime pela humanidade animava Jesus. Ele acrescentava-lhe uma luz interior, uma potência de amor, uma grandeza de fé, uma energia de ação que eram ex­ clusivamente suas. Do fundo da morte, que ele sondara e provara de antemão; ele trazia aos seus irmãos a esperança e a vida.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.