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Capítulo 24 de 30
Parte 24 de 29
Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier
Hoje como que as relegaram à medicina chamada dos simples, para a lista dos remédios de curandeirismo. O homem, com as tendências que o caracterizam, de substituir por toda parte e sempre a sua ação à da Natureza, julgou fazer obra científica louvável extraindo das plantas seus compostos químicos para constituir os alcalóides; dizem ser isto um progresso notável, pois que os alcalóides apresentam sobre as substâncias brutas (ervas, cascas, raízes, sementes) a grande vantagem de permitir que se defina melhor os seus efeitos e de medirlhes mais exatamente a dosagem. Assim é que se extraiu a morfina da papoula, a quinina da quina, a atropina da beladona, a estriquinina da noz-vômica, sem pensar que por tais manobras de laboratório se destruíram as preciosas faculdades tonais originárias, dadas pela Natureza à papoula, à quina, à beladona e à noz-vômica, e que o elemento de síntese que constitui a individualidade própria de cada um desses corpos foi substituído por elementos novos, que nenhuma relação têm com os primeiros.
Assim o ar, por exemplo, que, como se sabe, se compõe de 21 partes de oxigênio e 79 partes de azoto, não deve suas propriedades vitais senão a essa condição expressa de ser o produto tonal do antagonismo do oxigênio e do azoto, na relação de 21 para 79. Mudai essa relação, quebrai a tonalidade do ar, separai o azoto do oxigênio, e esses dois gases isolados já não terão separadamente sobre o nosso organismo os mesmos efeitos fisiológicos que o seu composto, perderão suas propriedades vivificantes.
Não se chegou ao mesmo resultado com a criação dos alcalóides? Quebrando a tonalidade viva da papoula, não mataram os seus princípios benéficos naturais, para substituí-los por produtos artificiais como o ópio, a morfina, a narceína, a codeína, a narcotina, a papaverina e a tebaína, tóxicos ou anestésicos violentos, todos eles mais perigosos uns que outros e que podem comprometer seriamente a tonalidade vital? Depois do sumo da papoula, não há substância de que se tenha feito, a detrimento da humanidade, um abuso maior e mais freqüente do que a quinina; ora, a quinina, tomada em excesso, produz a tísica, a hidropisia, as vertigens, a surdez, uma perturbação profunda das vias digestivas e das idéias.
É, como se sabe, o medicamento heróico da febre, mas ninguém ignora que as febres debeladas pela quinina reincidem mais freqüentemente do que as tratadas por outros meios; sua ação rápida é apenas efêmera, a perturbação volta logo que se esgota a ação do remédio; daí, essas febres intermitentes indebeláveis, que, realmente, não são mais que uma moléstia medicamentosa, produzida pela quinina. Quanto à digitalina, que também se emprega freqüentemente, é uma substância que, mais do que todas as outras, paralisa a reação vital; a digitalina neutraliza o efeito dos outros medicamentos, principalmente quando empregada antipaticamente, isto é, no caso em que o pulso é rápido.
Em vez de ser, como geralmente se acredita, o agente moderador do sistema arterial, é o agente perturbador por excelência, dá aos batimentos das artérias uma intermitência irregular; na fraca dose de seis miligramas, pode acarretar acidentes temíveis. Assim se dá com todos os alcalóides naturais, cujos princípios ativos extraídos dos vegetais são mais ou menos perigosos de manusear-se, e sobre os quais voltaremos mais tarde, quando tratarmos dos anestésicos. O que aqui queremos firmar é que despojando os princípios imediatos das substâncias, a pretexto de desembaraçar os corpos dos elementos estranhos e estéreis que os obstruem, o químico não suspeita, sob o ponto de vista da combinação das forças da Natureza, aonde podem conduzi-lo essas essencializações artificiais de laboratório.
Minerais – O organismo pode ainda, se a dose não for muito forte, defender-se contra os alcalóides vegetais, eliminando-os; mas contra os sais minerais, tais como os de platina, chumbo, cobre, arsênico, estanho, antimônio, ferro, mercúrio, ele já não tem a mesma potência de eliminação: Os minerais não somente não se absorvem, como reúnem ou dispersam as forças vitais. “O chumbo – diz o químico Louis Lucas –, que fere mortalmente o soldado no campo de batalha, não é menos mortal do que o próprio bicloreto de mercúrio: um é revestido de uma força balística; o outro de uma força de condensação química, relativa.
Para mantê-lo em suspensão, o organismo se arruína em condensação normal, da mesma forma como um hospedeiro pobre se arruína para receber um grãosenhor.” Os minerais são reunidores de movimentos; arruínam, com sua presença no organismo, a tensão normal da vida; e é assim que o mercúrio faz tão grandes assolações; a princípio apenas se limitaram a empregar o mercúrio como inseticida, mas depois o aplicaram como específico da sífilis, das moléstias da pele; e em seguida, generalizando o emprego, associaram-no a diversas substâncias, e principalmente ao iodo, contra a escrófula. O próprio iodo tornou-se um medicamento tão na moda, que diariamente o empregam intus et extra sob a forma de iodeto e de tintura, contra todas as moléstias. Convencido da sua inocuidade, nas aplicações externas principalmente, cada um de nós o aplica em emborcações dos pés à cabeça, por qualquer motivo fútil. Entretanto, não somente o iodo produz náuseas, vômitos, tremor dos membros, prostração geral, suores frios, como ainda disseca e corrói os tecidos brancos, ligamentos e invólucros das articulações sobre as quais o aplicam. O iodo não é, pois, tão inofensivo como se poderia crer.
Dá-se o mesmo com o ferro, de que fazem tão grande abuso na anemia; imaginam que o ferro, símbolo da força, deveria reforçar o organismo, do mesmo modo que se duplica a força de uma roda, ferrando-a. “É um erro que se eterniza nos livros, diz o Dr. Giacomini, mas na prática nunca se obterá por meio do ferro a menor elevação do ritmo das funções vitais.” O abuso do ferro, sem razão considerado o específico da escrófula e do raquitismo, estraga os dentes, lesa o estômago, aquece os intestinos, produz diarréia e vômitos, abaixa o pulso, e finalmente inflama e enfraquece o organismo. O ferro, por suas altas propriedades condensadoras do movimento, pode, aplicado à epiderme, sustar por seu simples contato as hemorragias, as câimbras e os espasmos mais violentos, mas, em relação às suas virtudes curativas, cumpre evitar absorvê-lo pela via estomacal. Quanto ao arsênico, conhecem todos o perigo do seu emprego e não insistiremos; limitamo-nos a declarar que nenhum sal mineral é assimilável, e que qualquer tratamento pelos minerais apresenta um dano para a integridade da tonalidade vital.
Antitérmicos – Nestes últimos tempos tem-se dito muita coisa acerca dos antitérmicos. A antipirina teve e ainda tem muita voga; concorrentemente à antipirina empregavam-se outros produtos, como a acetanilida e a kairina. O que de melhor podemos fazer é dar sobre o valor destes agentes farmacêuticos a opinião de um homem que foi um dos luzeiros da Academia de Medicina, o sempre lembrado professor Peter. Diz ele: “O seu emprego a título de antitérmico e refrigerante é motivado por um dos erros mais graves da medicina contemporânea; a medicina físico-química, que toma o efeito pela causa, o fato pelo ato, e considera a hipertermia ou superelevação da temperatura como constituindo perigo em moléstia.
A hipertermia é muito simplesmente um desvio do ato funcional; combater a hipertermia por um medicamento refrigerante, não é mais que pôr em prática uma parte da tarefa médica; com grande risco do doente, abaixa-se bruscamente a temperatura de muitos graus; o estado do doente conserva-se tão mau como anteriormente, sua prostração é maior ainda, acha-se mesmo mais doente, porque o medicamento cianozou-lhe as extremidades, tornando-as azuladas e frias como as de um afogado; há envenenamento médico, e se este envenenamento for profundo, o doente ficará tão frio como se a vida lhe houvesse fugido.” Essa explicação categórica do sábio professor da Faculdade sobre as aplicações e as conseqüências funestas dos antitérmicos visa igualmente o método refrigerante aplicado às febres graves, em que se pensa poder extinguir o fogo da moléstia com um banho frio, como se apagassem uma brasa na água.
Foi assim que os Drs. Leroy de Béthune, Brand de Stettin, e Liebermeister de Bâle, considerando a elevação de temperatura como o principal perigo das febres graves, julgaram dever aplicar o método refrigerante à febre tifóide. Mas há nisso um erro que o célebre fisiologista Claude Bernard combateu o mais que pôde, demonstrando que na febre não se conhecem ainda os fenômenos íntimos de troca, de redução e de oxidação que se passam nos tecidos; e que, ao contrário, começa-se a entrever muito claramente a natureza das influências que pode exercer sobre eles o aparelho geral de regulação calorífica, o sistema nervoso. É, pois, à rede nervosa que é necessário dirigir-se, para combater o desacordo tonal; a superelevação do calor vital não é, como disse criteriosamente o professor Peter, senão um sintoma da moléstia e não a sua causa; e não é baixando bruscamente o calor vital, por um processo mecânico ou químico, que se chegará a atingir a origem do mal; tudo quanto se pode fazer, agindo deste modo, é perturbar ainda mais, por um choque violento, o equilíbrio nervoso. Anestésicos – Ao lado dos antitérmicos, o progresso da ciência moderna colocou os anestésicos.
Anestésicos e antitérmicos suprimem a dor, e é isto principalmente que constitui a sua grande voga; mas, se suprimem a dor, é porque atuam sobre o cérebro e a medula, paralisando-os; o efeito é, portanto, aparente. Não nos iludamos; o clorofórmio, o éter, o cloral, o sulfonal, a cocaína, a morfina e seus congêneres são os mais temíveis agentes deprimentes do sistema nervoso; param os batimentos do coração, causam náuseas e vertigens, suores profusos, dilatam os vasos cutâneos e cianosam o sangue. Não atuam somente sobre os elementos nervosos, mantendo os nervos nas tonalidades baixas da sensibilidade geral; são também violentos venenos musculares, aumentada a dose, provocam ataques tetânicos, análogos aos produzidos pela estricnina; os músculos antipirinados ou anestesiados não respondem mais pela contração à excitação, e a fibra muscular, sob esta influência perniciosa, sobre uma espécie de coagulação, que dá ao músculo uma rigidez de que ele não se despoja senão quando a célula nervosa sai por si mesma da sua anestesia; uma muito freqüente repetição desse estado compreende-se que traga, com o correr do tempo, uma decadência profunda dos sistemas nervoso e muscular, e consecutivamente a ruína completa da tonalidade. O remédio, dizem, suprimiu o sofrimento: Mas, não será pagar bem caro esse curto intervalo? Julgará o médico ter sustado o mal, e o doente estar livre de toda a reincidência?
Nada mudou; apenas o organismo, mais comprometido que antes, torna-se menos suscetível do que nunca para responder daí em diante a uma reação salutar. Cumpre não haver confusão: a dor não é o mal; a dor, ao contrário, é a manifestação de um ato vital inerente a toda célula viva. “É, diz o Dr. Luys, um ato de reação. Para que haja dor, é preciso que haja o despertar da sensibilidade e mesmo uma dose de sensibilidade disponível; não sofre quem quer; para sofrer, é preciso sentir.” Enquanto se sofre, pode-se esperar uma reação vital; quando não mais se sofre, “longe de estar curado” não se faz, muitas vezes, mais do que se aproximar da morte; extinguir a dor pelos anestésicos não é pear a moléstia, é contentar-se com um subterfúgio tanto mais sedutor quanto faz desaparecer de vez, para o futuro, toda a reação vital.
Anti-sépticos – Chegou-se hoje a considerar a maior parte das moléstias como tendo um germe preexistente e como sendo engendradas por parasitas. Partindo então do princípio de que destruir o parasita é eliminar a causa da moléstia, empregam-se muito os remédios anti-sépticos e faz-se guerra encarniçada aos micróbios, em detrimento, muitas vezes, do próprio doente. Quando, no decurso do crescimento da criança, a mucosa intestinal se inflama, dando lugar, de improviso, a milhares de vermes, os médicos, sem se preocuparem com as causas desta insólita invasão, contentam-se em administrar ao doentinho um vermífugo qualquer, firmando-se neste prolóquio popular: “Morto o animal, morto o veneno”. Em vinte e quatro horas desembaraça-se igualmente um sarnento do acarus scabiei, com alguns banhos sulfurosos, sem indagar se essa rápida expulsão do parasita pelo enxofre pode acarretar conseqüências más para o doente; ora, a repercussão da sarna produz, às vezes, uma moléstia das vias aéreas, que se chama a phtisis purulenta pulmonum, e, quanto a nós, observamos no Exército, entre os militares às nossas ordens, que a maioria dos homens curados por esse meio tão rápido, reentravam muitas vezes dois ou três meses depois para o hospital, atacados de uma moléstia interna mais ou menos grave. O remédio varia na razão da idéia que se faz da vida e das causas das desorganizações vitais; é neste ponto que, evidentemente, residem os erros médicos e todo o perigo.
Se acreditarmos, por exemplo, dever provocar artificialmente, pela administração de certos medicamentos, derivações e evacuações, como as que a vida produz naturalmente, conseguimos muitas vezes causar a ruína do organismo; e assim é que certas pessoas acabam por não mais digerir senão à força de pílulas purgativas, de águas minerais salinas, clistéres; e terminam miseravelmente a existência em consunção, entre a hidropisia, a congestão do intestino grosso e a gota, por isso que o abuso dos vomitivos e dos purgativos exageram, com o correr dos tempos, a constipação até ao ponto de torná-la incoercível. Se, em lugar de provocar as evacuações, as combatem; se sustarem a diarréia pelo ópio, os vômitos por poções efervescentes, o suor dos pés por pedilúvios frios ou fomentações adstringentes, os exantemas, as úlceras por pomadas de chumbo ou de zinco, as hemorragias pelo tampão e o gelo, atinge-se o mesmo resultado; e o obstáculo que se oferece ao precioso trabalho de eliminação da Natureza susta o movimento de reação, que podia salvar o organismo.
Deve-se ligar um pólipo, extirpar uma glande tumefata, destruí-la pela supuração, por meio de irritantes locais, dissecar um quisto, operar um aneurisma, uma fístula, um seio canceroso, um osso cariado? Será preciso cauterizar um cancro, uma excrescência carnosa, uma verruga, desbridar um abcesso, expelir dartros da pele, feridas ou úlceras que a invadem, associando as pomadas adstringentes aos purgativos? Eis o que diariamente se faz, acreditando, assim, eliminar as causas do mal; e entretanto, à afecção primitiva, vê-se freqüentemente suceder complicações ainda piores; é que a desorganização dos tecidos não provém exclusivamente do obstáculo material, que se suprimiu, mas de uma causa de ordem puramente dinâmica a que se não deu importância; limitou-se a empregar a faca e os reativos violentos, onde era preciso restabelecer um equilíbrio desfeito; lesou-se mais profundamente o organismo, dispersaram-se os últimos elementos de reação vital, que deixavam ainda ao doente algumas probabilidades de cura.
Pelo método derivativo ou antagonista, esgota-se em vez de reconstituir. Por que, pois, não recorrer aos fortificantes? Mas ainda aí, julgando-se praticar o bem, preparam-se desilusões, porque as substâncias nervinas ou tóxicas, pretensamente fortificantes, tais como a quina, os amargos, os marciais, que formam a base do método excitante, estão longe de ter as propriedades analépticas que se lhes dá; e na maioria dos casos, não fazem mais que juntar sua má influência à da causa desconhecida que se procura combater; é um preconceito acreditar que os caldos concentrados, os consomés, os sucos e extratos de carne, a polpa de carne crua, os chás de carne, o ferro, o manganês, o fosfato de cal, o cloreto de sódio, os alcoólicos sejam, por intermédio do sangue, reconstituintes da nutrição; os corpos gordurosos, o leite, a água, os óleos comestíveis, as féculas, o são ainda muito mais; a realização normal da nutrição e da assimilação depende, mais intimamente, de um equilíbrio nervoso que das metamorfoses químicas que se procura provocar com os adjuvantes artificiais empregados.
O medicamento, qualquer que ele seja, mesmo reconstituinte, não pode ser administrado internamente senão por certas vias, o estômago ou o reto. Por acaso sabe-se, previamente (admitindo que o estômago, cuja função é mais ou menos comprometida no estado de moléstia, possa digeri-los e não os rejeite), até que ponto o organismo desamparado poderá assimilar as substâncias ingeridas?
O próprio suco gástrico, por sua ação poderosa, não neutralizará a influência de todos os corpos postos em contacto com ele? Foi com a idéia de obviar esses inconvenientes, que se instituiu nestes últimos tempos um novo método de medicação; introduz-se, agora, diretamente no organismo, por injeções hipodérmicas, os produtos farmacêuticos que se quer fazer absorver. Foi o Dr. Koch, de Berlim, o primeiro que abriu o caminho com as suas injeções contra a tuberculose; por momentos, o mundo científico emocionou-se; acreditou-se ter encontrado a maravilhosa panacéia dessa terrível afecção, que fez tantas vítimas; o entusiasmo não foi de longa duração. O método do professor alemão, por causa dos numerosos insucessos e dos seus perigos, desanimou muito depressa os mais audaciosos.
O professor Brown-Séquard reviveu, logo depois, a atenção pública, anunciando à Sociedade de Biologia que havia descoberto o meio de não envelhecer. O elixir de longa vida dos alquimistas da Idade média havia sido encontrado. E (como são os tempos!) esses filtros mágicos, que à Ciência há tanto tempo proscrevera, juntamente com os seus autores, eram então favoneados em todas as doutas Faculdades modernas. Brown-Séquard teve numerosos imitadores e todas as vacinas de ovelha, de vitelo, de cabra, de cão e de cobaia, invadiram a matéria médica; o que leva Emile Gautier, o muito espirituoso redator científico do Figaro a formular seus receios: “Contanto que, diz ele, todas essas essências animais, de que os Circêus da fisiologia nos saturam à porfia, não nos façam, com o correr dos tempos, cair na bestialidade. Contanto que o homem que descende, dizem, do macaco, não acabe, a pretexto de enganar a morte, remontando ao porco da Índia...” Gracejaríamos de boa vontade com o nosso amável colega sobre o lado cômico do novo método, se não víssemos nesses singulares desvios da Ciência um grave erro fisiológico e um verdadeiro perigo a assinalar.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.