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Capítulo 19 de 30
Parte 19 de 29
Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier
Vejamos o exemplo: Cortando-se qualquer número de retas, paralelas entre si, por uma linha AB que caia sobre essas retas naturalmente, todas as divisões assim obtidas são iguais: eis a uniformidade no paralelismo. Substituindo-se a linha AB por uma oblíqua CD, as divisões obtidas por esse modo tornam-se desiguais e proporcionais à inclinação da oblíqua: é a multiplicação indefinida de termos desiguais sucedendo à igualdade do paralelismo, é a diversidade sucedendo à uniformidade, o movimento ao repouso. Enquanto a causa primeira conserva-se, pois, no paralelismo de seus elementos, isto é, na imanência passiva da sua unidade, está, para nós, no estado de princípio abstrato, inapreensível, invisível, ideal e imaterial. É o zero antes da hierarquia serial dos números, que a sua potência virtual produzirá mais tarde, é esse estado primordial do Princípio-Principiante, designado à frente do primeiro capítulo da Gênese pela palavra Beroeshiht: “Antes de haver-se criado qualquer coisa, o Princípio existia em potência e não em ato”. Mas, que a Causa Primeira venha a manifestar-se na angulação dos seus três princípios; que o zero, em vez de ser só, apareça com o sinal mais (+) e menos (–), o paralelismo cessa e a angulação começa, indefinida, tudo sai da imobilidade do nada: o múltiplo sucede à unidade, o concreto ao abstrato, e o movimento da série aparece em toda a sua majestosa potência, manifestação visível da Idéia Primordial.
Do antagonismo dos sinais mais (+) e menos (–), saindo angularmente do zero, nascem as séries positivas e negativas dos números: +1 +2 +3 +4 +5 +6, etc. –1 –2 –3 –4 –5 –6, etc. Depois, de um lado, como a unidade pode juntar-se indefinidamente à unidade, a hierarquia ascendente das séries positivas e negativas caminha para um infinito que ela jamais poderá cumular nem atingir, dando-nos, desse modo, a imagem do infinitamente Grande; por outro lado, como a unidade pode, igualmente, subdividir-se em frações cada vez menores, sempre suscetíveis de se dividir ainda, a hierarquia descendente das séries positivas e negativas caminha indefinidamente para o zero, sem nunca atingi-lo, dando-nos assim a imagem do infinitamente Pequeno. Assim se desenrolam indefinidamente, no infinitamente Grande e no infinitamente Pequeno, os termos da série universal, saindo todos da Causa Primeira, sem nunca terem produzido aí algum vácuo e gravitando para ela sem jamais conseguir fundirse em sua individualidade onipotente; não participando sua natureza intrínseca da outra em coisa alguma e sua existência essencialmente objetiva sendo apenas devida a uma manifestação abstrata, cuja cessação faria instantaneamente reentrar toda a série em o nada do zero e na uniformidade do paralelismo.
A maneira ideal pela qual o mais (+) e o menos (–) se combinam com o zero (0), mostrando-nos movimento da série, originado de um impulso primitivo, que não supõe prévia existência de matéria alguma, nos ensina de que modo o real pode nascer do ideal, e como, aparentemente, do nada pode sair alguma coisa.
A substancialidade da forma não se nos manifesta, então, senão como a expressão do espírito sutil e imponderável da força; o universo visível sai da imaterialidade de um princípio, do mesmo modo como os números saíram da imaterialidade do zero. A série, originada de um antagonismo abstrato, se desenrola sob as nossas vistas, no seu movimento de progressão e expansão como causa e substância, ao mesmo tempo como causa sendo força, como substância sendo figura; e causas e substâncias, até então dissociadas, reconciliam-se nesse tipo eterno da série, infelizmente tão ignorado e ainda desconhecido, se bem que as forças livres da Natureza nos ofereçam a cada passo a imutável e constante expressão desse fato. Vede desenhar-se no céu uma das mais majestosas manifestações da série, o arco-íris. A projeção irisada do espectro não é, acaso, substância, uma vez que sofre modificações e influencia os nossos sentidos? Mas, também é força e causa, porque as mil cores que o compõem vêm invariavelmente colocar-se por si mesmas numa ordem mística, que lhes é imposta pela lei das séries.
Mas a Ótica por si só não nos dá a imagem da série; descendo até o âmago de cada fenômeno, encontraremos por toda parte, no Universo visível, a sua manifestação substancial. Saindo, assim, da concepção metafísica que nos tem servido de ponto de partida, nos entregaremos ao estudo experimental e à observação por meio dos quais poderemos remontar depois à Idéia Primeira, porque é do encontro destas duas linhas partindo de dois pontos diferentes que, somente, poderá jorrar a luz capaz de esclarecernos sobre a verdadeira interpretação dos fenômenos. O que quisemos desde logo estabelecer com clareza foi a supremacia da força sobre a matéria, sua anterioridade; quisemos demonstrar que a força é para a forma o que a idéia é para o ato: A força precede a forma e se manifesta aos nossos sentidos pela forma, do mesmo modo que a idéia precede o ato e se corporifica aos nossos olhos pelo ato.
A força e a idéia podem existir em si, sem se exprimirem por seus veículos naturais, a forma e o ato; conservam-se, então, em potência prestes a manifestar-se; mas assim como a idéia engendra todos os atos, também a força, origem única dos fenômenos da Natureza, engendra tudo o que cai sob os nossos sentidos; o Universo, em uma palavra, não é senão “a realização da Idéia Primordial pelo movimento”. Todos os nossos esforços devem, portanto, tender para estabelecer a “Lei do movimento”; é ela que nos dará a chave da Física geral.
Ora, essa lei decorre naturalmente, como vamos ver, das premissas que acabamos de estabelecer. Vimos a série no espectro colorido, da luz fazer a força do seu princípio abstrato, tornando-a impressionável nos nossos sentidos, mostrando-no-la, com efeito, suscetível de mais e de menos, e substancializando-se em matizes múltiplos, tão fixos como as divisões do ângulo geométrico de que saiu. Se essas diferenciações vêm afetar os nossos sentidos de várias maneiras, é porque os nossos sentidos são organizados de modo a fazerem com que as nossas percepções sofram numerosas bifurcações. Efetivamente, fenômenos tão diversos na aparência, como sejam os da eletricidade, calor, luz, magnetismo, não são mais que modificações, em suas diversas aparências sensoriais, de um fato único que é o movimento da série. É o movimento da série que, devido à angulação do raio branco, permite à vista apreender no prisma, debaixo das cores azuis do espectro luminoso, as dilatações da força, opondo-se por antagonismo às suas condensações representadas pelo vermelho.
E, se a angulação retilínea do prisma substituir-se por uma substância angular circular, a série de anéis irisados concêntricos, que sucede ao espectro linear, dará uma imagem mais completa ainda da hierarquia serial da força. Compreendemos então como a força, obedecendo ao imutável princípio que regula a sua expansão e fracionamento normal pela angulação, pode produzir essas maravilhosas combinações de matizes que vêm encantar os nossos olhos na coloração dos cristais, na da plumagem e pêlo dos animais, em todas as superfícies variantes da Natureza, onde a força, quebrando-se em mil metamorfoses luminosas, produz uma miragem sempre nova e continuamente renascente. Mas a luz não é o único fenômeno que nos permite apreender o movimento da série; os nossos sentidos podem ainda fazê-lo na afinidade molecular, na coesão, na capilaridade, no atrito, na osmose, gravidade e gravitação, outras tantas manifestações do movimento serial. Tudo repousa neste fato de seriação fenomenal. A harmonia do mundo depende dela; cada corpo, seja simples ou composto, bruto ou organizado, representa uma modalidade, uma fração ou um termo dessa série eterna, que se manifesta em categorias infinitas, através dos próprios espaços infinitos.
Prisma imenso, onde, desde o movimento molecular da cristalização elementar, até ao dos astros, as forças seriais vêm exibir-se em dilatações e condensações sucessivas, o Universo nos mostra a sucessão dos corpos como sendo de alguma forma o colosso em miniatura do grande espectro natural. A cristalização, do mesmo modo que os anéis óticos, é, em grau diferente, uma solidificação serial sob a influência de um movimento angulado; e a gravitação, que se nos representa na Ciência como a simples expressão de uma relação numérica fixa, é a confirmação de um fato muito superior, a constituição normal da série. A série nos aparece, pois, como a expressão da força em sua expansão primordial, em seu equilíbrio simples. É ela que designa a cada elemento o seu lugar na Natureza, conforme essa ordem fixa e imutável que nada tem do dualismo inflexível e cego, negativo, positivo, repulsivo e atrativo, que se lhe empresta, porém resulta das irradiações da força em torno de categorias de centros, determinados pelo impulso de um PRINCÍPIO PRIMORDIAL regulador.
A força, na expansão normal e ritmada da sua expansão serial, segue marcha igual e proporcional às resistências que encontra, e essas resistências, que variam ao infinito, opõem ao movimento livre e regular da série limitações incessantes; são essas limitações que produzem os efeitos especializados da força.
SÉRIE e LIMITAÇÃO constituem, de alguma forma, dois termos inseparáveis, que se completam; a série é o instrumento do arranjo metódico da força: a limitação é a verdadeira mola de suas combinações; o único fato da angulação que sofre a força desde a origem da sua marcha serial não será já um primeiro fato de limitação? A limitação nasce, portanto, com a série; depois resolve-se alternadamente, ou se opõe com ela, quer secundando o desenvolvimento da série, como na angulação do prisma, quer atrasando esse desenvolvimento e favorecendo os estados de condensação da força que vem ferir os nossos sentidos sob a forma luminosa, calórica, elétrica, magnética ou acústica.
Se tomarmos do ângulo geométrico, por meio do qual demos uma idéia do modo pelo qual nasce da angulação o movimento serial, poderemos ainda, tomando os dois pontos quaisquer sobre as retas que formam esse ângulo, e juntando estes dois pontos por uma linha, conceber figuradamente de que modo a limitação nasce de um estacionamento da série: Em vez de um ângulo indefinido, cujos lados se vão perder no infinito, obremos uma figura fechada, o triângulo; ora, o triângulo é precisamente a base elementar do desenvolvimento das formas na Natureza; é a figura geométrica que engendra todas as superfícies. Platão havia cogitado da possibilidade de tudo referir às divisões de triângulo; efetivamente, o triângulo é a substancialização da Tríade geradora universal, presidindo à edificação dessas inúmeras combinações da força a que damos o nome de corpos; é essa Tríade limitada que, criando equilíbrios transitórios, obriga a força a se espessar, de qualquer maneira, desde a sua dilatação mais sutil – os gases –, até a condensação mais acentuada – os metais –, passando pela liquefação, termo médio da expansão; mostrando-se-nos sucessivamente sob os três estados característicos (gasoso, líquido e sólido) essa matéria de que se faz uma entidade diretora e que realmente nada mais é do que o produto das resistências que a força encontra; o produto das limitações que ela sofre e o dos equilíbrios provisórios que dela resultam.
A Natureza é, portanto, o resultado dum jogo constante de limitações, fazendo oscilar a força entre um minimum e um maximum de condensações, que procuram equilibrar-se; e assim é que há corpos dotados de movimento em mais ou menos, e corpos neutros ou indiferentes; é assim que passam os corpos de um estado para outro, influenciam-se mutuamente, unem-se ou se desassociam; e que a força, em sua marcha incessante para limitações sempre novas, indispensáveis ao mesmo tempo ao seu equilíbrio e à sua impulsão, passa por esses efeitos compostos, que fazem do Universo um caleidoscópio imenso, em que se refletem com riqueza e diversidade inauditas todos os elementos criados.
Manifesta-se-nos então a substância sólida ponderável sob nova feição, isto é, como Movimento em estado passivo, como Força condensada, sob a lei de um equilíbrio ocasional, que o mais leve impulso determinante está sempre prestes a libertar, para reabrir-se nessa Força-princípio, momentaneamente retida nos liames que a embaraçam, as eternas veredas que ela é eternamente chamada a percorrer. Assim, turbilhonam nos espaços infinitos as inumeráveis metamorfoses do Universo, engendradas por essas combinações múltiplas que se formam e desfazem alternadamente; e os fenômenos de fosforescência, de aromatização, assim como a isolação elétrica ou calórica, nos aparecem como a resultante de um fato único: a resistência que certos estados condensados da força opõem ao movimento livre e regular da série.
A limitação, dando-nos a chave das teorias da iluminação, dos explosivos e da têmpera de que ela é a base, ensina-nos que, por combinações variadas, podemos mesmo, até certo ponto, modificar artificialmente as resistências, ou opor-lhes dissimilares, de modo a produzir nos corpos profundas modificações ou conflagrações violentas; e é por essas especializações sucessivas naturais ou artificiais, que a força se dirige, individualizando-se cada vez mais, para o seu termo final, que é o estado de tonalização de que o monocórdio nos dá uma imagem tangível. Suponde efetivamente uma corda de violino não tensa; ela conserva-se muda; mas dai tensão a essa corda, limitando-a em sua extensão entre dois pontos fixos; ela se anima e vibrará sob a pressão do dedo que a encurva num deslocamento angular; oscilará descrevendo uma figura elipsoidal, produzindo um som.
A elipse e o som angularmente produzidos pela distensão da corda são a resultante de uma série infinita de outras ressonâncias que acompanham a principal; “é, de alguma sorte, um eco múltiplo que se vai afastando até aos limites da percepção, e uma oscilação elíptica que, decompondo-se até aos extremos imperceptíveis das divisões moleculares, nos permitem apanhar num só movimento vibratório o tipo da série infinita.” (Louis Lucas).
Na ressonância do monocórdio, o olhar e o ouvido podem, pois, seguir ao mesmo tempo os efeitos de limitação e de seriação da força. Um terceiro estado, mais especializado, daí decorre igualmente; porque, se se conseguir modificar a limitação da corda, reduzindo-lhe a extensão pela metade, pela terça ou quarta parte, obter-se-á sempre a mesma série de figuras elipsoidais, a mesma série de ressonâncias; tão somente mudará o som fundamental da corda, a cada redução da limitação; e se obterá assim uma sucessão de individualidades tonais caracterizadas, que constituem o que se chama tonalidades. A tonalidade, que poderíamos figuradamente representar pelo círculo, do mesmo modo que já representamos a série pelo ângulo e a limitação pelo triângulo, é o ponto no qual vem regularizar-se o movimento serial de uma ou várias séries, para produzir um movimento unificado e especializado.
Já não é o movimento simples e primordial da série onde a força se equilibra sobre si mesma e numa série indefinida de termos hierarquizados; é o equilíbrio fictício de elementos diversos, sobrecarregados de disparates e antagonismos, que fariam acreditar na sua aproximação e confusão, e que, entretanto, se acham envolvidos numa unidade superior tonalizante, que os regula e os domina sem absorvê-los. Em outras palavras: tonalização, significando exclusivamente “sujeição do múltiplo à unidade”, exclui toda idéia de retorno à unidade; não é, de modo algum, uma fusão: é uma organização do múltiplo.” (Louis Lucas).
A tonalidade, de fato, não possui nenhuma relação de partes com os detalhes que a compõem. É autônoma. É o tipo da individualização, é a base de todo organismo; desde o equilíbrio mais simples até o mais complicado, a escala dos seres nos apresenta uma série ininterrupta de equilíbrios complexos, oscilando em uma centralização mais ou menos graduada, formando um todo unitário provisoriamente tonalizado, de que nos dá múltiplos exemplos a individualidade do líquen e do pólipo, até a do carvalho e do homem. O próprio Universo no seu conjunto, manifestação equilibrada da Idéia Primordial, resumindo todas as tonalizações individuais, não é mais do que uma tonalização universal, absorvendo na esfera todos os círculos, do mesmo modo que o círculo absorve o ângulo e o triângulo. A lei fenomênica da força é una e tríplice como a Idéia Primordial que a originou e da qual aquela é somente o reflexo.
Resumamos e digamos: Uma única hipótese – a Idéia Primordial, una, trinitária, dando a impulsão primeira a tudo o que existe e criando o movimento dos mundos: princípio abstrato que podemos apanhar em seus termos absolutos, por analogia com a Idéia Primordial matemática, que produz a série e cria o movimento dos números. Uma só lei fenomênica: una e trinitária, como o princípio abstrato de que ela emana, realização simples da Idéia Primordial, resolvendo-se nestes três termos verificáveis pela observação e a experiência: série, limitação, tonalidade, apresentando três idéias sem sucessão, coexistentes e constituindo apenas uma. Tal é, em nossa opinião, a idéia organizadora, que deverá um dia unir num só feixe as ciências especiais, cujo conjunto constitui o saber humano: tal é a lei fundamental, que deve servir de base à terapêutica do futuro. Se o valor de uma hipótese se mede pelo número e pela importância dos pontos que ela esclarece, assim como pela simplicidade e generalidade das causas que servem de base aos seus princípios, acreditamos com os Srs. Girard, Emile Jacquemin e Louis Lucas, escritores e filósofos distintos, nos quais nos inspiramos e em cujas obras fizemos tantos empréstimos, que, por sua unidade sintética, esta hipótese suprime o espírito de divisão, de análise e particularismo, que reina atualmente na Ciência.
A rígida individualidade concedida a cada partícula, a cada átomo, a cada corpo, ainda mais a cada uma das modificações desses corpos, rompendo o fio das deduções, multiplicando os pontos de vista, nos tem afastado insensivelmente do ponto de mira; se quisermos ligar a cadeia indefinida e ininterrupta dos fenômenos que uma falsa concepção das coisas quebrou, é necessário voltar à unidade da qual nos afastou o trabalho da análise moderna. O objetivo supremo da Ciência, o Conhecimento da Verdade, não pode ser atingido fora do trabalho do pensamento, pela experiência única dos sentidos. É necessário aliar a filosofia à experimentação; cumpre não separar a teoria subjetiva do domínio dos fatos; romper com essa idéia dualista, que contribui para postergar os progressos da Ciência e consiste em tomar de um dos termos do problema para opô-lo ao outro. O antagonismo da força e da matéria não existe; os fenômenos da Natureza não são, tampouco, o produto necessário de forças físico-químicas inerentes à matéria. Esta, com sua divisibilidade infinita, não pode ser tomada como ponto de partida das nossas concepções filosóficas.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.