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Capítulo 22 de 30
Parte 22 de 29
Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier
Durante o tempo da vida uterina, a força inicial, envolvida no gérmen, participa da tonalização materna, da qual sofre todas as flutuações e influências; a tonalidade da criança não conquista a sua verdadeira autonomia senão quando se separa da tonalidade materna. Desenvolve-se, então, sob a influência da educação física, intelectual e moral que recebe a criança, e isso não constitui a menor das provas por que tenha de passar, pois na obra arquitetônica que prossegue e a que deve presidir durante os longos anos de desenvolvimento e crescimento, a tonalidade encontra, a cada passo, sérias ocasiões de se desviar do ritmo normal e esbarrar com obstáculos suscetíveis de fazê-la esmaecer, antes que tenha tido tempo de completar os órgãos compensadores, destinados a fortificarem o seu funcionamento.
É só quando chega ao término do crescimento, que o ser se acha definitivamente de posse de todos os meios para sustentar a luta pela existência; dotado de um bom impulso inicial, que a concepção lhe terá fornecido e que uma sólida educação terá fortificado; de posse de um organismo completo, ele poderá suster melhor os choques, e sua força de resistência será tanto maior quanto mais equilibrada for a sua tonalidade; mas, então, que se premuna contra si mesmo; que se individualize fortemente, armando a vontade contra o arrastamento das paixões: que se aplique a manter um justo equilíbrio entre o físico e o moral, entre o ser vegetativo e o ser sensitivo; que não deixe nenhuma das ressonâncias fundamentais da tonalidade tomar uma influência preponderante sobre as outras; porque, se na primeira parte da vida o ser está principalmente sujeito aos ataques e desvios materiais que partem do exterior, na segunda é de dentro que irrompem todas as sérias ameaças de desequilibração.
Atingido o termo do completo desenvolvimento, o ser, menos facilmente dominado pelas causas externas que até então tiveram a primazia, entra no período de exercício do livre-arbítrio e da vontade; se souber ponderar os seus atos, se não deixar enfraquecer a vontade, este agente de todas as suas tensões equilibradas poderá atingir e atravessar sem estorvo a última prova de transição, que o aguarda no fastígio da vida, isto é, a passagem da idade adulta para a idade madura, em que a tonalidade, do mesmo modo que no período de crescimento, corre os mais graves riscos sob a influência de uma segunda evolução arquitetônica, destinada a preparar os alicerces da velhice.
Depois dessa prova tópica contra a qual vêm, na maioria dos casos, quebrar-se as tonalidades mal preparadas ou desamparadas, o ser recuperando um novo alento, a que já não vêm tão profundamente perturbar, com tanta freqüência, antagonismos menos violentos, tal como se dava no período ascendente, encaminha-se para o prosseguimento da vida; e, munido de tonalidade revestida de uma dominante menos perturbadora e mais criteriosa, pode descer esse declive com passo calmo e regulado, realizando muitas vezes, desta maneira, um segundo ciclo tão longo quanto o primeiro.
Todo o segredo da vida dos organismos reside no seguinte: Manter no seu ponto de tensão normal todo o ritmo vital, quer na sua direção, quer em contrário, em todas as flutuações que sofrer a tonalidade, desde a concepção até a morte. Atingir esse ponto é resolver o problema vital, conservandose moral e fisicamente fora dessa escravidão dolorosa e humilhante, que nos impõem as paixões e a moléstia. O homem de bem, o homem são, o homem feliz, está sempre em uníssono consigo mesmo, vir semper sibi consonus; o homem a quem a paixão transvia ou a moléstia apavora, perde todas as harmonias do seu ser e desafina horrivelmente, como se fora uma dissonância num concerto homo absonus. Sejamos, portanto, senhores de nós mesmos; saibamos regular as nossas necessidades e gozos; não deixemos que se esgotem as nossas faculdades nos excessos ou nos vãos prazeres; conservemos, tanto quanto possível, o equilíbrio dentro e fora de nós. Qualquer infração física ou moral a esta lei de puro dinamismo, nos curvará ao jugo férreo desses inúmeros desvios patológicos, que constituem o fundo da grande miséria humana, a que chamamos moléstia.
Para evitar a moléstia, faz-se necessário que nossa tonalidade imponha aos antagonismos um acordo perfeito; deste, resultará uma tensão normal, que manterá em equilíbrio, no organismo, todos os humores; efetivamente, é a tensão que secciona em três partes os nossos materiais arquitetônicos, sólidos, líquidos e gasosos; que entretêm a forma e o movimento globular dos nossos tecidos; é ela que, regulando a dupla função de absorção e eliminação, assegura a alternância periódica das assimilações e secreções que resumem o mecanismo vital; as metamorfoses químicas em permanência no organismo relativamente à nutrição, ao desenvolvimento e conservação do ser, na realidade nada mais são que uma conseqüência imediata do estado de tensão.
Enquanto persiste esse estado, o ser, como que envolvido em atmosfera protetora, pode resistir a todos os incitamentos do exterior e conservar a sua autonomia funcional; mas quando esse estado de tensão chega a romper-se, todas as vias abertas às invasões tornam o ser escravo e tributário das força ambientes que o oprimem; o movimento regular das funções, o das decomposições químicas, se alteram; a natureza intrínseca dos sólidos, dos líquidos e dos gasosos se modifica e o ser periclita em desorganização ascendente, que lhe pode acarretar uma perversão completa de todos os seus elementos. As perdas de tensão podem ser bruscas ou progressivas, e assim é que produzem as moléstias agudas ou crônicas. Qualquer indivíduo, em razão de sua idiossincrasia, é mais ou menos acessível às perdas de tensão; esse fato depende da maneira por que se acha equilibrado o seu enormon.
As forças nervosas, estendidas do centro à circunferência, formam, já o vimos, uma espécie de harpa vibrante obedecendo a um ritmo, que cria o antagonismo da dupla corrente centrípeta e centrífuga; qualquer ser nervoso se estriba, de alguma sorte, sobre centros condensadores e irradia para a periferia, onde encontra a oposição das forças ambientes, que servem de barreira à sua elasticidade vital: debaixo da influência de causas diversas, o afluxo do movimento condensado se dirige para a periferia, ou para o centro; o equilíbrio flutua entre condensações preponderantes ou distensões excessivas; e a expansão se manifesta do centro para a circunferência, tanto mais normalmente quanto o ser melhor equilibrado se acha e mais senhor de suas condensações e dispersões.
Esse estado de tonalização equilibrada constitui, na realidade, a nossa verdadeira identidade pessoal; porque no meio das permutações moleculares incessantes, que se operam em nossa materialidade, em que se transformaria a nossa personalidade, se não possuíssemos algum meio de nos mantermos sempre idênticos a nós mesmos, na torrente das metamorfoses que arrasta os nossos elementos parcelares constitutivos? É a tonalização que, fornecendo-nos um centro preponderante de ações ao mesmo tempo atrativas e repulsivas, nos permite reter, senão na imutabilidade de sua natureza, ao menos em suas relações constitutivas, os elementos variáveis do nosso sangue, da nossa medula, da nossa carne, dos nossos ossos, de maneira a mantê-los em séries de centros, ao mesmo tempo independentes e governados sob o predomínio de uma potência superior equilibrante, que é a conservadora da nossa característica física e moral. A ordem simétrica e absoluta em que se colocam esses elementos é imutavelmente fixada pelo próprio grau da potência tensional, que preside ao desenvolvimento normal da silhueta do ser.
Do mesmo modo que a limalha de ferro, quando agrupa suas partículas isoladas em torno da barra imantada sobre curvas geométricas regulares, a que Faraday chama linhas de força, a nossa potência tensional obedece às condições de que goza qualquer sustentáculo da ação radiante da força: é um princípio universal, que se encontra por toda parte, tanto nos fenômenos da galvanoplastia, onde esse princípio dirige a molécula sobre a molécula, como se uma inteligência primordial preexistisse nela quanto no organismo vivo, onde todas as moléculas se organizam entre si. É à regularidade e à constância dessa classificação molecular, no meio das perpétuas trocas do organismo, que devemos a conservação da integridade da nossa forma e da nossa saúde; e essa regularidade e constância dependem da faculdade tonalizante que regula todas as nossas tensões, faculdade não somente variável em cada indivíduo, em virtude do lugar que ocupa na expansão serial de todos os tipos, mas variável também em razão da maneira pela qual o organismo percebe mais ou menos viva ou profundamente as sensações que partem do exterior.
Nosso organismo, a exemplo do último dos moluscos ou da delicada sensitiva, possui como função normal a faculdade de contrair-se à aproximação de um contato qualquer. Esse movimento contrátil é, de alguma sorte, a medida do grau de limitação que a força, em tensão no organismo, opõe às excitações externas, mas o que se chama contratibilidade não é mais que o primeiro tempo do fenômeno sensitivo; e o segundo tempo é a sensibilidade. Dependendo absolutamente de um efeito de retorno do movimento expansivo para a condensação, é necessário à sensação, para que se manifeste a conseqüência da contratibilidade (a sensibilidade), que a retirada da força nervosa, sobre os centros, se faça sem embaraço, que o enormon se contraia sobre si mesmo por um movimento centrípeto; e como não pode haver sensação sem percepção, é ainda necessário que o cérebro, o órgão das percepções, esteja com o resto do organismo na relação exigida.
Em outros, para que o ser perceba nitidamente as sensações, é mister que a tonalidade devidamente equilibrada entretenha uma harmonia regulada entre a dupla corrente centrípeta e centrífuga, sendo essa harmonia necessária ao fenômeno de recorrência, que se denomina sensibilidade. Tudo que elimina ou embaraça essa dupla corrente, tudo que impede com violência, por exemplo, as forças centralizadas do enormon para a periferia em um excesso de expansão exagerada, como a cólera, o ímpeto guerreiro, o êxtase (quer seja artístico, científico, erótico ou religioso), obscurece, por isso mesmo, a sensibilidade: o combatente, no ardor da luta, não sente, na ferida, o que lhe penetra a carne; o mártir, exaltado pela fé, sorri para o carrasco; o amor materno compraz-se em suas dores; em tempos remotos, miraculados fanáticos não suportavam impassíveis as violências mais monstruosas, sem que lhes adviesse nenhum mal ou conseqüência desastrosa?
Esses estados de alta tensão para a periferia, pelos curiosos casos patológicos que apresentam, têm mais de uma vez desorientado a Ciência; mas, quer se produzam fortuitamente ou por um violento esforço da vontade, não é menos verdade que esses estados de alta tensão periférica colocam, inconscientemente ou voluntariamente, o indivíduo ao abrigo de qualquer invasão mórbida e dos desfalecimentos a que uma grande dor poderia dar causa; dir-se-ia que, debaixo dessa influência, o organismo se encouraça contra todas as invasões: o homem, cujo enormon for suficientemente tenso, pode afrontar impunemente todos os contágios miasmáticos; o corajoso nadador, na irradiação da dedicação que o impele a expor a vida, pode afrontar sem perigo o frio mortal da água gelada, que, em qualquer outra ocasião, lhe traria uma fluxão de peito e a morte; têm-se visto velhos valentes, opondo à dor um calma intrepidez, fumarem seu cachimbo, enquanto se lhes amputava a perna; Múcio Scævola, com a mão espalmada no braseiro incandescente a queimar-lhe as carnes, fez pasmar Porsena pela extraordinária placidez da sua calma.
Se a tensão nervosa, pela imunidade com que dota momentaneamente o organismo, produz tais prodígios, cria, ao mesmo tempo, pelo seu próprio excesso, grandes riscos; os extremos são igualmente perigosos, e na tonalização não é necessário que o ponto de condensação sobrepuje o da resolução, ou vice-versa. Quando se estendem todas as forças do enormon para a periferia, é preciso ter o cuidado de deixar no centro as reservas necessárias para fazerem contrapeso às forças que se deslocam, sem o que, a tonalidade corre o risco de claudicar. Todos têm experimentado a penosa sensação ao desenvolverem-se, sem utilizá-las, certas tensões destinadas a levantar um peso ou a forçar um obstáculo; um degrau de escada que só existe em nosso pensamento, uma porta aberta, que se julgava fechada, trazem um choque de retorno da força não empregada, que vem afetar nossa sensibilidade assaz desagradavelmente.
Às vezes, certas descargas de tensão podem fulminar o organismo; os anais da medicina citam o caso de um hércules de feira, que, tendo de levantar um fardo muito pesado, foi vítima, por causa dum falso movimento ou do seu descuido, de uma dessas descargas fulminantes; na autópsia, não se encontrou nenhum derrame, nenhuma lesão; todas as forças do enormon em tensão para a rede muscular tinham, sem dúvida alguma e de maneira muito simples, feito oscilar a tonalidade insuficientemente equilibrada sobre o seu centro.
Às vezes, uma insignificância nesse estado de tensão extrema, para provocar o brusco retraimento das forças de um ponto sobre outro: quando o organismo, por exemplo, está em expansão dispersiva em conseqüência de um estado calórico exagerado produzido, quer por um meio superaquecido, quer por algum exercício imoderado, como a marcha, a dança ou a corrida, os simples contato frio de um assento de pedra ou de uma relva úmida, alguns goles de uma bebida gelada, bastam para produzir instantaneamente a regressão das forças da periferia para os centros e, consecutivamente, esses fenômenos inflamatórios ou tíficos, que vêm fulminar as mucosas pulmonares, ou intestinais. No refinamento de sua crueldade, os torturadores conheciam tanto esse fato, que proibiam expressamente se desse uma só gota d’água aos infelizes, que eram pela tortura colocados num estado de tensão suprema, temendo que a morte viesse prematuramente arrancá-los ao horror do suplício.
É por um fenômeno análogo que, num líquido em ebulição, no café, por exemplo, basta uma só gota d’água fria para precipitar no fundo do vaso todas as partículas sólidas em suspensão. É deste modo que praticam os Orientais, antes de se servirem dessa bebida aromática. Enfim, as grandes tensões têm essa grande desvantagem: produzem, em sentido oposto, um efeito retroativo poderoso, e cada vez que o enormon se estende violentamente para a periferia, sofre, em seguida, invariavelmente, um retraimento proporcional para o centro; retraimento suscetível de deixar o organismo desarmado e de comprometer assim, mais ou menos, o equilíbrio tonal.
Deficiência ou excesso de tensão representam duas coisas igualmente funestas, por isso que a falta de tensão abre as portas a todas as invasões, entrega a tonalidade, sem defesa, às desequilibrações e produz, consecutivamente, graves desordens funcionais e orgânicas; e o excesso, colocando o organismo momentaneamente ao abrigo das invasões do exterior, produz por ação reflexa um desfalecimento de tensão, que pode reduzir o organismo à impotência. Não há uma só moléstia, mesmo local, que não tenha por origem um desses dois termos extremos e antagônicos: todos os desvios orgânicos partem de uma falta ou dum excesso de tensão. A moléstia, resultado de um desacordo puramente dinâmico, não é essa entidade de convenção, que o materialismo médico coloca nas partes líquidas ou sólidas do organismo. A moléstia não deriva nem da inflamação das mucosas, nem da desagregação dos tecidos, nem da alcalescência dos humores, nem de uma suposta luta entre elementos químicos, tais como os ácidos e os álcalis. Deriva, ainda menos, da invasão mórbida dessas nuvens de micróbios que, na opinião dos nossos sábios, povoam o ar e as águas que nos rodeiam.
São conseqüências, não causas. “Se a moléstia tivesse por causa os produtos que ela origina, dizia, gracejando, um de nossos espirituosos homeopatas, bastaria assoar-se bem, para curar radicalmente o mais inveterado coriza.” Propriamente falando, não há moléstias nervosas, nem moléstias específicas, nem moléstias miasmáticas. Só há perversões da tonalização, trazendo deslocamentos mais ou menos graves nas condensações da força. O antagonismo entre a tensão interna e as tensões ambientes, produzindo condensações anormais, paralisa ou destrói certas vibrações em atividade da tonalidade e produz esse fenômeno de luta entre duas vibrações, donde partem essas dissonâncias tão conhecidas em acústica pelo nome de batimentos. Se o enormon se retrai ou se escapa sob o impulso de uma causa violenta ou de uma emoção viva, se se inclina para tal ou tal ressonância da tonalidade, como sejam o coração, o cérebro, o pólo genital ou o fígado, produz essas agitações do coração, que se levantam à aproximação do terror, de uma desgraça, de uma decepção, ou somente de uma simples perturbação atmosférica; ou ainda esses suores que inundam a nossa fronte, essas efusões de lágrimas, essas hemorragias, esses movimentos de bílis, essas secreções urinárias, esses transviamentos que empolgam as nossas faculdades e comprometem momentaneamente todo o mecanismo vital e o livre-arbítrio.
O medo, uma emoção, o choque de um só pensamento triste ou violento, algumas gotas de uma bebida, posta em contato com os nossos órgãos digestivos, podem romper subitamente a harmonia da nossa tonalidade e lançar o enormon em desvios comprometedores, que arrastam o organismo a todas as emergências patológicas que se tem tentado classificar. Supor um só momento que a origem dessas perturbações não está em nós, mas fora de nós, atribuí-las à presença de germes preexistentes e primitivamente mórbidos nos meios que nos cercam, é sacrificar a lógica e a razão a uma crença verdadeiramente supersticiosa. Admitir que todas as criaturas estão, como pretendem alguns, à mercê de uma panspermia microbiótica primitiva, essencialmente criada para ser nociva, é substituir o acaso dos meios às leis imutáveis que regulam de maneira uniforme a harmonia dos fenômenos: “A vida do homem – diz o Sr. Béchamp, adversário declarado da teoria miasmática –, do mesmo modo que o curso dos astros, não pode estar entregue ao acaso.” Em Fisiologia, como em Física, só há uma lei, que é a das forças. Se há micróbio, não é ele que engendra a moléstia, mas sim a moléstia que engendra o micróbio; este não é, de maneira alguma, causa determinante específica, é um epifenômeno.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.