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Capítulo 10 de 33

Primeiro Grau

Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2

O Noviciado e a Vida Pltagórica Somente então começava o noviciado, den0minado preparação (paraskéie), que se prolongava pelo menos durante dois anos indo às vezes até às cinco. Os noviços ou ouvintes (akusikoi) eram submetidos à absoluta re­ gra do silêncio, durante as lições. Não tinham o direito de apresentar qualquer objeção ao mestre, nem de dis­ cutir o ensino. Deviam receber a lição em silêncio, com respeito, e depois meditarem. Para fazê-los aceitar essa regra, mostravam-lhes uma estátua feminina envolta em longo véu, com um dedo nos lábios, denominada a Musa do silêncio. Pitágoras não acreditava que a mocidade fosse ca­ paz de compreender a origem e o fim das coisas. Ele pensava que exercitá-la na dialética e no raciocínio, an­ tes de lhe ter apresentado o sentido da verdade, con­ corria para formar crânios vazios e sofistas pretensio­ sos. Ele queria desenvolver antes do mais em seus alu­ nos, a faculdade superior e primordial no homem: a intuição. E para isso não ensinava coisas misteriosas e difíceis. Falava dos sentimentos naturais, dos primeiros deveres do homem ao entrar na existência, mostrando a sua relação com as leis universais. Segundo ele, "nada há de mais venerável_ do que a qualidade de pai. Home­ ro denominou Júpiter o rei dos deuses, mas para mos­ trar toda a sua grandeza generosa e benfeitora. Assim como Cibele celeste produz os astros, Demeter elabora os frutos e as flores da terra, assim a mãe nutre o filho. O filho portanto deve honrar ao pai e à mãe como os representantes, as efígies terrestres daquelas grandes di­ vindades. Mostrava que o amor à pátria vem do amor que se teve à mãe, durante a infância. Os pais não nos são dados por acaso, como supõe a gente vulgar, mas por uma ordem antecedente e superior, chamada fortuna ou necessidade. Os noviços reuniam-se dois a dois, segundo suas afinidades. O mais jovem devia procurar no mais velho as virtudes que ele desejava ter e ambos estimularem-se

a uma vida melhor. Dizia o mestre: "o amigo é um outro eu-mesmo. Deve-se honrá-lo como a um deus." A ordem pitagórica impunha ao noviço ouvinte submissão abso­ luta aos mestres, mas deixava-lhe plena liberdade quanto à amizade. O ensino moral preparava o ensino filosófico. As relações dos deveres sociais é as harmonias do cos­ mos permitiam pressentir a lei das analogi.as e das con­ cordâncias universais. Nessa lei reside o princípio dos Mistérios, da doutrina oculta e de toda filosofia. O espí­ rito do discípulo preparava-se à consideração de uma or­ dem invisível implícita na realidade visível. Máximas gerais, prescrições sucintas, abriam prespectivas para es­ se s mundo superior. De manhã até a noite, os Verso Aureos ecoavam nos ouvidos do discípulo com os acen­ tos da lira:.: D:í aos deuses imortais o culto sagrado, E conserva a tua fé. O comentário a essa máxima mostrava que os deu­ ses. diversos na aparência, eram nô fundo os mesmos, entre todos os povos, pois correspondiam às mesmas forças intelectuais e anímicas, atuantes em todo o uni­ verso. E a lira de ouro continuava os seus graves ensi­ namentos: Reverencia a memória Do s heróis benfeitores, dos espíritos semi-deuses Por trás desses versos, o noviço via como que atra­ vés de um véu, a divina Psiqué, a alma humana. No cul­ to aos heróis e aos semi-deuses, o iniciado contemplava a doutrina da vida futura e o mistério da evolução uni­ versal. Não se revelava esse grand� segredo ao noviço, mas preparavam-no para sua compreensão, ensinando-lhe µma hierarquia_ ele seres superiores à humanidade, os chàinãdos -heróis ou semi-deuses, �guias e protetores da humanidade, e seus intermediários com a divindade, da qual pode o hom·em aproximar:.se gradativamente, me­ diante a prática das virtudes heróicas e divinas. "Mas, como comunicar com esses gênios inv.isíveis? De onde vem a a�ma? Para onde vai? Por que o sombrio mistério da morte?" O noviço não ousava formular essas ques­ tões, mas de algum modo não deixavam os mestres de sugeri-las, referindo-se aos lutadores na terra, às e tá­ � tuas nos templos, às almas glorificadas no céu "na cida­ dela flamínea dos deuses", onde Hércules chegara. s Segundo os mistérios antigos, todos os deus \& � uniam-se em um Deus único e supremo. Essa revelaçao entendida em todas as suas conseqüências, tornava-se a chave do cosmos. Por isso, ela era reservada para a ini­ ciação propriamente dita. O noviço de nada sabia. Fala­ vam-lhe a respeito, através do que denominavam potên­ cias da Música e do Número. . o mestre que os Ensinava · números contêm o segredo das coisas, sendo Deus a har­ monia universal. Os sete modos sagrados. construídos sobre as sete notas do heptacórdio, correspondem às sete cores da luz, aos sete planetas, aos sete modos da · existência, reproduzidos em todas as esferas da vid?. material e espiritual, desde a menor até a maior. As me­ lodias desses modos, sapientemente infundidas, deviam dar harmonia à a!ma para ela vibrar ao sopro da verdade. A essa purificação da alma correspondia, necessa­ riamente, a do corpo, que se obtinha com a higiene e a ,Y . severa disciplina dos costumes. Mas o ideal eia vida pita­ górica nada tinha da vida ascética, pois o casamento era considerado santo. Recomendava-se a castidade aos no­ viços e a moderação aos iniciados como força e perf ei­ ção. "Não cedas à volúpia, senão quando consentires Em ser inferior a ti mesmo." A volúpia era comparada "ao canto das sereias, que, quando alguém se aproxima delas, desaparecem, deixando onde estavam apenas ossos que­ brados, carnes sangrentas, sobre um recife roído pelas ondas, ao passo que a· verdadeira alegria é semelhante ao concerto das Musas, que deixa na alma uma celeste harmonia." Pitágoras acreditava nas virtudes da mulher iniciada, mas desconfiava muito da mulher natural. Um discípulo perguntou quando lhe seria permitido ter rela­ ções com uma mulher. Ele respondeu-lhe ironicamente· "Quando estiveres cansado do teu descan'so." tagórico ordenava-se da seguinte : O dia pi maneira à saída do sol, os jovens pitagóricos cantavam um hino a Apolo, executando um bailado de cunho másculo e

sagrado. Depois das abluções regulamentares, iam ao templo, em sil�ncio. No bosque sagrado, agrupavam-se em torno do mestre ou dos seus intérpretes e prosseguia a lição, à sombra das árvores ou dos pórticos. Ao meio­ -dia, dirigia-se uma pr.ece aos heróis, aos gênios benevo­ lentes. A tradição esotérica supunha que os bons espíri­ tos preferem aproximar-se da terra, sob a irradiação so­ lar, ao passo que os maus espíritos espalham-se na atmosfera, quando vcn1 a noite. A frugal refeição do meio-dia compunha-se, geralmente, de pão, mel e azei­ tonas. A tarde era empregada em exercícios ginásticos, depois ao estudo, à meditação e a um trabalho mental sobre a lição da manhã. Depois do ocaso, fazia-se uma prece co!etiva, cantava-s um hino aos deuses cosmogô­ e nicos, a Júpiter celeste, a Minerva Providência, a Diana protetora dos mortos. Durante esse tempo, o estirax, o maná ou o incenso queimavam sobre a ara, ao ar livre. O dia termina.va pela refeição da noite, depois da qual o noviço mais novo fazia uma leitura comentada pelo mais antigo. Assim decorria o dia pitagórico. O ano era progra­ mado pelas grandes festas astronômicas. A volta de Apo­ lo hiperbóreo e a celebração dos mistérios de Ceres reu­ niam os noviços e os iniciados de todos os graus, homens e mulheres. Moças tocando liras de marfim, mulheres casadas em peplos púrpura ou açafrão executavam co­ ros alternados, acompanhados de cantos. No meio dessas grandes festas, o noviço tinha como que um pressenti­ mento das forças ocultas, de todas as leis poderosas do universo animado, do céu profundo e transparente. Os casamentos, o ritos fúnebres tinham um caráter mais s íntimo, porém não menos solene. Havia uma cerimônia impressionante. Quando um noviço saía voluntariamente do instituto, para voltar à vida vu!gar, ou quando algum traía um segredo da doutrina, o que aconteceu somente uma vez, os iniciados erguiam-lhe um túmulo, no recinto sagrado como se ele tivesse morrido. O mestre dizia: está mais morto do que os mortos, poi "Ele s voltou à vida má; seu corpo movimenta-se entre os homens, mas a sua alma está morta. Choremos por ela." Esse túmulo erguido a um vivo perseguia-o como seu próprio fantas­ ma e como um sinistro agouro.

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