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Capítulo 26 de 33

Segundo Grau — parte 16 de 17

Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2

chef.es do partido democrâtico, � tinham o povo em suas mãos. / Ao contrário, ol_Saduceus/ epresentavam o partido sacerdotal e aristocrático. Compunha-se esse par­ tido de famílias que pretendiam exercer o sacerdócio por direito hereditário, desde o tempo de Davi. Conservado­ res ultramontanos, rejeitavam a tradição oral, admitin­ do apenas a letra da lei. Negavam a alma e a vida futura. Zombavam das práticas dos Fariseus e das . suas crenças extravagantes. Para eles, a religião estava somente nas cerimônias sacerdotais. Destes eram os Selêucidas, que · usufruíam do pontificado. Entendiam-se bem com os pa­ gãos, impregnando-se da .sofística dos gregos e do epi­ curismo elegante. Sob os :Macabeus, os Fariseus tinham-nos afastado do pontificado. Mas com Herodes e· os Romanos) eles tinham retomado suas posições. Eram duros, tenazes, gostavam da boa vida e só tinham uma fé: a da sua superioridade. Tinhan1 só uma idéia: manter em suas mãos o poder que usufrúiam por tradição. Que podia ver nessa religião Jesus, o iniciado? Ele, herdeiro dos prof e tas, o vidente de Engaddi, buscava na · ordem social a imagem da ordem divina, onde a justiça reina na vida, a ciência une�se à justiça, e o amor e a sabedoria preponderam sobre todas. No templo, em vez de ciência suprema e de inicia­ ção, predominava, entretanto, a ignorância materialista e agnóstica, manejando a religião como um instrumento do poder; a impostura sacerdotal. Nas escolas, nas sina­ gogas, em vez do pão de vida, do orvalho celeste nos corações, havia a moral interesseira com a devoção for­ malista, isto é, a hipocrisia. Muito longe, acima de tudo, entronizado em um nimbo, César todo poderoso, apoteo­ se do mal, deificação da matéria. César, único deus no mundo daquela época, único senhor dos Saduceus e dos Fariseus, quer eles quisessem ou n·ão. 'Jesus, tomando ao esoterism·o persa uma idéia, como outros profetas, cometera o erro de .chamar aquele reino, de reino de Satã, ou de Arimã, isto é, o domínio da matéria sobre o espírito.· Como todos os grandes ref armadores ele atacava não os homens,· que por exceção poderiam ser excelen­ tes, mas as doutrinas, - as instituições que são os moldes da maioria. Era necessário lançar o desafio, declarar a guerra aos poderosos do dia. Travou-se a luta nas sinagogas da _Galiléia, para con­ tinuar sob os pórticos do templo de Jerusalém. Aí Jesus permaneceu durante dias, pregando e enfrentando os seus adversários. Nisto, como em toda a sua carreira, Jesus agiu com um misto de prudência e de audãcia, de reser­ va meditativa e de ação impetuosa, característica da sua natureza maravilhosamente equilibrada. Não tomou a ofensiva contra os adversãrios. Esperou que eles atacas­ sem para lhes dar resposta. Esta n1.o tardou. Os Fariseus já o invejavam por causa das curas. Lo­ go viram nele um inimigo perigoso. Aproximaram-se dele com urbanidade irônica, malevolência astuciosa, disfar­ çada sob uma amabilidade hipócrita como era costume deles. Como sábios doutores, como homens importantes, investidos de autoridade, perguntaram-lhe porque ele ti­ nha relações com homens do povo e de mã vida. Por que os seus discípulos ousavam apanhar espigas de trigo, nos sábados? Eram graves violações a prescrições da lei. Jesus respondeu-lhes com brandura. Experimentou com eles sua palavra de amor. Falou-lhes do amor de Deus, que se satisfaz mais com um pecador arr.ependido do que com alguns justos. Contou-lhes a parábola da ovelha perdida e do filho pródigo. Confundidos, eles calaram-se. Mas depois de nova combinação, voltaram à carga. Cen­ suraram-no pela cura de doentes, nos sábados. Então Je­ sus lhes disse: -Hipócritas! Nos sábados, não tirais a corda do pescoço dos vossos bois para levá-los ao bebedouro? Não foi nesse dia que a filha de Abraão livrou-se das cadeias de Satã? Não sabendo mais o que haveriam de dizer, os fari­ seus acusaram-no de expulsar os demônios em nome de Belzebu. Jesus, com graça e profundeza, respondeu-lhes que o demônio não se expulsa a si mesmo. Acrescentou que será perdoado o pecado contra o Filho do Homem, mas não o cometido contra o Espírito Santo. Queria as­ sim dizer que ele não dava importância às injúrias à · sua pessoa, mas sim à negação do Bem e da Verdade, por ser a perversidade intelectual o vício supr,emo, o mal ir­ remediável. Chamavam-no: "Blasfemador!" El'e respon-

dia: "Hipócritas!" "Preposto de Belzebu!" Ele retrucava: "Raça de víboras!" Desde então a luta foi se envene­ nando, aumentando sempre. Jesus desenvolveu uma dialética cerrada, incisiva. Sua palavra era como um chicote,· feria como um dardo. Ele mudou de tática. Em vez de defender-se, atacava e respondia às acusações com outras acusações mai for­ s tes, sem piedades para com o vício radical, a hipocrisia. -Por que desrespeitais a lei de Deus, com base em vossa tradição? Deus ordenou: Honra teu pai e tua mãe. Dispensais de honrar os pais, quando o· dinheiro aflui pa­ ra o templo. Vós só servis Isaías com os lábios. Sois de­ votos sem coração . . Jesus mantinha-se sempre calmo, mas crescia, exal­ tava-se na· luta. Quanto mais o atacavam, mais ele afir .. mava er o Messias. Já ameaçava o templo, predizia des­ s graças para Israel, apelava para os pagãos, dizia que o Senhor enviaria outros obreiros para a vinha. Então os Fariseus de Jerusalém impressionaram-se. Vendo que não podiam fechar-lhe a boca, nem retrucar-lhe, mudaram de tática. Planejaram uma armadilha. Enviaram-lhe pessoas que o forçassem a dizer uma heresia. Assim o sinédrio poderia prendê-lo como blasfemador, segundo a lei de Moisés, ou condená-lo como rebelde ao governo romano. Daí as perguntas· insidiosas, uma -sobre a mulher adúl­ tera. outra sobre o dinheiro de César. Percebendo as in­ tenções dos seus inimigos, Jesus desarmou-os, respon­ dendo como profunda psicólogo e hábil estrategista. Vendo que não podiam comprometê-lo, os Fariseus tentaram intimidá-lo. Muita gente, instigada por eles, afastava-s e de Jesus, pois viam que ele não restaurava o reino de Israel. Em toda · a parte, em qualquer aldeia, ele ençontrava rostos que não mereciam confiança, espiões para o vigiarem, emissârios pérfidos· para desencorajá-lo. Alguns disseram-lhe: "Vai �mbora... Herodes (Antipas) quer te matar!" Sua resposta foi altiva: "Diz a essa ra­ posa. que nenhum profeta morre fora de Jerusalém ... Entretanto, teve de atravessar várias vezes o mar de Tiberíades, refugiando-se na outra margem, para fugir às emboscadas. Não se sentia · seguro mais em parte nenhu­ orreu andou ma. Nesse ínterim, m João Batista. Antipas m cortar-lhe a cabeça, �a fortaleza de Maquerus. Dizem que

ao ver a cabeça do seu irmão Asdrúbal, morto Aníbal, pelos romanos, declarou: "Agora, estou vendo o destino de Cartago." Na morte do seu precursor, Jesus podia .. Aliás, não podia 9uvidar antever o seu próprio destino disso, depois da visãô de Engaddi. A notícia lhe foi dada pelo contristados do pregador. Jesus sentiu s discípulos isso como um pressentimento fúnebre. Eles não o re- . conheceram e fizeram com ele o que quiseram. Assim, o · Filho do Homem sofrera por eles. Os doze inquietavam-se. Jesus hesitava. Ele não que­ ria ser preso e sim oferecer-se depois de finda a sua missão, acabar como profeta, na hora escolhida por ele mesmo. Jesus mais uma vez resolveu fugir com os seus. Chegou ao alto de uma montanha com os doze. Voltou­ -se para ainda uma vez ver o lago amado, em cujas margens ele pretendera fazer surgir a alvorada do reino dos céus. Viu as aldeias onde semeara a palavra de vida e que agora o repeliam. Teve o pressentimento do futu­ ro. Vendo aque!as terras, transformadas em deserto pela mão vingadora de Ismael, elé não conteve palavras amar­ gas e melancólicas: -Desgraçada sejas Cafarnaum! Desgraçada sejas, Corazim! Desgraçada sejas, Betsaida! Depois,. dirigindo-se para as terras pagãs, em com­ · panhia dos apóstolos, tomou o caminho que sobe o vale do Jordão, de Gadara à Cesaréia de Felipe. Foi triste e onga jornada do bando fugitivo, através dos caniços l a e do pântanos do alto Jordão, ob o sol. ardente da Sí­ s s ria. A noite, acolhiam-se nas tendas . dos vaqueiros de búfalos, com os Essênios em aldeias, naquele país dis­ tante. Os discípulos desanimados baixavam a cabeça. Ele refletia na impossibilidade ·de fazer triunfar sua doutrina. Pensava nas artimanhas dos adversários, na sua f amílià ritúal, nos doze apóstolos, em todos aqueles espi que ti­ .. nham nutrido a grande esperança do Messias triunfante Podia abandoná-los? Não estavam convencidos da ver­ dade? Acreditariam nele e em sua doutrina? Sabiam quem ele era? Um· dia perguntou-lhes: -Que dizem os homens quem eu sou, o Filho do Homem? 19'1 Eles responderam: -Uns dizem que tu és o João Batista. Outros pen­ sam que és Jeremias ou qualquer outro profeta. -- E vós? Quem dizeis que eu sou? Então Simã·o Pedro falou: -Tu T US és o Cristo, filho do Deus vivo". (MA E , o XVI, 13-18). Na boca de Pedro e n pensamento de Jesus, essa o frase não significava como pretendeu a Igreja mais tar­ de: "Tu és a única encarnação do Ser absoluto e todo poderoso ,a segunda pessoa da Trindade," mas simples­ mente: "Tu és o eleito de Israel, anunciado pelos pro­ fetas". Na iniciação hindu, egípcia, grega, o termo Filho de Deus significava uma consciência identificada com Q verdade divina, uma vontade capaz de manifestá-la. Se­ gundo os prof e tas, esse Messias devia ser a maior dessas manifestações. Seria o Filho do Homem, isto é, o Eleito da Humanidade terrestre. O Filho de Deus, isto é, o enviado da Humanidade celeste e como tal tinha nele o Pai ou o Espírito, que por Ele reina no universo. Jesus sentiu imensa alegria ao· ouvir tais palavras proferidas pelo intérprete dos apóstolos. Sendo assim, os seus apóstolos tinham-no compreendido. Ele vibrou. O laço entre o céu e a terra seria restabelecido. Jesus dis­ se a Pedro: -Tu és feliz, Simão, filho de Jonas. Nem a carne nem o �angue te revelaram isso e sim meu Pai que está nos céus. Jesus dã a entender que considera Pedro iniciado, sob o mesmo título que ele, Jesus. Isso pela visão in­ terior e profunda da verdade. Eis a verdadeira, a única revelação: " pedra sobre a qual o Cristo quer construir A sua Igreja e contra a qual as portas do inferno não pre­ valecerão". Jesus somente conta com o apóstolo Pedro enquanto . este entender isso. Um instante depois, Pedro voltava a ser o homem natural, tímido, limitado, e :o mestre trata-o de outro modo. Jesus disse que ia ser con­ dena.do à morte eni _Jerusalém. Pedro protestou. -Deus não permita. Senhor, isso não acontecerá�

Nessa manifestação de amizade, Jesus viu uma ten­ tação e exclamou: -Afasta-te, Satanás! És escandaloso! Não entendes das coisas de Deus. Só percebes as que são dos homens. E com um gesto imperioso · ordenou: -Para a frente! Vamos atravessar o deserto! Intimidados por aquela voz severa, aquele olhar imperioso, recomeçaram a caminhada pelas colinas pedre­ gosas da Gaulonítida. Tinham chegado às portas de Cesaréia. A cidade tornara -se pagã desde Antíoco o Grande. Estava . num oásis verdejante, nas nascentes do Jordão, ao pé do cimo nevado do Hermon. Jesus atravessou-a e foi até o lugar onde o Jordão desaparece em uma caverna na montanha. Havia ali um pequeno templo dedicado a Pã e na gruta viam-se colunas, estátuas de ninfas e divindades pagãs. Os judeus tinham horror a essas imagens. Jesus olhou-as com um sorriso indulgente. Viu nessas efígies, sinais im­ perfeitos da beleza divina que · sua a �ma. Seu havia em coração era bastante grande, sua doutrina bastante vasta· para abraçar todos os povos e dizer a todos os cultos: ºErguei a cabeça e reconhecei que todos tendes o mes­ mo Pai!" E no entanto ele estava ali, na extrema frontei­ ra de Israel, acuado como animal selvagem, asfixiado entre dois mundos que o repeliam. Diante dele, o mundo pagão, que ainda não o compreendia. Atrás dele, o mun­ do judaico, o povo que apedrejava os seus profetas, ta­ pava os ouvidos para ficar surdo à voz do seu Messias. O bando dos Fariseus e· dos Saduceus espiava a sua pre­ sa. Então o seu pensamento retrocedeu inesperadamente. Voou do templo de Pã ao de Jerusalém. Mediu toda a distância entre o paganismo . antigo e o pensamento dos profetas. Como a âgU:a a voltar para o seu ninho, ele voou desde Cesaréia até Engaddi, onde teve a visão, ven­ do surgir do Mar Morto -a cruz sombria. Teria vindo a hora do grande sacrifício? Havia em Jesus duas consciên­ cias. Uma terrestre,· que o embalava em ilusões: quem sabe? talvez eu evite o· destino. A outra divina insistia implacável: o caminho da vitória passa pela porta da angústia. Era necessário obedecer-Ih�? Em· todos os grandes momentos da sua vida, vemos Jesus retirar-se n� montanha para orar. Jã dissera o sãbio védico: "A prece sustenta o céu e a terra, e do­ ina os deuses." Jesus conhecia essa força das forças. m Não admitia n·enhum companheiro nos retiros, quando ele descia no arcano da sua consciência. Desta vez, en­ tretanto Pedro, os dois filhos de Zebe­ , levou consigo deu, João e Tiago, para o alto de um monte, a fim de passar a noite lá. A legenda quer que tenha sido o mon­ t� Tabor. Lá ocorreu aquele evento misterioso, que os Evangelhos denominam Transfiguração. Segundo Mateus, os apóstolos viram a forma do Mestre luminosa, como diáf ana,· a face resplandecente como o sol, as vestes bri- . lhantes como a luz. depois duas figuras ao lado, que pa­ reciam ser Moisés e Elias. Quando despertaram da pros­ tração que parecia um sono e também uma vigília, vi­ ram Jesus ao lado deles, tocando-lhes o corpo para des­ pertarem. Mas não mais esqueceram o Cristo oue tinham visto naquela espécie de sonho. (MA TEUS, XVII, 1,3) • Durante aquela noite, que vira Jesus? As coisas ter­ restres apagando-se sob o fogo da prece. A ascensão de esfera em esfera nas asas do êxtase. Pareceu-lhe aos poucos que pela sua consciência profunda, ele reentrava em uma existência anterior, toda espiritual e divina. Lon­ b� dele, os sóis, os mundos, as terras, turbilhões de en­ carnações dolorosas. Numa atmosfera homogênea, uma substância fluida, uma luz inteligente. Nessa luz. legiões de seres celestes formam uma abóbada movediça, um firmamento de corpos etéreos, brancos como a neve, de onde saem amenas fulgurações. Sobre a nuvem brilhante, em que ele mesmo está ereto, seis homens de vestes sa­ cerdotais e de elevada estatura alteiam em suas mãos reunidas um cálice resplandecente. São os seis Messias que já apareceram na Terra. O sétimo é ele e aquele cálice significa o sacrifício que ele deve suportar, encar­ nando-se por sua vez. Sob a nuvem ronca um trovão. Abre-se um abismo negro: o ciclo das gerações, o precipício da vida e da morte, o inferno . terrestre. Os filhos de Deus em gesto de súplica alteiam o cálice. O céu imóvel espera. Em si­ nal de consentimento, Jesus abre os braços em forma de cruz, como se quisesse· abraçar o mundo. Então os · filhos. de· Deus se prosternam, apoiando a face no chão. Um gt'upo de anJos femininos, de .longas asas, leva· o cálice

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