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Capítulo 23 de 30

Parte 23 de 29

Magnetismo Curativo – Volume 2 · Alphonse Bouvier

Basta ler as obras de elevada erudição prática do eminente professor das Faculdades de Montpellier e de Lille, para fazer-se uma idéia clara da questão. Não existe, como querem fazer crer, um gênio maléfico que, desde o começo do mundo, espalha por toda a parte os germes da peste, do cólera, da febre amarela, da varíola, da febre puerperal, do carbúnculo, do mormo, da sífilis, da tuberculose e de todas as moléstias epidêmicas e contagiosas. Os elementos histológicos primitivos de nossos tecidos, os microzimas, como lhes chama o Sr. Béchamp, são muito simplesmente dotados de propriedades diversas, conforme os centros de atividade em que evoluem.

Quando certas influências perniciosas, tais como as imprudências, o desasseio, o confinamento de muitas pessoas num só recinto, a intemperança, a má alimentação, a vida irregular, etc., vêm modificar mais ou menos profundamente o estado geral do organismo, os nossos elementos histológicos, cessando, de algum modo, de vibrar em uníssono com o círculo vital, tomarão, de repente, uma evolução nova, transformar-se-ão em bactérias e tornar-se-ão, temporariamente, nossos inimigos; mas, sob melhores influências, quando o organismo venha a reconstituir-se, um movimento de regressão se operará e os nossos elementos histológicos, passando novamente do estado doentio para o estado de saúde, deixarão de ser bactérias inimigas para se transformarem em microzimas amigas.

Tanto num como noutro caso, são os nossos próprios elementos constitutivos que, escapando ao nosso domínio ou voltando para ele, se desnaturam ou se reconstituem; não interveio nesse fato nenhum elemento estranho, e o fenômeno se resolve completamente numa metamorfose dos nossos elementos histológicos, sob a alternância das forças que os acionam. É uma simples questão de equilíbrio. Quando, portanto, um europeu, subitamente transportado para o seio das populações em que reinar a febre amarela, cair doente, vítima do flagelo, estando, entretanto, os que o cercam, de perfeita saúde, não será, propriamente falando de um miasma, que ele virá a sucumbir, mas de uma falta de adaptação de sua tonalidade ao novo meio em que vem habitar. Não se transporta um organismo do Pólo ao Equador, sem correr o risco de quebrar a sua tonalidade, sob a influência do desvio considerável dos antagonismos contra os quais essa tonalidade tem que exercer a sua tensão. Os organismos podem, até certo ponto, resistir às forças ambientes; o seu grau de resistência está na razão da força de reação que lhes dá a sua tensão equilibrada; mas há certos determinativos preponderantes, em face dos quais todas as tonalidades ruirão; um só organismo não resistirá, por exemplo, ao contato do raio ou à influência mortal do óxido de carbono.

Isto nada mais tem a ver com as teorias parasitárias e microbianas, as quais, além do grande mal que podem causar, levando inutilmente o terror às almas tímidas, mostrando-lhes a morte pairando de contínuo no espaço sob mil formas inapreciáveis, apresentam um inconveniente muito mais grave, que é fazer perder de vista o verdadeiro ponto de partida etiológico das moléstias, e desse modo desviar completamente a terapêutica. Resumamos, pois, e digamos: A moléstia não tem o caráter de materialidade mórbida que se lhe empresta. A nossa propensão natural para tudo interpretar pelos sentidos, torna-nos o joguete de uma ilusão, que nos faz tomar o efeito pela causa. A moléstia não está no organismo, nem num princípio fictício, exterior ao organismo. Resulta, invariavelmente, de um desacordo entre a nossa tensão desequilibrada e a das forças ambientes.

Sob a impulsão desse desacordo, produz-se um efeito consecutivo: as nossas funções se perturbam e os nossos elementos constitutivos, escapando ao domínio da tonalidade, se desagregam e se pervertem; não voltam, pela regressão, ao estado de saúde, senão quando, tendo-se refeito o equilíbrio tonal, entram de novo esses elementos sob a potência reguladora de nossa tensão equilibrada. Só há um ponto de equilíbrio; não pode, portanto, haver mais do que uma saúde e uma moléstia. CAPÍTULO V Só há um Remédio O que se deve entender pela expressão: “Só há um remédio”. – O mesmerismo está de completo acordo com o aforismo hipocrático: “Natura Medicatrix”. – A primeira noção de qualquer terapêutica é saber de que maneira se comporta a moléstia fora da ação do medicamento.

– Ignorância em que se está acerca da oportunidade dos meios curativos e do seu valor real. – Da tolerância orgânica para os medicamentos. – Vegetais. – Minerais. – Antitérmicos.

– Anestésicos. – Anti-sépticos. – O remédio varia na razão da idéia que se faz da vida e das causas de desorganização vital. – Método derivativo ou antagonista. – Método excitante.

– Analépticos. – Administração dos medicamentos. – Injeções hipodérmicas. – Paliativos. – Emissões sangüíneas.

– Operações cirúrgicas. – Necessidade de respeitar a integridade da epiderme. – Impotência da Ciência. – Erros de diagnóstico. – Da expectação.

– A moléstia nada tem de material; é de pura essência dinâmica. – Vantagens do magnetismo sobre os outros agentes terapêuticos. – Sua ação estimulante sobre as mutações nutritivas. – O organismo obedece a uma lei de Morfologia geral, sob cujo influxo se reconstitui a tonalidade viva. Se existe uma lei que rege soberanamente os fenômenos, se é da realização restrita dessa lei, no funcionamento orgânico, que dependem a vida e a saúde, é de toda a lógica admitir que só existe um modo de remediar a moléstia, que é chamar o organismo ao cumprimento integral da lei.

Eis o que cumpre entender por estas palavras: Só há um remédio. Eis o que Mésmer quis dizer quando avançou essa proposição; e nunca esteve no pensamento do mestre, nem mesmo em o nosso, apresentar o Magnetismo como panacéia universal ou remédio único que se pode opor à moléstia. Todo processo suscetível de chamar segura e prontamente o organismo ao cumprimento da lei, qualquer higiene capaz de preparar e favorecer a reação vital, eis, propriamente falando, o que se pode chamar o remédio. A ação magnética, pela influência dinâmica poderosa que exerce sobre o sistema nervoso e consecutivamente sobre a materialidade dos órgãos é, evidentemente, para quem quer que tenha procurado prova sob o ponto de vista experimental, o meio mais seguro de favorecer as reações vitais; e eis porque Mésmer procurou demonstrar as virtudes curativas do seu método, colocando-se, neste ponto, de completo acordo com o aforismo hipocrático que, com razão, se pode considerar o ponto fundamental da arte: É a Natureza que cura, com a condição de ser ajudada, sustentada e dirigida para os seus admiráveis fins.

Ser o ministro da Natureza, que é o nosso primeiro soberano; procurar conhecer as leis que regem o organismo e empregar os seus melhores esforços para colocar o organismo, o mais depressa possível, sob o império dessas leis; nunca substituir a ação do clínico à da Natureza: tal é o segredo da verdadeira ciência médica, da ciência que cura: fora disto só há empirismo tacanho, cego e nefasto.

Ora, apesar da afirmação bem explícita de Hipócrates, o pai da Medicina, que entretanto deveria servir de ponto de partida para Patologia, para a matéria médica e a Terapêutica, em vez de estudarem as leis dinâmicas que regem o organismo vivo e de procurarem as aplicações práticas que podem fazer dessas leis, muitos se entregaram às hipóteses mais fantasistas e contraditórias, e assim se têm flutuado, há vinte e três séculos, entre o prejuízo e o niilismo. Todos deploram esse estado de coisas; as próprias notabilidades médicas, compenetradas da insuficiência da Ciência, não desdenham e assinalar-lhes as lacunas, mas ninguém ousa romper francamente com os prejuízos rotineiros da escola; temem, assim nos parece, tocar com a mão na arca sacrossanta; entretanto, mais de uma voz autorizada aponta, desde muito tempo, o caminho a seguir: “A primeira coisa para o médico que deve experimentar, e cuja ciência completa é constituída pela experiência bem feita – diz o célebre professor Trousseau na introdução da sua Clínica médica – é saber qual a afeição natural da moléstia; porém a maioria dos médicos, influenciados pela educação teórica que receberam, impacientes em excesso, querem se adiantar à evolução da Natureza, ganhando a dianteira aos fenômenos naturais...

“É triste dizê-lo: por isso mesmo que ele não observa com o máximo cuidado os fenômenos naturais, por isso mesmo que em tempo oportuno não aprende a conhecer a marcha e a feição das moléstias, o médico torna-se incapaz de conhecer a ação dos medicamentos que receita, e todas as experiências que daí em diante realiza carecem de base; porque a primeira noção, a mais importante, é saber de que maneira ter-se-ia comportado a moléstia independentemente da ação do medicamento. “Presumimos muito de nós mesmos e desconfiamos demasiadamente daquilo que metaforicamente chamei – Natureza; não ignoramos, totalmente, que dado o empurrão (desculpai-me esta expressão trivial) as coisas recuperam a sua modalidade normal. E nada deve ser mais respeitado pelo médico do que o retorno à atividade das funções naturais, que, desde então, farão para a cura mais que todos os agentes da matéria médica.” (Clinique Medicale, Introdução).

Na mesma, introdução o sábio professor acrescenta: “Há muito tempo estou inclinado a crer na impotência da Medicina para o tratamento da pneumonia aguda; há muito tempo estou tentado a deixar à Natureza o cuidado de conduzir a bom termo esta moléstia, contra a qual estamos todos dispostos a agir com muito vigor; mas até hoje não ousei fazê-lo. Os antimoniais, os vomitivos, a digital, são as minhas armas prediletas; julgaria faltar a todos os meus deveres, se, convencido como estou (talvez sem razão) da extrema utilidade destes meios, ou pusesse à margem para ver de que modo a Natureza ultimaria a moléstia.” (Trousseau, pág. 22). O célebre professor assim se revela sem perífrase: “O médico, por preconceito, não julga dever abster-se, e ele próprio não ousa fazê-lo; em lugar de estudar a marcha natural da moléstia, institui um tratamento enérgico, que necessariamente perturba a evolução normal da moléstia; e, quando mesmo tenha o tratamento um êxito favorável, ignora-se absolutamente o que adviria se se tivesse abandonado a moléstia a si mesma.

É ainda mil vezes pior, quando o tratamento não dá resultado, porque a perplexidade do médico aumenta com a ignorância em que fica depois desse revés, sobre o alcance da ação medicamentosa.” Em qualquer eventualidade, fica o médico, pois, no vácuo e não pode pronunciar-se acerca da oportunidade dos meios curativos que emprega, nem sobre o seu valor real. Não há um só clínico honesto e consciencioso que não sofra com esta cruel perplexidade; e o honrado professor Trousseau, confessando suas ansiedades, procura atirar a culpa ao próprio doente: “É bem triste, mas cumpre se diga bem alto: os doentes querem ser enganados.

Encaram com maus olhos os médicos que os curam sem remédio. Impacientes por se restabelecerem, querem a nossa intervenção a todo o transe. Ao médico compete resistir, enganar essa legítima impaciência, receitando panacéias sem valor, que não venham agravar o estado patológico.” (Conferência da Associação Politécnica, pág. 41). Não está aí uma confissão manifesta do princípio Natura medicatrix, de que falávamos há pouco? Por que, pois, não estudar a feição natural das moléstias?

Por que não procurar os meios mais seguros e expeditos para produzir a reação vital? Não se nos vem dizer: que a Natureza dá o empurrão à cura e faz mais que todos os agentes da Matéria Médica? Que o médico, por um intervenção intempestiva, arrisca perturbar a cada momento a evolução normal? Por que passar além e não se abster? É que se não tem o corajoso desinteresse nem a franqueza de confessar a verdade ao doente, e que, pela rotina ou necessidade de ofício, prefere-se arriscar tudo para tudo ganhar como se arriscassem uma partida de dados.

Não se investiga a causa da desordem; e de que servirá isso? Ela é de essência dinâmica e os médicos sentem-se de antemão desarmados contra essas influências imponderáveis. O que antes de tudo os preocupa é a materialidade do mal; eis o que o impressiona, e então limitam-se a expulsar do corpo (ainda mesmo em detrimento do doente) o produto material do desacordo dinâmico. Equilíbrio vital, tensão nervosa, são fatores que se desprezam; o único objetivo é o órgão; só o animal interno é atacado, assim como o sangue e os tecidos; atua-se diretamente sobre ele por combinações químicas ou ações mecânicas, cujos efeitos só imperfeitamente são conhecidos e cujos resultados não poderiam ser previstos. Qual o cavalo de batalha da terapêutica atual?

São os medicamentos, esses produtos farmacêuticos variados, em doses mais ou menos consideráveis, que são postos em contacto direto com o sangue ou a fibra viva. Admitindo que o medicamento favoreça a reação vital, que só ele pode trazer o equilíbrio da nossa tonalidade doentia, como apreciar previamente, com alguma segurança, as ações químicas, mecânica sou físicas que podem resultar do peso, do volume, da forma, da natureza intrínseca e das afinidades de cada substância medicamentosa com os nossos tecidos, em face de uma reação dinâmica subseqüente? De que modo conhecer prontamente, entre as cinqüenta mil substâncias que a Farmacopéia comporta, a que melhor convém a cada um dos casos mórbidos, tão diversamente detalhados e catalogados em nossos quadros nosológicos artificiais? De que modo, fora dessas questões de pura convenção, ou pelo menos de matizes incompletamente estudados e fixados, julgar das relações de afinidades ou do grau exato de eletividade que essas substâncias múltiplas podem ter sobre as não menos múltiplas variedades de temperamentos? Como, finalmente, pronunciar-se sobre seu modo de dosagem?

A tolerância do organismo para o medicamento depende de uma série de condições muito difíceis de ser apreciadas; a idade, o sexo, o gênero de vida, a profissão, o clima, o temperamento, são outros tantos agentes modificadores, que devem ser levados em conta. Não vemos os organismos sofrerem a influência medicamentosa de maneira muito diversa? Por exemplo: o que mata um, não nutre outro, ou vice-versa? E a quantidade de noz-vômica que mata o homem não é suportada, sem inconveniente, pelo porco? Podemos administrar altas doses de arsênico ao cavalo, mas ele sucumbe a uma exígua dose de fósforo.

O coentro selvagem é nocivo às vacas e não causa dano aos burros; a semente de salva é, em geral, o veneno dos pássaros. O que se dá com o homem, dá-se com os animais; um em quem algumas folhas de agrião bastam para determinar uma erupção na pele (fato que tivemos muitas vezes ocasião de observar), pode impunemente absorver doses enormes de láudano de Sindenham (assim como o constata o Dr. Trousseau); tal dose inofensiva para este tornar-se-á tóxica para aquele; sob influências variáveis, os centros de eletividade mudam e se modificam; as substâncias ingeridas tornam-se perigosas por acumulação, ou se nulificam uma a outra por efeito contrário: cada corpo em a Natureza possui o seu pólo químico, ou por outra, o seu antídoto. Como julgar e prever, no meio de tal complexidade de resultados inesperados, aquilo que convém à natureza da moléstia, à sua marcha, ao seu grau, à sua sede, ao estado do órgão especialmente afetado, ao temperamento do indivíduo? Mas, objetar-se-á, é este precisamente o intuito da Ciência; é aí onde se manifesta, em todo o seu brilho, o talento do médico.

Bem desejaríamos acreditá-lo; entretanto, considerando-se seriamente, é muito de temer que essa ciência tão complicada não esteja muitíssimo acima das nossas fracas concepções humanas e, com Hufeland (que parece partilhar essa opinião), acreditamos que é mil vezes preferível passar sem medicamentos, em caso de moléstia, do que tomar um que não convenha e arrisque comprometer gravemente o organismo. Se se trabalhasse em pesquisar até que minimum de dosagem é preciso para obter a evolução benéfica que se quer produzir no organismo, ainda bem. Mas é justamente o contrário que se tem praticado e o Formulário Magistral limita-se a fazer conhecer o maximum de cada substância tóxica que o homem pode suportar sem perecer; brinca-se, a cada momento, como que por prazer, com as mais altas doses medicinais. Faz-se ainda pior: apesar de todas as dificuldades para opinar com alguma segurança acerca da eficácia de uma só substância, adicionam-se duas, três, quatro juntamente, em proporções diversas, sem se preocupar se suas virtudes opostas não se neutralizam.

Daí, essas receitas compostas e esses medicamentos específicos, que faziam dizer ao velho doutor Meckel de Halle: “Quando quero divertir-me, vou às farmácias, ler as prescrições; o que me alegra mais do que as comédias e os repertórios de anedotas.” Essa incerteza no emprego dos específicos, dando origem a um sentimento de indiferença, conduziu certos espíritos cépticos a resumirem a ciência médica em alguns frascos, um só às vezes, o remédio da moda (a antipirina ou o brometo de potássio, por exemplo) que os próprios farmacêuticos exibem ironicamente como o arsenal em que os médicos vão abastecer-se para curar todos os males.

Em que remédios, afinal, devemos confiar? Quais os mais aptos a produzirem essa evolução natural do organismo para a reconstituição do equilíbrio vital? Será nos minerais, nos vegetais, nos antitérmicos, nos tóxicos, nos anestésicos, nos anti-sépticos, nos analépticos ou reconstituintes, que se poderá encontrar essa fonte de vida? Não temos a pretensão de fazer aqui a análise documentada das propriedades medicinais de todas as substâncias; limitamo-nos a dar um rápido bosquejo dos efeitos desastrosos que, na opinião dos próprios médicos mais competentes, podem resultar dos tratamentos em uso. Vegetais – Tinha-se outrora uma grande confiança nas virtudes medicinais das plantas; eram estas empregadas no estado natural, em infusões, decocções ou cataplasmas.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.