[user_registration_my_account]
Capítulo 17 de 30
Parte 17 de 29
Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier
Coincidiu que essa doente fosse, precisamente, uma sonâmbula de grande sensibilidade magnética. A superiora, mulher de espírito elevado e grande coração, surpreendida com a simplicidade dos meus processos e de sua rápida eficácia, compenetrou-se extraordinariamente do meu método e das explicações que eu tinha prazer em dar-lhe. Todas as manhãs eu ia até ao estabelecimento das irmãs, e, juntando a teoria à prática, fazia durante uma hora um verdadeiro curso de Magnetismo; livres das suas ocupações, jovens e velhos corriam a ouvir-me as lições; toda a comunidade quis ouvi-las; mesmo algumas irmãs vieram da casa matriz de Paris; esforceime por demonstrar-lhes todo o partido que podiam tirar do seu vigor e da sua saúde com esse meio curativo, nos cuidados que diariamente tinham de prestar. Ignoro se consegui fazer prosélitos entre elas e se depois da minha partida as boas irmãs impuseram as mãos sobre os seus doentes; em todo caso, nada desprezei durante dois meses, para levar a convicção ao ânimo daquelas santas mulheres.
Na sociedade, às vezes, aconteceu-me encontrar certas hesitações e certos escrúpulos de consciência, que se desviavam manifestamente do Magnetismo; sem atribuir-lhe precisamente um caráter diabólico, essas pessoas não o julgavam, entretanto, de acordo com o espírito da Igreja; todas as vezes que se me ofereceu ocasião, fui de encontro a essas repugnâncias, e foi-me fácil induzir esses espíritos timoratos a uma apreciação mais justa das coisas; um fato, em toda a sua simplicidade e uma demonstração lógica, bastavam quase sempre para vencer todos os escrúpulos e dissipar todas as dúvidas.
Eis, por exemplo, o que aconteceu com um dos meus bons camaradas de infância, cuja mulher possuía princípios religiosos intransigentes: Cura de cólicas hepáticas No começo do inverno de 1876, o acaso fez-me encontrar em Paris um dos meus camaradas de escola, Léon de L., que era então oficial de Cavalaria, em serviço no Ministério da Guerra. Havia muitos anos que não nos víamos; encontrei-o muito mudado e fiz-lhe mesmo observar esta circunstância. Disse-me, então, que há cerca de dois anos a sua saúde se alterara profundamente, sem causa aparente. Tinha consultado vários médicos e todos, (fato raro), tendo concordado quanto à natureza do mal de que estava afetado, o haviam tratado como sofrendo de gastralgia. Mas os tratamento a que o submetiam, longe de curá-lo, tinham deixado o mal recrudescer de maneira espantosa.
Os acessos, primeiramente muito distanciados, tinham-se tornado cada vez mais freqüentes e havia alguns meses que a sua periodicidade e violência eram tais, que lhe não deixavam um só instante de calma. Toda questão de medicina, em tese, me é sempre interessante. No presente caso, minha atenção foi principalmente despertada pela afeição toda particular que tributava ao velho amigo. Interroguei-o de mil maneiras acerca dos seus sofrimentos; falei-lhe das experiências que diariamente fazia sobre Magnetismo, e pusme inteiramente ao seu dispor, caso os médicos não conseguissem curá-lo. Léon de L., como muitos outros, não tinha nenhuma razão séria para acreditar no Magnetismo; pensou que eu andava iludido acerca da eficácia dum agente tão discutido por homens de Ciência e tantas vezes explorado pelos charlatães, e apenas considerou nas minhas palavras a expressão muito natural do sentimento de afetuosa camaradagem, que desde tantos anos nos ligava e me impelia a partilhar dos seus males.
Agradeceu os oferecimentos, afirmando-me que acabava de iniciar um novo tratamento, do qual esperava os melhores resultados. Habitando ambos a mesma cidade, víamo-nos freqüentemente. O estado de Léon de L., longe de melhorar, ia piorando; todas as semanas e com certa regularidade (na sexta-feira ou sábado) declarava-se uma crise que o retinha por três dias no leito. Essas crises começavam, invariavelmente, por uma dor aguda no epigástrio, a qual, caminhando pelo hipocôndrio direito, ia irradiando pelo abdômen e pelas costas, abaixo da omoplata: a dor excessiva era acompanhada de angústias e suores frios. O humor passava, sucessivamente, por todas as alternativas, desde a violência do desespero, até o mais profundo abatimento.
Entre cada acesso, cuja reprodução tinha a desoladora regularidade das febres intermitentes, o doente não gozava nenhuma espécie de calma, porque as angústias e as apreensões do próximo ataque pesavam dolorosamente no seu cérebro. Esses sintomas pareceram-me característicos de um mau funcionamento do fígado, em vez de os de uma gastralgia; tanto mais que Léon de L. tinha tido alguns desgostos e contratempos, acerca da sua promoção. Comuniquei-lhe o meu diagnóstico, de novo insisti tenazmente para que recorresse ao Magnetismo. Léon de L., porém, apesar da sincera amizade que me votava, apesar do vivo desejo de restabelecer-se, estava imbuído dos preconceitos da sociedade em que vivia. Acerca do Magnetismo, era de uma incredulidade profunda: por outro lado, os que o rodeavam eram muito timoratos e religiosos; sua mulher, cuja devoção era grande, vendo no Magnetismo uma prática perigosa, proibida pela Igreja, não menos contribuía para afastá-lo de um recurso em que ele tinha apenas confiança medíocre.
Quando lhe afirmei que tinha o fígado doente e não o estômago, riu-se da minha pretensão de ler melhor o seu estado do que os numerosos médicos que se haviam já pronunciado sobre o sofrimento. Não insisti. Uma tarde, ao entrar em casa, cerca de seis horas, encontrei um bilhete da Sra. de L. pedindo-me com insistência que fosse ver o pobre amigo, acabrunhado por uma crise mais violenta que as outras. Parti imediatamente e encontrei-o de cama, sofrendo mais do que nunca. Desesperado, desanimado, já não tendo confiança em qualquer medicação, entregou-se às minhas mãos: “Afinal, magnetiza-me – disse –, já que pretendes que isso me pode fazer bem; mas asseguro-te que já não tenho coragem e começo a crer que não há remédio para a minha moléstia.” Animei-o da melhor maneira que pude, comecei a magnetizálo imediatamente.
Convencido (como já havia afirmado) de que tudo provinha da má função do fígado, atuei sobre o hipocôndrio direito e fiz, em seguida, uma massagem lateral, desde as costelas até a axila. Ao voltar no dia seguinte, o amigo, com a fisionomia bastante triste, informou-me que a sua moléstia parecia tomar uma feição muito inquietadora, pois desde a véspera urinara sangue. Pedi para ver a urina e verifiquei que aquilo que ele julgava ser sangue era simplesmente uma coloração vermelho-escura da urina, devido à bílis concreta, que, com a magnetização da véspera, tinha-se desprendido dos canais hepáticos, ingurgitados. Este fato confirmava amplamente o meu diagnóstico e o doente rendeu-se desde logo à evidência, porque, dois dias depois, em seguida a novas magnetizações, não somente a coloração da urina continuou, como ainda a pele tornou-se amarela, como se dá na icterícia, com a diferença, porém, de que essa coloração da pele em vez de começar pela face, conjuntivas, asas do nariz e ao redor da boca, como se dá na icterícia comum, só se manifestou na parte inferior do corpo, desde a cintura até aos pés, isto é, na parte do corpo sobre a qual particularmente eu atuava por meio dos passes e massagens. Continuei a magnetização durante uns quinze dias e desembaracei, assim, completamente, o meu incrédulo amigo das suas temíveis crises de cólicas hepáticas.
Durante algum tempo, ele experimentou ainda vagas apreensões, temendo sempre a volta da afecção, da qual não podia acreditar-se livre tão facilmente; mas esse pesadelo deixou-o finalmente, e tão importante cura conquistou um adepto entusiasta para o Magnetismo. Quanto à Sra. L., desapareceram-lhe também os escrúpulos, está hoje inteiramente convencida da nenhuma intervenção diabólica do Magnetismo, principalmente depois que um rev. padre, seu confessor, afirmou-lhe positivamente que o trabalho que tem por intuito o alívio dos que sofrem não pode ser obra do demônio. SEGUNDA PARTE Lei dos Fenômenos CAPÍTULO I O estudo do Magnetismo conduz em terapêutica a uma síntese Objeto da Medicina; seu problema fundamental. – O primeiro princípio de toda terapêutica deve ser: “A Natureza cura!” – Fisiologia, Patologia, Terapêutica.
– Classificação das moléstias: Nosologias orgânica, etiológica e sintomática. – Não existe atualmente terapêutica: opinião dos mestres a respeito. – Golpe de vista retrospectivo sobre a história das doutrinas médicas. – Necessidade de uma síntese. – Investigações da lei que engendra os fenômenos e regula as funções da vida.
– Esta lei acha-se implicitamente contida nos princípios formulados por Mésmer. O objeto da Medicina pode ser assim definido: a conservação e o restabelecimento da saúde. Daí, duas divisões primordiais: Higiene e Terapêutica. O problema fundamental da Medicina, em sua dualidade, se estabelece, pois, da maneira seguinte: que é preciso fazer-se para manter o equilíbrio da saúde? Quando este for destruído, que convém fazer para restabelecê-lo?
É da segunda parte da proposição, ou da Terapêutica, que nos ocuparemos aqui. Hipócrates, pai da Medicina, disse: “Natura medicatrix quae lucere oportet, quae maxime vergunt, eo ducenda per loca convenientia.” (A Natureza cura, mas com a condição de que seus efeitos sejam sustentados, auxiliados, dirigidos convenientemente). Para o mestre, o primeiro princípio da Terapêutica é este: Natura medicatrix (A Natureza cura); porém, formulado nestes termos absolutos, um tal princípio teria sido a negação da Medicina. Eis porque acrescenta: cumpre sustentar, auxiliar, dirigir seus esforços. Portanto, toda a ciência médica reside na pesquisa dos meios que podem sustentar, secundar, dirigir os esforços da Natureza, o único e exclusivo agente da cura.
Mas, para conhecer esses meios, torna-se indispensável, antes de tudo, saber em que consiste o equilíbrio vital, isto é, a saúde, e os desvios desse equilíbrio, isto é, a moléstia. Será necessário criar uma Fisiologia ou ciência do homem com saúde, depois uma Patologia ou ciência do homem doente, e finalmente uma Terapêutica ou arte de tratar as moléstias. Pois bem; é triste dizê-lo, mas após dois mil anos de esforços, estamos quase tão adiantados como no primeiro dia, ou – porque não dizê-lo? – ainda estamos mais atrasados, pois, no entravamento inextricável de todas as doutrinas, a que as pesquisas deram origem, nasceu uma tal confusão, que o assunto, longe de esclarecer-se, obscureceu-se ainda mais. Para falar acertadamente e com a confissão dos próprios médicos mais distintos, não temos atualmente Fisiologia, nem Patologia, nem Terapêutica.
O Diagnóstico, sem o qual não poderá haver Prognóstico seguro nem Terapêutica certa, não existe. Em vão tem-se tentado descrever as moléstias na sua origem, causas, marcha e conseqüências; procurou-se, infrutuosamente, uma classificação metódica e racional para esses desvios da saúde. Uns propuseram um método de classificação baseado na Anatomia; grande número, porém, de moléstias, principalmente as nevroses, não têm sede determinada e nem deixam traço algum de lesão material, depois da morte. Outros, imitando o método dos naturalistas e botânicos, julgaram poder classificar as moléstias em classes, gêneros e espécies, como os animais e as plantas; mas esse método, chamado nosológico ou filosófico, apresenta o grave inconveniente de fazer aproximações forçadas, reunindo num mesmo grupo afecções muito dessemelhantes. Essa classificação não dá, aliás, nenhuma explicação das causas, que se conservam sempre tão vagas, tão obscuras, tão desconhecidas mesmo.
Sobre que bases se poderia, com efeito, estabelecer uma ordem racional? Sobre a das desordens orgânicas, cuja inconstância ainda há pouco assinalamos? Sobre as perturbações funcionais? ou mesmo sobre os sintomas, estas aparências tão diversamente variáveis, cuja nomenclatura é comum a tantas moléstias dessemelhantes? Todos os dias surgem profundos desacordos entre os partidários do método nosológico para determinar-se claramente os caracteres que distinguem as classes, os gêneros e as espécies mórbidas. De fato, uma nosologia não pode ser exclusivamente orgânica, nem exclusivamente etiológica, nem exclusivamente sintomática; e foi isso tão bem reconhecido, que, em desespero de causa, procurou-se de momento a questão, apoiando-se muito simplesmente na classificação alfabética.
“Os quadros nosológicos – diz Bayle – são meios artificiais empregados para suprir a fraqueza da nossa inteligência; pode-se acrescentar – diz Beclar – que eles correspondem à insuficiência notória dos nossos conhecimentos.” Realmente, diz o Dr. Hecker, e com razão, ainda não temos Fisiologia; não sabemos o que seja moléstia, ignoramos de que modo atuam os medicamentos e como eles curam os doentes. Os professores mais eminentes, os práticos mais notáveis, não hesitam em confessar que na Medicina “há completa ausência de princípios na aplicação da arte”. E essa profissão de fé, que pode parecer pelo menos estranha na boca desses sábios, esclarecidos por longa experiência, é de algum modo um grito de desespero e de desânimo arrancado à lealdade deles pela mais triste das realidades. A que se deve esse estado de coisas?
Os verdadeiros filósofos no-lo dizem: “A Ciência peca por deficiência de noções exatas sobre o seu objeto, pelo uso de métodos defeituosos, pela miragem enganadora de hipóteses que fazem perder de vista as manifestações da Natureza.” (H. Girard). “O acúmulo dos fatos nos esmaga; asfixiamo-nos ao peso deles. Já não podemos guiar-nos através dessas regiões em que se agita a imensa multidão dos fenômenos; os fatos lutam contra os fatos; em nenhum ponto encontramos sua concordância; a experiência do dia desmente a experiência da véspera e nessa obscura confusão os espíritos são invadidos por um incurável cepticismo.” (Dr. Chauffard).
“Perdida nos meandros da organização, que tinha por fim tornar conhecida, a Ciência deixou a presa pela sombra. Transviada nos detalhes da composição dos tecidos e dos seus princípios mediatos e imediatos, da conformação e mecanismo dos órgãos, das propriedades orgânicas e da história natural das funções, desprezou demasiadamente o estudo do conjunto, as leis gerais do ser organizado. Sem guia, no meio de inúmeros documentos reunidos pela paciência dos observadores e incapaz de grupá-los metodicamente, ela marcha para o imprevisto através dos conhecimentos adquiridos. A boa estrada parece havê-la perdido.” (Dr. Bouchut).
Eis porque, já no seu tempo, dizia Van Helmont: “a Medicina não caminha, mas gira em torno do seu eixo.” Essa a razão pela qual a história das doutrinas médicas, mostrando-nos a Medicina escrava das flutuações da moda, obedecendo à especulação mais arbitrária, edificando sistema sobre sistema, reflete todas as fantasias e excentricidades do cérebro humano. Em começo, filha da ignorância primitiva, tomando por guia o bom senso, só admitiu um curador, “a Natureza!” Foi a idade de ouro dos doentes; não se fazia então com ela sofredores. Mas essa medicina de expectação durou pouco; atribuiu-se, em breve, as moléstias a causas imaginárias, multidão de sistemas surgiu dentre a perturbação das idéias; e foram: o Empirismo de Pitágoras, de Empédocles e de Hipócrates, o Dogmatismo de Platão e de Aristóteles, o Stoïcismo de Zenon; depois, o Pneumatismo e o Metodismo, com as teorias de Asclepíades, de Temison e de Celso, às quais sucede o Sistema Humoral de Galeno.
O número 4 parece ser o cabalístico da doutrina; admitem-se quatro elementos: o fogo, o ar, a terra e a água; quatro qualidades: o quente, o frio, o seco e o úmido; quatro humores cardiais; o sangue, a bílis, a pituita e a melancolia. Pode dizer-se que foi a idade de ferro dos doentes: durante mais de catorze séculos que existiu, foram eles postos à tortura, submetendo-se às dietas absolutas chamadas curas pela fome e às terríveis provas da recorporatio ou metasincries, por meio das quais tinha-se a pretensão de pôr o organismo completamente novo.
O sistema humoral, que de todos os sistemas é deveras o mais ilógico sob o ponto de vista teórico e o mais cruel na aplicação, foi (é triste dizê-lo) o que melhor resistiu aos caprichos do tempo; e, apesar das numerosas lutas que teve de sustentar e das discussões que levantou, vimos persistir e reaparecer em todas as épocas: a evacuação cocção dos humores encontra-se no fundo de todos os métodos: é a medicina do Dr. Purgon. Por momentos, a descoberta da circulação dirige os espíritos para novas especulações. O mecanismo do curso do sangue, o estudo da estrutura do coração e de seus vasos, fixam a atenção dos homens da arte. O coração aparece como o centro da ação vital: atribui-se-lhe tudo e ao sangue que ele se acha encarregado de distribuir pelo organismo; as moléstias são ocasionadas pela força ou fraqueza desse órgão; e as teorias médicas se baseiam exclusivamente na Mecânica e na Hidráulica.
Mas a descoberta da Química vem fazer diversão, dando origem ao Quimismo; neste novo sistema, só se trata de ebulições, fermentações e depurações; é a medicina de Boé e de Paracelso. Em breve, o Quimismo cede passo ao Animismo; já não são a Química e a Mecânica que presidem às funções da vida: é a alma. Esta torna-se exclusivamente o regulador do corpo; mas, como as teorias religiosas proclamavam a alma independente dos órgãos, inventou-se uma alma material, o Arquêu e seus subalternos. Sucedem-se os métodos de Van-Helmont, Boerhave e Stahl. Mais tarde, depois do Animismo, o Solidismo de Haller; e, após este, o Dinamismo, mas um dinamismo material, onde tudo reside num excesso ou falta de força, que se combate pelos debilitantes ou fortificantes: é a medicina de Hófman, de Cullen e de Brown.
A Botânica, até então bem pouco conhecida, torna-se uma ciência que dá idéia das classificações; assimila-se a esse método a arte de curar, e começa-se a classificar as moléstias do mesmo modo que os minerais, as plantas e os animais, por meio de caracteres constantes: é o Nosologismo de Sauvages. Inesperadamente, o vento volta aos primitivos dados da Ciência, retrocede-se a Hipócrates e a Galeno, e, creio que em lembrança dos quatro humores cardeais, inventam-se os quatro elementos; o bilioso, o mucoso, o nervoso e o inflamatório. Combate-se o bilioso pelos vomitivos, o mucoso pelos purgativos, o nervoso pelos antispasmódicos, o inflamatório pelas sangrias; ressuscita-se a recorporatio ou metasincrise, sangrando-se a branco. A Medicina fez o seu primeiro circuito e acha-se no mesmo ponto de partida: a mesma incerteza, a mesma obscuridade, os mesmos desvios. Entretanto, a Anatomia e a Fisiologia progrediram; cansados com essas vãs especulações que conservam a arte de curar em situação tão lastimosa, os médicos inclinam-se para novos dados científicos, que parecem dever ajudar a romper o véu que encobre a verdade: pesquisa-se o cadáver com afã, esperando-se encontrar aí o segredo da vida.
Todos os fatos patológicos se explicam, então, pelas alterações cadavéricas; essa nova orientação dá origem à doutrina dos anatomopatologistas. Não é ainda este o caminho que deve levar à luz; bem depressa o percebem e a esperança se desvanece no momento em que nasceu. A obscuridade científica torna-se mais profunda; em tudo existe a dúvida, de novo todas as coisas são submetidas à observação. Cada qual extrai do passado o que pode, para constituir um método: têm livre curso todas as opiniões médicas. A indiferença e o desânimo se apoderam dos espíritos, conduzindoos à medicina fácil das águas termais e dos específicos farmacêuticos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.