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Capítulo 13 de 30

Parte 13 de 29

Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier

Em que sou mais culpado do que eles? Pequei contra a moral? – Ensino os homens a fazerem de suas reservas vitais o emprego mais nobre: aliviar os sofrimentos dos seus semelhantes. Transgredi a lei do ensino ou da Medicina? Que faço eu?

Será Física, Química, Medicina ou alguma coisa que exceda em grandeza a todas essas ciências? Há nisto uma ciência, ou uma arte? Eu mesmo não sei; tudo quanto posso dizer-vos, é que ensino a produzir o sono sem ópio, a curar a febre sem quina; a minha ciência dispensa as drogas, a minha arte arruína os boticários. Nós, magnetizadores, damos forças ao organismo, sustentamo-lo quando ele sucumbe; damos óleo à lâmpada, quando ela já não o tem. Vede quanto nos diferençamos dos sábios: estes, com toda a sua ciência, só conseguem eliminar a vida; nós damos-lhe maior duração.

O seu saber está contido em um livro, o nosso reside na própria natureza de cada ser. O nosso ensino é fácil e simples: não necessitamos de dissecar os cadáveres e os vivos. Não é uma ciência de palavras: é uma ciência de fatos. Considerais culpado um homem leal que quis dar provas daquilo que ele acredita ser uma potência nova capaz de prestar serviços importantes aos seus semelhantes? Um homem que só procurou pôr em ação as propriedades do seu ser?

Será acaso necessário que eu vá pedir ao Sr. ministro e ao Sr. reitor a permissão de caminhar? Caminhar, magnetizar, não constituem, em uma palavra, faculdade natural do homem? Grande número de sábios crê honrar-se grandemente, rejeitando sem exame as coisas novas. O tempo, no seu curso, lhes dará uma severa lição. Um dia o Magnetismo será a glória das escolas, os médicos empregarão os processos que atualmente condenam.

Finalmente, não se pode impedir de proclamar uma verdade. Calar-se, porque esta verdade pode ofuscar certos espíritos prevenidos ou retardatários, é, na minha opinião, mais do que um crime: é uma covardia.” Esse processo retumbante, facultando a tribuna ao valente propagandista e dando-lhe ocasião de exprimir altivamente o seu modo de pensar, atraiu aos seus cursos públicos grande número de alunos e de doentes. O mesmo ostracismo universitário, tendendo a tolher o vôo do Magnetismo, nem por isso continuou menos a dominar, e alguns anos mais tarde, em 1842, vemos Lafeuillade, procurador do rei junto ao Tribunal de Bressuire, exercer perseguições contra um magnetizador chamado Ricard. Esse curioso processo durou três anos, de 1842 a 1845. Condenado em Bressuire, Ricard conseguiu a anulação do processo no Tribunal de Cassação, e finalmente a absolvição definitiva perante a Corte de Angers, para onde fora remetido.

Da eloqüente defesa do advogado Charles Ledru, no Júri de Paris, patrono de Ricard, destacamos este quadro típico das flutuações e das contradições da arte médica, mostrando que ela obedece às mais arbitrárias especulações, reflete todas as fantasias e excentricidades do cérebro humano e edifica sistema contra sistema. Defesa do advogado Charles Ledru no Tribunal de Paris Não são os magnetizadores os únicos, neste mundo, cuja doutrina seja fortemente combatida. Quanto aos médicos, é bem sabido que eles nem sempre adotam a mesma opinião, já não direi sobre uma moléstia qualquer, porém sobre o modo geral de curá-la. Tomemos unicamente das mais famosas teorias médicas deste século. O célebre escocês Brown explica a maioria das moléstias por uma eliminação da força vital: é o estado astênico, para usar das sua linguagem; conseqüentemente, os doentes dessa escola estão colocados sob o regime dos estimulantes.

Essa consoladora teoria foi derribada por um doutor não menos célebre, o italiano Rasori. Este, só via por toda parte inflamações; em vez de estimulantes aplicava contra-estimulantes! É o pai intelectual dos Srs. Broussais e Bouilland. A verdade é uma só.

Pois bem, eis-nos, portanto, em presença de dois sistemas. Um trata a gastrite com água de gema, o outro com pimenta do reino e mostarda. A cura, na opinião de um, está numa alimentação excitante, substancial, num vinho generoso. “Acautelai-vos com tudo isso, diz o outro, fora das sanguessugas e da dieta, não há salvação.” Ainda isso é nada: “Chega Hahnemann e a homeopatia, em vez da máxima “Contrária contrariis curantur” emprega a máxima diametralmente oposta: “Similia similibus curantur”. Escutai-os: “A alopatia é a moléstia e a morte revestidas com o manto de uma ciência mentirosa.

O sol das inteligências é Hahnemann, e o tesouro da saúde se oculta nas doses infinitamente pequenas.” Não acrediteis que fiquem sem dar resposta os alopatas. “Que são os discípulos de Hahnemann? “Ignorantes, charlatães, profanadores de um culto, que são indignos de compreender.” E como esses senhores têm ao menos a vantagem da prioridade e das posições feitas, servem-se para com a nova escola dos mesmos processos que sempre empregaram os que possuem, contra aqueles que querem possuir. Foi assim que a Faculdade de Montpellier riscou dos seus registros o nome de um mancebo cheio de ciência e de talento, dizem, e cujo crime consistia no exagerado culto ao novo deus. Eis aí, senhores, o que é a ciência humana, a ciência chamada positiva.

Ora, admitindo o sistema do Sr. Procurador do Rei em Bressuire, que acontecerá no mundo judiciário? Aqui, um procurador alopata fará condenar à prisão todos os homeopatas; ali, um juiz homeopata, fará condenar à penitenciária os alopatas; e assim procederão os juízes de instância e de apelação à voz do Ministério Público, uns sob a bandeira de Brown, outros sob a de Broussais, e ainda outros sob a de Hahnemann. Para chamar à razão os cavaleiros desta nova cruzada, será necessário criar no Tribunal de Cassação uma sessão médica que estabeleça os bons princípios em relação à enxaqueca e a verdadeira jurisprudência em matéria de remédios. A lógica requer que assim seja.

Quando isto se der, chegará por seu turno o meu amigo Raspail com os seus cigarros salutares, e, juiz de todos os sistemas, lhes dirá com aquela voz conhecida, estimada e respeitada: “Há dois mil anos queixamo-nos de que a linguagem na medicina é uma algaravia ininteligível para o doente; que os seus recursos são alienadamente preconizados e repudiados pelos pontífices do templo, de modo que não existe um só tratamento que, depois de haver tido a maior voga, não seja cedo ou tarde acusado de ter feito sucumbir todos os que se submeteram à sua ação! Como, porém, o médico é irresponsável e o seu diploma lhe confere direito a todas as ousadias, do mesmo modo que a legalidade da fórmula põe à coberto a imprudência e a inoportunidade da prescrição, não assiste aos sobreviventes o direito de vingarem os mortos senão com a arma do ridículo. Não se pode citar o médico senão para o tribunal de Molière; e ali, muitas vezes, quem se ri com mais vontade é o médico, que não deixa de ter sua razão. O mais ridículo nesse ponto não é ele, são os outros. “Porque – assim dizia La Bruyère –, enquanto os homens puderem morrer e tiverem amor à vida, a Medicina será ridicularizada, mas... será paga”.

Vede, senhores, que se podemos fazer em nome da Medicina e contra o Magnetismo requisições eloqüentes, não será difícil ao Magnetismo levar a guerra ao campo dos seus inimigos; ou antes, vede quão ridículo se torna resolver por violências, difamações, prisões e ultrajes, quaisquer questões de Ciência. Talvez, quem sabe? não haja uma só cuja perfeita solução seja possível à fraqueza da nossa inteligência, e que nestas coisas só haja de verdade o grito sublime do poeta perguntando ao seu gênio onde estava a sabedoria? “Socrate la chercahait aux beaux jours de la Grèce. Platon, à Sunium, la cherchait après lui! Deux mille ans sont passés, je la cherche aujourd’hui.

Deux mille ans passeront, et les enfants des hommes S’agiteront encore dans la nuit où nous sommes!...” Esta incerteza da Ciência, que o advogado Charles Ledru tão judiciosamente assinala na sua eloqüente defesa, convida, efetivamente, os verdadeiros sábios a um grande ecletismo nos seus conceitos, com muita indulgência para os investigadores. “Por que razão – exclamava o célebre professor Roger Collard, em plena Academia, no dia 31 de maio de 1842 – não será cada qual livre de procurar a Verdade como entender, mesmo pelos mais estranhos caminhos? A ciência oficial será tão positiva, tão invariavelmente estabelecida, que se possa afirmar que em alguns anos ela não se vos afigurará tão falsa quão verdadeira vos parece hoje? Eu sou dos que pensam que a liberdade ilimitada das opiniões, uma vez que só ataque as opiniões e se não traduza em atos nocivos ou repreensíveis, é sempre um benefício muito maior do que o mal que acarreta o seu abuso. Que, portanto, se uma polícia médica qualquer pretendesse guerrear a homeopatia, – chamando as coisas pelo devido nome – ao Magnetismo, mesmo que fosse em busca da pedra filosofal, eu seria o primeiro a tomar a sua defesa, protestaria alto e publicamente contra qualquer tentativa desta natureza.” Essa opinião, tão energicamente expressa pelo Sr.

Roger Collard, acha-se hoje cada vez mais partilhada por espíritos elevados, e ainda ultimamente, num banquete da Sociedade Francesa de Higiene a que assistimos, ouvimos o grande cirurgião Péan, o célebre e lembrado professor Petér, o doutor Chevandier, deputado pelo Drôme, redator da nova lei sobre a Medicina, o doutor de Pietra-Santa, o honrado secretário geral dessa Sociedade, todos filhos de suas obras – pronunciarem discursos notáveis e, na essência, de um ecletismo liberal que os honra profundamente, com aplausos unânimes dum auditório numeroso, em que primava o escol da Ciência e do jornalismo. Vimos esses mestres levantarem suas taças em saudação “a todas as liberdades científicas”. Ainda ultimamente, quando os magnetizadores apreensivos com as conseqüências que lhes podiam advir do novo projeto de lei, sobre o exercício da Medicina, dirigiram uma petição à Câmara dos Deputados, o redator da lei, Dr. Chevandier, de quem acabamos de falar, apressou-se a lhes acalmar as inquietações com a seguinte carta dirigida ao Conde de Constantino, presidente do Congresso Internacional de Magnetismo Curativo, em 1889: “Senhor Presidente. A Comissão encarregada do estudo do projeto de lei sobre o exercício da medicina teve de examinar as numerosas petições junto à que foi feita pelo secretário do Congresso Internacional do Magnetismo Curativo, em 1889.

Foi reconhecido, por unanimidade dos membros presentes, que a lei sobre o exercício da Medicina não compreendia os massagistas nem os magnetizadores, enquanto tão somente aplicarem seus processos ao tratamento das moléstias. Que cairiam sob a ação da lei no dia em que, sob a aparência de massagem, Magnetismo ou Hipnotismo, exercessem Medicina e prescrevessem medicamentos. Nestas condições, a Comissão, acreditando ter respondido às petições que lhe chegaram às mãos, prescinde de ouvir os seus autores. O que acabo de referir está consignado no meu relatório. Aceitai, Sr.

Presidente, os protestos da mais elevada cordialidade. (Assinado) Dr. Chevandier, Relator.” Conseqüentemente, desde que os magnetizadores só apliquem seus meios práticos ou seus processos (isto é, as imposições e os passes) no tratamento das moléstias; enquanto não exercerem medicina prescrevendo medicamentos, não cairão sob a ação da lei, e poderão magnetizar livremente. É de inteira justiça, porque o Magnetismo animal, cuja virtude benéfica Mésmer proclamou no meio dessa onda de aclamações, de desprezos, de assentimentos e negativas, que acolheram as suas primitivas declarações no fim do último século, tornou-se propriedade de todos. Como muito bem o disse La Fontaine, esse mestre honrado, “cada um de nós tem a missão de reclamar-lhe o livre exercício, porque ele é o seu bem pessoal, é a sua vida; é mais ainda: é o bem de todos, é uma propriedade coletiva, que ninguém tem o direito de monopolizar. É o maná celeste que no momento psicológico, quando toda a esperança parece irremediavelmente perdida, para o doente abandonado pela Medicina, curvado ao sofrimento, apresenta-se refazendo suas forças esgotadas, trazendo-lhe ao mesmo tempo a saúde e a esperança.” Quantas vezes, desde que me ocupo de Magnetismo, tenho pessoalmente experimentado esta alegria sem mescla, que nenhuma outra pode igualar: a de restituir a saúde a indivíduos que a julgavam perdida para sempre.

Não posso citar todos os casos em que esta suave satisfação me foi concedida; somente escolherei alguns dos mais importantes, a fim de mostrar quanto seria injusto privar os doentes desse supremo recurso. 1o caso – Odisséia de um infeliz reumático Estamos em setembro de 1873. Achava-me ainda em Angers, no 11o Regimento de Couraceiros (antigos Carabineiros da Guarda) e tinha resolvido retirar-me do Exército, a fim de me entregar mais livremente aos estudos. As numerosas experiências magnéticas que tinha feito de muitos anos, nessa cidade, e os resultados que obtivera em casos reputados incuráveis pela própria Academia, tinham-me granjeado uma certa notoriedade. Recebi de um negociante da cidade, Sr. D., a longa narrativa seguinte; apesar da sua extensão, transcrevo-a por inteiro, porque dá, acerca do doente e da sua moléstia, detalhes muito precisos, de tal modo interessantes, que eu não poderia fazer do caso que vou expor uma pintura mais empolgante.

Nada pode dar melhor uma idéia verdadeira da insuficiência da arte médica, do que esta simples narração de um homem cruelmente atacado pela enfermidade e pedindo, debalde, durante mais de vinte e cinco anos, à Medicina um alívio aos seus sofrimentos. Mostra-nos, também, como às vezes os maiores mestres dessa arte, imbuídos de um pirronismo intratável, podem transviar-se nos seus julgamentos e tornar-se vítimas de seus preconceitos pessoais aqueles que, à fé dos compromissos, cheios de cega confiança na elevada notoriedade de que gozam, vêm apelar para as suas luzes. “Angers, 24 de setembro de 1873. Senhor. No inverno do ano de 1850 (tinha eu 21 anos), fui subitamente afetado de violenta moléstia de rins, que em breve se complicou com uma dor aguda que partia do quadril direito e descia, em seguimento ao nervo ciático, até ao joelho e à barriga das pernas.

Tintureiro de profissão, é provável que tivesse apanhado um resfriamento ao passar da oficina para o rio, a fim de lavar as lãs; tive que entrar para o hospital e seguir um tratamento. Tomei alguns banhos sulfurosos, sem resultado; depois, aplicaram-me vesicatórios volantes sobre os rins, coxas e barriga das pernas. Não tendo produzido efeito esta primeira aplicação, deixaram-na, e os vesicatórios foram curados com cloridrato de morfina. Ao fim de alguns dias, tendo melhorado, – o que atribuo antes à força da minha constituição do que ao próprio tratamento, – pude sair do hospital. Longe estava de considerar-me curado, por isso que experimentava sempre dores atrozes em todo o lado direito e era obrigado a caminhar de muletas.

Aconselharam-me tisanas quentes e fumigações de hera aquecida ao forno, a fim de determinar abundantes transpirações. Os suores acalmavam um pouco as dores, mas enfraqueciam-me consideravelmente. Contudo, pouco a pouco, consegui recuperar certa energia. Abandonei as muletas pelo uso de uma simples bengala e finalmente, com auxílio da calma do Estio, breve achei-me suficientemente forte para recomeçar o trabalho. Passados dezoito meses, a moléstia voltou com incrível violência.

Ocorreu-me a idéia de usar banhos de vapor, que já me haviam aliviado no começo da enfermidade. Como estávamos em pleno Inverno, fiz-me transportar para a abadia do Port-Engeard, próximo de Laval, onde me prodigalizaram os maiores desvelos. Mas os banhos de vapor não me deram alívio algum. Nesta época, caiu-me às mãos um livro de Medicina. O autor, antigo membro da Faculdade de Medicina de Paris, era o Rev.

Pe. Debreyne, então trapista no Convento de Mortagne (Orne). Nessa obra tratava-se de uma cura especial a que tinham cedido numerosos casos de moléstia semelhante à minha. De tal modo eu sofria, que resolvi ir solicitar os cuidados do Rev. Pe.

Debreyne. Fiz-me transportar a Mortagne; mas ali recusaram admitir-me como pensionista do Convento, e como se tratasse da aplicação de largas moxas nos rins, no quadril e no joelho, hesitei submeter-me a tratamento tão violento, e logo depois pus-me a caminho. Estava desesperado. Meu estado, longe de melhorar, tornava-se mais grave. Tomei uma deliberação definitiva.

Era absolutamente necessário reconquistar rapidamente a saúde, a fim de poder recomeçar o meu ofício e ganhar a vida. Decidi-me partir para Paris. Ali, dizia eu, irei encontrar os médicos mais justamente afamados, os príncipes da Ciência, infalivelmente me curarão. Cheguei, todo esperança, à grande cidade e imediatamente me dirigi à consulta dos médicos de serviço nos hospitais; apresentei-me sucessivamente à portaria do de S. Louis, Beaujon e Charité.

Nessas visitas soube que o Dr. Bouillaud era decano da Faculdade; indigitaram-no como um dos médicos mais hábeis de Paris. Resolvi recorrer aos seus cuidados. Infelizmente, eu não era rico, e para entrar para a clínica hospitalar do Dr. Bouillaud era necessário declarar que morava em Paris e que ali exercia o meu emprego há dois anos.

Não hesitei empregar um subterfúgio para poder fazer-me tratar pelo célebre doutor. No dia seguinte ao de minha entrada no hospital, aguardava com ansiedade a hora da visita, quando vi o Dr. Bouillaud aproximar-se do meu leito; depois de um exame superficial, perguntou-me de que sofria. – Sofro há muito tempo, doutor – disse-lhe eu – de uma ciática aguda; é, pelo menos, assim que os médicos que me têm tratado denominaram a moléstia; alguns também pretendem seja afecção sacrocoxálgica. – Então – diz o doutor – fez você estudos de Medicina, meu rapaz?

– Não, senhor doutor – respondi-lhe – mas, infelizmente para mim, tenho ouvido muitas vezes falar dos meus sofrimentos, aqueles que em vão têm procurado curá-los, e apenas repito o que tenho ouvido falar. Tenho estado tão gravemente afetado que, afinal, pensou-se por momentos num amolecimento da medula espinhal. – Ora essa. Estais caçoando – disse o doutor, sorrindo; – dizei, antes, que não há trabalho em Paris neste momento, e que o hospital é um bom refúgio para a má estação. E dirigindo-se para o leito próximo, sem mais preocuparse de mim e do meu estado de saúde: – Dieta de saída a este rapaz – acrescentou ele.

Fiquei consternado com esse acolhimento tão inesperado, e para mostrar ao doutor que não era o homem que supunha, tirei da minha carteira as receitas dos médicos de Laval que me haviam tratado. Estes testemunhos, embora provassem realmente a minha moléstia, puseram a descoberto o embuste bem inocente que eu havia empregado para ter entrada no hospital. O Dr. Bouillaud, surpreendido com o tom resoluto com que eu lhe falara e no qual não podia deixar de transparecer o desapontamento e a cólera, voltou, examinou os papéis que eu atirara sobre a cama, e, depois de concentrar-se um pouco, receitou que se me aplicasse dezoito ventosas escarificadas sobre a região renal e se conservasse o sangue até à sua próxima visita. No dia seguinte, quando fez de novo a sua visita e passou pelo meu leito, ao apresentarem-lhe o sangue que me tinham tirado, perguntou-me: – De que lugar sois?

– Da Morbihan – respondi-lhe. – Tão somente pelo exame do sangue eu deveria adivinhar. E voltando-se para o séquito: – Vede, senhores – disse ele – como este sangue é rico de seiva. Como este não encontraremos outro no Departamento do Sena. E ordenou de novo que me dessem alta.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.