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Capítulo 1 de 33

Os Grandes Iniciados — parte 1 de 9

Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 2

I nidação à Históri� Secreta das Reli­ giões Volume 2 Este segundo vólume de Os Grandes biiciados começa com Orfeu ou o des­ vendar dos Mistérios de Diônisos e as tradições órf.icas que se celebram nos santuários de Apolo no equinócio da . primavera, quando a grande sacerdoti­ sa, vestida d( Musa,· coroada de louros, com a fronte cingida pelas faixas sa­ gradas, cantava diante dos iniciados. o nascimento de Orfeu, filho. de Apolo e de uma sacerdotisa do deus. Ela invo­ cava a alma de Orfeu, e3i dos .inicia­ dos, salvador dos homens, soberano imortal e três vezes coroado, nos infer­ nos, na terra e no céu, pai da música. e da dança e primeiro inspirador da filo­ sofia grega, do panteísmo ou a adora­ ção à Natureza divinizada. A descrição feita por fidouard Schure da festa dionísica no Vale de Tempe, e a sua busca por. Eurídice que desceu aos in­ fernos, são das páginas mais belas, além da revelaçãn dos mistérios nelas· contidas, que nos .deixou· Schuré, esse herdeiro das mais antigas . associações de fraternidade branca. Em Pitágoras ( os mistérios de Del­ fos), o iniciado que, além da sua con- · . tribuição aos conhecimentO"S . da mate• mática, e de ser considerado um dos que primeiro criaram o protótipo da universidade moderna, com seus discípulos, e estabeleceram o pi-inc1p10 da evolução humana pela espiritua!idade e a cultura, foi também o grande divulga­ .dor dos princípios iniciáticos. Nessa parte, Schuré desvenda os segredos s de ·

ses princípios, desde o 1 Grau, ou Pre­ paração ( o iniciado e a vida , pitagórica

ao 2 Grau, ou Purificação ( os núme­

ros -· a teogonia), o 3 Grau, ou a Per­ feição ( cosmogonia e psicologia - a

evolução da alma,_ o 4 Grau, ou Epi­ fania ( o adepto - a mulher iniciada -o amor e o casamento). Com Platão ( os mistérios de Elêu­ sis), vamos conhecer a face mais ocul­ ta desse que é um dos maiores filósog . f os e um dos randes Iniciados que ajudaram a mais popularizar as doutri­ nas secretas. Com ele, diz Schuré, va­ mos penetrar por' um caminho novo nas avenidas do sarituário que levam ao co­ ração do templo e à contemplação do grande Arcano.· Finalmente, Schuré nos apr,esenta ou­ tra face de Cristo, o maior dos Filhos do Homem, termo genértco que signi­ fica a humanidade nos seus represen­ tantes perfeitos ou o pequeno número daqueles que se t_êm elevado até a situa­ ção de Filhos de Deus, sendo Cristo o maiot e o mais iluminado dos Filhos do Homem e o Filho de Deus que se deu a toda a humanidade. Acom-panha­ mo� a iniciação de Cristo junto à comu­ nidade dos iniciados Essênios, e passa­ mos a conhecer melhor a sua missão na terra. Os Eo1TOREs OS GRANDES INICIADOS ÉDOUARD SCHURÉ OS GRANDES . INICIADOS -Esboço da História Secreta das Religiões - ORFEU - PITAGORAS - PLATÃO - JESUS Volume 2 LIVRARIA EDITORA CATEDRA · Rio de Janeiro

Tradução e Notas de RAUL s. XAVIER Capa: LUIZ . FALCÃO Direitos para a língua portuguesa reservados à LIVRARIA EDITORA €ÁTEDRA LTDA. Rua Senador Dantas, 20 - salas 806/7 Tel.: 240-1980 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Impresso no Brasil Printed in Brazil SUMARIO XI Livro . . . . V - ORFEU - Os MISTÉRIOS DE D10N1sos . . . . . .

. . . . A Grécia pré-histórica. Aparição de Orfeu ..... ; .. , . temp . 9 O lo de Júpiter ,. ...... · ...................... :

. . . . . . . . . . . Festa dionisíaca no vale de Tempe . . . . . . . . Evocaçã 20 o A ;viorte de Orfeu ........... · . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 Livro . 33 VI - PITÁGORAS - Os MISTÉRIOS DE DELFOS . . . . . . .

A Gréda no século VI 3 Os anos de viagem . . 40 ...... '· ............. .... · ...... . ,1 . O templo de Delfos. A ciência apolínea . . . . . . . . . . . . 9 A ordem e a doutrina 61 Entre a família e a escola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Livro VII - PLATÃO - Os MISTÉRIOS DE ELEUSIS . . . . . . . . . . . . 121 . . . . . . . . . . . . . A mocidade de Platão ............ ·. . . . . 124 . . . . . '\ iniciação de Platão ............. _. . . . . . . . . . . . . 132 o� mistérios de Eleusis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139 Livro VIH - JESUS - A MISSÃO DE CRISTO ............. . 55. ... 1 A situação do mundo quando nasceu Jesus . . . . . . . . . . . . · 157 ttmpos de Jesus ............... . Os primeiros .. : . ;·. . . 165 Os Essénios. João Batista. A tentação . . . . . . . . . . . . . . . .

A vida pública de Jesus •••••••••••••••••••• 1 ••••••

Luta com os fariseus. A ·transfiguração . : . . . . . . . . . . . .

A ceia. Processo e morte. A ressurreição . . . . . . . . . . . . .

A promessa e a realização. O templo OI O OI O OI OI O O o O' 1

. .... . GLOSSÁRIO . ..... .................. . . . . . . . . . . : . .

... . . BIBLIOGRAFIA DE ÉDOUARD SCHURÉ a HISTOIRE OU LIED OU 0-lANSON í>úPULAIRE EN ALLEMAGNE, l

edição, 1868 . Nov edição. precedida .ie um estudo sobr des­ . a e o pertar da poesia popular na Franç,1, 1903 ( Liv. Perrin). -L' ALSACE ET LES PRÉTENTIONS PRUSSIENNES, 187 l ( Liv. Richard, Genebra). LI:. DRAMI: MUSICAL: I. Richard Wagner, son (]'livre et son idée. -1� edição, 1875 (Liv. Fischbacher). 2� ediçã recomposta. 1885 o (Li\'. Perrin), 3� edição. 1895 (Liv. Perrin). .6� edição, aun1entada com os Soui-enirs sur Richard Wagner (Liv. Perrin), 1910 - II Histoire du Drame Musical, 1� edição, 1876 (Liv. Fischbacher), 2� edição (Liv. Perrin), 1885. LEs 0-IANTS DE LA MoNTAGNE, poesias, 1877 ( Liv. Fischbacher). MELIDONA, romance. 1880 (Liv. Calmann-Lévy'). LA LÉGENDE DE L'ALSACE, poemas. 1884 (Liv. Charpentier). LEs GRANDs lNITIÉS, esquisse d l'Histoir secr?!te des Religions, e e 1 � edição, 1889 ( Liv. Perrin) . LEs GRANDES LÉGENDES DE FRANCE, 11:i edição. 1891 ( Liv. Perrin) . -- LA YIE MYSTIQUE, poemas, 1894 ( Liv. Perrin) . -L' ANGE ET LA SPHINGE, romance, 1897 ( Liv. Parin) . -SANCTUAIREs o'ORIENT: Egypte, Grece, Palestinc, 1 i.\ edição, 1898 ( Liv. Perrin) . -LE DoUBLE, romance, 1899 (Liv. Perrin). LE THÉATRE DE L'AME: 1� série: Les Enfams de Lucifer (drame antique) em cinco atos; La Sreu Gardierme (drame moderno), em r quatro atos, 1900 (Liv. Perrin). ·_ 2� série: La Roussalka (repre­ sentada, por Lugné Poe, no teatro de l'CEuvre, em março de 1902) Perrin). - e (Liv. L'Ange t la Sphinge, (légend t qu ) e drama i e (Liv. Perrin). RSEURS ET RÉVOLTÉS. 1 � edição, 1904 (Liv. PRÉCU Perrin). DE L'AME, 3� série: Léona d de Vinci, precedido LE THÉATRE do _ n Réve Eleusinien a Taormi a, drama em cinco atos, 1905 (Liv. Perrin). LA PRÊT�ESSE o 'I SIS, légende de Pom.péi, 1 � edição, . 1907 · ( Liv . Perrin). -FEMMES INSPIRATRICES ET PoETE� ANNONCIATEl(RS, 1909 <Liv. Per,rin). L'AME DEs TEMPS NoOVEAUX, poemas, 1909 (Liv. Perrin). - L'EvoLUTION DIVINE: Du SPHINX AU CHRIST, 1912 (Liv. · Perrin) . - Ensaio biográfico sobre Margarida Albana, in LE o C RREGE, SA VIE ET SON OEUVRE, de Marguerite Albana (1881) . -LE MYSTERE CHRÉ1IEN ET LEs MYSTERES ANTIQUES, de Rudolf Steiner. Traduzido do alemão e precedido de uma introdução. -LA DRUIDESSE, precedido de um estudo sobre o Despertar da alµ-ia céltica (1914) (Liv. Pe.rrin). -L'ALSACE FRANÇA1SE, Rêves et Combats, 1916 (Liv. Perrin). -LEs PROPHETEs DE LA RENAISSANCE. Dante, Léonard de Vinci, Raphael, Michel-Ange, le Correge, 1919 (Liv. Perrin). -L'AME CELTIQUE ET LE ÜÉNIE DE LA FRANCE A TRAVEP.S LES AGES, 1921 (Liv. Perrin).

-LÉGENDES DÜRIENT ET o'OCCIDENT, 1922 (Liv. Nilson).

- LE RÊvE D lJNE YIE, 1928 (Liv. Perrin). [Interes<;ant autobiograe • fia]. -LEs GRANDS IN1nÉs f ram traduzidos e italia por Arnaldo o m no Cervesato ( Bari, 1906); em inglês por Rothwell (Wellby, Londres): m em ale ão pela Sta. Maria de Sivers, com um prefáci do Dr. o Rudolf Steiner ( Altmann. Leipzig, 1907); em russo pela senhora Ana Kaminski; m holandês por Philophotos (A.msterdão, 1911); e em português por Domingos Guimarães, 1' edição, 1903, Pôrto Biblioteca de Educação Intelectual); 3' edição, ( 1936; uma edição revi5ta por Rodrigues de Meréje, Cultura Moderna, S. Paulo, s/d., em três volumes. Parte dos capítulos que compõem algumas de suas obras apareceram em várias revistas, sobretudo na Revue des Deux-Mondes, na L'A rt et la Vie, na Revue Bleue. Dos LEs GRANoEs INITIÉ.s A Biblioteca Vaduna/ do Rio de Janeiro possui 2 exemplares a � edição francesa (1889), 1 exemplar da 6� ediçã francesa d 1 o o de wna edição francesa de 1907. A Biblioteca Cen­ ( 1902), 1 dit B C. E. ) possui um exempla d tral de Educáção ( . r a 80' dição e francesa ( 1924, Perrin et Cie. ) . A Biblioteca do Gabinet Portu­ e guês de Leitur possui um exemplar (em 2 volumes) da 3' edição a a (sic) da tradução portuguesa de Domingo Guimarães. Aliás ess s 3' edição ( 1936) é uma· reprodução pura e simples da t t ( 1903), e t ndo sido conservada até a ortografia. Livro V ORFEU Os Mistérios de Dionisos Como elas se agitam no imenso universo, como são o impelidas em turbilhã , como se buscam, as almas inumeráveis que brotam da -grande alma do Mundo! Caem de planeta em planeta e no abismo cho­ ram a pátria · esquecida. São as tuas lágrimas, Dionisos, ó grande Espí­ rito, ó divino Libertador, recolhe as tuas filhas em teu seio de luz. Fragmento órfico Eurídice! Luz divina! - Assim exclama Orfeu mori­ bundo. Eurídice! - gemem as sete cordas da sua a o lira, quebrando-se. E sua cabeç , r lando, levada para sempr pelo rio dos tempos, clama ainda: e , Eurídice! Eurídice! Legenda de Orfeu A Grécia pré-histórica - Aparição de Orfeu Nos santuários de Apolo, onde se mantinha a tradi­ ção órfica, celebrava-se no equinócio da primavera uma festa misteriosa. Os narcisos refloresciam perto da fon­ te de Castalia, os trípodes e as. liras do templo vibravam por si mesmas e do país dos hiperbóreos voltava o deus invisível, em seu carro puxado por cisnes. E a grande sacerdotisa, em suas vestes de Musa, coroada de louros, com a fronte ornada de faixas sagra­ das, cantava somente para os iniciados o nascimento de Orfeu, filho de Apolo e de uma sacerdotisa do deus. Ela invocava a alma de Orfeu, pai dos iniciados, melodioso salvador dos homens - Orfeu soberano, mortal, três i vezes coroado nos infernos, na terra, no céu, e que an­ dava entre astros e deuses com uma estrela na fronte. O canto místico da sacerdotisa de Delfos aludia a um dos numerosos segredos guardados pelos padres de Apo­ lo, ignorados pela multidão. Foi Orfeu o gênio vivifican­ te da Grécia sagrada, aquele que despertou sua alma di­ vina. Sua lira de sete cordas envolve todo o universo. Cada uma das cordas corresponde a uma feição da alma humana, contendo a lei de uma ciência e de uma arte. Perdemos a chave da sua plena harmonia, cujos tons en­ tretanto não deixaram de vibrar aos nossos ouvidos. O impulso teúrgico e dionisíaco que Orfeu transmi­ tiu à Grécia comunicou-se a toda a Europa. N ossá época não acredita mais em beleza na vida. Se conserva uma vaga impressão -disso, algo assim como secreta e inven­ cível esperança, deve-o àquele Inspirado. Saudemos nes­ se grande iniciador da Grécia, o Ancestral da Poesia e da Música, ambas concebidas como reveladora·s da ver­ dade eterna. Mas antes de reconstituir a história de Orfeu, se­ gundo a tradição dos santuários, tracemos um esboço da situação da Grécia, quando ele apareceu.

Era no tempo de Moisés, cinco séculos antes de HOMERO, treze .séculos antes de Cristo. A f ndia já no seu Kali-Yuga, na sua idade de· trevas, apenas oferecia a sombra do seu antigo esplendor. A Assíria, pela tira­ nia de Babilônia, desencadeara no mundo o flagelo da anarquia e continuava esmagando a Asia. O Egito, muito grande pela ciência dos seus sacerdotes e seus f araós, resistia energica.mente a essa decomposição universal. Mas a sua ação não ia além do Eufrates e do Mediter­ râneo. Israel iria estabelecer no deserto o princípio do Deus másculo, da unidade divina. Entretanto, a voz de Moisés ainda não ecoara pela terra. A Grécia estava pro­ fundamente dividida pela religião e pela ciência. Aquela península montanhosa, recortada de ensea­ das, rodeada de ilhas, era habitada desde milênios por um ramo da raça branca, vizinha dos Getas, dos Citas, dos Celtas primitivos. Era uma raça. submetida a cruza­ mentos e influências de civilizações anteriores. Colônias da lndia, do Egito, da Fenícia, tinham se estabelecido em suas praias, povoando promontórios e vales com raças, costumes e múltiplas divindades. Sob as pernas do co­ losso de Rodes, colocado à entrada de seu porto; passa­ vam numerosas frotas de navios com as velas desdobra­ das. O mar das Cíclades, em · cuja superfície, nos dias claros, · o navegante poderia sempre divisar alguma ilha, era sulcado pelas proas vermelhas dos Fenícios, pelas proas negras dos piratas da Lídia. Eles transportavam todas as riquezas da Asia e da Africa: marfim, louças pintadas, panos da Síria, púrpura, pérolas, vasos de ouro e, freqüentemente, também mulheres roubadas em lito­ rais habitados por selvagens. Esse caldeamento de raças tinha· resultado em um idioma harmonioso e fácil com raízes do celta primitivo, do zenda, do sânscrito, do fenício. Nesse idioma, o vocá­ bulo Poseidon referia-se à majestade do oceano, Uranós significava a serenidade do céu. Era um idioma em que se ouviam todas as vozes da natureza, desde o gorgeio dos pássaros ao tinir das espadas e ao fragor da tem­ pestade. Era um idioma multicor como o seu mar de um azul intenso, com seus coloridos instáveis, um mar multissonante como as vagas que murmuram nos golfos

ou estrondam sobre os inúmeros recifes - polyphoisbos Thàlassa. Com aqueles mercadores ou piratas vinham, algu­ mas vezes, sacerdotes que os dirigiam e lhes davam or­ dens. Eles levavam oculto no barco a imagem de madeira de alguma divindade qualquer. Tais sacerdotes conhe .. ciam certas ciências. A divindade que eles traziam do seu templ para um país estrangeiro representava para eles o uma concepção da natureza, um conjunto de leis, uma organizaçã civil e religiosa, pois naqueles tempos toda o a vida intelectual tinha seu centro nos santuários. Em Argos, adorava-se Juno. Em Pafos e Corinto, cultuava-se a Astartéia fenícia, que se transformara em Afrodite, nascida das ondas. Na Arcádia, celebravam-se os ritos de Artemis. Uma colônia egípcia trouxera a Eleusis o culto de Isis, sob a forma de Demeter (Ceres) , mãe dos deuses. Erecteu estabelecera, entre os montes Himeto e o Pantélico, o culto de uma deusa virgem, filha do céu azul, amiga da oliveira e da sabedoria. Durante as inva­ sões, ao primeiro sinal de alarme, a população refugiava­ -se na Acrópole, comprimindo-se em volta da deusa como em torno de uma vitória viva. Sem dúvida, acima das divindades locais, · havia al­ guns deuses masculinos e cosmogônicos. Mas tinham pequena influência, sendo relegados . para as altas monta­ nhas, Pnquanto que se organizavam cortejos brilhantes em honra às divindades femininas. O deus solar, o Apolo

délfico, ( ) já . existia. Mas era ainda secundário o seu papel. Junto dos cimos nevados do IDA, nas alturas da Arcádia, sob os carvalhos de Dodona, já havia sacerdotes e de Z us, o Altíssimo. Mas, em vez do Deus . misterioso (1) Para os trácios, a poesia fora invenção de Olen. Em idioma fenício, esse nome quer dizer ser universal. Apolo tem a mesma raiz :Ap Olen ou Ap Wholen, significando Pai universal. Nos tempos primitivos, adorava-se em Delfos o ser universal sob o nome de Olen. O culto de Apolo deve-se a um sacerdote ino;. vador, sob o impulso da doutrina do Verbo, então conhecida nos ·sa tuários da 1ndia e d? . Egito. Esse reformador identificou o pai z:i . universal ( a luz h1perf1s1ca) ao sol visível. Essa doutrina não saiu do santuário. rfeu deu nova f rça ao Verbo solar de Apolo, <? ? . . reanimando-o, eletrizando-o nos m1sténos de Dionisos ( F ABRE D'OLIVET - Versos áureos de Pitágoras). e universal, o povo preferia as deusas representantes das potencialidades da natureza, sedutoras e terríveis. Os rios subterrâneos da Arcádia, as cavernas nas montanhas des­ cendo até as entranhas da terra, as erupções vulcânicas nas ilhas do mar Egeu, tinham induzido os . gregos ao culto das forças misteriosas da terra. Assim, nas alturas como nas profundezas do solo, a natureza era temida e venerada. Entretanto, como não havia centro social nem síntese religiosa, as divindades se hostilizavam impiedo­ samente. Os templos inimigos, as cidades rivais, os povos separados pelos ritos, pela ambição dos sacerdotes e dos reis, odiavan1-se, invejavam-se, combatiam-se, fazendo u1na guerra encarniçada uns aos outros. Por trás da Grécia, havia a Trácia, rude, selvagem. Rµmo ao Norte, sucediam-se as montanhas, recobertas de carvalhos gigantescos, coroadas de rochedos, nas ex­ tensas filas de cimos ondulosos e dos.: maciços alterosos. Os ventos do setentrião aravam os seus flancos e um céu muitas vezes tempestuoso varria os seus picos. Pas­ tores dos vales e guerreiros da planície pertenciam à forte raça branca, a grande reserva dos Dórios da Grécia, raça masculina por excelência, cuja beleza estava na acentuação dos traços e na decisão do caráter. Sua feal­ dade estava indicada pelo que há de horrível e -de gran­ dioso na máscara das Medusas e das antigas Górgonas. Como todos os povos antigos que receberam sua or­ ganização dos Mistérios, como o Egito, Israei, Etrúria, a Grécia teve sua geografia sagrada, onde cada província era símbolo de uma região puramente intelectual e su­

praterrestre do espírito. Por que a Trácia ( ) foi consi­ derada pelos Gregos como o país essencialmente sagra- ------ ( 2) Segundo F ABRE D'OLIVET, Trakia deriva-se do n fe ício Rakhiwa, espaço etéreo, firmamento. Para Píndaro, Ésquilo, Platão, o nome Trâcia tinha um significado simbólico e queria dizer o país da pura doutrina e da poesia sagrada. Filosoficamente, o nome também designava o conjunto das doutrinas que fazem o mundo derivar de uma inteligência divina. Historicamente, lem­ brava o país e a raça onde nasceram a doutrina e a poesia dó· ricas. Em Delfos, havia os sacerdotes trácios, guardiães da alta doutrina. O tribunal dos Anfictiões já fora protC1gido por uma guarda t ácia, uma guarda compo a de r st guerreiros iniciados. Ela foi suprimida pela tirania de Esparta e substituída por merce­ nário . s

país da luz, a verdadeira pátria das Musas? Na­ do, o quelas altas montanhas erguiam-se os mais velhos san­ tuário descido, s de Cronos, ranos. De lã tinham Zeus e U em ritmos eumólpicos, a Poesia, as Leis, as Artes sagra­ das. A prova disso são os fabulosos poetas da Trâcia. Os Tâmiris, Lino, Anfião, talvez correspondam a nomes de personagens reais. Mas, . antes de tudo, segundo a lin­ guagem dos templos, eles personificam gêneros poéticos. Cada um desses nomes consagra a vitória de uma poesia sobre a outra. Naquela época, nos templos só se escrevia história alegoricamente. O indivíduo nada valia, a doutrina sobre­ pujava tudo. Tâmiris, cego pelas Musas, cantou a guerra dos Titãs, é o prenúncio da derrota da poesia cosmogõ­ nica por metros novos. Lino, que introduziu na Grécia os melancólicos cantos asiãticos e foi morto por Hér­ cules, significa a invasão da Trãcia por uma poesia emo­ cional, lacrimosa, volutuosa, que o espírito varonil dos Dórios do Norte logo repeliu. Também essa poesia signi­ fica a vitória de um culto lunar sobre um culto solar. Pelo contrário, Anfião que, segundo a lenda alegórica, c·om seus cantos movia a pedras e erguia templos ao s som da sua lira, representa a força plástica que a doutri­ na sol�r e a poesia dórica exerceram sobre as artes e so­

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