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Capítulo 18 de 30
Parte 18 de 29
Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier
Vendo que se não consegue curar, procura-se, pelo menos, mascarar a moléstia com os anestésicos que, baixando a tensão vital, adormecem o sofrimento. Esse período, em que cada qual respiga no acervo das ruínas empilhadas pelos séculos, chama-se o período do ecletismo ou do cepticismo. Eis ao que chegamos. Todo espírito desejoso do bem da humanidade e do progresso poderá deixar de preocupar-se com o futuro da Ciência? Onde, pois, está a verdade?
Onde o progresso? Como poderá sair a Medicina da contingência em que se acha? Como poderá tornar-se uma ciência verdadeiramente útil e prática e prestar à humanidade os serviços que ela tem o direito de esperar? “É – dizem os sábios escritores que citamos há pouco – pela volta às verdades necessárias; só elas podem constituir em um todo os elementos dispersos das coisas, que o trabalho moderno vai dissociando cada vez mais. Ao lado da análise contínua, é mister colocar a ação fortificante e superior da síntese; é necessário que esta, sempre presente e ativa, mantenha a aproximação e as relações naturais dos fenômenos, que os submeta, fixe e substancialize.” (Dr.
Chauffard). “Se a observação atenta da estrutura e do mecanismo dos seres vivos é indispensável ao progresso da ciência médica, a razão que esclarece essas observações, que as classifica e que lhes deduz as leis gerais, não é menos necessária à magnitude da obra científica.” (Dr. Bouchut). “A primeira necessidade da época atual é um retorno às verdades sintéticas. Os diferentes ramos da Ciência deixam de viver em contato diário, insulam-se cada vez mais, ignoram-se uns aos outros, prosseguem separadamente o seu caminho; entregues, desse modo, a si mesmos, fora do contato fortificante das generalizações superiores, perdem todo o sentimento sintético e imergem em fastidiosos detalhes, que só fornecem trabalho à memória.” (H.
Girard). É, por conseqüência, necessário voltar à unidade de plano, que caracteriza a sublime organização do Universo. É preciso investigar a grande lei produtora de todos os fenômenos naturais que regula as funções da vida. Cumpre que a Ciência, rompendo as tradições que a mantém presa à matéria e ao ponderável, reconheça, afinal, a onipotência das forças e do imponderável. Que a Medicina, deixando de parte o órgão com que ela demasiadamente se preocupa, reconheça, no ser, esse dinâmide poderoso (seu elemento primordial), que preside a todas as funções e se manifesta desde a concepção; que forma, desenvolve, nutre o ser, serve de mediador à sua atividade corporal e repara as brechas feitas no substrato material; à forma, pelas forças exteriores coligadas.
Em outras palavras, a Medicina não pode pensar em sair da dificuldade em que se acha senão adotando uma fisiologia sintética, baseada numa lei de física geral, e colocando-se resolutamente ao lado da terapêutica baseada no terreno do dinamismo vital. O Magnetismo afigura-se-nos destinado a abrir-lhe esse novo caminho, porque repousa sobre uma síntese admirável, que Mésmer formulou nestes termos: “Só há uma vida, uma saúde, uma moléstia e um remédio.” Esta proposição do mestre, tomada ao pé da letra, pareceu muito absoluta: foi motejada; julgou-se nela uma pretensão a apresentar o Magnetismo como panacéia universal. Esta fórmula contém, entretanto, em nossa opinião, a mais luminosa das verdades que podem esclarecer a marcha vacilante da ciência médica, no meio das obscuridades caóticas em que ela há séculos se arrasta; e é o que vamos procurar demonstrar, explicando o que se continha no pensamento do mestre, quando disse: “Só há uma vida, uma saúde, uma moléstia e um remédio.” CAPÍTULO II Só há uma Vida Forma e Movimento ou Matéria e Força. – À concepção objetiva das coisas, cumpre adicionar uma concepção subjetiva. – Necessidade de formular uma hipótese.
– A ciência moderna não possui idéia organizadora suscetível de ligar entre si os fatos esparsos. – Teoria atômica; seu cunho materialista. – É necessário procurar o princípio de vida na Força e não na Matéria. – Da Causa das causas, ou da Hipótese das hipóteses; necessidade de colocar no limiar de todas as nossas concepções filosóficas a idéia de uma causa primária. – A idéia primordial matemática, que cria os números, permite, por analogia, compreender a Idéia Primordial universal, que cria os mundos.
– Unidade Ternária. – Paralelismo e obliqüidade. – O múltiplo sai da obliqüidade ou da Angulação. – Movimento da série. O infinitamente pequeno e o infinitamente grande.
– O Universo visível sai da imaterialidade dum princípio, do mesmo modo que os números saem da imaterialidade do zero. – A série é ao mesmo tempo causa e efeito, força e substância. – Estabelecimento de uma lei do movimento baseado na anterioridade da Força, ponto de partida de todos os fenômenos, Una e Trinitária como o princípio abstrato donde emana: Seriação, Limitação, Tonalização. – Só há uma Vida, porque só há uma Força e porque só há uma Lei que rege essa Força. Forma e Movimento, tais são os dois aspectos sob os quais nos aparece a Vida.
A Forma dá-nos a idéia da Matéria; e o Movimento, a idéia da Força; Força e Matéria resumem, pois, em duas palavras tudo quanto é acessível às nossas investigações e é este o problema que, desde o começo dos séculos, procura o espírito humano resolver em sua misteriosa dualidade. Conhecer a Força e a Matéria, senão em sua essência, pelo menos em suas relações, seria conhecer o mecanismo universal, seria conhecer as leis que regem os fenômenos; mas poderemos atingir esse conhecimento? Será dado à nossa pequenez conceber a majestosa grandeza das Causas? O véu que encobre à nossa fraca vista os esplendores da Natureza poderá, um dia, rasgar-se ou entreabrir-se para mostrar-nos o porquê das coisas? Para penetrar esse mistério, só possuímos bem fracos instrumentos: – os nossos sentidos; e mesmo assim, é necessário nos coloquemos continuamente em guarda contra eles, por isso que só nos dão uma idéia imperfeita da Força.
Por intermédio dos sentidos percebemos bem as propriedades dos corpos, seus caracteres e atributos, assim como as múltiplas transformações que eles sofrem; mas se quisermos ter uma visão nítida dos fenômenos, faz-se preciso que absolutamente desprendamos os nossos conhecimentos do cunho superficial, que os nossos sentidos lhes imprimem. Além da concepção objetiva das coisas, é necessário formar uma concepção subjetiva; é preciso partir de um ponto fixo, sob pena de nos desviarmos nos meandros da infinita variedade dos fatos que nos dá a análise; faz-se mister um plano; e as numerosas observações, que nos traz a experimentação, devem ser ligadas por uma síntese. Partir de um ponto fixo é formular uma hipótese. A hipótese, diz Bacon, é a idéia antecipada que nos precede na investigação da verdade, do mesmo modo como a luz, encarregada de dissipar as trevas do caminho, deve preceder os nossos passos. A História mostra-nos o homem na pesquisa da melhor hipótese; a multidão dos sistemas levantados no conhecimento das coisas prova-nos que ainda não encontramos a lei que deve servir de ponto de ligação a todas as nossas concepções físicas, mostrando-nos que, sob a aparente diversidade, que tão profundamente divide os fenômenos da Natureza, existe entre eles uma concordância, uma dependência e uma analogia tão íntimas, que tudo no Universo vem fundir-se numa unidade grandiosa.
Conservados no domínio do múltiplo que nos oculta a unidade do plano da Natureza, em vez de sintetizarmos as nossas percepções, temo-las deixado vagar sobre todos os objetos que nos cercam; demos uma causa a cada fenômeno; e a Ciência, multiplicando o número das hipóteses, ressente-se ainda da falta de uma idéia organizadora, que deve ligar entre si os milhares de fatos esparsos: A Mecânica é fundada na hipótese da gravitação; a Ótica, na do éter; a Química, adotando sucessivamente as teorias mais diversas, radicais, substituições, equivalentes, flutua de uma hipótese para outra. A Geologia, para explicar as evoluções do solo, ainda luta entre duas hipóteses contraditórias, as teorias netuniana e plutoniana. A Matemática, que passa entretanto pela mais positiva das ciências, só repousa sobre axiomas e postulados, cujo número e natureza têm mais ou menos variado e sobre cujos valores os matemáticos não estão de acordo.
Finalmente, a teoria atômica, base fundamental de todas as outras (por isso que não existe uma mudança no Universo que não se refira a um deslocamento ou a uma combinação de átomos), é de todas, efetivamente, a mais discutível. Os partidários desta hipótese admitem que os átomos são pequeníssimas partículas sólidas, de natureza imutável, separadas umas das outras por um éter tão hipotético como essas próprias partículas; e como os fenômenos mais vulgares de metamorfose, principalmente os da Química, não pudessem encontrar explicação na suposição de átomos materiais imóveis, eles concederam a cada átomo uma soma inerente de força suscetível de movê-lo: deramlhe uma alma.
Prazer e desgosto, desejo e aversão, atração e repulsão, são qualidades comuns a todos os átomos; dotados de sensibilidade e de vontade (mas de vontade inconsciente), são levados a se aproximarem ou desviarem uns dos outros; as afinidades eletivas de que os átomos são dotados, afinidades fatais que os impelem invencivelmente uns para os outros, dão origem, por meio de agregações mais ou menos simpáticas, primeiramente às moléculas, depois aos cristais e aos plastides, e finalmente aos organismos; desenhando assim, hierarquicamente, desde as aglomerações elementares até os processos orgânicos mais complexos, o grande turbilhão de átomos que constitui a evolução vital. Eis o mundo atômico, tal como no-lo apresentam. É debalde, concedendo-se ao átomo material uma alma eterna e imutável como ele, julgar-se poder conciliar a concepção atomística com a concepção dinâmica. Se os partidários do atomismo acreditaram livrar-se desse modo da pecha de materialismo, enganaram-se redondamente: sua concepção, pelo contrário, é a expressão do mais puro materialismo, e, como muito bem o diz Louis Lucas, é a teoria dos átomos que tem obscurecido a inteligência dos fenômenos da Natureza e contribui ainda, infelizmente, para postergar o advento das leis sintéticas que repousam sobre a Força. Altas notabilidades científicas partilharam essa opinião.
“Se eu tivesse poder, declarou o ilustre Dumas em suas lições de filosofia química, apagaria da Ciência a palavra átomo, porque ela vai mais longe que a experiência.” Desdobrando-se indefinidamente as partículas materiais, julgou-se poder atingir o misterioso berço da matéria e apanhar assim o segredo da Natureza; mas a matéria por si mesma nada é, nem é a entidade preponderante que se acredita; não pode ser percebida no objeto em si; só pode ser julgada e apreciada por intermédio da Força, único princípio gerador e motor de todas as agregações e seriações materiais. Tomar por ponto de partida a vida psíquica elementar, inconsciente, do átomo, é basear a evolução vital no jogo essencialmente automático de uma troca incessante entre as partículas materiais; é, considerando os organismos superiores como simples agregados de almas atômicas independentes, reduzir a nada a unidade da vontade consciente desses organismos; é, finalmente, multiplicar sem necessidade as fontes da vida. Só há uma vida. Só há um princípio de vida.
E esse princípio de vida não é nas últimas partículas da matéria que devemos procurá-lo, é na força: Unidade, Indestrutibilidade, Conversibilidade e Continuidade da Força, tal é a idéia que deve dominar, com todo o seu prestígio, os fenômenos da Natureza, e a única que pode constituir o seu laço de união; fora dessa concepção, nada há de lógico a estabelecer-se para os conhecimentos humanos.
O átomo minúsculo que se compraz em apresentar como sendo ao mesmo tempo o elemento constitutivo da Matéria e o agente ativo do Movimento, esse homúnculo invisível e inabordável, ou esse gigante mascarado, como quiserem (é assim que o chama Tyndall), não pode, quer com sua pequenez real, quer com sua suposta grandeza, servir de substratum ao Mundo e darlhe o impulso. Acima desse átomo elementar, acima dessa alma individual que o vivifica, acima desse éter clássico em que o fazem agitar, existe a Causa das causas, a Soberana Potência Criadora, que produz tudo o que existe: não só o átomo, como o seu movimento e o seu meio. Qualquer que seja a idéia que se queira fazer do Universo, é preciso admitir-se, antes de tudo, a existência dessa Causaprimeira; não se pode dispensar este primeiro ponto de vista; não se pode edificar sem ele; é, por assim dizer, a Hipótese das hipóteses, e, fora dela, nenhuma outra concepção pode tomar corpo.
A idéia de uma Causa-primeira, absorvendo em sua indivisível unidade a infinita variedade dos fenômenos, é (nós o sabemos) desviada da Ciência como artigo de fé, porém, se devemos admitir com razão que a experiência e os sentidos são as únicas portas de ingresso para a estrada que conduz ao conhecimento das causas, cumpre não esquecer também que a Hipótese, isto é, a fé, é a luz que alumia as trevas dessa estrada, e que sem ela nos arriscaríamos muito a transviar-nos, para jamais atingir o que procuramos. Para nos elevarmos com segurança até à concepção do Absoluto, é, pois, necessário que possamos aliar a Ciência e a Fé, porque não há mais verdadeira Ciência sem Fé, assim como não pode haver verdadeira Fé sem Ciência.
Mas, de que modo abordar essa grande Incógnita, qualificada de Incognocível por Herbert Spencer, dada a fraqueza de nossas percepções? Se não podemos atingi-la no objeto em si, se não podemos apreendê-la como potência, se sua misteriosa essência nos escapa, não poderemos ao menos vê-la e compreendê-la em sua substancialidade e na realização de seus atos, uma vez que tudo que se acha ao alcance dos nossos sentidos é o produto da sua sublime e ideal onipotência? Por um esforço do cérebro podemos, efetivamente, fazer sair o Abstrato do Concreto, remontar do Fenômeno ao Númeno, do Efeito à Causa, e, atingindo assim o limite do possível, chegar por abstração a fazer da Idéia Primordial uma concepção íntima suficiente; apreendê-la em sua natureza intrínseca não é, sob o ponto de vista científico, o que mais importa; o essencial é conhecê-la na expressão da sua lei; e, se consideramos como premissa indispensável de qualquer hipótese científica a Hipótese das hipóteses, é que só a presença desta grande idéia no limiar das nossas concepções filosóficas permite estabelecer ab-ovo a precedência do Espírito sobre a Matéria, da Idéia sobre a Forma, da Causa sobre o Efeito, e proclamar a unidade consciente do ser, remontando à sua causa essencial.
Mas, quer se parta da idéia abstrata que domina todos os fenômenos, quer se observe passo a passo o caminho que segue a Força inteligente e livre, remontando ao seu ponto de partida original, do mineral ao vegetal, do vegetal ao animal e do animal ao homem, desde a simples agregação do cristal até a sublime organização do pensamento, encontra-se, por toda parte, a expressão de uma lei – a das harmonias da Natureza, que, abraçando todos os fatos num só e mesmo amplexo, desvenda a admirável unidade do plano da Idéia Criadora. Tudo sai desta abstração, tudo volta a ela.
É, ao mesmo tempo, o ponto de partida e chegada de tudo quanto pode ser percebido pelos nossos sentidos. Mas, como essa Entidade Ideal, fonte geradora de todas as Formas, poderá substancializar-se aos nossos olhos? Se não podemos tirá-la do Absoluto em que ela paira, não nos será ao menos possível compreender a maneira por que dela se originou a hierarquia ilimitada das obras da criação? Um raciocínio, que na Matemática serve para explicar a gênese dos números, vai ajudar-nos a destrinçar esse mistério de maneira palpável. A analogia é surpreendente.
Considerando, com efeito, a Matemática dum ponto de vista elevado, vemos que existe na culminância desta ciência uma idéia primordial, absolutamente independente, única, indivisível, criada por sua própria potência, baseada sobre si mesma, e não se derivando de nenhuma outra coisa: essa idéia primordial é o zero. Espírito puro, pairando idealmente acima e fora da série dos números de que não faz parte, o zero, sem valor numérico pessoal é, entretanto, a alma encarnada dessa série; é por sua virtualidade ativa que a série se desenvolve das unidades simples às dezenas, das dezenas às centenas, das centenas aos milhares, e assim por diante, criando a cadeia ininterrupta e infinita dos graus numéricos. Origem ideal da hierarquia dos números, o zero não nos ajuda a conceber a imagem dessa idealidade grandiosa, origem dos mundos, a que por analogia Pitágoras chamava Número dos números e Platão a Idéia das idéias? Potência eterna, imensa, incompreendida, infinita, que se nos representa sem modo, sem qualidade e sem paixão: enchendo o Universo com sua imensidade, sem ser uma de suas partes integrantes; indivisível e incorpórea, como o zero, e, como ele, criando um encadeamento serial, donde saíram as categorias indizíveis dos mundos. E onde a aproximação é ainda mais sensível, é quando sob a aparente unidade, que caracteriza estes dois princípios, se manifesta uma misteriosa Trilogia.
A Idéia Primordial matemática, sob a sua unidade aparente, não encerra efetivamente três idéias expressas por três sinais distintos? O zero (0) o mais (+) e o menos (–) colocados em uma dependência comum tão estreita, que o sinal mais (+) não tem razão de ser sem a idéia precedente do zero, e que o sinal menos (–) supõe necessariamente a existência do sinal mais (+) e do zero (0). De um lado, como do outro, a unidade ternária exprime, pois, uma Idéia Primordial, reunida a duas outras que daí decorrem, ou para melhor dizer, essas duas outras idéias são a própria idéia primitiva, que, conservando-se tal como é, se manifesta sob duas formas diferentes; as três idéias não têm sucessão, coexistem e não formam mais que uma: é a unidade Criadora, manifestando-se como Trindade e imprimindo à Natureza inteira esse cunho de misteriosa triplicidade que encontraremos por toda parte e sempre na aplicação da lei que rege os fenômenos.
Chave da gênese dos números, chave da gênese dos mundos, a manifestação ativa do princípio ternário é o movens de todas as coisas: arrancando os elementos primordiais de sua passividade ou do seu paralelismo, cria os multíplices graus da série; pela angulação de seus princípios, ela faz surdir o múltiplo da unidade. Porque, do mesmo modo que a uniformidade (ou o repouso) nasce do paralelismo, assim também a diversidade (ou o movimento) nasce da obliqüidade e da angulação.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.