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Capítulo 11 de 30

Parte 11 de 29

Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier

A alopatia exclamaria: Blasfêmia! Foi uma crise sem abalos, uma moléstia sem convalescença, e todo o cortejo exigido de operações transitórias. Porém, aos olhos dos ilustres discípulos de Hipócrates, foi isso muito simplesmente uma heresia escandalosa, um crime de lesa-princípio médico! Substituí o arsênicum pela sépia, que reservei para as crises. Recomendei as abluções frias, a fim de restituir vigor aos nervos abatidos.

Alguns dias depois, produziu-se uma segunda crise; mas, desta vez, minhas forças permitiram tolerar o Magnetismo; nova erupção, ainda mais considerável; prurido intolerável nas partes tumefactas. Durante as sessões, os choques eram tão fortes que eu afastava com violência as mãos do magnetizador; meus braços se torciam, os dedos em crispação davam estalidos, um suor frio transudava do corpo sacudido convulsivamente; lágrimas abundantes corriam-me dos olhos; meu rosto contraía-se em movimentos espasmódicos; e no meio desses sofrimentos inauditos, eu afirmava com segurança e serenidade, a cura ainda indeterminada, mas certa. Duas outras crises se sucederam do mesmo modo, sempre mais fortes, à medida que a fraqueza diminuía; crises com corrimentos fétidos, nos quais se encontravam pequenas peles delgadas, enegrecidas e destacadas do útero. O estado geral era mais satisfatório; meu olhar readquiria um pouco de vivacidade; as funções intestinais se faziam regularmente e a lucidez sonambúlica tornava-se aguda, penetrante. Descobri, então, unido às paredes do ovário esquerdo, imóvel e meio oculto por baixo da inflamação, um tumor do tamanho de uma noz, porém alongado como uma amêndoa; não me atemorizei com isso; se enxergava o mal, certamente também via a cura; entretanto, ela devia fazer-se esperar; antes que o Magnetismo atuasse de maneira enérgica e direta sobre o tumor, era necessário que o útero estivesse a pleno caminho da cura.

Disse-o e repito: zelosa dos seus meios, ambiciosa por atingir o seu fim, mas, antes de tudo, sábia e acautelada, a Natureza caminha lentamente e nunca procede como os homens, com intervalos e movimentos bruscos. Cada crise, cada dor, eram um passo para a saúde. Eu bem o compreendia. Seguia, escrupulosamente, os progressos desse mal, os quais convergiam para um só fim: a cura. Meu corpo sofria, mas a alma pairava acima da Terra, admirando e abençoando essa vontade dominadora e soberana que, com um só esforço, me adormecia num sono profundo, num repouso benéfico, permitindo-me sofrer torturas que, acordada, jamais teria podido suportar...

O quinto assalto foi terrível. Afetando todas o mesmo caráter, produzindo todas o mesmo resultado, essas crises só diferiam por uma intensidade sempre crescente. Para acalmar os ardores intoleráveis do útero, fiz que me magnetizassem meio litro d’água e pedi que pingassem nela duas gotas de arnica e três de rhus tóxico dendron. Imediatamente experimentei um grande alívio. O útero ia melhor, aquelas erupções cinco vezes repetidas tinham atenuado o tumor, poderosamente; o apetite era bom, o sono menos agitado; a vida circulava mais quente e rápida nas minhas veias regeneradas.

Um dia, após vigorosa magnetização durante a qual sofri a ponto de arrancar os cabelos e gritar de maneira áspera e selvagem; depois de insuflações quentes nos rins e de lado, ouvi um choque no corpo. Era o tumor que se despregava. Debaixo da ação calorosa do Magnetismo, senti que ele batia e se agitava. Não havia dúvida, tinha mobilidade. Não restava mais nada senão querer o resultado...

Chegou a sexta crise; meu sangue, até então água vermelha, começava a espessar-se; rhus e beladona, alternados, acabaram por dar-lhe uma cor natural, ao mesmo tempo em que o Magnetismo fortificava-o, apurava-o; as regras apareciam, então, em épocas fixas; o que havia dez anos não acontecia: a Natureza prosseguia, entretanto, na sua obra estratégica, com circunspeção notável; estava tudo aparelhado para a luta suprema: a vida e a morte, face a face, iam dar-se um combate decisivo. Perseverante como a Natureza, de que é ele o agente principal, o mais fiel e zeloso, o Magnetismo vendo um novo inimigo a combater, uma nova vitória a ganhar, dobrou de esforços corajosos; não somente as partes doentes foram impregnadas de fluido, como também todo o meu corpo; fiquei literalmente banhada, inundada. Sons surdos, semelhantes a lamentos inarticulados, ruídos duradouros e de pavorosa sonoridade, fizeram-se ouvir no ovário; era o inimigo que, forçado no seu reduto, decidia-se, afinal, abandonar a praça. Como adversário hábil e implacável, o Magnetismo havia atacado o tumor pelo centro; e semelhante ao verme que rói o interior do fruto, ele fazia corromper o tumor, dissolver-se e perder-se em corrimento. Ficamos neste ponto: Tomo carbo vegetális a fim de fazer desaparecer qualquer traço de clorose; meus sofrimento são atrozes, inauditos e tanto mais insuportáveis, quanto se prolongam ao despertar.

Mas, antes que se passem dois meses, virá a cura. Antes de dois meses a Natureza e o Magnetismo terão terminado a sua obra. Cinco meses de labores pacientes, de dedicação infatigável, bastarão para realizar esta prodigiosa ressurreição... E agora, que se ouse negar a poderosa ação do Magnetismo. Que se tenha a audácia de dizer que o Magnetismo não existe...

Eu bem o sei; para provocar a confiança e obter aprovação da nossa sociedade “chamada do progresso”, é necessário o apoio, a sanção de uma autoridade superior; ao mesmo tempo, cépticos obstinados e crédulos, os homens repelem a luz que não lhes é apresentada por mãos legalmente autorizadas, quando, entretanto, admitem como artigos de fé certos absurdos ridículos, revoltantes. Primeiramente o egoísmo, depois os hábitos inveterados, são outros tantos obstáculos à fundação de uma doutrina humanitária, antes de tudo! Sim. A nossa civilização moderna se opõe a esse espírito de confraternidade que deveria fazer palpitar todos os corações, dirigir todas as ações; mas o Magnetismo é a ciência de todos; o Magnetismo triunfará contra todos... Não é necessário ser mais ou menos influente de uma Faculdade para ser depositário desse fluido precioso, manancial de vida e de saúde; cada qual o possui, pode servir-se dele com eficácia para fazer o bem e ser útil ao seu semelhante.

Que de mais belo e maravilhoso? É necessário que a inteligência tenha sido atrofiada por lucubrações nocivas, o coração esterilizado por um amor imoderado do eu, para que o homem, naturalmente caritativo e bom, desdenhe e menospreze uma força que o Cristo e seus apóstolos haviam elevado ao ponto de divinizá-la. Mas, paciência. O mundo voltará ao que deve ser, ao que era primitivamente: uma família imensa, unida pelos mesmos interesses e os mesmos afetos. Será, talvez, o Magnetismo a cadeia misteriosa que ligará os seus elos desunidos; todo amor e caridade, ele ensinará os homens a se conhecerem, a fraternizarem, a se consolarem mutuamente, enfim, a se amarem.

Coragem, portanto, nobres campeões da mais generosa das causas; neste momento estabeleceis as bases de uma sociedade nova. O solo é árido, mas vós o desbravareis. Não haja desfalecimento. Nossas fileiras, tão cheias de claros, se tornarão numerosas e compactas; hoje sois apupados, ridiculizados. Não vos entibieis: no correr dos tempos o vosso nome será abençoado, a vossa lembrança será deificada, milhares de vozes entusiastas e reconhecidas, qual a minha, vos denominarão “Salvadores da Humanidade”.

Como se pode julgar pela narração que precede, não somente a minha sonâmbula tinha seguido passo a passo a marcha da sua moléstia, determinando-lhe a origem e natureza, vendo o estado dos órgãos e predizendo a época das suas crises, como ainda, embora não tivesse conhecimento algum da medicina homeopática, havia indicado os remédios que convinham ao seu estado e deviam favorecer a cura. Por mais singular que pareça esta faculdade, o fato não é novo. A história do Magnetismo está cheia de exemplos semelhantes; citavam-se diariamente casos iguais no tratamento de Mésmer, e a famosa comissão encarregada pela Academia de Medicina de estudar os fenômenos magnéticos, após cinco anos de investigação, reconheceu em 1831, nos sonâmbulos, não somente a faculdade de precisarem o gênero de suas moléstias, sua duração e finalidade, como ainda o gênero, duração e terminação das moléstias de pessoas com as quais se punham em relação. Essas conclusões, muito em desacordo com os preconceitos científicos da época, não agradaram à douta assembléia que, por proposta de um dos seus membros, o Dr. Cassel, recusou mandar imprimir e publicar um relatório tendente a dar na ciência fisiológica um profundo golpe.

Apesar desse ostracismo, o fato não é menos verdadeiro; é referido por todos os autores, e os convulsionários, mesmo esses, fornecem-nos dele uma prova. “Acontece, muitas vezes – diz Carré de Montgeron –, que os convulsionários percebem as moléstias sem saberem se as pessoas que se aproximam deles estão doentes e sem conhecerem a natureza de suas moléstias; ficam conhecendo-as pelos sentimentos de dor que experimentam nas mesmas partes, e os doentes que testemunham o singular fenômeno acreditam-se livres dos seus males.” (Carré de Montgeron). O que os possessos e convulsionários manifestavam sem que fossem provocados, os sonâmbulos o fazem sob a influência do Magnetismo: “A maior parte dos sonâmbulos sente as dores das pessoas com as quais se põem em relação; essa sensação é fugitiva, não deixa traço ao despertar, se houver o cuidado de romper bem a relação.” (Charpignon).

Os sonâmbulos percebem mais intimamente as perturbações gerais, funcionais, que atingem os órgãos essenciais à vida, do que os mais locais que afetam os membros e a superfície do corpo; isto devido à identificação momentânea que a relação estabelece entre o sistema nervoso do consulente e o do sonâmbulo, identificação que permite a este último apanhar todas as flutuações que sobrevêm no equilíbrio das correntes. É a essa espécie de identificação nervosa entre magnetizador e magnetizado que se deve o fenômeno da imitação: “Se o magnetizador assoa-se, tosse, escarra, o sonâmbulo repete os seus atos; se toma rapé, ele espirra; picando-se ou queimando-se, o sonâmbulo sentirá nos mesmos lugares essas dores.” (Charpignon).

Nem todos os sonâmbulos têm a percepção de igual maneira: uns reconhecem as perturbações doentias pela sensação dolorosa que experimentam; outros não parecem perceber sensação alguma, mas pretendem ver no interior do corpo e apanhar certos matizes que lhes permitem diagnosticar o estado dos órgãos. Alguns há para os quais é inútil qualquer contato. Percebem simpaticamente, a distância, os sofrimentos do consulente; para outros faz-se preciso tocar; passeiam as mãos sobre o corpo com certa atenção, até que encontram o órgão doente. “Nas consultas dos sonâmbulos – diz Bertrand – é preciso cuidadosamente distinguir o que eles declaram experimentar com o contato dos doentes daquilo que imaginam ver no interior do corpo; o que eles dizem sentir merece muito mais confiança do que aquilo que acreditam ver.”

Isso constitui uma distinção sutil, que se não deve fazer; um sonâmbulo ou é bom ou mau; se é bom, vê tão bem quanto sente; tudo se resume numa questão de individualidade e de grau, e se a lucidez se exerce em proveito dum terceiro é sempre mais ou menos imperfeita ou mais ou menos duvidosa, é raro que se apanhe um bom sonâmbulo em falta, quanto à clarividência sobre si mesmo. Eu tratava de uma jovem de 24 anos, Luíza C., que estava afetada, havia doze anos, de uma atrofia muscular progressiva; tinha as pernas completamente paralisadas e os braços começavam a ficar paralíticos; no fim de um mês de tratamento, a doente caiu em estado sonambúlico, tornou-se quase imediatamente muito lúcida; violentas crises anunciadas por ela, muitos dias antes, sucederam-se irremissivelmente; sob a influência do Magnetismo operou-se benéfica reação e a vitalidade voltou pouco a pouco às partes que ameaçava abandonar.

Luíza, em sono magnético, seguia diariamente esse trabalho de reorganização da Natureza, com interesse crescente; como via perfeitamente o interior do corpo, tinha prazer em pôr-me ao corrente das flutuações que o tratamento imprimia ao seu estado; o que lhe chamava principalmente a atenção era o aspecto dos seus músculos. Não possuindo nenhuma noção de anatomia, limitava-se simplesmente a explicar-me a seu modo aquilo que via. Os músculos assim enferrujados pela inação, afiguravam-selhe, a princípio, como que empastados de substância amarelofosca, que parecia ter invadido os interstícios fibrilares; de amarela que era, essa substância tornou-se branca; depois, pareceu fundir-se e reabsorver-se; o sangue afluiu, então, mais abundantemente para o músculo, vindo restituir-lhe a vitalidade e mobilidade; mas, ao mesmo tempo, ela previu uma crise próxima e de grandes sofrimentos: “A vida volta – disse-me ela –, mas é acompanhada da inflamação; já se acha invadido o envoltório dos músculos por placas vermelhas, semeadas de milhares de botõezinhos; oh! como vou sofrer horrivelmente!” E passado um momento de silêncio, acrescentava: “Mas é necessário e depois passarei muito melhor”.

As coisas realizaram-se como havia predito: no fim de algumas semanas os músculos das mãos, dos braços e das espáduas, depois de sofrimentos muito dolorosos, readquiriram a sua amplitude e tonicidade; o movimento voltou tão bem que ela pôde depois escrever, coser e tocar piano, o que era incapaz de fazer, vendo-se cada dia ameaçada de ficar completamente paralítica como a irmã mais velha, que, com a idade de 32 anos, já tinha perdido o uso de pernas e braços. Essas duas pobres senhoras são vítimas de um mal congênito.

Não é absolutamente necessário pôr diretamente o sonâmbulo em relação com o doente, para obter uma consulta; pode-se utilizar corpos intermediários: um objeto tendo pertencido ao doente, ou que fosse manuseado por ele, um lenço, luva, uma carta, uma mecha de cabelos, bastam. Os cabelos, principalmente, possuem a propriedade de conservar e manifestar melhor que qualquer outro objeto, o estado patológico do doente; os cabelos, esses nervos externos, como lhes chama Louis Lucas, são efetivamente, qual os nervos, verdadeiros acumuladores da força irradiadora; suas qualidades se modificam, ao mesmo tempo em que a irradiação nervosa se transforma com a idade; o sexo, o temperamento, a idiossincrasia, o estado de saúde ou de moléstia e, pode dizer-se que as impressões táteis e olfativas que eles dão acham-se em relação direta com as evoluções físicas e psíquicas do ser.

Qualquer sonâmbulo, ao qual se dê uma mecha de cabelos, procura primeiramente formar uma impressão pelo tato; manuseia-os, apalpa-os, alonga-os em todos os sentidos; submete-os, em seguida, ao exame do olfato, cheira-os por muito tempo; e o olfato, esse sentido instintivo, desenvolvido em tão alto grau entre os animais, parece aqui, por analogia, tirar do estado primitivo, que caracteriza o sono magnético, uma importância especial. Enfim, numerosos fatos vêm provar a transmissibilidade possível das moléstias, o fenômeno se opera por transmissão direta ou indireta, por meio das correntes; é uma espécie de contato nervoso; o organismo do magnetizado percebe as menores perturbações nervosas do organismo do consulente. Se assim é, compreende-se todas as precauções que se devem tomar com uma pessoa imersa no estado sonambúlico.

Não se deve jamais deixá-la tocar por pessoas que não estiverem em relação com ela. Cumpre evitar qualquer ruído ou choque que possam fazê-la cair em catalepsia ou em convulsões; nunca se deve despertá-la bruscamente, e quando esteja acordada, não lhe referir senão o que lhe for útil saber, a fim de não impressioná-la inutilmente. Os perigos atribuídos ao Magnetismo só são imputáveis à imprudência e à ignorância dos que abusam do estado sonambúlico, ou não sabem servir-se e tirar proveito dele. CAPÍTULO VIII Das causas que atrasaram o conhecimento e propagação das virtudes curativas do Magnetismo Memória acerca da descoberta do magnetismo animal, publicada em 1779 por Mésmer. – Arresto da Faculdade contra o Dr. d’Eslon.

– Relatórios sobre o Magnetismo, apresentados à Academia das Ciências e à Sociedade Real de Medicina, em 1784. – Imparcialidade de Jussieu. – Sociedades magnéticas da Harmonia; sua propaganda até a Revolução. – As árvores magnetizadas de Buzancy. – Os dois irmãos de Puységur; o padre Hervier, o abade Faria, Deleuze; os magnetizadores modernos.

La Fontaine, Du Potet, etc. – Comissões de 1831 e de 1837. – Relatório de Husson. – Prêmio Burdin. – Os magnetizadores saindo de seus papéis de curadores para apresentarem o Magnetismo ao público e às corporações sábias; a opinião expressa por esses últimos só foi realmente dada quanto aos fenômenos de letargia, catalepsia e sonambulismo, e não sobre as virtudes curativas do Magnetismo.

– Conseqüências desastrosas das crises e das experiências públicas. – Congresso Internacional de Magnetismo Curativo, em 1889. – Sua composição, seu fim e resultados. A doutrina de Mésmer causou verdadeira revolução na França; as corporações sábias, dominadas pelo espírito de partido, profligaram-no com animosidade sem exemplo. A memória sobre a descoberta do Magnetismo animal, publicada pelo mestre em 1779, foi o ponto de partida das hostilidades.

Em 18 de setembro de 1780, a Faculdade de Medicina de Paris suspendia de seus direitos o Dr. d’Eslon e rejeitava as proposições de Mésmer, transmitidas por aquele doutor. Em 27 de agosto de 1784, publicava um arresto proibindo a qualquer médico declarar-se partidário do Magnetismo animal, quer por meio de escritos, quer pela prática, sob pena de ser riscado do quadro dos doutores vigentes. Nesse mesmo ano, a Academia das Ciências e a Sociedade Real de Medicina, pelo órgão de suas Comissões, uma composta dos doutores Sallin, J. d’Arcet, Guillotin, Majault, e dos acadêmicos Franklin, Le Roi, Bailly, de Bory e Lavoisier; a outra composta dos doutores Mauduyt, Andry, Caillé e Poissonnier, declaravam que “o Magnetismo era perigoso para os costumes e para a saúde, e afirmavam que não tinha realidade alguma como fluido, pois consistia simplesmente em provocar convulsões com arte, ou antes, por artifício”.

Essas decisões eivadas de prevenção e esses arrestos iníquos, visando aqueles que procuravam estudar os fenômenos, longe de desacreditarem Mésmer e sua doutrina, contribuíram, ao contrário, para aumentar o número dos seus partidários; essa injusta parcialidade teve como conseqüência abalar num grande número de espíritos o respeito que se podia ter às agremiações sábias, principalmente quando se viu o ilustre botânico Jussieu, cujo caráter e saber eram com justiça apreciados, separar-se dos seus colegas, recusar assinar o relatório da segunda Comissão de que fazia parte, e publicar uma memória especial, na qual, sem admitir inteiramente o sistema de Mésmer, concedia ao menos que ele continha certas verdades. Em breve, formaram-se dois campos: os que negavam obstinadamente todos os fatos, e os que, pelo contrário, admitiam-nos com uma fé cega, levada algumas vezes até à exageração.

Paris teve uma inundação de brochuras; toda gente tomou partido pró ou contra as novas doutrinas; mas a perseguição injusta e o ostracismo das corporações sábias não fizeram mais do que excitar uma violenta reação. Mésmer ofereceu transmitir o segredo do seu método a um certo número de subscritores; apesar do preço elevado da subscrição, que era de cem luíses, o número dos subscritores, que devia ser de cem no começo, foi muito excedido. Os membros desta Sociedade, de posse do método do Mestre, espalharam-se pelas províncias, onde foram propagar gratuitamente o conhecimento do Magnetismo. Um movimento prodigioso se operou. De todos os lados formaram-se sociedades magnéticas, sob o nome de “Sociedades de Harmonia”, que se ocupavam do tratamento das moléstias: Lyon, Bordeaux, Nantes, Rouen, Strasburgo, tiveram suas clínicas gratuitas, para onde afluíam os doentes em multidão.

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