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Capítulo 6 de 30
Parte 6 de 29
Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier
Quando apresentei o meu doente curado ao médico do Batalhão, ele contentou-se em levantar os ombros com indiferença e dizer: “Não há nada que admirar; contra todas as nossas previsões, curam-se doentes por si mesmos, sem se saber como. Estareis em erro, se pensardes que concorrestes para isso de qualquer maneira.” 3o caso – Cura de um quisto multilocular Meses depois, nos primeiros dias de julho de 1873, o Sr. L., conselheiro do Tribunal de Angers, veio procurar-me. Ouvira falar das experiências a que me entregava e vinha pedir-me opinião acerca de sua filha. O caso era bastante grave: a menina L., de trinta anos de idade, estava sofrendo dum quisto multilocular, que invadira toda a região do abdômen.
O mal, que se produzira havia já dez anos, tinha começado por uma anemia; a anemia, porém, é uma moléstia tão comum atualmente nas jovens, que não despertou imediatos cuidados. O próprio médico, sem procurar profundar as causas do deperecimento progressivo que se lhe assinalava, do enfraquecimento gradual da vista – seguindo neste ponto a deplorável rotina da escola – contentouse com indicar um regime tônico e fortificante: receitou o emprego da série banal dos pretensos reconstituintes preconizados em tais casos, como sejam a hidroterapia, a eletricidade, o óleo de fígado de bacalhau, o ferro e seus sucedâneos. Esse tratamento devia ser impotente, não há discutir-se, para sustar o desenvolvimento do germe parasitário, que as forças vitais desequilibradas favoreciam, com prejuízo do funcionamento normal da vida orgânica; os catamênios tornaram-se cada vez mais irregulares, perturbações graves sobrevieram às funções digestivas; o porte e o abdome se desenvolveram e se arredondaram como em estado de gravidez; os pais se alarmaram; os médicos, consultados de novo, declararam sumariamente a presença de um quisto, mas sem poderem concordar acerca da sua natureza.
O que houve de mais evidente é que essa senhora, extenuada e não mais podendo resistir à invasão progressiva do tumor, teve de guardar leito. Depois de seis meses no leito de dores, quase sucumbe a uma peritonite aguda, causada pelo enorme desenvolvimento do quisto; e apesar da aplicação de numerosos vesicatórios, apesar de freqüentes punções feitas no intuito de trazer os progressos do derrame seroso, as proporções do quisto iam aumentando.
O Dr. F., decano da Faculdade, tratava da doente, mas, julgando em caso tão grave não dever assumir toda a responsabilidade, havia chamado dois dos seus colegas, os mais hábeis clínicos da localidade; depois de haverem discutido, declararam desesperador o estado da doente, a inutilidade das punções, e retiraram-se sem deixar nenhuma esperança aos pais; a infeliz mãe, fulminada com esta sentença sem apelação, não podia aceitar a idéia de que tudo estava terminado e que a filha única lhe ia ser arrebatada. A Ciência não poderia enganar-se? Por que razão não apelaria da sentença que acabava de feri-la em seus mais caros afetos? Em meio da sua dor, atravessou-lhe o cérebro uma inspiração: veio-lhe a idéia de que o Magnetismo podia ainda salvar-lhe a filha.
O amor materno tem dessas presciências, que raramente enganam... O Sr. L. trazia-me a expressão da ansiedade do coração materno, lutando desesperadamente contra a fatalidade e apegandose a uma última luz de esperança. Vivamente comovido, prometi o meu concurso: só estabeleci uma condição à minha promessa; era que o Dr. F. e seus colegas fossem prevenidos da tentativa que íamos empreender, e que me exonerariam da responsabilidade, com sua presença à cabeceira da doente.
Assim procedendo, queria ser prudente e, principalmente, dar uma prova de deferência. Admirei-me muito ao saber que, longe de apreciarem o meu procedimento, os médicos acolheram com desdém o alvitre, e peremptoriamente recusaram prestar-se a uma comédia que eles consideravam, assim diziam, indigna da Ciência e dos seus representantes. Essa recusa não desanimou o Sr. L.; foi bater a todas as portas; mas nenhum dos oitenta médicos da cidade quis assistir-me. Receavam todos colocar-se em oposição aberta ao decano da Faculdade.
Foi necessário submeter-nos. Eu ignorava completamente o que se podia esperar da ação magnética num caso tão grave; mas, por humanidade, não podia resignar-me a privar aqueles infelizes pais da única satisfação que lhes restava, que era o dizerem tudo haver tentado para salvar a filha; e pois, no dia 14 de julho, comecei o tratamento, magnetizando duas vezes por dia, pela manhã e à noite. Guardando o leito havia seis meses, de tal maneira sofria a doente com a tensão abdominal a que a haviam obrigado, a fim de protegê-la de todo o contacto doloroso, sustentando-se as cobertas da cama por meio de arcos. Achava-se ela muito constipada, a ponto de já não digerir; sem apetite e sem sono, imersa num marasmo inquietador, de que nada podia arrancá-la. Logo no começo do tratamento, um fenômeno notável se produziu: formou-se um abcesso na linha branca, distante alguns centímetros do umbigo; e pela abertura desse abcesso, que por si mesmo se abriu, escoaram-se todas as matérias líquidas contidas no quisto: houve, no dia 16 de agosto, uma saída considerável de serosidades purulentas (cerca de duas grandes tigelas).
Esse escoamento continuou nos dias seguintes, em menor proporção; mas, em breve, vieram juntar-se suores profusos e abundantes, dejeções líquidas de cheiro infecto. Desde então, magnetizei todas as bebidas; a água que servia para as abluções, as cataplasmas. O ventre desinchou rapidamente, no dia 30 de agosto verificou-se uma diminuição de dezoito centímetros na cintura. Esse primeiro resultado, enchendo-nos de alegria, permitiu pressentir um êxito feliz. Efetivamente, pouco a pouco, com o apetite e o sono voltaram as forças; a Natureza expulsou, pelo exutório que se havia formado e pelas dejeções, as matérias líquidas, as peles e membranas que constituíam o tumor parasitário; este esvaziou-se progressivamente, e tão bem se deprimiu, que, no dia 6 de outubro seguinte (três meses apenas após a primeira magnetização), a doente, transportada para a sala numa poltrona, assistia a uma pequena reunião de família, que tinha por objeto festejar aquela ressurreição providencial.
Durante cerca de dois anos, o exutório que tão miraculosamente se abrira por meio do Magnetismo, continuou a supurar e só fechou quando o organismo nada mais tinha que expulsar. Hoje, passados mais de vinte anos, a menina L. goza saúde perfeita, e tem, assim como seus pais, motivos para felicitar-se por haverem recorrido, apesar das altas decisões dos médicos, a um meio que tão radicalmente a curou; quanto a mim, em presença de uma cura tão inesperada, acreditaria ainda num milagre, se não tivesse obtido depois, em condições mais ou menos idênticas, outras curas do mesmo gênero. Esta repetição de fatos não deixa dúvida alguma acerca da grande eficácia curativa das práticas magnéticas e demonstra que seria possível, em muitos casos, evitarem-se operações cirúrgicas tão perigosas e cruéis, às quais tão comumente é costume recorrer para combater afecções quísticas do útero e dos ovários. No tratamento, só fiz uso de processos muito simples: longas imposições sobre o epigástrio, passes de grandes correntes, do epigástrio à ponta dos pés. Nunca atuei diretamente sobre o cérebro, nem tampouco provoquei o sono.
Poder-se-iam multiplicar os exemplos, citar grande cópia de casos semelhantes; mas as três curas, cuja narração acabamos de fazer, bastam para estabelecer a demonstração que tínhamos em mira, a saber: que os mais simples processos magnéticos, atuando profundamente no organismo, podem vir de encontro às mais graves deformações orgânicas e às mais rebeldes, e isto sem recorrer-se ao sono provocado; por isso que, sobre tais doentes, apenas um sofreu um meio estado do sono natural. Pelo emprego dos processos hipnóticos, ter-se-ia conseguido este feliz resultado? Que poderia fazer a sugestão em sofrimentos que tão profundamente afetavam o organismo, não só sob o ponto de vista das funções, mas ainda sob o dos próprios tecidos? A alta potência das práticas mesmerianas, que despertam a vida para a realização da obra reparadora que a Natureza lhe cometeu, era a única que podia operar essas metamorfoses maravilhosas. Só a vida podia fazer tais milagres.
É a natureza que cura e não o médico, natura medicatrix; as práticas magnéticas, já o dissemos, só têm um objetivo: provocar a reação vital; a experiência aqui no-lo prova; a teoria está, portanto, de acordo com os fatos. CAPÍTULO V Das causas Definição. – Antiga doutrina médica das crises. – Dias decretórios ou críticos. – As crises sob o ponto de vista magnético.
– Crisíacos e convulsionários. – Erro acreditado, que o estado de crise é o estado habitual daqueles que se submetem ao Magnetismo. – As crises naturais são os sinais mais evidentes da reação vital. – Estado magnético e estado de crise. – Como se acalma e se sustenta uma crise.
– Inutilidade e perigos da intervenção estranha. – Exemplos. – As crises naturais provocadas pelo Magnetismo restabelecem inopinadamente a saúde. – Três observações curiosas em casos de perturbações funcionais. Qualquer tratamento magnético tende a trazer um esforço da Natureza contra a moléstia.
A ação magnética, pelo aumento de atividade que dá às funções, pela tonicidade maior que procura dar aos órgãos, contribui para dissipar as obstruções, para dissolver e evacuar os elementos que as constituíam, e concorre, assim, para o restabelecimento da harmonia e do equilíbrio em todas as partes do organismo. As evoluções vitais que provocam na economia essas transformações mais ou menos profundas é que se denominam crises. Em todos os temos a palavra crise foi tomada em acepções bem diferentes, e sua significação variou freqüentemente: uns aplicaram-na somente à solução feliz das moléstias, outros a uma solução qualquer; deram alguns o nome de crises às mudanças notáveis que se operam no curso das moléstias. Na opinião destes últimos, o esforço da Natureza se produz particularmente do primeiro ao quarto dia; depois, do sétimo ao décimo quarto. Os sintomas observados no quarto dia anunciam o que se deve dar no sétimo; os observados no undécimo e décimo sétimo indicam os acontecimentos do décimo quarto e do vigésimo.
É o que se chama dias decretórios ou críticos. Esta doutrina das crises, que data da mais remota antigüidade, tem seu lado bom; mas, como repousa em dados assaz complicados, a observação moderna ainda não a consagrou. É evidente que no curso de uma moléstia sobrevêm mudanças súbitas, que parecem ser um esforço da Natureza para expulsar o princípio mórbido; essas mudanças, que vêm mais ou menos profundamente modificar a marcha do mal, têm, não se pode duvidar, um caráter de periodicidade. Somente os prognósticos que delas se tiram é que não são de uma certeza absoluta, e não é sob esse ponto de vista que os magnetizadores consideraram as crises que se produzem no organismo. Chamaram mais especialmente crises “às mudanças notáveis que a ação do Magnetismo provoca naqueles que a ele se submetem, ou o estado diferente do estado natural em que o Magnetismo os faz entrar.” (Deleuze).
Mas, como de todas as mudanças de estado, que são a conseqüência do Magnetismo, o sonambulismo é a mais singular e a mais caracterizada, acontece que todos os que mais particularmente se ocuparam de sonambulismo acabaram dando impropriamente a esse estado especial o nome de crise, e foi assim, pela generalidade, que os sonâmbulos tornaram-se crisíacos. Essa denominação, assim restrita, que se afasta absolutamente do sentido que lhe tinham dado os médicos, tem o grave inconveniente de estabelecer uma lastimável confusão. A palavra sonambulismo, tendo-se tornado sinônima da palavra crise, e sendo o sonambulismo o estado crítico comum de qualquer magnetização, veio designar o estado de crise como sendo o estado habitual daqueles que se submetem ao Magnetismo; é neste erro de apreciação que caíram os da comissão, ao redigirem o seu relatório ao rei, em 1784. “O Magnetismo – diz o Dr. Bonnefoy, membro da Escola de Cirurgia de Lião, fazendo considerações sobre esse relatório – não é como deixam entrever os membros da comissão, a arte de excitar as convulsões; pelo contrário, acalmaas, e quando faz originar crises, é que ele desperta uma ação salutar, que cessa desde quando vencido o obstáculo.” O Dr.
Bonnefoy acrescenta que em 120 tratamentos feitos por ele, somente 6 provocaram o sonambulismo; os próprios comissionados não encontraram nenhum crisíaco entre as 37 primeiras pessoas que se submeteram ao Magnetismo. Cometeram, portanto, um erro grave e uma falta imperdoável, excitando, com suas asserções errôneas e reticências, uma injusta prevenção contra o Magnetismo. Longe de ser perigoso e funesto, como aprouve mostrá-lo, longe de perturbar as funções naturais, o magnetismo, “pelo contrário, auxilia a Natureza na realização da cura”. As crises que Mésmer produz não devem ser imputadas senão à Natureza, que tão somente atua sobre as causas da moléstia, do mesmo modo que, entregue a si mesma, triunfa do que lhe é nocivo, quer rejeitando espontaneamente, por meio das dejeções, dos vômitos e dos suores os princípio mórbidos que embaraçam o organismo, quer quebrando lentamente os obstáculos que se antepõem ao círculo vital. Toda crise deve ser, pois, considerada como o anúncio certo de um movimento de reação, e longe de sustar-se uma crise, cumpre trabalharmos por desenvolvê-la e sustentá-la.
Por mais grave que à primeira vista pareça, ela conduz seguramente à cura. Em resumo, é necessário tomar a palavra crise numa acepção mais geral do que aquela que se lhe deu, e compreender sob esta denominação todos os efeitos produzidos pela magnetização, desde o efeito mais imperceptível e mais leve, até ao mais aparente e mais profundo: choros, risos, dores, espasmos, contraturas, evacuações, suores, hemorragias, erupções, vômitos, são os diferentes graus e as diversas expressões da crise, assim como a letargia, a catalepsia, o sonambulismo e o êxtase. Confunde-se muitas vezes o estado magnético com o estado de crise. O estado magnético é o estado diferente do estado natural, no qual se acha necessariamente toda pessoa submetida à influência magnética. Não carece exprimir-se esse estado por sintomas aparentes: ele persiste desde o momento em que o doente recebe as primeiras irradiações magnéticas, até aquele em que volta à saúde.
Em uma palavra: o estado magnético é permanente e a crise é acidental; a crise é a manifestação ruidosa das migrações vitais produzidas pelo trabalho magnético. É o efeito aparente que se declara durante o estado magnético. Pode-se estar em estado magnético sem ter crises; Magnetismo, sem sintomas aparentes dá, muitas vezes, ao doente forças que ele não tinha; facilita a circulação, faz cessar as insônias e restabelece o equilíbrio que não existia antes de começar o tratamento; o doente volta insensivelmente à saúde, sem passar por nenhum abalo ou crise; entretanto, ele está no que se chama estado magnético. Sendo a crise um dos estados da marcha normal do movimento vital para o restabelecimento da saúde, cumpre acolhê-la com prazer quando ela sobrevém, e deixá-la desenvolver-se sem interrupção, por mais dolorosa que seja. Como é a melhor prova da ação eficaz do Magnetismo, o doente deve aceitá-la com resignação e coragem, e o magnetizador deve atuar com calma e sangue frio, evitando qualquer intervenção que possa embaraçar o esforço da Natureza; ambos devem ter uma confiança igual no resultado final, que só pode ser favorável.
Uma vez que a magnetização desperte dores antigas e latentes, ou excite dores novas ou mais agudas, nas regiões do corpo mais particularmente afetadas, como esses efeitos são apenas transitórios e o doente depois de havê-los sofrido experimenta melhoras sensíveis, não nos devemos alarmar com sintomas que, necessariamente, desaparecerão por si mesmos no devido tempo; simplesmente, cumpre limitar-nos, se as dores se tornarem demasiadamente intensas, a acalmá-las por meio de imposições 1 2 dispersivas ou passes calmantes de grandes correntes, sem perder de vista que estes movimentos críticos, indispensáveis à marcha do tratamento, devem antes ser sustentados em seu desenvolvimento do que sustados por uma ação inoportuna. Algumas vezes acontece (em casos muito raros, mas é bom estar prevenido) que a primeira impressão do Magnetismo produz em certos organismos perturbações profundas, tais como espasmos nervosos, movimentos convulsivos, contraturas dos membros; cumpre não nos arrecearmos, mas atuar seguidamente com palavras meigas, benévolas, ao mesmo tempo firmes e seguras; cumpre inspiremos calma e confiança ao doente, tomarlhe das mãos e fazer alguns passes longos na extensão dos membros, tocando levemente ou a distância (conforme o efeito que se alcança), e a calma acaba por chegar.
Se o efeito produzir-se muitos dias seguidos, é que o paciente é muito sensível, e então é preciso modificar os processos em razão dessa excessiva sensibilidade; contentar-nos com estabelecer a relação e magnetizar depois com grandes correntes; logo que o doente volta à calma, devemos recomeçar com os processos necessários ao tratamento, cuja ação o doente acaba pouco a pouco por suportar (Deleuze, Puységur). “As convulsões nervosas no começo de uma magnetização são tão raras – diz Deleuze –, que só as verifiquei apenas três ou quatro vezes, numa prática de trinta e cinco anos. Este incidentes não oferecem perigo algum nas mãos de pessoas judiciosas e prudentes, que só magnetizam na intenção de praticar o bem e curar; se eles tiverem, às vezes, conseqüências lastimáveis, foi isso quando se produziram no curso de experiências com o intuito de excitar a curiosidade pública, pela singularidade de certos fenômenos.
Um dia, magnetizava eu uma senhora, havia apenas alguns minutos, quando de repente ela teve movimentos convulsivos; seus membros enrijeceram, o pescoço intumesceu-se e ela dobrou a cabeça para trás, soltando gritos. Tomei-lhe os polegares, repeti-lhe várias vezes num tom imperioso: “Acalmai-vos!” Fiz passes sobre as pernas. Afastei-me, depois, para magnetizar a grandes correntes; finalmente, ensaiei, sempre a distância, passes transversais enérgicos, a fim de romper a corrente; o rosto então se transformou, mas sobreveio um acesso de riso que durou alguns minutos; depois, tudo se acalmou pouco a pouco e ela disse-me que se achava muito bem. Se eu tivesse chamado alguém para segurá-la; se eu ficasse atemorizado e não acalmasse a crise com brandura, é provável que a senhora assim magnetizada houvesse ficado enferma durante muitos dias.” (Deleuze – Inst. prát.). Em apoio do fato citado por Deleuze, eis um caso não menos interessante, de que fui testemunha: No decurso do ano de 1876, tratava eu, havia seis meses, de uma jovem afetada de moléstia interna muito grave, e que de momento lhe pusera a vida em perigo.
Essa jovem, gozando de uma sensibilidade magnética muito pronunciada, tornara-se naturalmente de uma lucidez notável no decurso do tratamento, e de antemão anunciava-me todas as crises pelas quais devia sucessivamente passar. Predisse-me afinal que, em conseqüência de vômitos, ficaria num estado próximo à loucura, durante muitos dias. Recomendou-me com instância que não me atemorizasse com esse estado passageiro, que não prevenisse a nenhum membro da sua família (ela morava em minha casa), e principalmente que não recorresse a nenhum médico, temendo que, enganando-se sobre o seu estado, ele não impedisse, por uma intervenção extemporânea, o desenvolvimento normal da crise. As coisas se deram como previra a doente. Sobrevieram vômitos, determinando uma espécie de atonia cerebral, que durou mais de 52 horas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.