Voltar ao livro Magnetismo Curativo – Volume 2

Capítulo 21 de 30

Parte 21 de 29

Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier

As paixões deprimentes, como sejam temor, tristeza, timidez, humilhação, caem na esfera genital, colocada inferiormente, na parte posterior e oculta, na face ventral. Estranhas simpatias unem esses dois pólos: desenvolvem-se e declinam paralelamente ao mesmo tempo: influenciam-se, combatem-se ou equilibram-se; o abuso de um torna-se a destruição e a anulação do outro; as volúpias extáticas em seu supremo grau têm igualmente, aí, a sua sede; de um lado é Minerva, surgindo armada da cabeça de Júpiter; do outro é Vênus Afrodita, nascida da espuma das ondas: a ambição mata o amor, a embriaguez dos sentidos sepulta o gênio; Minerva é casta e os filtros de Circé transformam os homens em animais. O nervo fuente, conservando o ser em embrião, é para nós o mesmo que o pólen para a planta; – a dominante que, sob o menor volume possível, retém o conjunto de nossas harmonias condensadas, prestes a fazerem irrupção. Tal o papel da tônica e da dominante fisiológicas, representadas pelo cérebro e o aparelho genital, sobre o circuito-nervoso. Vamos examinar agora o papel da mediante e da sensível fisiológicas, que, representadas pelo coração e o fígado, se acham colocadas no círculo digestivocirculatório; o coração contribui para equilibrar o antagonismo dos dois pólos nervosos, cérebro e aparelho genital; é a mediante da tonalidade.

Músculo poderoso, formando nó e desfiladeiro sobre o circuito da circulação sangüínea, de que é o regulador, o coração retarda ou acelera mecanicamente todas as relações permanentes que existem entre o influxo nervoso e o animal interno; a exemplo desses volantes de máquinas industriais que recolhem, condensam e regularizam a força em sua marcha de transmissão, ou como o pêndulo que com seus batimentos isócronos demora o movimento das molas do cronômetro, o coração retém numa oscilação alternadora, regular, as expansões cerebrais e genitais. Como, porém, em acústica, onde a tônica e a dominante disputam continuamente a predominância, procurando arrastar a mediante em seus desvios, assim, também no organismo, o movimento cérebro-genital chega a influenciar gravemente o coração: essas rápidas flutuações da circulação, caracterizadas pela palidez ou vermelhidão súbitas, sob inapreciáveis influências passionais; ou esses grandes desfalecimentos viscerais que vêm inopinadamente ferir o organismo, nos advertem da ruptura de acordo da tônica.

Órgão compensador colocado entre a nossa vontade e os nossos desejos; entre a razão e o amor; entre o eu consciente e o instinto, o coração, nosso mediante, nem sempre mantém entre os nossos movimentos passionais essa igualdade de temperamento tão indispensável à integridade do equilíbrio tonal, que provoca esses inúmeros desvios patológicos, fontes da maior parte de males. Reforçado mecanicamente em sua potência dinâmica pelo antagonismo da condensação capilar, esta mesma devida à tensão nervosa que a cria e move, o coração é o agente especial da tensão de todo o movimento circulatório, que se centrifuga pela artéria e se centripeda pela veia. Mas, ainda que imperando de algum modo sobre todas as absorções e secreções, o coração, da mesma forma que o cérebro, não é tampouco a sede da vida; esta não se acha nos produtos da circulação ou na composição química do sangue e da linfa, nem ainda na irradiação cerebral; calorificação, coloração, assimilação, metamorfoses e trocas, tudo isto se associa, do mesmo modo que a sensação e o pensamento, a um princípio superior de tensão normal; e, se a circulação e a tensão são efetivamente as duas grandes fases do fenômeno vital, cumpre considerar que a circulação não é mais do que uma conseqüência da tensão, e que o verdadeiro segredo dos organismos reside nas resistências e nas limitações que nascem do estado de oclusão e de claustração.

O coração não é mais que uma roda da máquina humana colocada, com os demais órgãos, sob a direção do esforço tensional vital, e desempenhando, como acabamos de dizer, o simples papel de volante industrial, encarregado de condensar as forças adquiridas e lhes regular o fluxo; elemento de transição entre o animal externo e o animal interno, ele serve de ponto de união entre a força essencializada na corrente nervosa e essa mesma força materializada na circulação, sob a substância dessa carne fluente, que se denomina – sangue. Ponto neutro equilibrante, pela resistência limitativa de sua construção em desfiladeiro, ele tempera e balança a atividade dos impulsos cerebrais e genitais, de que segue muito freqüentemente os desvios, acusando desse modo todos os caracteres típicos da mediante, que na tonalidade acústica flutua de contínuo da tônica para a dominante. O fígado é o quarto termo da tonalidade fisiológica; representa o papel da sensível.

O fígado, víscera poderosa, a maior do organismo, composta de uma verdadeira rede de capilares e, demais, confiada entre dois desfiladeiros – a veia-aorta de um lado, a veia-cava do outro –, representa um dos focos principais da calorificação e do trabalho industrial orgânico; é o recinto de seleção onde se elaboram, dividem e classificam os elementos extremos da nutrição, os que devem contribuir para a assimilação e os que devem preparar as secreções. Ponto de resolução, onde vem convergir o movimento da tonalidade, o fígado é, a seu turno, o lugar em que começam todas as transmutações e metamorfoses que presidem ao mesmo tempo às repartições internas, às expedições do exterior, às reservas e às exonerações: é o grande partidor, o escritório geral de classificação e saída da fábrica.

Apesar das majestosas aparências do seu desenvolvimento, atualmente só se dá a este órgão um papel muito secundário; e este, exclusivamente químico, é só completar por um lado a quilificação do bolo alimentar já preparado pela saliva, sucos gástrico e intestinal, e, por outro, operar a dissolução das matérias azotadas pela secreção da bílis. Limitar, porém, as funções do fígado a simples ações químicas, é deixar na sombra a sua ação preponderante, puramente dinâmica. É no fígado que vêm bater, mas geralmente, esses determinativos de movimento que arrastam a tonalidade orgânica a dissonâncias patológicas, cujo acordo de tônica apresenta, muitas vezes, dificuldade para se restabelecer.

As menores impressões morais, as mais leves flutuações atmosféricas, vão refletir-se no fígado; e é pela sensível que os agentes externos tentam o assalto da nossa tonalidade; um só instante de demora, um obstáculo fugitivo na partida assimiladora, bastam para produzir no circuito vital um recalcamento, uma retroversão da força, que sucessivamente vai influenciar, com a sua onda de retorno, as três pedras do alicerce da Tonalidade: o coração, o pólo genital e o cérebro. Essas elevadas considerações do equilíbrio das forças, mostrando-nos as secreções e excreções como essencialmente tributárias da tensão vital, abrem-nos horizontes mais vastos, em antinomia com as acanhadas concepções que atribuem exclusivamente os fenômenos vitais a conseqüências mecânicas, anatômicas ou químicas.

É, portanto, somente a relação tonal que deve existir entre os quatro termos fundamentais da tonalidade fisiológica, cérebro, pólo genital, coração e fígado, que cumpre procurar a verdadeira resultante da vida: é neste centro de tensão equilibrada, a que chamamos enormon, que se manifestam todas as flutuações vitais. O enormon sobe, desce, inclina-se para a direita ou para a esquerda, se expande ou se constringe, se dilata ou se contrai sob as diversas influências por que passa. Como na tonalidade acústica, a mediante, elevando-se e baixando-se alternadamente, arrastada em sua flutuação, quer para a tônica, quer para a dominante, engendra os tons maiores e menores; no primeiro caso, temos virilidade, animação, alegria, coragem; o segundo, efeminação, vaga languidez, tristeza. O ser em quem o centro vital se conservar alto, não duvida de nada, não se admira de nada, nem recua diante de coisa alguma; aquele em quem o centro vital se conservar baixo é triste, moroso, inquieto, hesitante, cheio de humores negros e de fraquezas. Quando esse centro flutua instável, à guisa das mediantes das melodias primitivas, entre as modalidades maiores e menores, o ser torna-se caprichoso e fantástico; o seu espírito passará sem transição da alegria para a melancolia.

É a posição baixa ou elevada, direita ou esquerda, superficial ou profunda desse centro figurado de equilíbrio, que classifica os homens não somente por gradações de espírito e de caráter, como ainda pelas modalidades de temperamento. É na variabilidade incessante desse equilíbrio tonal que reside a flutuação da saúde. Tudo o que vier influenciá-lo, mais ou menos profundamente, dá origem a um desvio patológico. Esse equilíbrio se modifica com a idade e os meios. Na criança, o centro vital é muito elevado: ri, salta e canta; mas também está sujeita às convulsões, às moléstias nervosas e inflamatórias, como ainda aos espasmos que afetam especialmente a face e os membros superiores.

No ancião o centro vital se abaixa, arrastando juntamente com a tristeza e a hipocondria todo o cortejo das afecções do fígado, do estômago, dos intestinos, bexiga e também a hidropisia ou a paralisia dos membros inferiores. A loucura, as nevralgias, a epilepsia, não são mais do que fraquezas de movimentos, simples impotência de tensão, trazida pelo próprio abuso dessa tensão; pois que nada concorre mais para a destruição da tensão vital que a embriaguez das paixões e a ação exultante ou deprimente dos vícios. Tudo concorre para entreter ou destruir essa tensão, e cada um de nós, criança, adulto, mulher ou ancião, condensa a força livre e a organiza na razão do seu equilíbrio tonal; é, pois, na faculdade que possuem os organismos de acomodar e organizar a força livre a seu proveito, que assenta sua potência ou sua fraqueza; é o grau de tensão que podem realizar, que lhes assegura a independência e a confiança. A tensão, digamo-lo, é a verdadeira salvaguarda dos organismos. Para compreendermos perfeitamente o que entendemos por tensão, um fato muito simples pode auxiliar-nos: Qual de nós não se divertiu, pelo menos uma vez na vida, em fazer bolhas de sabão, agradável distração para crianças de qualquer idade?

Com que precauções se gradua a respiração para encher a bolha, suspensa como pérola brilhante à extremidade de um canudo, e com que ingênua alegria se segue depois, com o olhar, todos esses globos criados, que volteiam no espaço à vontade dos ventos. Uns, apenas soltos, desfazem-se à impressão das forças ambientes coligadas; outros, melhor aparelhados para a luta, caminham para longe, meteoros luminosos, levando uma carreira relativamente mais longa. Nesse divertimento, por certo todos não vemos mais que uma infantilidade; entretanto, nele como em tudo, a Natureza, na sua profunda sabedoria administra um ensino de que podemos tirar proveito. Essa leve bolha, que diverte, fornece a imagem perfeita do primeiro passo da força livre, para o estado de oclusão ou de tensão. Aprisionando a sua respiração nessa delgada película que ela distende à vontade, a criança, sem o perceber, não se improvisa em criador?

Não organiza, com todas as peças, uma forma equilibrada, inteiramente rudimentar, é verdade, mas dotada de um movimento inicial, e que, graças ao impulso recebido, prosseguirá no espaço e no tempo uma série de fases evolutivas, proporcionadas à potência dessa impulsão? Temos aí, sob nossas vistas, a expressão da lei que preside a toda evolução vital; essa forma oclusa é um primeiro grau de organização, porque, quem diz organização, diz coisa construída, definida, limitada; e, do mesmo modo que não se poderia imaginar uma força, exibindose em um nada sem limitação e sem reação, assim também não se pode conceber um organismo vivo sem oclusão e sem tensão.

Tudo se apóia no Universo, cada ponto do espaço procura equilibrar sua tensão própria com as tensões ambientes; e quando um organismo, espécie de fortaleza viva, em que a força se acha em tensão permanente, já não consegue equilibrar-se com as tensões exteriores, é que ele está fatalmente votado à morte e esta, na realidade, não é mais que a vitória do mundo exterior sobre a tensão de um organismo fechado. Mas, para equilibrar-se com o meio que o cerca, não basta ao organismo estar em tensão normal; é-lhe também necessário entreter com esse meio uma relação de trocas; e se nos reportarmos à bolha de sabão, esse protótipo da célula viva, veremos que ela goza efetivamente de um duplo movimento de volatilização e de sucção, que, tornando-a permeável até um certo ponto aos agentes externos, favorece as trocas indispensáveis ao entretenimento de sua vitalidade e dota-a de uma elasticidade, que constitui em grande parte a sua força de resistência.

Esse duplo movimento de absorção e eliminação é a mola da célula viva, base dos organismos; quanto mais elevada é a hierarquia que ocupa o indivíduo na escala dos seres, tanto maior é a perfeição do seu mecanismo; favorecendo e regulando esse movimento alternado, duplica a sua energia vital; na célula vegetal, composta de um invólucro restritamente globular, contendo um líquido mais ou menos dotado de movimento, os fenômenos da vida só se manifestam com parcimônia; se, partindo de ínfimo ponto, chegarmos até ao animal, qualquer que seja a simplicidade dos seus aparelhos de funcionamento, o trabalho de elaboração vital adquire desde logo, sob o impulso mecânico da força orgânica mais desenvolvida, um notável acréscimo de potência; mas, diversamente se opera, quando nos encontrarmos na presença dos organismos superiores; neste caso, o concurso de múltiplos aparelhos compostos vêm centuplicar a atividade e a resistência vitais.

Já não é a simples tensão do movimento livre serial, tensão limitada por uma película rudimentar, mais ou menos porosa, acessível a todos os choques e tão facilmente atacável, como a bolha de sabão; ao contrário, é uma coligação de forças unidas e equilibradas, apoiando-se num organismo poderoso, e de tal modo fracionado em sua complicada vascularidade, que as ações exteriores já não podem atacá-lo senão parcialmente. Esse conjunto é servido por numerosos órgãos, instrumentos maravilhosos de suas receitas e de suas despesas de tensão – o que lhe permite regularizar à vontade as suas condensações e dispersões de movimento; e, como toda a tensão é particularmente servida em sua energia pelo grau de dificuldade que a força experimenta ao transmitir-se rápida e largamente, numerosos e estreitos desfiladeiros armam, então, o organismo para a sua defesa, de uma instantaneidade e intensidade de ação indispensáveis à sua preservação. Resumamos, pois, e digamos: Todo organismo afeta uma forma oclusa, que obedece restritamente às leis de tonalização, da qual a tonalidade acústica oferece-nos o modelo-tipo.

A potência de vitalidade de um organismo reside na sua potência de tensão equilibrada e na justa relação de antagonismo existente entre a sua tensão própria e as tensões ambientes. Essa justa relação se resolve num duplo movimento de absorção e eliminação, de condensação e dispersão, de receitas e despesas.

O equilíbrio desse duplo movimento é a saúde. Só há uma saúde, porque só há um ponto de equilíbrio. CAPÍTULO IV Só há uma Moléstia Equilíbrio oscilatório da tonalidade, desde a concepção até a morte. – Todo desvio patológico nasce da ruptura desse ritmo. – Efeitos da tensão equilibrada sobre os humores do organismo.

– Assimilação e secreção. – Moléstias agudas e crônicas. – Flutuação do equilíbrio vital entre o estado de condensação e o estado de dispersão. – O estado de tonalização protege a nossa identidade. – Condições de que gozam os sustentáculos da ação radiante da força.

– Linhas de forças, de Faraday. – Galvanoplastia. – Contratibilidade, sensibilidade e percepção. – Estado de imunidade que as altas tensões periféricas dão ao organismo. – Perigos que apresenta a predominância de um dos pontos da tonalização.

– Efeitos retroativos das altas tensões. Toda falta ou todo excesso de tensão traz perturbações orgânicas. – Dissonâncias e batimentos. – Não há moléstias nervosas, nem moléstias específicas, nem moléstias miasmáticas. – Microzimas e bactérias.

– Teoria do Professor Bechamp. – Toda moléstia provém de um desacordo entre a tensão do organismo e a das forças ambientes. – Só há um ponto de equilíbrio, e conseqüentemente uma só saúde e uma só moléstia. Como a bolha de sabão, cuja delgada película resiste às tensões ambientes coligadas, enquanto a força inicial interna pode fazer-lhe equilíbrio, assim também o ser encontra a sua salvaguarda na tensão equilibrada. Da concepção à morte, seguindo a trajetória que nos traça o destino, é-nos preciso, do mesmo modo que ao equilibrista na corda esticada, olhar fixo na mira, sustentar sem desfalecimento nem descuido esse equilíbrio oscilatório contra o qual se coligam todas as forças atrativas ou repulsivas que nos cercam.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.