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Capítulo 27 de 30
Parte 27 de 29
Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier
B., afinal, tanto quanto eu, deposita apenas uma confiança muito medíocre nos remédios; por outro lado, suas finanças não lhe permitem de maneira alguma cometer loucuras na farmácia, se tantas vezes lhe é necessário passar à padaria para sustentar tantas bocas. O uso repetido de um processo tão simples e tão pouco custoso, durante dez anos consecutivos, sem nenhum insucesso, tanto sob o seu teto como sob o meu, deu-lhe bem depressa uma imperturbável confiança nos efeitos magnéticos. É, pois, muito naturalmente, neste agente da Natureza que ele pensa e a que recorre, quando um dos seus está em perigo. Vou referir de que maneira foram postas à prova, nestes últimos tempos, as suas convicções. Invocando a nossa amizade, peço-te me aconselhes, pois serei muito reconhecido.
Sempre o imprevisto! Quantas misérias na vida! Como tudo isto é terrível! O seu amigo aflito B.” Tristemente impressionado com esta notícia, respondi na volta do correio. Procurei haurir na amizade sincera que tinha pelo pobre aflito, todas as consolações que pudessem levantar a sua coragem, mas eu conhecia o alcance do perigo.
A Sra. B., esgotada pelos partos reiterados, ao último dos quais seguiu-se uma peritonite que quase lhe foi fatal, não estava em condições de suportar um assalto tão terrível como o de que se achava ameaçada; fiz-lhe sentir a esperança de que o médico podia enganarse sobre o seu estado, mas a carta seguinte, recebida 24 horas depois, nada mais era do que a confirmação da primeira: “30 julho 1893. – As vossas palavras consoladoras fortificaram a minha coragem; com a calma volta-me a razão: sinto-me armado agora contra o perigo. Mas, ai de mim! Não há duvidar, a minha pobre mulher está realmente com o tifo; na opinião do médico ela entra na segunda fase da moléstia; febre ardente, indo até ao delírio (temperatura 39º, pulso 130), dejeções involuntárias, líquidas, infectas, sanguinolentas, 25 a 30 nas vinte e quatro horas.
Não procuro iludir-me: minha pobre mulher está minada, esgotada pelos reveses que teve de sofrer desde o começo da nosso união; o físico está enfraquecido e receio não tenha a força necessária para resistir ao assalto desta terrível moléstia; noto um deperecimento físico e um enfraquecimento cerebral tão rápidos, que chego a temer uma desgraça. Esforço-me, tanto quanto é humanamente possível, para impor silêncio ao meu coração e dominar a sorte que nos fere, mas o estado da doente vem legitimar de maneira acentuada os meus pressentimentos. Comecei hoje mesmo com o Magnetismo; o efeito foi instantâneo, a doente experimentou desde logo um alívio; não me animo a fazer senão passes de grande corrente, temendo com a minha inexperiência trazer algumas perturbações, especializando os meus efeitos. Tenho necessidade dos seus conselhos para dirigir os meus esforços, e conto com a sua boa vontade; peço-lhe, pois, que, na volta do correio, me diga o que devo fazer em presença de um caso tão grave e tão novo para mim; não que eu, noviço como sou, tenha a pretensão de pear moléstia tão adiantada, mas na esperança de trazer algum alívio à bondosa doente. À vista destas tristes complicações tenho, como vê, necessidade de apelar para toda a minha filosofia, e espero ansiosamente que virá em meu auxílio.
Seu dedicado B.” Eu poderia desde logo chegar ao epílogo, referindo por que fases passou a moléstia; mas, assim procedendo, tiraria à narração o seu colorido e faltaria ao fim a que me propus; prefiro, pois, ainda que seja mais longo, deixar a palavra ao Sr. B., transcrevendo aqui mesmo os extratos de sua correspondência, que mostrarão muito melhor do que tudo quanto eu pudesse dizer, as peripécias de uma luta onde o Magnetismo, auxiliado por uma corajosa perseverança, pôde triunfar, sem medicamento algum, de uma afecção mórbida considerada, com razão, como das mais temíveis: “1 agosto 1893. – Que felicidade! O Magnetismo opera maravilhas, reanima as forças da pobre doente. Vossas instruções, completando as minhas inspirações, coroam felizmente os meus esforços e espero poder lutar com vantagem contra o terrível flagelo.
Após cada magnetização escrupulosamente feita, como o indicais, produz-se uma reação, copiosas transpirações anunciadas pela coloração do rosto precedem abundantes dejeções; produz-se nos intestinos como que um grande ruído de revolvimento, e então... um lago de líquido... Há, de cada vez, igualmente uma emissão abundante de urinas. Esta fase traz um alívio notável à doente, acalmando-lhe as dores agudas intestinais de que sofre. O ventre, até então bastante abaulado, tem diminuído muito; o delírio ainda é freqüente, mas o estado comatoso quase cessou. Velei esta noite por causa do estado de superexcitação que me inquietava, e aproveitei-me desta circunstância para magnetizar durante todo o tempo; esta manhã considerei-me bem pago do meu trabalho, porque minha mulher apresentou-se mais calma e descansada.
Em meio de tudo isso, não me esqueço das vossas recomendações, com relação às fadigas inúteis, porque compreendo a necessidade de poupar as forças, a fim de fazer face às crises que podem sobrevir. O médico, que no começo, não me ocultava as suas inquietações nem a gravidade do caso, parece um tanto embaraçado com esta melhora súbita, cuja causa naturalmente ignora. Limita-se, simplesmente, a averiguar a melhora e retira-se prescrevendo as mesmas poções, que, logo que sai, me apresso em atirar pela janela – o que tenho feito desde o começo. Pusemos tudo de parte: água de Vichy, caldo, vinho e mesmo a tília; só damos leite e água açucarada, levemente acidulada com sumo de limão. Minha mulher, mesmo antes que o houvésseis dito, recusava instintivamente todos os alimentos líquidos que me assinalastes, como podendo ser-lhe prejudiciais, e o médico, diante dessa resistência tinha sido obrigado a ceder pouco a pouco.
Esta coincidência da repugnância instintiva da doente com as suas recomendações dispensa comentários e tende a provar que estáveis de acordo com a Natureza...” “5 agosto 1893. – O calor vital, que subira a 39,5º caiu a 38,5º e hoje a 38º. Apesar desse abaixamento de temperatura, ainda há delírio, gorgolejo no ventre e às vezes prostração e estupor; a língua é seca, a sede é imperiosa. Entretanto, aprece-me que o emagrecimento não se acentua. A doente passou bem no decurso do dia e dormiu toda a noite sem delirar; apenas de longe em longe, soltava longos suspiros de alívio, após cada magnetização.
Quando faço imposições sobre os pés ou seguro a parte posterior das pernas em minhas mãos, sinto-me invadido por um mal-estar, como se absorvesse o fogo da moléstia; mas, felizmente, isto é apenas passageiro e liberto-me prontamente, desde que tomo ar. Minha mulher sente perfeitamente os bons efeitos do Magnetismo, porque a todo momento dá-me tocantes testemunhos, animando os meus esforços com as suas palavras. – Ó! ainda, ainda! – diz-me ela – magnetiza-me mais, fazme tanto bem... – Sinto que sem a tua intervenção eu morreria ou não teria forças para suportar tantas dores.
Não me deixes. Estas exortações, que com freqüência ela repete nos curtos instantes de lucidez que a ação magnética parece desenvolver, emocionam-me profundamente, reanimam a minha coragem, fazem com que esqueça as fadigas e são para mim o melhor penhor da eficácia dos meus esforços e do feliz resultado com o qual temos agora o direito de contar.” “7 de agosto 1893. – O estado geral vai melhorando sempre; a diarréia cessou completamente, os gorgolejos vão diminuindo, a fossa ilíaca direita, que até então parecia ingurgitada, deixa-se deprimir; a doente não mais se queixa senão de dores passageiras em torno do umbigo; mas estas são, às vezes, tão vivas, que ela grita como se estivesse para dar à luz. Repito, então, as magnetizações, imposições, longos passes, etc. Mas são ainda os ligeiros passes rotatórios sobre o ventre, quase ao nível da pele, com as pontas dos dedos, como indicastes, os que melhor acalmam.
As imposições muito prolongadas na barriga das pernas parecem, ao contrário, determinar profundos abalos e excitar sofrimentos intestinais. As noites são bastante calmas, o sono sem delírio; mas no estado de vigília, a superexcitação continua a ser muito grande; procuro dominá-las com imposições sobre a testa e a nuca, mas consigo pouca coisa. Esta agitação persistente me inquieta; será isso devido à extrema fraqueza nervosa da doente, ou será a marcha inevitável que deve seguir a moléstia? Há sempre grande secura da língua e pequenas ulcerações na mucosa da boca. Às vezes minha mulher procura sair da cama e envida todos os esforços para levantar-se e escapar-nos; redobramos, por isso, de vigilância e estamos de alcatéia contra esses retornos insidiosos do mal.
Neste momento ela repousa banhada em suor e espero que este sono se prolongue até pela manhã, como ontem. Os cabelos, aos quais não tivemos a precaução de trançar e de erguer no começo da moléstia, embaraçam muito a doente, desprendem um cheiro desagradável, que a incomoda, e de tal modo se acham embaraçados, que nada se pode fazer.” “10 agosto 1893. – Tenho a participar-te, hoje, uma melhora sensível. Minha mulher já não sofre absolutamente do ventre: já não há diarréia, nem gorgolejos, nem gritos, nem queixumes; as ulcerações da boca estão cicatrizando; as dejeções tornaram-se normais e regulares; o ventre já não está duro, nem intumescido e parece que definitivamente escapamos dos riscos da peritonite; todavia, tomo cuidadosamente nota de todas as tuas recomendações, a fim de pôr-me em guarda contra qualquer retorno possível, dos acidentes que me assinalaste. Cortaram-se os cabelos, a pedido da própria doente, que já não podia suportar-lhes o peso, nem a desordem e tampouco o odor.
A melhora das noites, que há três dias se tem apresentado, permitindo descansar mais, traz-nos a todos um alívio muito considerável. Estaremos efetivamente ao termo dos nossos trabalhos?” “13 agosto 1893. – A melhora se acentua definitivamente; a língua está-se tornando limpa, as crises de agitação cada vez mais se afastam e são mais curtas; apenas magnetizo duas vezes por dia. Afinal, coisa singular! Minha mulher, que encontrava tanto alívio nos passes rotatórios sobre o ventre, já não pode suportá-los.
Pede-me principalmente que lhe faça longas imposições: é o que mais a alivia; como vês, é a própria doente que me guia, e agora os intestinos vão melhor, ela tem de algum modo a intuição de que já não é necessário secundar as forças da Natureza. Pediu-me que lhe fizesse imposições e ligeiros passes na região do coração; não somente isto a alivia muito, como ainda, coisa esquisita, sob a influência desses passes, ela cai quase subitamente numa espécie de sono letárgico, as pálpebras cerram-se com força e a respiração se torna mais longa e profunda. Durante esse sono, o coração e o pulmão parecem dilatar-se e funcionam com mais liberdade. Em suma, eis-nos agora mais tranqüilos acerca do epílogo dessa temível moléstia; nossas angústias acalmaram-se. Pondo de parte os transes por que passei, não estou descontente, confesso, com a experiência que acabo de fazer; como são cegos os homens!
Como desejo que os pais de família magnetizadores se multipliquem. Quanto a mim, cumpre convir, acabo de fazer uma excelente aprendizagem, um tanto cruel, é certo, mas decisiva!...” “17 agosto 1893. – Não escrevi nestes últimos dias porque nada tinha de interessante a assinalar. A convalescença é definitiva, os sofrimentos acalmaram-se; não mais se trata de delírio, a língua está boa, o calor é normal; a doente vira-se na cama e pode finalmente deitar-se de lado; diz que tem fome. O teu cálculo foi bem feito, quando prognosticaste há um mês o começo da convalescença para 15 de agosto, o mais tardar.
Agora, só há evitar as imprudências: estarei vigilante e também minha mulher, porque a peritonite que ela teve depois do seu último parto, e que necessitou uma convalescença tão demorada, ensinou-lhe a ser prudente. Enviamos a todos as nossas mais sinceras afeições, a ti particularmente a expressão bem viva do reconhecimento da nossa querida ressuscitada.” Seis semanas depois, em fins de setembro, tornando-se a doente transportável, toda a família voltava a tomar sua casa de inverno em Paris. A doença havia sido terrível, a convalescença devia ser longa; mas, em 25 de novembro, a doente, completamente restabelecida e talvez melhor equilibrada do que estivera, saía pela primeira vez, depois dos cinco meses que guardara o leito: era para assistir a uma tocante festa de família, tendo-se tido a boa idéia de celebrar ao mesmo tempo, com gigantesca árvore de Natal, não só a alegria das crianças, como a ressurreição de sua mãe.
Tal é, dia a dia, hora por hora, a narração da luta homérica que um homem que jamais praticara o Magnetismo, porém que estava profundamente animado do desejo de salvar sua querida companheira e mãe dos seus filhos, sustentou durante quarenta dias contra a mais temível e a mais pérfida das enfermidades, não apelando para nenhum outro auxiliar, além das suas próprias forças e do poder da sua vontade, que constituía toda a sua ciência. Este exemplo é um precioso ensinamento para todos, e eis porque o apresentamos, com toda a sinceridade de forma, demonstrando, assim, o que se pode esperar da reação vital, quando nos limitamos a solicitá-la pelos meios mais naturais e simples, tais como as imposições e os passes magnéticos.
A cada passo, a observação nos mostra a admirável simplicidade das veredas da Natureza e dá-nos a chave das misteriosas analogias que formam o laço dos fenômenos; é muitas vezes, na interpretação dos fatos mais insignificantes na aparência que haurimos os elementos de nossas concepções mais profundas; e o acaso serve-nos, às vezes, singularmente neste modo de evolução do pensamento. Eis aqui um fato de que me fez testemunha o mais simples dos acasos, e que me auxiliará, assim o espero, a exprimir melhor o meu pensamento quanto ao proveito que se deve tirar das coisas que nos cercam: A teia de aranha Certo ano, quando terminavam as férias, depois de havermos visitado a Suíça, tínhamos passado o São Gotardo e fomos descansar alguns dias em Cadenábia, sobre o lago de Cômo. Era para mim um verdadeiro gozo ir todas as manhãs a essas margens tranqüilas fazer o meu passeio, no meio de uma vegetação luxuriante, que faz lembrar as regiões tropicais e constitui agradável contraste com a aparência triste dos pinheiros alpestres.
Não distante do hotel em que morávamos, no meio de um tapete de verdura semeado de tamareiros e loureiros, elevava-se um pé de magnólia, cuja envergadura poderosa e larga folhagem de um verde brilhante haviam excitado minha admiração desde o primeiro dia. Certa manhã, parando junto à minha árvore favorita, percebi grande aranha amarela, zebrada de branco, no centro de majestosa teia, tecida com muita arte, e formando, entre a relva e os ramos inferiores da magnólia, vasto plano inclinado, que se apresentava aos primeiros raios do Sol nascente em posição verdadeiramente estratégica.
Nesse momento, acabava de acender um charuto e conservava na mão o fósforo de que me havia servido; veio-me a idéia de atirá-lo à teia; tinha curiosidade de saber o que adviria. Apenas o fósforo tocara os fios, incrustando-se neles, toda a rede pareceu vibrar até ao centro e de um salto a aranha atirou-se sobre o intruso; julgou sem dúvida que não era uma boa presa, porque, sem mais detença, começou incontinente a expulsá-lo. Assisti, então, ao mais admirável dos espetáculos: não se faz uma idéia da habilidade desenvolvida nessa operação pelo industrioso inseto. Que delicadeza extraordinária! Que presteza admirável!
Em rápido olhar, o inteligente animal desamarrou todos os fios que retinham preso o fósforo; impeliu-o para o vácuo; depois, tecendo novas malhas, a fim de substituir as que se tinham quebrado, encaminhou-se para o centro do seu domínio, sem deixar depois de si qualquer traço de ruína. “Se eu houvesse tido a idéia, dizia a mim mesmo, de retirar essa pequena parcela de madeira, que perturbação não teria suscitado nessa malha delicada, com os meus dedos inábeis e grosseiros! “De que maneira teria podido reparar as lacerações que seria preciso fazer? “O hábil artista, que possui o segredo dessa sábia construção, não teve dificuldade em reparar o dano causado à sua obra, mas ele foi o seu primeiro arquiteto e a Natureza, com toda a previsão, lhe tinha fornecido previamente as instruções e os materiais necessários.” Que lição a tirar desse fato! Que instrutivo espetáculo para o observador, que se esclarece pela analogia.
Que admirável aproximação a fazer entre essa teia delicada e sensível, radiando em torno de um centro vivo e ela própria viva, como a nossa rede vital, em que todos os pontos vibram sob o impulso direto e constante de um centro inteligente de ação. Quando um corpo estranho venha penetrar neste círculo dotado de sensibilidade e vida; quando um choque venha abalar esta rede delicada, porventura as forças vitais, que velam nos centros pela conservação do edifício orgânico, não se põem desde logo em ação, do mesmo modo que a aranha, para opor-se à invasão que as ameaça e não correm sobre o intruso como o inteligente animal? Se esse intruso é reconhecido boa presa, não é imediatamente enrolado, englobado e dissolvido na torrente circulatória, a fim de contribuir para o entretenimento do mecanismo? Considerado parasita inútil, como o fósforo, não é, ao contrário, imediatamente impelido e rejeitado para fora? E neste caso, as forças vitais coligadas não se conduzem igualmente como a aranha?
Não se unem, porventura, a fim de manterem a integridade do meio em que se expandem, refazendo, uma a uma, as malhas quebradas do tecido e cumulando o mais depressa possível os vácuos e as brechas feitas pelo ataque do exterior? Isto constitui uma lei absoluta da Natureza: que toda a excitabilidade produzida, num círculo vivo, chama a reação dos centros; se, por exceção, não se produz o fenômeno, é que a faculdade natural de reação se embotou e produziu-se uma falta de tensão, por uma causa acidental qualquer: é então necessário despertar as forças centrais deprimidas ou entorpecidas, e chamá-las à missão que a Natureza lhes impõe. Foi assim que se deu alguns dias mais tarde com a minha aranha. Uma bela manhã atirei, como da primeira vez, um pauzinho na teia; o instinto, adormecido pelo frescor matinal, estaria indiferente? Não sei.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.