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Capítulo 12 de 30
Parte 12 de 29
Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier
O Marquês de Puységur, retirado em sua terra de Buzancy, próximo a Soissons, fazia maravilhas ao derredor de suas árvores magnetizadas, nos tratamentos em comum, por meio da cadeia. Em França, por toda parte, apesar da opinião emitida pelas corporações sábias, curava-se pelo novo método; relatórios, constatando as curas, eram impressos e espalhados em profusão para esclarecimento das massas; depositavam-se os originais das peças justificativas no cartório dos tabeliães, acompanhados de depósitos pecuniários em apoio, destinados a serem postos à disposição dos incrédulos que desejassem acompanhar a verificação dos fatos, ou sua veracidade. “Nunca – diz Du Potet – a medicina ordinária ofereceu ao público o exemplo de semelhantes garantias.” Esse movimento de propaganda, sustentado por numerosas revistas, foi admirável; estendia-se como um rastilho de pólvora a todas as províncias, quando de súbito explodiu a revolução que o fez parar na sua propaganda.
A tempestade política, fazendo que tudo se obscurecesse, fez com que também caminhassem para a penumbra as artes e as ciências; surgiram outros interesses a defender, que não os da verdade; e cada qual teve de pensar em si; os discípulos de Mésmer, todos ricos e titulados, para salvarem a vida, foram obrigados a se expatriar e dispersaram no estrangeiro; as Sociedades da Harmonia desapareceram, fez-se silêncio em torno do Magnetismo, que em breve ficou esquecido. Só depois da Revolução e do primeiro Império, na época do restabelecimento geral da paz na Europa, é que o Magnetismo animal fez sua reaparição.
Mas, a partir desse tempo, só se registram esforços individuais e intermitentes, que não podiam ter o alcance que prometia o grande movimento de propaganda anterior à Revolução. Os dois irmãos Puységur, de volta do estrangeiro, recomeçaram seus estudos magnéticos; o padre Hervier curou numerosos doentes; o abade Faria estabeleceu cursos e sessões de fascinação; depois, vemos desfilar na história do Magnetismo os nomes bem conhecidos de: Deleuze (o sábio naturalista que, devido aos seus escritos, foi chamado o Hipócrates do Magnetismo), Du Potet, La Fontaine, Pigeaire, Durand de Gros, Aubin Gauthier, Charpignon, Teste, Ricard Despine, Puel, Geraud, Huguet, Berna, Frappart, Morin e tantos outros. Durante esse período, por duas vezes a Academia voltou ao exame do Magnetismo, em 1831 e 1837. A primeira Comissão, a de 1831, composta de Bourdois de la Motte, Fouquier, Gueneau de Mussy, Guersent, Itard, J. J.
Leroux, Marc, Thillaye e Husson (relator), concluiu pela existência dos fenômenos magnéticos. O relatório que apresentou não foi, porém, submetido à discussão da Assembléia e ficou sepultado nas pastas. Quanto à segunda Comissão, a de 1837, composta por Bouillaud, Roux, H. Cloquet, Emery, Pelletier, Caventon, Cornat, Oudet, Dubois d’Amiens (relator), enterrou definitivamente o Magnetismo. O Prêmio Burdin de 3.000 francos, oferecido a qualquer sonâmbulo que pudesse ler sem auxílio dos lhos, da luz e do tato, não tendo podido ser levantado pelos dois magnetizadores Pigeaire, de Montpellier, e Hublier, de Provins, que haviam tentado com seus sonâmbulos ganhar o desafio, a Academia de Medicina, por proposta de um dos seus membros, o Sr.
Double, decidiu que desde então não se ocuparia mais do Magnetismo, questão que colocava desde logo no mesmo plano da quadratura do círculo e do moto contínuo. Do rápido esboço que precede, podemos deduzir este útil ensino: que o Magnetismo curativo, abandonado constantemente num segundo plano pelos próprios magnetizadores, viu sempre a sua vulgarização obstada pela produção dos fenômenos do sono provocado. Aí estão os fatos para demonstrar que os partidários e propagadores mais convictos das virtudes curativas do Magnetismo, ao invés de se empregarem simplesmente em trazer à publicidade essas virtudes preciosas, multiplicando o número de curas, detiveram-se, por um zelo intempestivo, a pôr em cena pacientes sonambúlicos e aplicaram-se a reproduzir de preferência a série de fenômenos a que com tanta justiça se chamou A Magia do Magnetismo. Foi por esse lado incerto e perturbador que procuraram tornar popular o Magnetismo, foi por essas questões complexas, onde o acaso representa um papel tão importante, que eles atraíram a atenção das Academias.
Forçados a saírem do seu verdadeiro papel, o de curadores, para formarem sonâmbulos, que entregavam-se depois a todos os azares das experiências públicas ou do exame céptico de comissários mais ou menos bem intencionados, correram ao encalço de decepções inevitáveis, que fizeram com que fossem tratados como impostores; e desse modo, por culpa própria, comprometeram o Magnetismo, fazendo com que os adversários envolvessem na mesma reprovação não só as experiências teatrais, que não conseguiram resultado, como ainda as virtudes curativas que nem sequer estavam em questão.
Se, desde o começo, as teorias de Mésmer encontraram uma oposição tão viva, se seus processos foram tão severamente condenados pelas sociedades sábias, não resta dúvida que a causa é atribuída àquela encenação ruidosa que o mestre julgara dever empregar para impressionar as imaginações e atrair a atenção pública sobre o seu método. A famosa cuba, a varinha mágica, as esquisitices de vestuário e os misteriosos acordes de cítara que armavam o efeito; as convulsões que duravam horas inteiras, com estremecimentos, gritos agudos, choros ou risos imoderados, sufocações, sobressaltos; as mulheres que caíam com ataques e cujos espartilhos se afrouxavam em público, tudo isso era bem aparelhado para impressionar as almas tímidas e crédulas; mas, para os espíritos fortes e cépticos, eram apenas “ninharias escandalosas, dum manejo cheio de embustes”.
A câmara das crises, cognominada “o inferno das convulsões”, não se prestava para dar uma idéia do poder calmante e equilibrante das imposições e dos passes; não podia contribuir senão para afastar os espíritos de uma tal concepção. Não se daria o mesmo com as cadeias magnéticas formadas pelo Marquês de Puységur em derredor das árvores de Buzancy? Ali não havia, talvez, o espetáculo das convulsões produzidas pelos tratamentos públicos de Mésmer; mas esse sono nervoso em que caíam os doentes, a singularidade dessas cenas em pleno ar, onde as árvores representavam papel tão imprevisto, forneceram aos adversários do Magnetismo um amplo alimento à sua maledicência e às suas sátiras.
“Os camponeses de Buzancy – diz Izidore Bourdon nas suas Cartas a Camilo – eram muito ingênuos para imitarem os espasmos e o nervosismo da alta sociedade; mas, em vez de convulsões e de caretas, adormeciam muito simplesmente, ou por canseira ou depois de beberem, ou mesmo por complacência e polidez para com um hóspede que lhes pagava tão generosamente em mesa franca, à sombra de fresca ramagem.” O alcance benéfico e curativo do Magnetismo ainda se eclipsava aqui por detrás da singularidade dos fenômenos sonambúlicos, que se manifestavam aos olhos pasmos de uma multidão desconfiada ou ávida de ilusões; ninguém se dava ao trabalho de ir até ao fundo daquelas coisas, ninguém procurava saber se todas aquelas pessoas se restabeleciam: o que principalmente impressionava era a originalidade dos processos empregados. De fato, em todas as circunstâncias o conceito público apenas se deteve sobre fenômenos aparentes, e não sobre as virtudes ocultas do Magnetismo.
Foi assim que o abade Faria, com seus grandes gestos fascinadores e voz de trovão, não conseguiu mais do que se fazer passar por charlatão e atrair os epigramas e gracejos da imprensa, em vez de fazer adeptos para o Magnetismo. Foi do mesmo modo que o Sr. Berna, esse magnetizador que em 1837 pretendia trazer à Academia de Medicina fatos concludentes em favor do Magnetismo, por meio de experiências realizadas em pacientes sonambúlicos, não conseguiu, por insucesso dos seus sonâmbulos, senão provocar a negação dos fenômenos cujas provas ele queria dar: transposição dos sentidos, sugestão mental e clarividência.
Finalmente, foi também assim que os doutores Hublier e Pigeaire, na sua avidez de provar a possibilidade de ler sem o auxílio dos olhos, em estado sonambúlico, fracassaram no concurso para o Prêmio Burdin e tornaram fulminante a condenação do Magnetismo. Ora, em substância, quais são as conclusões das Comissões que se pronunciaram contra os processos magnéticos? Essas conclusões se limitaram às seguintes declarações: 1a) As crises e as convulsões, por causarem abalos violentos, são nocivas ao organismo; 2a) Os efeitos desastrosos que se observam nos tratamentos públicos, provenientes da ação da imaginação em exercício, dessa imaginação maquinal que nos leva, mau grado nosso, a repetir o que impressiona os nossos sentidos, podem, não só apresentar perigos para os que são objeto desses efeitos, senão também para aqueles que os testemunham; 3a) Todo tratamento público, em que esses meios são empregados, não pode ter, com o decurso do tempo, senão efeitos funestos (Relatório de Bailly, 1784); 4a) Em suma, esse pretenso meio de curar, que se reduz a uma irritação violenta das regiões sensíveis à imitação e aos efeitos da imaginação, é pelo menos inútil para aqueles que não têm convulsões e muito nocivo aos que as têm (Relatório de Poissonnier, 1784). Esse conceito condena, porventura, um método curativo que exclui formalmente as crises provocadas e as convulsões? De modo algum.
Ele visa unicamente os processos violentos, que nós mesmos reprovamos. E, mais tarde, em 1847, os juízes declaram que nenhuma prova especial lhes pôde ser trazida pelo Sr. Berna: 1o) sobre a existência dum estado particular, chamado “estado de sonambulismo magnético”; 2o) sobre a abolição e a restituição da sensibilidade; 3o) sobre a obediência a uma ordem mental; 4o) sobre a transposição dos sentidos; 5o) sobre a clarividência magnética. É evidente que esses juízes não se preocuparam senão com fenômenos submetidos à sua apreciação, isto é, os do sono provocado; e, do conjunto dos fatos que precedem, resulta que eles nunca se pronunciaram categoricamente sobre a existência ou alcance das virtudes curativas, que não foram apresentadas à verificação. Se os defensores das virtudes curativas se tivessem prudentemente abstido de produzir em público, ou perante sociedades sábias, essa série de fenômenos estranhos, dos quais não há uma só experiência que não possa ser simulada por compadres adestrados, e que compreende a catalepsia, a letargia, o sonambulismo e o êxtase, não teriam levantado contra eles esse grito de indignação e de injúrias, e não teriam sido tratados, do mesmo modo que o seu mestre, como escamoteadores, visionários, charlatães e impostores.
Se se limitassem ao papel mais obscuro de curadores, se simplesmente tivessem feito a imposição das mãos, no recolhimento do silêncio, a fim de praticarem o bem, se em vez de procurarem os aplausos da multidão nas reuniões públicas, atraíssem a simpatia geral, teriam, assim, servido melhor a causa da humanidade. Sei que homens profundamente dedicados, curadores de grande talento, quais o foram La Fontaine e Du Potet, não compartilharam dessa maneira de ver; convencidos de que, para fazerem-se aceitar fenômenos tão novos como os que produz o Magnetismo, não bastam relatórios nem se deve magnetizar na sombra, eles entendiam que a melhor obra de propaganda é pôr esses fenômenos aos olhos do público sob uma forma que permita compreendê-los e apreciá-los. Esses magnetizadores deram freqüentemente sessões públicas de sono provocado, fascinação, catalepsia, letargia e êxtase, acreditando que podiam tornar-se momentaneamente hipnotistas para as necessidades da causa. É, não hesitamos em proclamá-lo, um alvitre mais perigoso do que útil. Essas representações teatrais ruidosas, desordenadas, essas experiências de salão, onde a vaidade do operador não se exime de representar um certo papel, não fizeram dar um passo ao Magnetismo e contribuíram para lançar a todos, mesmo o corpo médico, na estrada das experimentações hipnóticas.
A única propaganda útil a favor do Magnetismo curativo é a que foi empreendida antes da Revolução pelas Sociedades da Harmonia; depois dessa época, tudo quanto se fez só contribuiu para afastá-lo do seu objetivo; uma reação séria fazia-se necessária; foi o que compreenderam os promotores do Congresso Internacional de Magnetismo, que se realizou em Paris por ocasião da Exposição Universal de 1889. Esforçaram-se pela reunião desse Congresso a fim de combaterem os preconceitos de que era vítima o Magnetismo e para publicarem os recursos inesgotáveis, que é possível tirar desse agente da Natureza, exclusivamente empregado para o alívio e cura dos doentes. Esse congresso, que deu sessões de 21 a 26 de outubro, na rua Grenelle, no local da Sociedade de Horticultura, e que terminou por um grande banquete no domingo, 27 de outubro, em casa de Lemardelay, teve como presidente de honra o Dr. Puel, veterano do Magnetismo, distinto botânico, cuja idade avançada e trabalhos o designavam para aquele posto de honra. A diretoria era assim composta: Conde de Constantin, presidente; Dr.
Huet (de Vars), Dr. Gerard, Dr. Foveau de Gourmelles, Dr. Baraduc, Fabert, publicista, vice-presidentes; Millien, secretário geral; A. Santareille, tesoureiro.
Apesar de constituído depois de uma decisão um pouco tardia, esse congresso teve numerosos aderentes e todas as questões importantes do Magnetismo foram ali tratadas do ponto de vista da medicina, da legalidade e da consciência; afirmaram-se, principalmente, as propriedades curativas do magnetismo fora do sonambulismo e discutiram-se os perigos que apresentavam as sessões públicas experimentais sob o ponto de vista da propagação dos verdadeiros princípios. Numerosos oradores tomaram parte nas discussões, que duraram oito dias: Os doutores Hurguet, Gérard, Foveau, Baraduc, Peyronnet, Angerville e os Srs. de Meissas, Bouvier, de Rochas, Ragaczi, Labrousse, Durville, Wirth, Milo de Meyer, Rouvier, Sausse, Guyonnet du Pérat, Moutin, Reybaud, Donato, de Casti, Barão de la Guérinière, Armand Noisel, Gabriel Pilin, Simonin, etc., tomaram sucessivamente a palavra. O relatório geral, no qual estão consignadas as atas das sessões do Congresso, representa um grosso volume em 8o de 370 páginas, publicado em Paris pela casa de Georges Carré.
No número dos votos formulados pelo Congresso internacional, salientamos os seguintes: 1o) A prática livre do Magnetismo curativo, chamado mesmeriano, do mesmo modo que a prática da hidroterapia, da massagem, da ortopedia e geralmente de todos os adjuvantes da arte de curar, não implica a obrigação dum título oficial, para ser aplicada; 2o) A criação, em Paris, de uma Escola de Magnetismo (com adjunção de uma clínica) podendo, no fim de certo tempo de estudos, conceder um diploma de magnetizador aos alunos que apresentarem garantias suficientes de ciência e moralidade. Infelizmente, para atingir a realização desses votos, faz-se mister um conjunto de condições muito difíceis de reunir: precisa-se, principalmente, de capitais.
Ora, a utilidade do Magnetismo não se acha ainda suficientemente reconhecida para estimular os generosos donativos dos filantropos e decidi-los a fundar uma obra humanitária desse gênero. Além disso, é necessário que homens de saber incontestável e de respeitabilidade a toda prova, tomando a peito a direção da nova idéia, se esforcem por arrancar o Magnetismo do descrédito em que o fizeram cair as intervenções descriteriosas. Quando o Magnetismo, dignamente patrocinado, tiver feito publicamente suas provas e firmar-se por suas curas, não duvidamos que a verdade transpareça e o bom senso público e o amor do próximo acabem por triunfar dos obstáculos que ainda hoje impedem a marcha do progresso. CAPÍTULO IX O exercício do Magnetismo sob o ponto de vista legal O preconceito que consiste em só considerar o Magnetismo sob a forma do sono provocado pode contribuir para obstar o seu livre exercício. – Processo de Montpellier (1836).
– Defesa do Barão Du Potet perante o Tribunal Correcional e a Corte régia. – Processos de Bressuire e d’Angers (1842-1845). – Defesa do advogado Charles Ledru, no Tribunal de Paris. – Opinião de Royer-Collard e dos Drs. Péan, Péter, Chevandier e de Pietra-Santa sobre o exercício da Medicina, ao presidente do Congresso Internacional de Magnetismo em 1889.
– O Magnetismo é uma propriedade coletiva sobre a qual ninguém tem o direito de primazia. – Exemplos de casos desesperados em que o Magnetismo tem sido, ou poderia ser de grande auxílio à Medicina. – Odisséia de um infeliz reumático. – Uma operação evitada pelo Magnetismo. – Conseqüências de uma operação inoportuna, reparadas pelo Magnetismo.
– Efeitos poderosos do Magnetismo no crupe. – A morte de Jules Ferry. Nas condições em que o Magnetismo foi apresentado ao público e às Sociedades sábias por aqueles mesmos que louvavam suas virtudes e procuravam propagar-lhe a aplicação, compreende-se quantas dificuldades deveria encontrar o seu livre exercício. O estado sonambúlico em que caem os pacientes, as crises de letargia e catalepsia que acompanham quase sempre aquele estado provocado, eram apropriadas a melindrarem as suscetibilidades, inquietarem as consciências e afastarem de um tratamento que aparências desagradáveis tendiam a fazer proscrever, tanto mais quanto os sonâmbulos, prescrevendo remédios, colocam-se diariamente em contravenção flagrante com as leis acerca do exercício da Medicina. O preconceito consistente em considerar o magnetismo somente sob a forma de sono provocado, devia forçosamente atrair a atenção daqueles que têm a missão de velar pela aplicação das leis e pela conservação da saúde pública; e eis porque os magnetizadores foram, em todos os tempos, mais ou menos obstados quanto ao livre exercício da sua prática, por juízes e médicos.
Amargamente se têm eles queixado; porém, como já o demonstramos, cumpre convir que eles próprios são merecedores de muitas censuras. Finalmente, devemos fazer justiça a quem de direito; todas as vezes que o Magnetismo compareceu perante os tribunais, estes o absolveram, convencidos da lealdade dos delinqüentes e da sua intenção bem firme de não violarem a lei, abstendo-se de prescrever qualquer medicação. Neste gênero, o mais célebre processo foi o que teve de ser sustentado por Du Potet, em Montpellier. Em virtude da queixa do reitor da Academia, que na obra de propaganda magnética do célebre magnetizador tinha visto uma infração à lei, Du Potet compareceu ante o Tribunal de Polícia Correcional e ante a Corte Régia daquela cidade, nos dias 15 e 27 de junho de 1836, e foi duas vezes absolvido. Du Potet, cujos cursos e tratamentos públicos tinham produzido na Academia e na cidade uma verdadeira revolução, não quis tomar advogado e produziu ele próprio a sua defesa.
Eis, em substância, o que disse aos juízes: “Senhores: A Natureza oferece um meio universal de curar e preservar os homens. A Faculdade de Medicina não quer que isto seja verdade; censura aqueles que se oferecem para vos convencer deste fato: imitareis tal modo de proceder? Não poderei, perante vós, justificar os magnetizadores da suspeita de impostores, que pesa sobre eles? Todo o meu crime é ter solicitado o exame público, não de uma doutrina, mas de simples fenômenos que os sábios da vossa cidade ignoram. A mocidade respondeu ao meu apelo; quis formar sua opinião sobre uma coisa ainda fora da ciência atual; quis saber se o descrédito lançado pelos sábios ao Magnetismo era merecido; desdenhando, por momentos, as tradições da Escola, esses jovens estudantes apressaram-se a ver os novos fenômenos.
Condenar-me-eis por tal fato? Condenaríeis Paganini por ter arrancado sons novos do seu instrumento? O abade Parabère, porque a sua organização faz-lhe encontrar mananciais? O primeiro que imantou uma barra de ferro e apresentou-a à multidão, não seria também culpado? Condenaríeis a Galvani e Volta, sê eles viessem demonstrar os incríveis efeitos de uma pilha de metais diversamente superpostos?
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.