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Capítulo 28 de 30

Parte 28 de 29

Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier

O que é verdade é que ficou inerte, não dando importância ao choque que imprimi aos seus fios. Foi-me preciso tocar-lhe muitas vezes com a ponta da bengala para constrangê-la a mover-se; e tão somente com esta incitação repetida, de minha parte, é que o indolente animal se decidiu a entrar em movimento. Quando os centros vitais se recusam à sua tarefa, faltam à missão que a Natureza lhes traçou (o que algumas vezes acontece), é necessário solicitar do mesmo modo, sacudir a sua inércia e os despertar para o seu dever. As práticas magnéticas, imposições, passes, insuflações, são os melhores meios para conseguir esse fim; desempenhando idêntico papel ao da bengala no caso da aranha, esses processos vão incitar a força vital adormecida nos centros e, obrigando-a a deixar o seu paladium (o cérebro e o plexo solar), decidem-na, desse modo, a sair da sua inércia para colocar o organismo ao abrigo dos ataques que lhe são feitos. Ao invés disto, de que modo procede a ciência oficial?

Julgando-se mais perspicaz do que a Natureza (seu único e verdadeiro mestre), faz o que faria o imprudente ou presunçoso ignorante que, substituindo-se à aranha, pretendesse reparar melhor do que ela o dano causado à sua teia; levando mão temerária e inábil ao obstáculo que embaraça o funcionamento do organismo, quebra, destrói, corta, queima, e nada pode restaurar ou colocar em seu lugar, não possuindo idéia alguma dos processos que a fantasia emprega para consertar a malha quebrada e tecer um fio novo. Não sabe que no centro do circuito vital, no meio dessa trama viva e sensível, através da qual ela opera tão inconsideradamente, usando de processos violentos, reside uma força prestes a responder ao seu apelo e cujo concurso deveria antes de tudo solicitar, como sendo o único agente que pode, com conhecimento de causa, exercer uma ação verdadeiramente reparadora sobre as funções embaraçadas ou sobre os tecidos destruídos. Ainda mais.

Quando essa força, obedecendo às leis imutáveis que a dirigem e impelem, se põe, por si mesma, a caminho na direção do ponto atacado, não acontece muitas vezes este fato singular, que, enganando-se acerca dos efeitos dessas migrações salutares, o clínico mal inspirado susta, imprudentemente, essa reação vital benéfica, recalca-a, anula-a por uma medicação violenta ou adormece-a pelos venenos anestésicos? Em outras palavras, imbuído de falsos princípios, sempre por demais impaciente, não dando importância às ações dinâmicas e às reações naturais, ignorando as leis da vida, o médico da escola oficial adianta ou embaraça a evolução vital.

E que faz, por seu lado, o Magnetismo? Concedendo à natureza a parte de perspicácia e sabedoria que lhe cabe, evita cuidadosamente trazer algum obstáculo à sua ação preponderante; ao contrário, favorece-a, impulsiona-a em sua marcha reacional equilibrante, e, evitando cuidadosamente qualquer ato provocado, limita-se a sustentar e ajudar, com toda a sua energia dinâmica e potência radiante os esforços da vitalidade, em suas tendências para o equilíbrio. Foi o que se deu no caso da Sra. B., a que acima referimos, e é provável que, se tivesse agido por meio dos reativos poderosos, que ordinariamente são empregados nesse gênero de febre, terse-ia determinado uma revolução capaz de acarretar um epílogo fatal. CAPÍTULO VII O Magnetismo e a evolução neo-espiritualista Da necessidade de estabelecer-se uma linha de demarcação bem distinta entre os fenômenos psíquicos e físicos do Magnetismo, e entre o mesmerismo e aquilo a que se chama magia do Magnetismo.

Abusos, interpretações errôneas e confusões lamentáveis em detrimento do progresso e da verdade. – F. Sarcey, Dupoy e Durand de Gros, Emile Gautier, Albert Robin, Braun, Gernault, Daudel, Baraduc, Maurice de Fleury. – O pensamento moderno evolve sensivelmente para uma filosofia neo-espiritualista. – O mesmerismo, resumo quintessencial de todas as forças terapêuticas, é chamado, pelo estudo de suas aplicações, a favorecer a evolução espiritualista que, em Medicina, tende a substituir, por uma luminosa síntese dinâmica, a obscura tradição orgânica materialista.

– A obra de vulgarização e os que a favorecem: os Srs. Padre de Meissas, Camille Flammarion, a Revue Encyclopédique, o Voltaire, o Petit Médecin des Familles, o Matin, a Presse, o Journal d’Hygiène, o Progrès de la Côte-d’Or, o Journal de la Santé, o Figaro. Eis-nos chegados ao termo da tarefa a que nos impusemos. Emitimos uma hipótese e apresentamos fatos. Uma hipótese, qualquer que ela seja, é sempre mais ou menos contestável; não temos, portanto, a pretensão de impor a que desenvolvemos e limitamo-nos muito simplesmente a submetê-la à apreciação dos que, como nós, sinceramente se dedicaram à investigação da verdade.

Cremos na necessidade de uma hipótese, a fim de concatenar os fatos entre si e facilitar a sua interpretação; mas apressamonos a acrescentar que, inimigos de toda sistematização exagerada, estamos com Plínio, quando diz que “a estrada é longa pelos preceitos e curta pelo exemplo.” Convencidos, pois, que a prática conduz mais depressa ao resultado do que a teoria, aplicamo-nos à multiplicação dos exemplos, e é sobre fatos numerosos que as nossas teorias se apóiam. Teorias e fatos permitiram-nos estabelecer uma linha de demarcação muito sensível, entre os fenômenos físicos e os fenômenos psíquicos. Empenhamo-nos para que sobre este ponto não ficasse nenhuma confusão nos espíritos. Importava estabelecer claramente que existe um Magnetismo puramente físico, agente natural da reconstituição vital, possuindo no mais alto grau de forças antagônicas das correntes; empenhamo-nos por demonstrar que esse magnetismo difere essencialmente daquele que costumam apresentar, julgar e apreciar sob a forma ambígua e as falazes aparências do Hipnotismo, do Sonambulismo e da fascinação sugestiva.

Desses fenômenos singulares, que se prendem às questões mais perturbadoras da consciência e do livre-arbítrio (chamouse-lhes com justa razão a magia do Magnetismo) fez-se, digamolo, o mais revoltante abuso, não somente nos palcos e nos gabinetes secretos de alguns charlatães desclassificados, que da credulidade pública fazem divertimento habitual, como ainda em recintos científicos onde a Ciência tinha o dever de dar o exemplo de uma sábia e prudente reserva.

Foi devido a esses abusos que o Magnetismo, desconhecido, temido por uns, desprezado por outros, encontrou em todos os tempos tão mau acolhimento por parte dos espíritos sérios, e que a consoladora solução fisiológica que ele encerra conservar-se-á ainda, durante muito tempo, ignorada de muitos. A cada momento, escritores importantes, vítimas do estado de confusão reinante nos diferentes meios em que se trata do Magnetismo, confusão que pode ser atribuída à ignorância em que ainda se está da natureza íntima desses fenômenos, englobam de boa fé, sob a mesma rubrica, aquilo que se relaciona com o Magnetismo e o que é do domínio da prestidigitação, fazendo, em detrimento da Ciência, um amálgama estranho das coisas mais disparatadas. Assim é, por exemplo, que, recentemente, um dos nossos eminentes colegas, o Sr. Sarcey, cujo talento como crítico literário é incontestável, julgou dever sair da sua competência habitual para decidir uma questão de magnetismo no Petit Journal. À simples afirmação de um prestidigitador bem conhecido, o Sr.

Raynali (que segundo parece, exibira o truque de certas mistificações teatrais de que fora outrora principal ator), o Sr. Sarcey, imprudentemente abalançou-se a assinalar todos os magnetizadores à vindita pública, tratando-os de embusteiros, como se eles fossem cúmplices das sortes engenhosas descritas pelo Sr. Raynali, naturalmente para ganhar alguma notoriedade de escamoteador. Não há nem pode haver, entre o que foi descrito pelo Sr. Raynali e o Magnetismo, nenhuma analogia.

Eis aí, entretanto, como se formam os preconceitos, e de que modo se propagam os erros... Pode-se apostar aos numerosos leitores do Petit Journal que leram o artigo do Sr. Sarcey o que pensam acerca do Magnetismo, eles, lembrando-se da palavra autorizada de um dos redatores mais competentes dessa folha eminentemente popular, responderão: “O Magnetismo é uma farsa em que entram em jogo apenas o mistificador e os tolos” ou ainda: “No Magnetismo há dois mistificadores; o magnetizador e o magnetizado.” Assim caminha o mundo. O homem de bem, que, em detrimento de seus interesses mais caros, começa a luta contra a ignorância das massas e esforça-se em proveito de todos por tornar patente uma verdade útil, não somente encontra a cada passo as resistências mais formidáveis que lhe opõem os preconceitos científicos, mas, também vê erguer-se diante de si uma multidão de opiniões contraditórias, falsas apreciações, juízos errôneos, que por indiferença, ignorância ou leviandade, são semeados pelos jornalistas que têm a missão de esclarecer o povo. Felizmente, ao lado desses escritores que assim falseiam inconscientemente o admirável instrumento da vulgarização popular, erguem-se, de longe em longe, para palmilhar o caminho do progresso, algumas raras inteligências de escol, homens sérios, isentos de preconceitos, que se empenham em conduzir os espíritos transviados ao verdadeiro sentido das coisas.

Assim, enquanto o Sr. Sarcey propaga, do alto da tribuna que ocupa no Petit Journal, este erro à multidão: “Não acrediteis no Magnetismo!” um médico da Faculdade, correndo o risco de tornar-se ridículo aos olhos dos seus clientes e dos próprios colegas, o Sr. Dr. Dupouy,7 não hesita, no jornal do Sr. Drumont, em prestar pública homenagem à verdade: “Acredito – diz ele – na ação terapêutica do Magnetismo.

Em grande número de enfermidades, mas particularmente nas perturbações funcionais que dependem do sistema nervoso, o Magnetismo tem sido empregado com bom êxito, e poderia ser ainda muito mais, se fosse utilizado por homens que estivessem ao corrente da ciência fisiológica. Infelizmente pondo de parte algumas individualidades distintas, o Magnetismo animal foi sempre confiado às mãos dos empíricos. Entretanto, sua potência em certos casos é tal, que é capaz não somente de operar certas curas, mas ainda de produzir faculdades novas. A tradição atribui a descoberta do Magnetismo ao alemão Mésmer; mas a medicina magnética já era conhecida de Paracelso, de Glocênius, de Van Helmont, de Robert Fludd e de muitos outros médicos da Idade Média. A influência que um homem pode exercer sobre o corpo de outro homem, quer por meio da aplicação das mãos, quer por movimentos chamados passes, acha-se inteiramente descrita na obra De acutis morbis de Coelius Aureliânus, isto é, já no segundo século de nossa era.

Por que razão esta grande questão de fisiologia humana conservou-se na sombra e foi profundamente desdenhada pelos médicos do século XIX? De que maneira explicar o silêncio das Academias, quando a realidade dos efeitos foi reconhecida por uma comissão de sábios, tais como Lavoisier, Franklin, Bailly, De Jussieu? A causa está no Positivismo filosófico sob o qual se disfarça um estúpido materialismo! É a ele que se deve atribuir isso, porque só ele reina despoticamente há mais de um século em nossos Institutos, na Universidade, em nossas Escolas!” Já o Dr. Durand de Gros (a quem consagramos mais adiante uma notícia biográfica detalhada, e que desde 1855 demonstrava de maneira notável, no seu livro sobre o Electro Dinamismo vital as relações filosóficas do espírito e da matéria, baseadas numa exposição nova do funcionamento nervoso e sobre experiências concludentes), se exprimia deste modo acerca das virtudes curativas do Magnetismo: “Pela natureza transcendente e incomparável das forças que emprega, o mesmerismo apresenta-se inteiramente excepcional na série dos métodos médicos de ordem física; ocupa aí, verdadeiramente, o que na terminologia fourieriana se chama a ordem pivotal.

Efetivamente, o agente mesmérico que outra coisa não é senão a eletricidade vital (desprendendo-se do corpo, quer por emancipação espontânea, quer por expulsão radiante da vontade), reúne a todos os caracteres vitais, todas as atribuições vitais. Em virtude de suas propriedades gerais, e de maneira tal, que por si mesmo se difunde, ele atua como força vital, e não há agente cuja ação seja tão poderosa e tão extensa, porque sua potência vem juntar-se à da vitalidade, com a qual ele é homogêneo e aumentar desse modo a virtude pela qual todo alimento nutre e todo medicamento cura. Submetido à elaboração do pensamento, pode ser impregnado à vontade de todas as propriedades distribuídas aos diferentes corpos: e ainda aqui, estas forças especificadas podem ser encaradas como o produto mesmérico de uma idéia que se fixasse na essência das substâncias e perpetuando-se com elas como um sucedâneo preparado pela Natureza, para proceder os esforços criadores da alma humana e conduzir a sua atividade medicatriz.

O mesmerismo é, deste modo, o resumo quintessencial de todas as potências terapêuticas, exploradas pelos diferentes métodos medicais pertencentes ao sistema das impressões físicas.” Entre as apreciações dadas sobre o Magnetismo por esses homens do ofício, por esses sábios de alta competência e a opinião levianamente formulada, que há pouco citamos, há grande distância! O magnetismo já não é simples artimanha entre mistificadores e mistificados; é uma das forças mais admiráveis da Natureza, capaz não somente de operar curas, como ainda de produzir faculdades novas; é (no dizer do Dr.

Durand de Gros) “o resumo quintessencial de todas as potências terapêuticas da Natureza!” Sob esse aspecto, o Magnetismo aparece-nos então como devendo favorecer o movimento espiritualista que tende, dia a dia, e cada vez mais, a vencer o positivismo filosófico e a substituir as obscuras tradições materialistas da medicina organicista pelas luminosas concepções de um dinamismo vital, novo. É incontestável que uma evolução se prepara, um movimento se opera, e esse movimento se efetua no próprio seio das nossas academias! “Assistimos – diz Emile Gautier no Figaro – a um fenômeno estranho! O eixo da humana intelectualidade se desloca! O pensamento moderno, que ainda ontem, eivado de extraordinário realismo, proscrevia sistematicamente o ideal de suas especulações e entendia só dar importância ao que se apalpa, se mede e se pesa, o pensamento moderno, tende visivelmente a espiritualizar-se!

Do mesmo modo que a caça ferida, que faz sua investida, ele volta em grandes vôos às esferas etéreas onde por tanto tempo pairou. Não há, por assim dizer, um só ramo da atividade cerebral que, pouco ou muito, não traga na hora presente o vestígio desta mudança inesperada. O movimento acabou por ganhar as ciências, compreendendo-se nelas até a Medicina, a mais concreta de todas, e que outrora, por não haver encontrado a alma sob o escalpelo, produzira irreconciliável materialismo. Foi o professor Albert Robin, um dos espíritos mais penetrantes da Faculdade, que se encarregou, em pleno cenáculo acadêmico, de dar o primeiro passo?” O Sr. A.

Robin acaba efetivamente de fazer à Academia uma comunicação, que aniquila as idéias adquiridas; contrariamente à opinião da Escola, ele declara que uma enfermidade não está, como geralmente se julga, necessariamente ligada a uma lesão material, porém, que qualquer perturbação mórbida é essencialmente, antes de tudo, de ordem puramente dinâmica. Como tipo de sua demonstração, o Sr. A. Robin toma por exemplo de albuminúria fosfatúrica e propõe-se a estender mais tarde o seu raciocínio a todas as moléstias. Eis aí, de fato, uma tese que não é para afligir-nos, porque traz aos nossos trabalhos uma confirmação brilhante; damo-nos por felizes em concordar com o Sr.

Albert Robin sobre um assunto que nos empenhamos a elucidar desde muito tempo, acalentados pela esperança de que, rompendo com os preconceitos que embaraçam a Ciência, conseguir-se-á, talvez, dilatar finalmente o campo dos intuitos que devem um dia iluminar a Fisiologia do futuro. Outros já enveredaram por essa estrada do progresso e trouxeram ao dinamismo terapêutico a contribuição de seus ensaios e trabalhos. O Dr. Michail Braun, de Trieste, e o Dr. Garnault provaram, com aplicações recentes, que se reconstituía a vitalidade das mucosas e restabelecia-se a nutrição dos tecidos por simples massagem vibratória.

Estes senhores andaram mal apenas num sentido: foi, em nossa opinião, substituir a mão por um aparelho mecânico e privarem-se, assim, do elemento essencialmente vital que, com mais segurança, podia contribuir para a cura. O Sr. Dandel de Montellier, partidário declarado do dinamismo, eleva ainda mais as suas vistas filosóficas, porque procu-

ra estabelecer sua doutrina médica na metafísica pura.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.